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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Todos os domingos

Uma vez me disseram que os domingos eram dias sofríveis para as pessoas, pois elas cultivavam a angústia da segunda feira. Aquele último dia de descanso antes de começar tudo outra vez, seja lá o que significa esse tudo, em termos de peso e importância em nossas vidas.
Muitas coisas acontecem exatamente no domingo. Neste último foi dia das mães, foi dia de terminar relacionamento, de trazer sacolas de coisas para a casa, de achar que o dia era triste por si só, já que simbolizam tantas perdas de uma vez.

Acostuma-se com silêncio das ruas, poucas pessoas se atrevem a sair de casa. Moro em uma avenida muito movimentada, exceto pelo domingo, neste dia, ela é um deserto, ou quase isso. A janela é como a TV, onde é transmitido o silêncio da praça, a graça das árvores, as aves cultivando suas coisas, uma xícara de café no parapeito da janela, um vizinho na sacada da frente, tudo aqui é paz.
O amor à paz, ao silêncio e ao ficar em casa é o que tornam estes domingos mais acolhedores. E o trabalho, e o estudo, fazem dele apenas mais um dia. É mais um dia em que se arruma a casa, se faz café, se escreve, se escreve, e assim se passa, com a janela como TV.

sábado, 24 de junho de 2017

Não consigo ficar sozinha!

Apesar de adorar a solidão, eu não consigo estar sozinha. Será que sou anormal?

Adoro minha casa, adoro meu ser, minhas poesias, meu universo interior.  Mas até mesmo lá dentro há alguém, mesmo um fantasma...que não sou eu.

A companhia que se instalou aqui é quase um espírito amado, que tão entrelaçado em mim está, que já não sei o que sou eu, e o que são aquelas palavras antigas, as marcas impregnadas.

Mas essa minha mania de emendar uma história na outra, quando irá acabar? Quando me dedicarei a alguém, da mesma forma que dedico ao meu fantasma os meus poemas?

Não é culpa só minha, amar não é para qualquer um. E eu que sei bem como é o amor, não vou ficar aqui parada, no vazio dos dias... eu vou sim é viver, desse jeito torto, o que há pra fazer.
Ser doce e carinhosa é a melhor coisa que existe. Nunca me furtarei a isso.

Desde que me separei (antes também era assim) minha vida tem sido um relacionamento logo após outro, sem sequer um dia para respirar. Não consigo ficar só, alguns dias....eu emendo mesmo. Não consigo parar.

Ás vezes eu acho que isso é apenas um alimento para a vaidade. Ter o olhar de alguém em sua direção, alguém que pensa em você, mesmo que você nem esteja tão envolvida assim. Ter companhia para conversar todos os dias, um cara que te liga, num mundo em que ninguém se importa.

Isso eu poderia ter com amigos? Sim, mas não da mesma forma. Amigos eu tenho poucos e não gosto de incomodá-los com minhas carências. E eu adoro conquistar, ser conquistada.
A amizade é uma outra forma de conquista, tão bela, mas que para mim é muito mais sagrada.

Outras vezes eu penso que apenas amadureci e encarei esta verdade sobre mim: sou assim, sempre serei. Não acho interessante o que todos dizem "devemos ter um tempo para si mesmos e só depois nos relacionarmos outra vez". Por quê?

Me conheço o suficiente para não precisar me isolar de ninguém. Sei sobre mim o tanto que preciso, até este ponto, para não precisar me afastar de nada. As confusões sobre mim e sobre meus sentimentos, nada tem a ver com os outros, com a proximidade ou distância. Eu tenho dificuldades para amar sim, mas eu tento, tento muito.

Por que não posso aprender sobre quem eu sou através de outra pessoa? O aprendizado, afinal, é meu apenas. Não necessito tanto assim do outro, ou tanto assim da solidão. Juntos aprendemos muito mais a conviver, a ter paciência, a ser feliz mesmo com os pequenos defeitos de cada um. (E as diferenças!)

O outro pode ser um espelho para meu reflexo, mas também posso vê-lo, através dessa imagem.
Eu levei muito tempo para reconhecer na imagem que vejo no espelho, o amor de toda minha vida. Essa conquista é minha e de mais ninguém.

Já fiz a experiência, já fui muito solitária em determinado período, minha infância. E, por ser muito jovem, nada aprendi, nada acrescentou em mim não ter nada, viver em um deserto. Dali em diante, eu segui com aquilo que colhi, em todas as pessoas que nutri algum afeto. E tenho certeza de que nelas deixei, um pouco do amor que senti, tão fragmentado, mas completamente sincero.




sábado, 15 de abril de 2017

estar sozinha x ser sozinha

Nestes últimos meses, em que enfrentei pela primeira vez a solidão da minha própria casa, mergulhei em uma faculdade nova, na verdade sobre uma vocação que eu sempre tive, eu percebi que nada é fácil e eu estou sozinha.

Por minhas próprias escolhas e também pelas escolhas do momento em que vivemos (no país), estou sem dinheiro, e isso também torna mais difícil até a convivência com outras pessoas.
Sabe aquela coisa: você precisa se arrumar para ser atraente aos demais, ir a restaurantes, bares, etc... e no momento não é possível.

Antes de me separar, eu imaginava que ao tomar essa decisão, enfrentaria muito machismo, mas eu achava que estava preparada para isso. Porém não. Nunca estamos preparadas para as atitudes machistas das outras mulheres, nunca estamos preparadas para ver as amizades se distanciando, as fofocas, não há como se preparar para isso.

Achei que a solidão que eu sinto fosse culpa do meu relacionamento amoroso recente, achei também que fosse culpa dos meus amigos (sim, a maioria some nos momentos de dificuldade ou sequer estão presentes na minha vida). Eu tenho uma amiga para conversar todos os dias, acho que mais ela me ouve do que o contrário...

Achei também que tudo fosse culpa das redes sociais, afinal é por causa delas que rolam as brigas, os ciúmes e as inseguranças. Sabe o que é você buscar o nome de alguém, e ver que a pessoa ou te bloqueou, ou recusa teu convite de amizade? Isso pode ser algo idiota ou sentimental para quem tem amigos de verdade, de anos, que é só chamar e eles estão ali para qualquer parada, mas para mim dói.
Também cansei de ver gente falando apenas de si mesmas, de como se amam, de como sua vida é tranquila e feliz. Eu sei, deve ser verdade, pois já fiz exatamente a mesma coisa. E hoje, me sinto horrível pois não tenho nada para mostrar.

Eu não tenho um ativismo para mostrar, pois praticamente fui forçada a sair dele.
Família é uma palavra que quando escrevo ou pronuncio me dá vontade de chorar. Pois sinto falta dos meus pais, e o que restou me deixa tão triste a ponto de querer sair dessa vida, acabar com 'tudo'.
Eu não tenho muita coisa a dizer sobre minha vida pessoal, sem me expor de forma que não me sentiria bem nem faria outras pessoas felizes.

