Ao ver um cachorro rasgando uma sacola de lixo para conseguir pegar um osso, como não sentir nojo, repulsa, asco,
do animal humano?
Essa foi a cena que desagradou meu dia, e que trouxe lá do fundo do meu ser, a velha desesperança.
A mesma que ora enterro, ora vem à tona, conforme o dia lá fora, ou a minha disposição interior.
Eles perderam o rumo - domesticados, escravizados - e vagam pelas ruas, a procura de comida, abrigo e carinho. Era de nossa responsabilidade, o afeto e proteção. Hoje, é preciso permitir a liberdade aos animais. Devolver, deixar-lhes a paz, e antes disso, como numa guerra, lhes dar o mínimo necessário, comida, remédios e amor. Mas o que se faz, é o pouco, que não conseguimos sequer fazer a nós mesmos ou o muito, a maldade reflexa.
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
Feliz Natal, pobre animal
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segunda-feira, 31 de agosto de 2015
Nós veganos temos que dar muita satisfação
A fragilidade de um ser ao auxiliar
Eu tive dificuldades de ver algumas coisas, mas nunca fui estúpida. Depois de vir morar nessa cidade, e, depois de entrar nas redes sociais, conheci pessoas maravilhosas e me aproximei delas. Mas conheci também muita gente indiferente - meus vizinhos. E muita gente estúpida - meus vizinhos virtuais.
Uma vez fui com uma vizinha lá na outra cidade onde nasci, num asilo para ajudar. Tive muita dificuldade pois sofri. Havia lá um carro de uma padaria, iam todo o domingo e levavam doces, salgadinhos, sucos. Eu já me questionava pois cada um dos idosos deixava a sua aposentadoria ali. Porém o lugar era precário. Onde estava o dinheiro? Eu tinha dificuldade de ver, mas nunca fui estúpida...
Nunca mais pude voltar ao lugar. Não conseguia. Para certas coisas não tenho coragem. Sou sim corajosa e tenho bondade porém respeito minhas limitações. Deixo para quem sim peita com bravura e vai lá. Mas tem que ir! Não ficar no sofá latindo sem parar. Eu nunca mais esqueci o que vi. E me fiz muitas perguntas, críticas, tanto para um lado, quanto para um outro.
Aqueles pais que fazem filho "para os cuidar na velhice" e todo mundo some, aqueles maus pais, que depois querem atenção, etc...tudo me passou pela cabeça mas tive compaixão.
Pois não sou ingênua. Posso ter dificuldades para ver algumas coisas, mas não sou cega. E eu sei, que vejo mais que a maior parte das pessoas.
Nós veganos temos que dar muita satisfação. Só que eu não dou. Pó Chorá.
Ninguém vai perguntar ao dono do frigorífico por que ele não está fazendo nada pelas pessoas. Ele apenas está matando. Ganhando dinheiro e vendendo carne. Não é só isso, ele está fazendo muito mais estrago. Mas ninguém pergunta nada para ele. Ao contrário, alguns até defendem.
Mas todo mundo vem tirar satisfação com os veganos. Somos culpados, somos responsáveis por tudo.
Nós não podemos errar nunca.
Eu poderia não fazer nada. Eu poderia também não escrever. Não.
Eu ajudo por revolta.
Porque odeio a vida.
Porque odeio este mundo.
Não suporto injustiça.
Por que quero dar a cada pessoa uma possibilidade de ter algo, com que curar suas feridas, assim como eu tenho todos os dias, um remédio para, senão curar, pelo menos amenizar as minhas.
Sou afortunada e feliz. Não sou como a maioria das pessoas que aparenta muita felicidade e esconde rancor e mágoa. Eu não perdoo.
E não vou morrer sem dizer o que penso na cara de todo mundo. Adoro ser espelho do que ninguém quer ver. Dessas pessoas que se arvoram libertárias, mas que no fundo são mais reacionárias do que os ditadores, seus argumentos se encostam.
Mas aqui na minha frente, ninguém vai bancar o que não é, porque eu vou escrever e desvelar.
É fazer comida e levar pra rua
Neste domingo nós fomos distribuir comida ali no centro. O lance é fazer comida vegana em casa, ir pra rua. E a ideia era ir ao encontro deles. Mas não precisou. Eles chegaram. Tinha gente de todo o tipo, cadeirante, pessoas sem calçado nos pés, gente com muita fome, outros que estavam com sede, menina, senhora, os vida loka, e alguns que vieram pegar roupas e já levavam uma quentinha para a casa. Nós fizemos comida na hora. Estava quente, saborosa. Nutritiva e vegana. Com todo o capricho, e mais do que tudo, demos atenção, pois sabemos que são pessoas solitárias.
E eu entendo bastante de solidão.
Os andantes que tinham animais de estimação foram orientados, os bichos receberam ração, também remédios. E a gente ficou um tempo ali servindo comida e conversando, até que a comida acabou.