Eu poderia dizer algo sobre meu recomeço de vida acadêmica, minha segunda faculdade e esta sim me causa mais orgulho do que a primeira, sobre como tudo o que os professores falam me toca profundamente, pois dizem respeito ao meu sonho, à minha vocação. Quase todos os livros que eles citam eu já li, ou pelo menos conheço e pretendo ler. Apenas as aulas de Espanhol me surpreendem, pois realmente estou FALANDO o idioma que escolhi, que conheço, mas que a vergonha me impedia de proferir em voz alta.

Mas não sei se isso é algo a ser dito. Ando pensando muito antes de publicar coisas minhas.
Um dos motivos é que não sei se elas importam tanto assim. Outro dos motivos é que realmente me sinto sozinha. Mais do que antes, mais do que nunca.

Não acho triste chegar na minha casa e perceber que moro só. O estranho é saber que tão poucas pessoas a visitam, e que nas próximas semanas ou quem sabe meses, não virá ninguém aqui.

E, como cansa ir atrás, como cansa só você ligar, só você querer saber, eu faço isso muitas vezes não só pelo sentimento que nutri pela pessoa, mas para não ter a consciência pesada, quando de fato chegar o dia em que não terei mais contato com aquela pessoa, nunca mais. Penso que pelo menos a minha parte eu fiz. Disse o que precisava ser dito, falei que sentia saudade. Pois prometi a mim mesma sempre dizer ao outro o que sinto e fazer de tudo para manter esse sentimento.

Para quem não conhece esse dia, o Nunca Mais existe, e a partir desse instante, não há mais o que dizer, nem ninguém lá (ou aqui) para ouvir.

É estranha e um pouco triste, minha nova cama de casal, eu durmo sozinha nela e a pessoa que estava ao meu lado, no dia que as coisas chegaram, não está mais.

Sabe, sempre dormi em cama de solteiro e a única vez que dormi nesse tipo de cama foi quando casei. Então, mesmo que eu tenha escolhido morar sozinha e essa minha escolha é para sempre, ainda sinto que uma cama muito grande é grande demais para mim.

Então, sobre o que escreverei? Elegi este assunto, que é melancólico e ninguém quer falar. Esse tema que é o que vivo diariamente. Estou sozinha, me sinto assim, e sei que isso aconteceu por escolhas que fiz, não culpo mais nada ou ninguém, mas sinceramente, o passado não me interessa mais.

Não sinto a menor saudade, acho que é mesmo por isso que me sinto só, antes ao menos eu cultivava lembranças, agora sequer me animo a buscá-las. Estão tão longe de mim, tão equivocadas na névoa da memória, que nem mesmo considero-as verdadeiras.
Mais são contos, mais são a minha versão de tudo o que me aconteceu.

Então, o que ando fazendo é esperar o nascer da lua, todos os dias, lá pelas 19:30 ou 20:00, faço um chimarrão e fico na janela esperando aquele espetáculo nascer. Ela está amarelada e gigante, e nasce atrás das árvores do cemitério, foi por isso que escolhi esta casa. Foi o prazer gótico de morar perto dos mortos que influenciou minha decisão.

Depois pego alguns livros, mais tarde, deito na cama, que é alta e dali fico observando minha janela e a vista linda que há nela.
Existem árvores que estão perdendo todas as suas flores. E tenho acompanhado desde o comecinho, o perfume das flores e agora a secura dos ramos nus.
Tenho alguns vizinhos que ficam nas sacadas ou janelas dos prédios em frente.

E enquanto observo meus vizinhos, a natureza, ou a mim mesma, fico pensando que nunca em minha vida me senti assim: completamente sozinha. Nunca aconteceu, eu sempre tinha alguém. Primeiro meus pais, depois amigos de colégio, amigos de faculdade, alguns namorados, depois marido e amigos de marido que hoje nem falam comigo, depois colegas de apto e até mesmo meu celular, agora deligo-o às vezes, não tenho usado o facebook como antes e acontece que quando vc some, ninguém se importa mais.

Agora é apenas eu e minha casa.

O mais incrível é que eu sabia que isso ia acontecer. E, embora tem dias que fico completamente mal, como ontem, hoje talvez, algumas vezes penso que isso é necessário e que assim mesmo eu percebo como é o mundo para comigo, e como eu sou para o mundo. Percebo que o que acontece comigo não é regra, tampouco é exceção, simplesmente acontece com algumas pessoas.

Daqui a alguns dias espero escrever novamente, para dizer que tudo isso passou, que não era bem assim, que é apenas uma percepção da realidade que eu tenho.
Mas não quero me culpar por tudo, cansei disso também!



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A atenção é um artigo raro em tempos de Whatsapp e redes "sociais"

Se tivesse um botão no Messenger que seria acionado a cada vez que alguém puxasse assunto comigo, descontando Um Real da conta do sujeito, as pessoas pensariam duas vezes antes de entrar para dizer merdas como 'Oi Linda', 'quer casar comigo', 'qual seu Whats' ou mandar foto de pau copiada do Google...

Esse tipo de conversa é previsível, você sabe como começa e onde termina, e não tem conteúdo algum, não tem propósito e ainda por cima é desmotivante. Quem é que não se sente um lixo, ao saber que tanta gente entra em contato com vc, mas na realidade, quase nada QUER realmente travar amizade ou revelar coisas importantes, ser útil, agradável?
Por outro lado, a reclamação geral é de falta de atenção.
Você marca um café, e sua amiga pega o celular e não fala mais com você. Você está com o boy e daqui a pouco ele pega o telefone (sim vc não é o único contato dele pra sair) e começa a usar na sua frente, como se não existisse mais ninguém ali.
Você tem muitos amigos no Whats, mas é vácuo em toda parte. Respostas vazias, silêncios, nadas, enfim, não preciso explicar muito o que a maioria já passou.

Que grande merda é a vida das pessoas em geral, pois precisam tanto de um telefone, e não conseguem fazer nada de verdade por muito tempo.

Depois que comprei meu Smartphone minha vida piorou. Só anexei ou excluí números na minha agenda. Pessoas que entram e saem, como em um bar, que depois fica vazio e sujo com as marcas de quem passou.
Gente que tá muito preocupada consigo mesma para construir algo aos poucos, e no mais profundo e difícil, com vc.

Esse desinteresse cansa, sobretudo porque é sempre igual. Eu espero surpreender-me, mas espero sentada, escrevendo aqui no blog.
Joguinhos do tipo "vou me fazer de difícil", não colam mais, todo mundo já sabe que é um jogo tolo e repetido, e o pior, todo mundo joga, então cadê a originalidade? Ou seja, se alguém tá se fazendo ou te tratando como segunda opção, você parte pra outra e transforma esse cara em segunda opção também. E assim a vida segue, igual e sem graça pra todo mundo.