É emocionante ver as pessoas comendo. É como quando eu vejo Chaves com sua fome sendo saciada. Chaves como símbolo de tantas crianças com fome. Chespirito, o autor do Chaves e sua turma, me definiu nos personagens pois ele criou a vizinhança pobre, como a minha família humilde.
Eu nunca passei fome, mas minha família, lá da parte de meus avós eram muito pobres e minha mãe sempre ajudava-os, vi a pobreza de perto. Não ter chuveiro elétrico, e nem luz, essas coisas. Não sofro com isso, nem romantizo, pois acho idiota romantizar qualquer coisa. As pessoas que hoje tenho contato, muitas não passaram por isso. Talvez não entendam o que é ser pobre, não ter quase nada. E choram quando perdem o celular.
Outros ficam nas redes sociais dando palpite, nos pedindo explicação e nos acusando de tudo, chamando os veganos de "elite" enquanto suas contas (e a sua universidade que só 1% da elite desse país tem acesso) é paga pelos pais ou pelo governo.
Amo Chaves pois ele torna universal e ensina a quem nunca viveu o que é ser pequeno e simples. Por isso me emocionei ao ver aquelas pessoas comendo.
Comer é um ato universal, todo ser vivo se alimenta.
Um senhor que comeu nossa comida, nos deu um passe de sua religião. Eu, mesmo descrente nas religiões e nos deuses, que nos traíram a muito tempo, fiquei muito emocionada perante a gratidão dele e em sua bênção, claro que aceitei! Pois a bondade é com certeza essa divindade que cultuamos dentro de nós.
Quando o segundo rapaz chegou, dei para ele a comida bem quentinha e um garfo, ele me pediu desculpas e perguntou se podia comer com a tampa, pois estava com muita fome.
Eu, por traz daqueles meus óculos "de policial" verti umas lágrimas.. Mas segui firme, pois era só o começo.
Eu tive dificuldades de ver algumas coisas, mas nunca fui estúpida. Depois de vir morar nessa cidade, e, depois de entrar nas redes sociais, conheci pessoas maravilhosas e me aproximei delas. Mas conheci também muita gente indiferente - meus vizinhos. E muita gente estúpida - meus vizinhos virtuais.
Uma vez fui com uma vizinha lá na outra cidade onde nasci, num asilo para ajudar. Tive muita dificuldade pois sofri. Havia lá um carro de uma padaria, iam todo o domingo e levavam doces, salgadinhos, sucos. Eu já me questionava pois cada um dos idosos deixava a sua aposentadoria ali. Porém o lugar era precário. Onde estava o dinheiro? Eu tinha dificuldade de ver, mas nunca fui estúpida...
Nunca mais pude voltar ao lugar. Não conseguia. Para certas coisas não tenho coragem. Sou sim corajosa e tenho bondade porém respeito minhas limitações. Deixo para quem sim peita com bravura e vai lá. Mas tem que ir! Não ficar no sofá latindo sem parar. Eu nunca mais esqueci o que vi. E me fiz muitas perguntas, críticas, tanto para um lado, quanto para um outro.
Aqueles pais que fazem filho "para os cuidar na velhice" e todo mundo some, aqueles maus pais, que depois querem atenção, etc...tudo me passou pela cabeça mas tive compaixão.
Pois não sou ingênua. Posso ter dificuldades para ver algumas coisas, mas não sou cega. E eu sei, que vejo mais que a maior parte das pessoas.
Nós veganos temos que dar muita satisfação. Só que eu não dou. Pó Chorá.
Ninguém vai perguntar ao dono do frigorífico por que ele não está fazendo nada pelas pessoas. Ele apenas está matando. Ganhando dinheiro e vendendo carne. Não é só isso, ele está fazendo muito mais estrago. Mas ninguém pergunta nada para ele. Ao contrário, alguns até defendem.
Mas todo mundo vem tirar satisfação com os veganos. Somos culpados, somos responsáveis por tudo.
Nós não podemos errar nunca.
Eu poderia não fazer nada. Eu poderia também não escrever. Não.
Eu ajudo por revolta.
Porque odeio a vida.
Porque odeio este mundo.
Não suporto injustiça.
Por que quero dar a cada pessoa uma possibilidade de ter algo, com que curar suas feridas, assim como eu tenho todos os dias, um remédio para, senão curar, pelo menos amenizar as minhas.
Sou afortunada e feliz. Não sou como a maioria das pessoas que aparenta muita felicidade e esconde rancor e mágoa. Eu não perdoo.
E não vou morrer sem dizer o que penso na cara de todo mundo. Adoro ser espelho do que ninguém quer ver. Dessas pessoas que se arvoram libertárias, mas que no fundo são mais reacionárias do que os ditadores, seus argumentos se encostam.
Mas aqui na minha frente, ninguém vai bancar o que não é, porque eu vou escrever e desvelar.
É fazer comida e levar pra rua
Neste domingo nós fomos distribuir comida ali no centro. O lance é fazer comida vegana em casa, ir pra rua. E a ideia era ir ao encontro deles. Mas não precisou. Eles chegaram. Tinha gente de todo o tipo, cadeirante, pessoas sem calçado nos pés, gente com muita fome, outros que estavam com sede, menina, senhora, os vida loka, e alguns que vieram pegar roupas e já levavam uma quentinha para a casa. Nós fizemos comida na hora. Estava quente, saborosa. Nutritiva e vegana. Com todo o capricho, e mais do que tudo, demos atenção, pois sabemos que são pessoas solitárias.
E eu entendo bastante de solidão.
Os andantes que tinham animais de estimação foram orientados, os bichos receberam ração, também remédios. E a gente ficou um tempo ali servindo comida e conversando, até que a comida acabou.
É emocionante ver as pessoas comendo. É como quando eu vejo Chaves com sua fome sendo saciada. Chaves como símbolo de tantas crianças com fome. Chespirito, o autor do Chaves e sua turma, me definiu nos personagens pois ele criou a vizinhança pobre, como a minha família humilde.
Eu nunca passei fome, mas minha família, lá da parte de meus avós eram muito pobres e minha mãe sempre ajudava-os, vi a pobreza de perto. Não ter chuveiro elétrico, e nem luz, essas coisas. Não sofro com isso, nem romantizo, pois acho idiota romantizar qualquer coisa. As pessoas que hoje tenho contato, muitas não passaram por isso. Talvez não entendam o que é ser pobre, não ter quase nada. E choram quando perdem o celular.
Outros ficam nas redes sociais dando palpite, nos pedindo explicação e nos acusando de tudo, chamando os veganos de "elite" enquanto suas contas (e a sua universidade que só 1% da elite desse país tem acesso) é paga pelos pais ou pelo governo.
Amo Chaves pois ele torna universal e ensina a quem nunca viveu o que é ser pequeno e simples. Por isso me emocionei ao ver aquelas pessoas comendo.
Comer é um ato universal, todo ser vivo se alimenta.
Um senhor que comeu nossa comida, nos deu um passe de sua religião. Eu, mesmo descrente nas religiões e nos deuses, que nos traíram a muito tempo, fiquei muito emocionada perante a gratidão dele e em sua bênção, claro que aceitei! Pois a bondade é com certeza essa divindade que cultuamos dentro de nós.
Quando o segundo rapaz chegou, dei para ele a comida bem quentinha e um garfo, ele me pediu desculpas e perguntou se podia comer com a tampa, pois estava com muita fome.
Eu, por traz daqueles meus óculos "de policial" verti umas lágrimas.. Mas segui firme, pois era só o começo.
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quinta-feira, 9 de julho de 2015
Uma voz sozinha, por jaulas vazias
Hoje eu falei para muitos biólogos. Mas eu estava só.
Embora como professora seja ótima para falar, sou tímida para falar em público. Mas o que eu tinha a dizer, só eu diria.
Embora como professora seja ótima para falar, sou tímida para falar em público. Mas o que eu tinha a dizer, só eu diria.
O tema do debate era o futuro do Zoológico da região metropolitana do Estado do Rio Grande do Sul.
O temor que gira entre o público e o privado ante o mistério do que será feito com os funcionários e trâmites gerais sobre o Zoológico, que pertence à Fundação Zoobotânica.
O que se disse no início da reunião é que ela se dava sob o ponto de vista dos animais, mas não foi o que percebi.
O que mais aconteceu eram elogios ao bom trabalho até então realizado pelos funcionários do Zoo.
As imagens passadas no telão me causavam tudo, revolta, asco, tristeza. Mas a intenção era mostrar o quão lindo são os animais e o trabalho educacional/resgate/conservação e manejo genético de espécies.
![]() |
| 22 imagens de animais enlouquecendo em zoos pelo mundo - sou contra todas as jaulas, inclusive para humanos. O comportamento de olhar para parede indica algo como perturbação, loucura. |
Essa mania de aprimorar genes, colecionar animais, troca troca de figurinhas (animais), emprestar, importar (como aconteceu com a girafa que tanto tivemos que lutar para impedir), garantir, aprisionar, colocá-los em uma jaula com piso de cimento e depois chamar tudo isso de tratamento adequado, é romanceado pelos meus colegas biólogos, presentes em massa neste evento.
Na platéia, onde eu estava, havia veterinários, biólogos, professores e defensores de animais. Atrás de mim, dois babacas falando de carne sem parar, como quem fala de partes do corpo de uma mulher, e elogiando grandes empresas de frigoríficos.
Ao meu lado um grande professor que tive, cuja frase levo até hoje em minha vida. Numa aula, disse que o biólogo deve estar no ambiente urbano, onde os problemas começam, e não lá longe, no meio do mato. Nunca mais esqueci disso.
Depois fui chamada à mesa para falar de algo "diferente": fechar essas jaulas e abrir santuários, tendência no Exterior. Aqui ainda se discute para quem se passa a chave da cadeia.