Ser você mesmo, falar o que sente, assusta e leva essas pessoas para suas cascas frágeis, para aquela ilusão cotidiana de proteção.

E isso não vale só para crush, ficante, e afins. Também vale para gente orgulhosa, egoísta, que acha que as pessoas estarão sempre à disposição, é só ir ali e pegar no Whats.

Está cada vez mais difícil se envolver, pois as pessoas simplesmente estão confusas quanto ao que querem, ninguém se propõe a nada, melhor é estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sendo um fantasma intelectualizado ou um boy magia, que não se dedica e não acrescenta nada a ninguém. É assim que eu vejo a maioria das pessoas que tentaram entrar em contato comigo.

Nas ruas as pessoa imploram por atenção. Nos trabalhos que faço nas ONGs que atuo, percebo o vazio, a falta de afeto e a desorientação das pessoas por toda a parte. Aí aparece o machismo, a carência, a negligência...

Todos, ou quase todos, querem um relacionamento, mas o que oferecem e o que existe são só migalhas, são só moedas.

Um amigo me disse: Se alguém fica/transa com todo mundo, é como se fossem várias moedas de um centavo que, juntas, não formam nem Um Real. Vários caras, não formam um homem inteiro.

Pois você não pode dizer a ele nem como se sente num dia de angústia.

Várias noites com meninas diferentes, e você é o mesmo merda que não conheceu ninguém pois ninguém se mostra em poucos momentos, na hora da cerveja, ou numa trepada sem a menor intimidade, pois não é fácil se apaixonar, tampouco se envolver com quem você viu umas vezes na hora da alegria, do cabelo arrumado, da make bem feita.


Fico pensando que um dia a ficha cai, ninguém é lindo, corpão sarado, rei da galera, ou líder, a vida inteira. Essa fase oba oba, essa ilusão de auto suficiência vai acabar geral e para todos um dia. Uma hora bate a solidão, aparecem os problemas, e você só tem  crush, ficante, amigos de bar, de trabalho ou de App, pois dedicou sua atenção apenas a essa vida estúpida que você leva e que vai te levar para a morte, como a todos nós.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Um anjo como os outros

Olho para minha casa, grande, compartilhada. Olho para meu quarto, pequeno, tão meticulosamente feito por mim. 
Eu bebo, coloco a culpa no Inverno. Eu não consigo ficar só, coloco a culpa no frio. 
Vou percebendo que estou tão bem, como nunca estive. Eu estou comigo, e posso estar com quem eu quiser.
A morte me consola, sua ideia, seu aspecto silencioso e profano. Estou com ela, até que a vida se mostre mais atrativa, é um desafio.
Observo as pessoas com uma certa distância, seus problemas, sua previsibilidade. Estou acima das nuvens, estou no avião.
Aquele momento em que a paixão é apenas um sonho, o anjo inacessível, o tema das poesias, que me faz acordar atordoada, para logo me ocupar com o que interessa: o chá, o café, e o que vou comer.

Hoje faltou luz, e havia estrelas. A luneta, eu uso para ver outros apartamentos, vidas frias, distantes de mim, a casa, a decoração, o aspecto da vida que não vivo, como brincadeira que não se faz, porque é preciso ser adulto, é preciso ser frio.
Sem luz, eu desliguei minha mente para os canais de todos os dias, Facebook, Whatsapp, liguei o rádio à pilha e fui para a sala. Havia uma vela azul, e amigos.
Melhor viver com essa paz, do que ter aquela ansiedade perene, vinda do ruído que tem sido a vida tantas vezes. 
Eu não desejo mais nada, por desejar o tudo, aquilo que está tão distante de mim e tão morto. Apenas vivo meus dias, esperando a chuva passar, o supermercado abrir, a luz voltar.
Eu observo as atitudes das pessoas, tento entender sua solidão, suas angústias, como as minhas, eu vou até o fundo, eu desço de elevador.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A Mãe

A Mãe, era assim que eu a chamava.
Seu nome, eu guardava.
Mãe era tão bom pronunciar.

Ela sentia um nó no peito, toda a vez que eu conhecia um cara.
Se sentisse uma coisa ruim, ela já disparava: Não vai dar certo. Eu ficava puta. Como assim mãe?

E era tão fatídico: o mais amado, ou o que mais me perseguia, sumia frente à intuição cristalina de um coração de mãe.
 E, se ela sentisse aquela pontada no coração, era questão de tempo. Não dava certo.
Mas, quando eu casei, perguntei a ela: Mãe, o que você sentiu dessa vez? E ela não havia sentido nada. Mãe, você não errou.

 Minha intuição não me diz mais nada, desde que não lhe dei ouvidos quando ela me chamava dia após dia e, nada fiz. Eu sou tão torpe, mal sei o que eu mesma sinto, meu coração é morto às vezes. Sofreu demais e hoje prefere o silêncio de nada saber.

Queria tanto ter essa intuição dolorida, essa dor no peito que dizia à minha mãe o que ia acontecer. Sempre fui fascinada pela morte. E mesmo sabendo que foi um alívio para ela, sair desse mundo de tristezas, que falta que minha mãe me faz!

Eu sonhei com ela essa noite. Acordei desolada, me sentindo tão órfão, perdida no mundo de um coração vazio. Sem dor, sem amor.

Queria que ela estivesse aqui. Não precisava falar nada, nem ser nada, pois exigia tanto dela quando era viva. Hoje só queria seu ser. Como era, com seus defeitos, qualidades, e sua presença. Nem mesmo no sonho a via direito.

Ela estava ausente. Essa ausência que senti a vida inteira. Me conforta saber que ela pode estar em silêncio. A mudez da morte, sem essa de "vida no além" pois o que mais queria era que ela ficasse em paz.

Fiquei com tão poucas coisas suas, as rosas, a solidão e o modo de amar, talvez. Ausente e profundo.
 Ellen Augusta

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A reunião das bruxas amigas e meu conceito de amizade

Hoje eu passei na frente de um restaurante e vi algumas mulheres vestidas de bruxas cortando um bolo.
Aquela cena me emocionou bastante. Pois eu não vivo algo parecido com essa confraternização há algum tempo.
Saudade de quem se importa. Eu sou amiga de verdade.
Mas como me decepcionei ao ver ao longo de minha vida, mulheres desaparecendo, lentamente, no sumidouro dos dias iguais, no casamento-instituição, que algumas ainda exibem como único troféu, nas definições parcas de amizade que se desmancham assim que o "motivo" termina: Se consegue namorado, se casa, o bebê nasce, aparecem outras amizades que preenchem mais o status social, etc.
Não importa o quanto na minha vida estive ocupada, sempre existe um espaço online ou presente, para falar com um amigo.
Mas a mulher é foda. Não é só comigo não. Não sou especial, pois já vi mulher verter lágrima pela amiga que desapareceu no pior momento de sua vida. Naquele dia me senti mal, pois vi que estava sozinha não apenas no meu próprio mundo, mas no mundo inteiro, pois esse era portanto, um padrão que se repetia novamente e novamente...
Mulheres são desunidas. Uma mágoa que carrego por ser mulher e, apesar de amar minha solidão, ser gregária e fiel.
A técnica que mais funciona para um sistema ser dominado é provocar nos submetidos a competição e a desunião.