![]() |
| ISSO é tão ultrajante, que parece uma irônica instalação de arte, um absurdo, uma brincadeira de mau caratismo. |
Temos que aprender a não olhar para os animais como objetos.
A educação vegana respeita-os e os considera íntegros em seus próprios ambientes. Os animais resgatados precisam de santuários, longe da vista nociva do humano.
Os professores, e eu tenho mais de dez anos de prática didática sem essa bobagem, que se virem para encontrar formas mais interessantes e menos opressoras de educação.
Aprendam a respeitar, antes de olhar. E não é preciso ver o que não é daqui.
Nunca vi os seres vivos das Zonas Abissais do Pacífico, e minha erudição não ficou comprometida. Mas o mesmo não posso dizer de tantos outros que vivem fazendo churrascada e bebendo no parque zoológico como pretexto de ver os animais.
Em vez daquelas reuniões enfadonhas de professores, por que não refrescar a didática nesse sentido meus caros colegas?
Faltam propostas efetivas pois ainda se usam os mesmos métodos a séculos, ensinando as crianças a serem especistas e criando-se a cultura da jaula, da exploração, do uso dos animais como artefato, como diversão, e como se fosse obrigação deles estarem ali, como objeto de nosso estudo.
Não são. Eles não tem interesse em estar ali. Não querem nossa presença e não há nenhum benefício para os animais na visitação humana. Por isso é necessário a criação de santuários para a sua proteção e não para nosso deleite visual nem científico.
O fato de um determinado lugar que sim, permite a visitação de humanos, ser "modelo", não significa que ele seja ético. Os animais precisam ser deixados em paz. Chega da intervenção humana em demasia. Eles precisam dos cuidados básicos, do resgate, da reintegração, na medida do possível. Mas, dado isso, basta!
Basta dessa coisa de horda de pessoas enchendo o saco, visitas sem fim, sob pretextos mil. Uma vez na vida deixe-os em paz e em silêncio.
O curioso é constatar o romantismo dos meus colegas, pois é sempre a mesma conversa, ninguém sai do jargão. Todos estavam mais interessados é em seus empregos. Nunca há um outro questionamento. E eu me senti orgulhosa de mim, por estar aqui, e não lá, no meio deles.
Por ter falado contra a corrente a única coisa que importava, por ter dito o que ninguém provavelmente queria, ou esperava ouvir. E o que falei é algo baseado em bibliografia e em princípios filosóficos. Pois muitos pensam que, por usar jaleco, ser especialista em qualquer coisa ou ter doutorado, sabem mais. Nem sempre. Fiquei orgulhosa por saber intimamente, que, mesmo sendo voto vencido, eu estava ali para marcar presença e ser o que realmente sou: justa comigo e com os animais. Sou bióloga de verdade pois sigo meu juramento.
Ps.: No momento que você compactua com o troca troca de figurinhas entre os zoológicos, saiba que está compactuando com a perpetuação disso: Fotos chocantes do “Zoológico da Morte”, na Indonésia, evidenciam os horrores sofridos pelos animais
http://www.anda.jor.br/30/05/2014/fotos-chocantes-zoologico-morte-indonesia-evidenciam-horrores-sofridos-animais
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domingo, 17 de maio de 2015
Dos livros que terminei de ler - Para antes que a gente vire pó - de Ezio Flavio Bazzo
Presa numa espécie de prisão voluntária (trabalho), em que te dão a ilusão de honra e te pagam uma parcela mínima dos milhões que lucram nas tuas costas, foi assim, que eu li, na cara e coragem este livro. Pois foi com coragem mesmo. Pois ler estas palavras num ambiente de trabalho, é como ter uma arma carregada nas mãos, quando se está com vontade de morrer. Ou ter uma passagem comprada para uma praia maravilhosa, quando se está com os pés loucos para viajar.
Nos dois casos, você está tentado a fazer algo e precisa das armas. E ela está aí. Neste livro. É um diário de viagens. Mas não é um simples diário, não é um roteiro apenas, é uma explosão de ideias, uma arma para você sair de sua inércia, desse seu mundo idiota onde se meteu, e nunca mais ousou sair, nunca mais ousou mudar nada. O livro é simplesmente perfeito. E não digo isso, simplesmente porque admiro o autor, mas porque já li praticamente todos os seus livros, e este está como que uma poesia que corre seguidamente, fluidamente.
O livro foi especial para mim, pois sou de origem italiana, meus nonos vem do mesmo lugar de onde fala este autor. E também quase tudo no livro evocava parte de minhas memórias, lá da minha família. Caim e abel, essa historieta banal e simplória, é um arquétipo do odioso relacionamento familiar, onde os irmãos são colocados uns contra os outros, sempre por culpa dos pais. E uma prova de que deus não está nem aí, uma indicação da insanidade maternal e da ausência paterna, outras patologias e do instinto sanguinário de deus e das religiões, que sacrificam animais e pessoas, amam sangue a todo custo, etc, etc.
O autor foi genial, ao escolher um tema tão citado ao longo da história, mas falar dele muito á sua maneira, ou seja, de uma forma totalmente fora da norma, bem humorada, diferente, sem nenhuma pretensão, e com curiosidades e coisas absolutamente geniais, e junto a tudo isso, impressões de suas viagens, suas voltas pelo mundo e pela vida.
"Sempre acreditei que quem mata uma galinha com uma faca ou dando-lhe quatro nós no pescoço tem condições psíquicas e físicas para matar um bebê e mesmo toda a família, o bairro inteiro sem nenhum tipo de culpabilidade. Não é possível que a criminalidade dos homens contra os animais e ainda nas proporções que conhecemos continue sendo considerada como "normal". Mais "normal" e mais compreensível até é a chacina que protagonizamos entre nós mesmos, uns contra os outros, já que motivos não faltam, e que tudo indica que existimos, antes de qualquer outra coisa, para aporrinhar, encher o saco e para desgraçar a vida do outro. Não é mesmo?
Mas o animal não, ele não faz parte desse contexto de malignidades, está lá no seu habitat amoral e na sua solidão lutando como qualquer outro para dar conta de seus instintos, manter-se vivo e saciado. Sua existência, ao invés de estressar-nos, nos faz um grande bem, nos facilita a reconciliação e a reparação com uma parte nossa que, por mau caratismo e por uma vaidade vulgar enxotamos de nosso ser.
Ser espantalho!Tanto é que continuamos indo aos safaris e aos zoológicos, essas penitenciárias disfarçadas, só para deleitar-nos com sua coreografia, sua vida impregnada de aventuras diárias, seus dentes e gengivas impecáveis, seu sono, sua saúde e seu apetite voraz, sua capacidade de eleger um penhasco e uma árvore e passar toda sua existência lá, olhando as nuvens e o horizonte, abanando o rabo, açoitando os mosquitos com as orelhas, passeando de madrugada pelos abismos e pelas sombras desta amaldiçoada terra." Ezio Flavio Bazzo
(com este belo texto acima e com todo aquele livro, este escritor fez um pouco de justiça a Caim e talvez a seus descendentes, que queriam um basta a tanto sangue.)
Nos dois casos, você está tentado a fazer algo e precisa das armas. E ela está aí. Neste livro. É um diário de viagens. Mas não é um simples diário, não é um roteiro apenas, é uma explosão de ideias, uma arma para você sair de sua inércia, desse seu mundo idiota onde se meteu, e nunca mais ousou sair, nunca mais ousou mudar nada. O livro é simplesmente perfeito. E não digo isso, simplesmente porque admiro o autor, mas porque já li praticamente todos os seus livros, e este está como que uma poesia que corre seguidamente, fluidamente.
O livro foi especial para mim, pois sou de origem italiana, meus nonos vem do mesmo lugar de onde fala este autor. E também quase tudo no livro evocava parte de minhas memórias, lá da minha família. Caim e abel, essa historieta banal e simplória, é um arquétipo do odioso relacionamento familiar, onde os irmãos são colocados uns contra os outros, sempre por culpa dos pais. E uma prova de que deus não está nem aí, uma indicação da insanidade maternal e da ausência paterna, outras patologias e do instinto sanguinário de deus e das religiões, que sacrificam animais e pessoas, amam sangue a todo custo, etc, etc.
O autor foi genial, ao escolher um tema tão citado ao longo da história, mas falar dele muito á sua maneira, ou seja, de uma forma totalmente fora da norma, bem humorada, diferente, sem nenhuma pretensão, e com curiosidades e coisas absolutamente geniais, e junto a tudo isso, impressões de suas viagens, suas voltas pelo mundo e pela vida.
"Sempre acreditei que quem mata uma galinha com uma faca ou dando-lhe quatro nós no pescoço tem condições psíquicas e físicas para matar um bebê e mesmo toda a família, o bairro inteiro sem nenhum tipo de culpabilidade. Não é possível que a criminalidade dos homens contra os animais e ainda nas proporções que conhecemos continue sendo considerada como "normal". Mais "normal" e mais compreensível até é a chacina que protagonizamos entre nós mesmos, uns contra os outros, já que motivos não faltam, e que tudo indica que existimos, antes de qualquer outra coisa, para aporrinhar, encher o saco e para desgraçar a vida do outro. Não é mesmo?
Mas o animal não, ele não faz parte desse contexto de malignidades, está lá no seu habitat amoral e na sua solidão lutando como qualquer outro para dar conta de seus instintos, manter-se vivo e saciado. Sua existência, ao invés de estressar-nos, nos faz um grande bem, nos facilita a reconciliação e a reparação com uma parte nossa que, por mau caratismo e por uma vaidade vulgar enxotamos de nosso ser.