Entre as mulheres não é preciso provocar mais nada.

Alguém que me conhece a muito tempo, disse que meu conceito de amizade é muito elevado. Considero a amizade o sentimento mais nobre de todos, talvez esteja aí o meu erro. Não, não estou errada. Eu li o que os filósofos escreveram sobre a amizade. Eu quero essa amizade. Não quero fragmentos.
Nada precisa ser perfeito, mas não quero merdas.
As mulheres passam a vida inteira buscando a paixão e o amor, não estão talvez, preocupadas em aperfeiçoar a amizade, em mantê-las, em se preocupar com o outro?















E quando as pessoas se isolam na sua vidinha de cidadão autosuficiente?  escrevi sobre isso aqui: http://desobedienciavegana.blogspot.com/2014/10/para-que-janelas-tao-grandes-se-estao.html
No show do Ratos de Porão, por exemplo, as duas pessoas que fiz amizade eram de cidades diferentes. Fizeram amizade do nada e eles próprios nem se conheciam.

Hoje fui fazer um exame chato. Ecografia mamária. É desagradável ver um homem passando um bagulho com gel nos seus seios. Sempre tenho a impressão que o cara tá ali se aproveitando de nossa condição de mulher. Só escolho médica mulher, mas não deu dessa vez. Na sala de espera, um monte de mulheres mudas. Até que a chave do armário estragou... todas ficaram amigas.
Não precisamos esperar uma merda acontecer para nos aproximar.

Na época da inquisição, as bruxas escondiam suas crenças e afazeres, justamente porque, se falassem, estavam expondo sua vida. Expor segredos, expor a vida era ameaçador! Ser mulher era um crime!
As próprias mulheres às vezes, foram as que traíram as bruxas, por isso as feiticeiras escondiam a sete chaves seus códigos.

Só que até hoje, ainda existe no ar essa aura de desconfiança.
Não podemos confiar nas mulheres?
Eu sempre confiei. Talvez um dia chegará o momento de parar. Alguém me disse que tenho que focar nas pessoas que me admiram e ignorar quem não merece. Talvez. Mas por que faço o contrário?

Hoje o fenômeno acontece também de outra forma. Poucos querem se envolver. A ameaça é que sua dor a contagie de alguma forma (como se amizade fosse só nos momentos tristes) ou que a sua vida lhe tire a sua alegria (os mesquinhos). Ser solidário está fora de moda.
Até mesmo as religiões propagam essa ideia, especialmente as de cunho esotérico espiritualista. Você nunca deve se envolver. Fique nesse seu casulo idiota, vendo tudo passar ao seu redor. Seja positivo, para você mesmo. Não importa se o mundo está ruindo ao seu redor. Não veem que isso é de um egocentrismo perceptível.

Só que, sentir a dor do outro é natural e, pasme, se você se contagiar, vai ser normal no outro dia. Vai ser mais forte. E não essa besta mortificada sorridente que não se envolve em nada.

Esses dias eu estava nos piores momentos, me sentindo estranha, horrível. Não tinha ninguém para conversar. Não temos ligações femininas, nossas mães e avós muitas vezes perderam esse contato, e, portanto, nós perdemos nossas ligações ancestrais, como eu li no livro "Mulheres que correm com os lobos".
Minha mãe já morreu. Família, não tenho, e mesmo que tivesse, melhor para minha saúde é estar longe. A melhor coisa que aconteceu foi uma amiga minha ter me ligado. E ela ainda me perguntou desapontada: Ah, eu te acordei???
Só que ela ainda não sabe (vou encontrar ela amanhã) que foi a melhor coisa ter me acordado. Eu estava a dias sem querer ver a luz do sol, sem vontade alguma. Para quê? Mas uma simples ligação foi suficiente. Às vezes a simples presença. Um interesse. Um simples estar ali já basta.
Não quero nada da amizade, apenas que ela exista.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A poesia familiar do peso obscuro

Leva a mala negra e pesada, ali dentro vai o morto.
Que se há de fazer?
Italo Zetti (1913-1978), Portrait of a woman, 1933
Irmandade perdida
Algo há que eu não tenha feito.
Nem o mundo nos escolheu.

A solidão nos deixará na porta, daquela casa esquecida.

Eu sangro de dor em algumas tardes tristes,

Pois não sei onde você deve estar.
Eu sei que não quero saber. E não vou.
A negação é sempre a forma de se cortar por dentro.
E o intento de morrer é a tentativa de punir
a vida.
Vida cretina que levou o que eu tive a conta-gotas.
E carrego comigo os fantasmas de uma família de sombras.
Anseio esquecer.
Não a tenho mais.

Ellen Augusta

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A casa assombrada, o gato preto e minha morte em qualquer rede

Quando nasci neste mundo, não imaginava que um dia talvez poderei me sentir traída por ele e por meu corpo. Ou, nos meus ataques de lucidez, ter simplesmente desejos imensos de abandonos de mim mesma.

A casa que vi, ao contrário, só me traz conforto. Sua solidão e o vazio que representa, é como um túmulo para a alma. Ali eu queria ficar por uns momentos. A poesia dos filmes de terror, mas sem o medo.
A sua solidão e o vazio, não ter mais a neurose humana, as limpezas, os ruídos, as regurgitações de um corpo vivo. Não, ela é um templo de pedra. Já é posta.
O gato negro. Curioso pelo contato humano. O símbolo da magia da força e da solitude. O poder que se sente quando se está íntegro consigo mesmo. Os gatos não precisam da massa, eles se bastam a si mesmos. Gostam de companhia, mas amam a noite e a solidão de suas almas agradáveis.

O gato estava lá, pois foi o lugar que encontrou para morar. E que lugar!
O espírito do assombro. A alma da casa.

A palabra assombro tem um significado lindo. Mas hoje em épocas de mentes estreitas, ninguém sabe a profundidade das palavras, nem querem procurar saber. Ficam no raso e já lhes basta. A misantropia, o cinismo, são palavras que tem mais de um significado e às vezes eu prefiro nem usar estas palavras nos seus sentidos belos ou outros, pois sei que a gentalha só entende os sentidos torpes e entende-os fora dos contextos dos textos. É preciso aprender a ler. Mas não.