Ser espantalho!Tanto é que continuamos indo aos safaris e aos zoológicos, essas penitenciárias disfarçadas, só para deleitar-nos com sua coreografia, sua vida impregnada de aventuras diárias, seus dentes e gengivas impecáveis, seu sono, sua saúde e seu apetite voraz, sua capacidade de eleger um penhasco e uma árvore e passar toda sua existência lá, olhando as nuvens e o horizonte, abanando o rabo, açoitando os mosquitos com as orelhas, passeando de madrugada pelos abismos e pelas sombras desta amaldiçoada terra." Ezio Flavio Bazzo
(com este belo texto acima e com todo aquele livro, este escritor fez um pouco de justiça a Caim e talvez a seus descendentes, que queriam um basta a tanto sangue.)
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sábado, 2 de maio de 2015
Quando a terra me chama e não é para morrer - As três fases de uma mulher
Há aquele momento da tarde de um dia livre, ausente daquela sensação de prisão que eu tive até então, dos dias de intenso trabalho, que as ruas da cidade me chamam para a caminhada tão desejada. Mas não é só isso. A terra me chama, mas não é só ela. Sinto que algo tão profundo vem de longe até o presente, lá do fundo de minha memória.
O cheiro da rua, da grama, desta terra que nunca mais eu vi. De um pátio de minha casa esquecida. De quando eu vivia mesmo, era outra época, havia pátio, pedras no chão, terra e grama por todos os lados. Havia mãe e pai. Eu senti saudades de ter terra debaixo de meus pés.
Senti falta de ter um jardim. Senti um ambiente, pois já não há mais pessoas, não há mais quase nada humano. Sempre ficam os lugares, as pessoas, essas já morreram. A terra as leva para longe.
Essa mesma terra que eu hoje sinto me chamar, para uma vida que eu tive e, se não era tão feliz, que digamos, pelo menos me fazia respirar!
Andar pelas ruas e encontrar casas antigas, pátios e jardins, cruzar por pessoas que até te cumprimentam, quando se vive em apartamentos convivendo com vizinhos 'bem sucedidos' que jamais podem descer do salto e baixar a guarda é um contraste louco. Pensar que na mesma cidade há gatos e antiguidades, flores e árvores tudo isso ao nosso redor e aqui mesmo ao lado de minha casa, mas não vejo, ou vejo tão pouco, é triste e feliz ao mesmo tempo.
O chão é tão limpo que é preciso sentar nele e ali ficar mais um pouco.
A imagem abaixo não foi montada para a foto, foi o desejo sincero de sumir. Não de sugar a natureza como fazem os ambientalistas, naturebas, os esotéricos e toda a corja que usa a Natureza como tema eterno de seus falatórios. Tão logo a sua ansiedade acaba, já estão surfando em seu egoísmo e ganância, explorando a natureza, as pessoas, e sobretudo os animais.
Abracei a árvore que considero a mais linda de todas.
Caesalpinia ferrea, conhecida como pau ferro
Não sei o que o pintor queria dizer com a cena abaixo, mas eu interpretei como sendo a Deusa Tríplice, ou as três fases da mulher, também conhecida como as fases da lua, etc.
As três fases de uma mulher: A jovem, a mulher na sua fase plena - se ela QUISER poderá ser mãe, e a mulher anciã.
Eu sempre estive entre a mulher jovem e velha. Sempre fui plena. E sempre fui todas. Tenho o instinto materno mais forte que já pude conhecer. E decidi nunca ter filhos. Tomei essa feliz decisão na minha adolescência.
E sempre fui afortunada, por um lado. Por outro, eternamente buscando minha mãe, mesmo tendo a minha, mesmo quando a tive, a buscava. E quando a perdi, a perdi duas vezes.
E só há um remédio para acalentar um coração que busca: caminhar e escrever. As palavras saem e caminham com as mãos e os pés.
Estou escrevendo, em paralelo com este blog, um outro texto, sobre um tesouro que encontrei, que vai entrelaçar histórias. Talvez ali a melancolia se transforme cada vez mais em poesia.
Lá as três deusas são anciãs, incluindo eu.
O cheiro da rua, da grama, desta terra que nunca mais eu vi. De um pátio de minha casa esquecida. De quando eu vivia mesmo, era outra época, havia pátio, pedras no chão, terra e grama por todos os lados. Havia mãe e pai. Eu senti saudades de ter terra debaixo de meus pés.
Senti falta de ter um jardim. Senti um ambiente, pois já não há mais pessoas, não há mais quase nada humano. Sempre ficam os lugares, as pessoas, essas já morreram. A terra as leva para longe.
Essa mesma terra que eu hoje sinto me chamar, para uma vida que eu tive e, se não era tão feliz, que digamos, pelo menos me fazia respirar!
Andar pelas ruas e encontrar casas antigas, pátios e jardins, cruzar por pessoas que até te cumprimentam, quando se vive em apartamentos convivendo com vizinhos 'bem sucedidos' que jamais podem descer do salto e baixar a guarda é um contraste louco. Pensar que na mesma cidade há gatos e antiguidades, flores e árvores tudo isso ao nosso redor e aqui mesmo ao lado de minha casa, mas não vejo, ou vejo tão pouco, é triste e feliz ao mesmo tempo.