As redes sociais entorpecem, minimizam o cérebro.

As redes onde escolho morrer:
Recebi no Facebook a opção de escolher uma pessoa querida para ficar no meu lugar quando eu morrer. Ela pode ficar postando coisas para mim. Adorei a ideia e já escolhi alguém.
Na hora, minutos depois da escolha, me deu um medo idiota, supersticioso, do tipo: "será que isso não é uma espécie de aviso de que eu vou morrer logo?"
Eu, que amo a morte e sua ideia, me encagaçando com uma bobagem idiota de rede social medíocre. Mas que levamos à sério a ponto de perder tempo. Acontece, que não é a morte que me assusta, óbvio. E sim, o antes. O porquê, o como.

Uma coisa é você apagar a luz e sair dessa espelunca, outra coisa é não saber como vai sair dessa idiotice que é viver.

A vontade de sumir é algo completamente natural. Das redes, dos olhos das pessoas. Da vida.
Estou cansada dessa vigilância, desse policiamento constante, essa coisa de que tudo é proibido, essa nova onda de caça às bruxas onde já se perdeu os parâmetros do ridículo e cada vírgula precisa ser contestada, discutida, apontada com um dedo sujo e nojento. Antigamente era moda falar do phalo. Tudo que era pontudo e tinha forma de falo era apontado como símbolo fálico. (Sim, ressucitaram Freud) Aí você não podia andar com um guarda chuva, que já era interpretado como que andando com um pau (pênis) na mão. Era moda. Mas não existia rede social.
Hoje, é moda falar de certas coisas. Tudo é sexismo, tudo é machismo. Tudo é um falar mal do veganismo. Então as pessoas rasas falam, pois ouvem os outros falar. Ou seja, são os mesmos otários de sempre, apenas seguem a corrente, seguem a moda.
Veem uma foto de uma mulher, só porque é mulher, já consideram sexismo. Puta merda, tem que ter muita vontade de torcer as coisas, muita vontade de exorcizar, para ver o mal em tudo. Curiosamente, onde tem sexismo, é cega que nem uma porta. Conheço pessoalmente esses tipinhos. São tão vítimas do machismo e do sexismo, mas no Facebook adoram vociferar.
Não vão lá, onde o sexismo impera, fazer um barraco pessoalmente. São covardes. Vão ali, onde não há sexismo, torcer os fatos, porque viram os outros fazerem isso. Absolutamente manipuláveis, até os ossos.
Outro tipo de pessoa detestável são as que pensam que você quer saber sobre sua religião, você posta uma fotografia que não tem absolutamente nada a ver com o assunto e a pessoa vem surtar com "argumentos" esotéricos e acham que todo mundo está interessado.
Não peço palavras de nenhum sistema de crença, pois isso só faz sentido dentro daquele sistema, fora dele, simplesmente não tem sentido, mas isso as pessoas não se dão conta. Elas acham que todas as outras pessoas pensam como ela. Não pensam, o vizinho do lado, tem outro sistema e pensa o contrário.
Aliás, é por causa da religião que tem havido muitos refugiados no mundo inteiro, mas quem dá um pio a respeito?
Existe sim, quem eu respeito por viver a religião de forma verdadeira, dedicando sua vida inteira ao que crê, diferente de tudo o que vejo nos indivíduos comuns. A religião, como me disse uma dessas pessoas, "é uma linguagem".
Sou atéia, e tenho pavor quando alguém vem impor, e de modo ofensivo, suas palavras de "energia do bem" e, curioso que é sempre em tom de briga e sempre é gente surtada. Por isso, desconfio sempre dos positivos, quanto mais impõe suas palavras de "energia" ou suposta "sabedoria" mais escondem um monstro dentro de si.
E, quem disse que o negativo é ruim? Quem disse que o negro, o obscuro, o preto, é ruim? Quem disse? Por que você aprendeu que no escuro é que estão as coisas negativas? Eu me sinto bem no escuro, adoro a noite. Aprendi desde sempre que o lusco fusco do amanhecer é mais bonito do que o dia, que o por do sol e o começo da noite é poesia.
Que o melhor escritor de todos os tempos (gosto meu) é Edgar Allan Poe, que fala quase totalmente de obscuridades, do soturno, das coisas escuras da vida e descreve os alcoólatras, os doentes e as pessoas solitárias como ninguém.
E, nem por isso deixo de ser criança, deixo de ser alegre, de ser a mulher sensual e bonita, bem como escolhi para mim mesma, de ter as boas energias (acredito sim que existe, mas não dessa forma idiota que essas pessoas amargas ficam jogando na tua cara.).

O negativo é como o filme de uma fotografia antiga. Ali está a alma das coisas. Nela está o esqueleto de tudo o que é vivo. Eu queria muito ver um fantasma nas janelas daquela casa. Não tenho medo.
Tenho repulsa é da vigilância dos vivos, que já estão mortos, de medo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Nós veganos temos que dar muita satisfação

A fragilidade de um ser ao auxiliar

Eu tive dificuldades de ver algumas coisas, mas nunca fui estúpida. Depois de vir morar nessa cidade, e, depois de entrar nas redes sociais, conheci pessoas maravilhosas e me aproximei delas. Mas conheci também muita gente indiferente - meus vizinhos. E muita gente estúpida - meus vizinhos virtuais.

Uma vez fui com uma vizinha lá na outra cidade onde nasci, num asilo para ajudar. Tive muita dificuldade pois sofri. Havia lá um carro de uma padaria, iam todo o domingo e levavam doces, salgadinhos, sucos. Eu já me questionava pois cada um dos idosos deixava a sua aposentadoria ali. Porém o lugar era precário. Onde estava o dinheiro? Eu tinha dificuldade de ver, mas nunca fui estúpida...

Nunca mais pude voltar ao lugar. Não conseguia. Para certas coisas não tenho coragem. Sou sim corajosa e tenho bondade porém respeito minhas limitações. Deixo para quem sim peita com bravura e vai lá. Mas tem que ir! Não ficar no sofá latindo sem parar. Eu nunca mais esqueci o que vi. E me fiz muitas perguntas, críticas, tanto para um lado, quanto para um outro.

Aqueles pais que fazem filho "para os cuidar na velhice" e todo mundo some, aqueles maus pais, que depois querem atenção, etc...tudo me passou pela cabeça mas tive compaixão.

Pois não sou ingênua. Posso ter dificuldades para ver algumas coisas, mas não sou cega. E eu sei, que vejo mais que a maior parte das pessoas.

Nós veganos temos que dar muita satisfação. Só que eu não dou. Pó Chorá.

Ninguém vai perguntar ao dono do frigorífico por que ele não está fazendo nada pelas pessoas. Ele apenas está matando. Ganhando dinheiro e vendendo carne. Não é só isso, ele está fazendo muito mais estrago. Mas ninguém pergunta nada para ele. Ao contrário, alguns até defendem.