O chão é tão limpo que é preciso sentar nele e ali ficar mais um pouco.
A imagem abaixo não foi montada para a foto, foi o desejo sincero de sumir. Não de sugar a natureza como fazem os ambientalistas, naturebas, os esotéricos e toda a corja que usa a Natureza como tema eterno de seus falatórios. Tão logo a sua ansiedade acaba, já estão surfando em seu egoísmo e ganância, explorando a natureza, as pessoas, e sobretudo os animais.
Caesalpinia ferrea, conhecida como pau ferro
Não sei o que o pintor queria dizer com a cena abaixo, mas eu interpretei como sendo a Deusa Tríplice, ou as três fases da mulher, também conhecida como as fases da lua, etc.
As três fases de uma mulher: A jovem, a mulher na sua fase plena - se ela QUISER poderá ser mãe, e a mulher anciã.
E sempre fui afortunada, por um lado. Por outro, eternamente buscando minha mãe, mesmo tendo a minha, mesmo quando a tive, a buscava. E quando a perdi, a perdi duas vezes.
| Todas as fotos: Marcio de Almeida Bueno/http://diretodeportoalegre.blogspot.com.br/ |
E só há um remédio para acalentar um coração que busca: caminhar e escrever. As palavras saem e caminham com as mãos e os pés.
Estou escrevendo, em paralelo com este blog, um outro texto, sobre um tesouro que encontrei, que vai entrelaçar histórias. Talvez ali a melancolia se transforme cada vez mais em poesia.
Lá as três deusas são anciãs, incluindo eu.
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sábado, 18 de abril de 2015
Uma frase sobre os sacrifícios com animais
Do livro simplesmente brilhante que acabei de ler:
"Perguntem pois ao asno ou ao carneiro de Abraão ou aos viventes que Abel soube oferecer a Deus: eles sabem o que lhes ocorre quando os homens dizem 'eis-me aqui' a Deus, e depois aceitam sacrificar-se, sacrificar seu sacrifício ou perdoar-se"
Jacques Derrida (Em O animal que logo sou)
O livro, que logo - assim que o tempo não me matar e me permitir - mostrarei aqui no blog com toda atenção que merece, chama-se
Para antes que a gente vire pó (breviário de errância) e é do autor Ezio Flavio Bazzo.
***
Se antes eu não tinha a menor dúvida de que ele era o melhor escritor do país, agora então, tenho toda a confiança em afirmar! Este livro é maravilhoso.
O uso e exploração de animais é uma canalhice que acontece em diversas culturas, povos, em toda a parte da Terra. É uma vergonha uma pessoa usar um outro ser para expurgar seus pecados, sua infâmia, sua fome.
Considerando que os céus nunca nos ouvem - basta olhar para o lado - milhões de seres morrem em vão, em meio ao mais perverso silêncio de quem poderia fazer algo a respeito e nada faz.
E o pior de tudo são aqueles de quem se esperaria alguma resposta, algum auxílio, e estes, por medo de uma mão invisível - que inexiste - se borram nas calças, e nada fazem, negam, por medo de um castigo, de uma praga. Seu castigo é viver na mediocridade, é negar ajuda, é ser conivente com o mal. Seu destino é estar sempre ao lado da vilania, é compactuar com o sangue e com a dor do outro.
| trecho do livro: Para antes que a gente vire pó (breviário de errância) e é do autor Ezio Flavio Bazzo. |
Jacques Derrida (Em O animal que logo sou)
O livro, que logo - assim que o tempo não me matar e me permitir - mostrarei aqui no blog com toda atenção que merece, chama-se
Para antes que a gente vire pó (breviário de errância) e é do autor Ezio Flavio Bazzo.
***
Se antes eu não tinha a menor dúvida de que ele era o melhor escritor do país, agora então, tenho toda a confiança em afirmar! Este livro é maravilhoso.
O uso e exploração de animais é uma canalhice que acontece em diversas culturas, povos, em toda a parte da Terra. É uma vergonha uma pessoa usar um outro ser para expurgar seus pecados, sua infâmia, sua fome.
Considerando que os céus nunca nos ouvem - basta olhar para o lado - milhões de seres morrem em vão, em meio ao mais perverso silêncio de quem poderia fazer algo a respeito e nada faz.
E o pior de tudo são aqueles de quem se esperaria alguma resposta, algum auxílio, e estes, por medo de uma mão invisível - que inexiste - se borram nas calças, e nada fazem, negam, por medo de um castigo, de uma praga. Seu castigo é viver na mediocridade, é negar ajuda, é ser conivente com o mal. Seu destino é estar sempre ao lado da vilania, é compactuar com o sangue e com a dor do outro.