Mas todo mundo vem tirar satisfação com os veganos. Somos culpados, somos responsáveis por tudo.
Nós não podemos errar nunca.

Eu poderia não fazer nada. Eu poderia também não escrever. Não.

Eu ajudo por revolta.
Porque odeio a vida.
Porque odeio este mundo.
Não suporto injustiça.

Por que quero dar a cada pessoa uma possibilidade de ter algo, com que curar suas feridas, assim como eu tenho todos os dias, um remédio para, senão curar, pelo menos amenizar as minhas.

Sou afortunada e feliz. Não sou como a maioria das pessoas que aparenta muita felicidade e esconde rancor e mágoa. Eu não perdoo.
E não vou morrer sem dizer o que penso na cara de todo mundo. Adoro ser espelho do que ninguém quer ver. Dessas pessoas que se arvoram libertárias, mas que no fundo são mais reacionárias do que os ditadores, seus argumentos se encostam.
Mas aqui na minha frente, ninguém vai bancar o que não é, porque eu vou escrever e desvelar.

É fazer comida e levar pra rua
Neste domingo nós fomos distribuir comida ali no centro. O lance é fazer comida vegana em casa, ir pra rua. E a ideia era ir ao encontro deles. Mas não precisou. Eles chegaram. Tinha gente de todo o tipo, cadeirante, pessoas sem calçado nos pés, gente com muita fome, outros que estavam com sede, menina, senhora, os vida loka, e alguns que vieram pegar roupas e já levavam uma quentinha para a casa. Nós fizemos comida na hora. Estava quente, saborosa. Nutritiva e vegana. Com todo o capricho, e mais do que tudo, demos atenção, pois sabemos que são pessoas solitárias.

E eu entendo bastante de solidão.

Os andantes que tinham animais de estimação foram orientados, os bichos receberam ração, também remédios. E a gente ficou um tempo ali servindo comida e conversando, até que a comida acabou.
É emocionante ver as pessoas comendo. É como quando eu vejo Chaves com sua fome sendo saciada. Chaves como símbolo de tantas crianças com fome. Chespirito, o autor do Chaves e sua turma, me definiu nos personagens pois ele criou a vizinhança pobre, como a minha família humilde.
Eu nunca passei fome, mas minha família, lá da parte de meus avós eram muito pobres e minha mãe sempre ajudava-os, vi a pobreza de perto. Não ter chuveiro elétrico, e nem luz, essas coisas. Não sofro com isso, nem romantizo, pois acho idiota romantizar qualquer coisa. As pessoas que hoje tenho contato, muitas não passaram por isso. Talvez não entendam o que é ser pobre, não ter quase nada. E choram quando perdem o celular.
Outros ficam nas redes sociais dando palpite, nos pedindo explicação e nos acusando de tudo, chamando os veganos de "elite" enquanto suas contas (e a sua universidade que só 1% da elite desse país tem acesso) é paga pelos pais ou pelo governo.
Amo Chaves pois ele torna universal e ensina a quem nunca viveu o que é ser pequeno e simples. Por isso me emocionei ao ver aquelas pessoas comendo.
Comer é um ato universal, todo ser vivo se alimenta.
Um senhor que comeu nossa comida, nos deu um passe de sua religião. Eu, mesmo descrente nas religiões e nos deuses, que nos traíram a muito tempo, fiquei muito emocionada perante a gratidão dele e em sua bênção, claro que aceitei! Pois a bondade é com certeza essa divindade que cultuamos dentro de nós.
Quando o segundo rapaz chegou, dei para ele a comida bem quentinha e um garfo, ele me pediu desculpas e perguntou se podia comer com a tampa, pois estava com muita fome.
Eu, por traz daqueles meus óculos "de policial" verti umas lágrimas.. Mas segui firme, pois era só o começo.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Os robozinhos do celular

O melhor de saborear o tempo, é quando começamos a perceber como a vida das outras pessoas é doente. A comunicação é zero. E elas acham que conversam bastante. Participam muito. Não calam a boca.
Sim, é verdade. Em qualquer rede social, todo mundo é muito boca e pouco ouvidos. Adoram falar à vontade, expressar muitas opiniões. Mas são raros os que deixam-se levar pelo silêncio de uma busca, uma leitura, uma entrega.


Esses dias, um caso de perfeito exemplo, fui esperar uma amiga, para tomar chá nos bancos da praça. Sim, nós somos mulheres jovens que tomamos chás!
Os bancos estavam todos ocupados com exceção de apenas um lugar. Pensei: ótimo, é ali que vou sentar.
A moça do meu lado esquerdo, estava contorcida, virada de costas para todos e encolhida, numa demonstração clara de que, ou não queria conversar, ou tinha medo daquela situação terrível (gente ao lado dela) ou que era melhor ficar com o dedo enfiado no diabo do seu celular último modelo.
Uma postura terrível, feia, que só demonstra o perfil das pessoas na atualidade, frívolo, indiferente, idiota.

No meu outro lado havia um senhor simpático, bonito. Eu disse Oi. Sentei ao seu lado e longos minutos se passaram em silêncio. Não tem problema. Sei lidar com silêncio, não sou neurótica. Depois de um tempo perguntei para ele: você está esperando alguém ou está apenas vendo o movimento daqui?
Aí, conversamos por muito tempo. Ele me contou que é aposentado, que adora ler literatura russa. E viu meu livro. Eu disse que é um escritor que adoro. Quem lê meu blog já sabe de quem estou falando! Estava com o livro para emprestar a uma amiga que quer conhecer o autor. Falamos muito de leituras, de tempo livre, de praças e seus encantos, da vida que acontece.

Depois que os lugares ficaram vagos, mesmo assim, ficamos ali conversando. Ele se foi. Minha amiga chegou. Se cruzaram no caminho, sem um saber do outro, e até mesmo se cumprimentaram pois um juntou algo que o outro deixou cair, isto chama-se gentileza - ou coincidência. Coisas de quem deixa o tempo passar-lhe por si, deixa-se ficar um pouco mais no presente.
Este senhor me falou sobre algumas coincidências de sua vida, a respeito de histórias de seus livros e seus dias naquela praça e na cidade.

Hoje, na sala de espera de um lugar qualquer, um monte de dondocas, todas frágeis, esperando. Puxam o celular, em coro, teclam sem parar. Faltou luz no prédio. Importa para essas pessoas?
O outro, distante, é mais especial. Eu sento, olho para o lado, e vejo todos com com a cabeça curvada mexendo no celular. Juro que me dá repulsão ver isso. Não por que estejam usando o aparelho em si. Mas pelo fato de que elas ignoram a pessoa ao lado, passam o tempo todo nesta posição de submissão a um aparelho, a uma vida falsa.

No banco, a mesma coisa. Estão cheio de papéis, pagando todas aquelas contas, aquele consumismo 'barato'.
E até na hora de falar com o atendente, o celular tem que estar na bancada, o olho grudado. Puxa, antes as pessoas disfarçavam o quanto consideravam insignificantes os outros, agora já não mais. Não olham simplesmente. Estão ali, como no caixa eletrônico. Ignoram que exista uma pessoa a lhe prestar um serviço. Olho para o lado, nas cadeiras de espera: todos, menos eu, de celular em punho. Puxa, grande invento este! Desmiolador de cérebros.

Namoram, trepam, tem amigos, compram, trabalham pelo celular. Estão sempre 'atentos' a um movimento desse negócio, nada é mais artificial e meio debilóide do que isso.

Conseguiram resumir em um aparelho, o que o sistema vem fazendo com todos a muitos anos, só que antes era mais escamoteado. Uso as coisas como ferramentas, não sou escrava de nada, não pertenço a nada e nada me pertence. Os objetos, quando pesam, só lhe trazem dor, prejuízo.
As pessoas brigam por coisas, choram por que o chip da Oi?! não chegou a tempo, enquanto há coisas graves acontecendo neste exato momento. Ou coisas lindas que os distraídos deixaram passar.
Isso é absolutamente fútil e chocante para mim. Hoje eu meço a amizade, pela capacidade de atenção que as pessoas podem dar, umas às outras.
Amanhã, depois, essa merda não valerá mais. O sujeito, palhaço do sistema, vai levantar a nuca dolorida de tanto teclar com o dedo, e verá que seus amigos virtuais sumiram. Que suas "ideias" não passavam de blefes, não eram sabedoria, aquela que fica com o tempo e é resultado de leituras, pensamento e conversa com os demais. É preciso ouvir os sábios, mas quem quer ouvir, quando é melhor ver (e ver mal e distorcido) e enfiar a cabeça no telefone?

Leia no link abaixo o que Ezio Flavio Bazzo publicou sobre o WhatsApp

Veja o que o WhatsApp faz com tua coluna...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Flowers for the dead brother

Trancam o louco no quarto.
E voltam-se para a minha lucidez.
 Há alguma coisa errada
com a bondade de Deus.
A inocência é cortada com vidro. Um ursinho, objetos guardados em uma caixa. Para nunca mais.
Trasntornando palavras, amortecendo a dor. O amor sepultado, a poesia floresce.
Eu levo flores, mas não há nem vasos para as receber.
Eu roubo os vasos de outras tumbas. Ele nunca teve nem um quarto para dormir!
Você não sabe o que é viver só, neste imenso hospital.
Só sei o que mora em mim, o silencioso sabor do fim.
Silêncio e nada. O depois, o poema feito, das dores reformuladas. Todas as melancolias transformadas em palavras lúgubres, a morte transparecida, entrelaçada, recortada com o sangue roxo.
Abro a caixa. Ali, só pequeninas coisas, carentes de sentido para o mundo, que o abandonou, no seu nascimento e até hoje, sempre, na solidão eterna da loucura.
Esta solidão que também carrego dentro de mim.
A solidão da lucidez, da desventura.
Ellen Augusta
 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Verbos infantis - palavras transitivas: escrevendo para a criança morta

Para Erico

Chover pelas árvores, correr pelas calçadas, folhas e rosas esquecidas no olhar.
O guarda-chuva caminha e a música - sempre a voz - fere ouvidos emocionados.
Vou encontrar o mago.
Contar segredos...malditos.
Na sala dos sonhos, não tem velas acesas, nem incenso, nem toda aquela ritualística dos tempos ingênuos.
O que há ali é um imenso espelho a se partir, a rudez de quebrar pedras, atravessar portais translúcidos, com um corpo de nudez, e alma dilacerada.
As lágrimas no vidro dos olhos, vergonhosas mãos escondem a dor, tudo em frente de deus.

No outro lado da rua a criança chora com sua boneca nova. A mãe está atrás da porta. Ela - um conto de lágrimas. Sabe que chorará até o último dia, deste evento que chamamos de: 'sua vida', mas que é nada mais do que - morte - a cada minuto que deixamos para trás.
O bebê que a criança carrega, é de brinquedo. A criança que o adulto adormece dentro de si - chora e sangra.
Caminha por cemitérios enfeitados de rosas, névoa branca entre lápides, ela está morta.
É a melancolia infinita, de tempos remotos, de dores esquecidas. De bonecas partidas. De afetos que nunca existiram. A solitude necessitava o vazio, e seu direito ao amor. A mente viajava para o distante, buscando o domínio de si mesma - a menina poeta. Eu já sabia.
O amigo trouxe pela primeira vez o abraço - irmão - amado, em troca daquele que não foi.
Olhos de água escura, cujo fundo se perdia em ternura.
Jardim cuidado por mãos tristes, por lágrimas sem remédios.
A criança está sozinha. E hoje eu a vi chorar, por uma boneca que ficou para trás.
Ellen Augusta

domingo, 14 de setembro de 2014

Sarau poético musical - letras solitárias, leitura em conjunto

A escrita quase sempre é um ato de solidão, escrevemos sozinhos, mesmo que dentro de nós exista o outro como objeto de nossa escrita, ou milhões de ideias que depois se traduzem em palavras.
As palavras no papel, se tornam públicas, pelo menos é o que quase todo escritor deseja. Ele quer expressar, e para tanto, há uma vontade de ser lido. Nem sempre, mas quase sempre.
Já escrevi para ninguém, já desejei a escrita como um ato sagrado, sem a necessidade dos olhos dos outros. Mas o mais emocionante é saber que você foi lido.
Participamos, eu, meu marido e meu sogro, do Sarau Poético Musical que acontece na Garagem dos Livros, mensalmente.
Ali descobri o aconchego de ser ouvida, de compartilhar, mas sobretudo ouvir.
Cada um tem ali um trabalho seu, uma leitura que o traduz, ou que simboliza seus gostos.
Dessa vez eu li uma poesia minha e A Minha Tragédia, poema de Florbela Espanca.
Florbela o escreveu de uma forma tão íntima, suas angústias ou seu encantamento poético, há tanto tempo passado, mas que me traduz, tão bem como aos seus secretos pensamentos.
Eu declamei o poema que eu fiz: O frio a faz respirar.
Leia e veja ele aqui: http://desobedienciavegana.blogspot.com.br/2014/06/o-frio-faz-respirar.html
A seguir postarei mais fotos e materiais - aguarde!

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Conversa com a leitora feminista

É comum pensar que não há solidão. Ao ver as pessoas em suas máscaras e disfarces, característica da espécie e quiçá de outras, é normal pensar que tudo é assim. Mas, escrevo sempre sobre solidão, para mostrar que sim, ela existe, e não é ruim.
Sempre há um pouco de solidão na alma de qualquer um.
Sempre carreguei comigo um quarto de solidão que mantive fechado, aberto, conforme a luz, ou a escuridão, nem sempre nessa ordem.
A mulher tem esse medo de estar só, pois entende que a solidão é não ter companhia. Mas a solidão é algo bom. Ou pode ser algo ruim, depende de você. Há motivos históricos para nosso medo de estar só, motivos econômicos, psíquicos, biológicos. Por isso não aprendemos, não fomos preparadas para lidarmos com o fato de que podemos estar sós. Não nos ensinamos umas às outras. As mulheres podem ser solteiras, podem morar sozinhas, podem casar sim. Ou não.
Essa conversa incomoda, sobretudo quando parte de alguém que já está acompanhada. (Pois que fácil falar não?) Mas quando solteira eu já pensava assim.
Um lugar em mim sempre esteve preparado para a solidão. Na sociedade, a mulher solteirona é encarada diferentemente do homem solteirão. E eu sempre me revoltei contra isso.
E resolvi ser uma mulher 'casadona' diferente do padrão 'mulher casada'.
Ou seja, não quero ser a mulher machista que teme as outras, que não aceita mais nada, que não cultiva sua solidão e não compartilha sua sabedoria. Todas temos algo a compartilhar, nem que seja uma xícara de chá.
Escrever sobre isso também é delicado, pois existem mil detalhes que escapam, tudo bem, não sou especialista, ao contrário, e longe de mim. Detesto especialidades. Cada um sabe o quanto dói estar só e o quanto é silenciosa a solidão. Eu já a experimentei, ruim, sobretudo no que se refere à amizade.
Mas que tal abraçar a solidão, eventual para alguns, eterna para tantos, natural de todo humano, e torná-la algo positivo?
Escrevi, em homenagem a uma conversa sobre esse assunto, com uma leitora do meu blog. Conversamos justamente sobre esse tema, que vive aparecendo aqui, em imagens e palavras. Pois gosto de escrever neste muro, ou vidraça, coisas delicadas, que podem quebrar.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Tarde demais

Esta é a foto da minha mãe com 18 anos feita pelo fotógrafo e poeta  Lino Estefano de Nes , que ganhou um prêmio com uma fotografia em que minha mãe segurava um filhote de pássaro na mão. Ele dedicava poemas à minha mãe. Ela guardava os livros e fotos dele com dedicatórias de amor.  Hoje é falecido. Não achei mais nada sobre sua obra e vida. Nada dessas coisas se preservaram, somente em minha lembrança. Descobri que existem peças dele no museu de Encantado RS.
Eu era uma criança no escuro
Você não teve culpa
Você não sabia
Nossa dor foi ter nascido
Eu te vi e sentia a mim mesma
O corpo tão frágil e sofrido
A dor da alma
Translúcida na falta do ar.

Como era inesperado!
Da morte feliz no mar profundo...
À uma cama de hospital
Com uma cruz na alma e a dor no corpo.

Eu não me perdoo
Ainda não
Eu quis morrer todos os dias
O oceano a me chamar
A luz de um farol a brilhar
Os pés na areia
Lágrimas de sal
À espera de um sonho
Que suplantasse todos os outros
Em que te vejo por dentro
Não. Fiquei aqui, só.
Quase, quase todos contra mim.
E a verdadeira versão dos fatos
Somente o que hoje é meu espelho
Soube!
Ellen Augusta


Meu mundo e nada mais - Guilherme Arantes

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

La loca del mar

Existem poemas que são a nossa vida e existem vidas que são verdadeiros poemas.
A história de La loca del muelle del San Blás foi o que inspirou o cantor da banda mexicana Maná a fazer a música 'En el muelle del San Blás', que é minha preferida da banda.
A história é de uma menina mexicana de 14 anos que perdeu seu noivo que iria de barco ao mar e nunca regressou.
O fato aconteceu em um Verão de 1971, em 13 de outubro, e os historiadores locais afirmam que ocorreu por causa da tormenta tropical Priscilla do Pacífico.
Quando Rebeca Méndez percebeu que seu amor Manuel não regressaria, foi à praia vestida de noiva e ficou dias e dias transtornada. Os habitantes locais, que também haviam perdido pessoas queridas, lhe levavam comida, por pena de sua tristeza. O cantor a conheceu quando a viu vendendo doces, vestida de noiva e, ela lhe contou sua história. Ela morreu em 16 de setembro de 2012, com 63 anos. Eu ouvi a música de madrugada a alguns dias atrás e, por coincidência, hoje, resolvi procurar a música e descobri sua história. Foi uma simples coincidência, daquelas que não existem, pois tudo tem alguma razão, quem saberá?
Por que neste mesmo dia há um ano atrás, 'la loca' havia morrido. No dia 28 de setembro daquele mesmo ano suas cinzas foram jogadas ao mar, era um pedido dela.
Há tantas 'locas del mar', tantas vidas ligadas ao oceano. Tantas histórias e poemas e muita tristeza sentida por quem habita as zonas litorâneas.

Aquela sensível música que me fez chorar tantas vezes, fala dela enraizada ao mar, que lindo! Eu sempre me senti assim, presa do oceano, sempre indo ao seu encontro quando aqui na terra nem tudo é bom.
O oceano é um gigantesco ecossistema, composto de outros tantos ecossistemas menores, mas ele também pode ser considerado um mundo a parte. Pois lá a vida é diferente, nós não conseguimos sobreviver em seu interior e mesmo assim o desejamos tanto, por ser dele que toda a vida na Terra nasceu.
A complexidade biológica e poética desses conjuntos de mares e profundezas nos encanta e nos remete à vida e à morte, pois todos sabemos que o mar sempre nos remete ao fim e ao nascer de tudo. Saudade imensa do mar. Tristeza e emoção ao conhecer a origem dessa linda música e saber que sempre tive dentro de mim um pouco da loca del muelle del San Blás.
Ellen Augusta

Rebeca Méndez

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sou um farol

A saudade aflora marcas
coisas guardadas em segredo
o esquecer, a dor de outrora
o sentimento que se transformou, por bem.
Quanta coisa perdida e nem quero encontrar.
Mas me encontram, acabam aparecendo em todo lugar.
Meus sonhos trazem as lembranças de solidão
Aquela solidão que fez o que sou.

Sou um farol solitário em meio ao oceano.
Sua luz ilumina os dias eternos e as noites silentes.
Há alguém morando no farol.
Mas o farol em si é uma pedra de luz!
Ilumina fracamente e se protege das tormentas e das tempestades.
O Sol forte me queima
A Lua me faz feliz.
A noite é paz, o amanhecer é o que espero.

O mundo inteiro pertence à luz
emitida no silêncio de um pensamento.
poema de Ellen Augusta
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