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domingo, 8 de fevereiro de 2015
As sogras e os animais
As mulheres lidam à séculos com o preconceito à sua volta. São chamadas de bruxas, loucas, santas, putas, e são consideradas tudo isso ao mesmo tempo. Elas mesmas se apontam como tal, se menosprezam quando podem e muitas o fazem por merecer. Mas, como é bom poder levantar a cabeça, seguir adiante, passando por cima do macharedo e das lambedoras de botas e dos paga paus. Como é bom poder encontrar lutadoras, poder abraçar pelo caminho, mulheres que lutam, de olhos fechados para o falatório maldoso, para a fofoca, apenas fazem. Apenas vão lá e mãos à obra. Pois atitude é algo notório, digno e altivo.
Eis abaixo um comentário que reproduzo, de uma leitora de meu artigo, que escrevi sobre minha sogra. Pretendi desmistificar o preconceito que existe contra as mães dos homens que escolhemos.
A minha, a sogra, é uma grande protetora de uma cidade. Só existe ela lá, indo atrás daquilo que as pessoas deixaram para trás - animais.
Obrigada leitora por compartilhar sua angústia e revolta, pode crer, que de revolta, nós mulheres, pelo menos algumas, estamos bem, e, quer saber?
É bem bom se revoltar de vez em quando!
(E nascer com a revolta no couro, como no meu caso) ;)
Leia o Comentário de Maria de Lourdes do grupo Amigos de Pêlo
"PARABÉNS, parabéns pelo texto e pela homenagem feita à sua sogra, é um texto muito fiel, ao dia-a-dia de uma protetora. Eu cuido de + de 120 animais entre cães. gatos. papagaio, tartarugas e carpas, todos vindos de abandono pelas pessoas que no impulso buscam um pet para brincar e se distrair - mas descobrem que eles não são brinquedos e aí cai a ficha e o mais fácil é abandonar. Lógico que acabam vindo parar em nossas mãos e não damos as costas e por isso somos chamados de *acumuladores de animais*, muitas vezes, pelos mesmos que os abandonaram.
Textos como esse, deveriam ser mais divulgados para que os sem noção possam acordar para uma realidade que eles fazem questão de fazer vistas grossas, para não tomar conhecimento desse mundo paralelo.
Paralelo, porque o mundo gira em torno das baladas, das viagens, das festas, do consumismo, e aí deparo com pessoas que para se projetar dizem **Eu ajudo, ou eu quero ajudar** e quando você pergunta, quantas vezes você ajudou, ou qual abrigo você ajuda, a resposta é desanimadora, porque quando tem coragem de admitir - ajudaram 1 ou 2 vezes no máximo.
Por isso, pelo reconhecimento e pelo trabalho que sua sogra ou todos nós fazemos em pról de salvar vidas, eu digo Parabéns pela sua sensibilidade e pelo seu bom carater, e que isso seja repassado para seus decendentes e que muita Luz brilhe em seu caminho"
Conheça seu trabalho e o grupo aqui no seu blog: http://www.amigosdepelo.blogspot.com.br/
O artigo sobre minha sogra está aqui: http://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/ellen-augusta/4038-a-sua-sogra-e-um-inferno-a-minha-salva-animais
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sábado, 24 de janeiro de 2015
A fantasia masculina da caça
A fantasia masculina da caça
Publicado no site Olhar Animal na Pensata Animal http://olharanimal.org/pensata-animal/autores/ellen-augusta
Por Ellen Augusta Valer de Freitas
O conto de que o homem era grande caçador na pré história é um fetiche machista fantasioso. Serve de justificativa para atitudes ultrapassadas ligadas ao abuso de animais, endossa a violência, pois a caça - e a pesca - nada mais é do que um ato covarde e bárbaro.
Jared Diamond percebe que algo está exagerado nesse tema, contado por homens.
No seu livro 'O terceiro chimpanzé - A evolução e o futuro do ser humano' há um trecho em que cita sítios arqueológicos onde foram encontrados, junto a ossos de animais diversos, ossos e restos fecais de hienas, que podem ter sido as verdadeiras caçadoras. Em muitos momentos, a humanidade foi simplesmente comedora de restos de animais. Deve-se considerar, além disso, que a maioria dos restos vegetais não se preservam ao longo do tempo.
Só aproximadamente 100.000 anos depois do primeiro humano aparecer é que se obteve alguns indícios de caça, bem ineficientes, aliás. A base da alimentação humana é vegetal, mas isso nunca é lembrado.
"Hoje, atirar num grande animal é visto como a expressão máxima da masculinidade machista. Enredados nessa mística, os antropólogos do sexo masculino gostam de enfatizar o papel crucial da caça de grandes animais na evolução humana.
Supostamente, a caça de grandes presas teria induzido os machos proto-humanos a cooperar entre si, desenvolver a linguagem e o cérebro grande, unir-se em bando e compartilhar alimentos. Até as mulheres foram supostamente moldadas pelas grandes presas", narra o biólogo.
O autor exclama - "quanta fantasia!". E com toda a razão. As mulheres são preteridas na história da evolução. É negligenciada a seleção sexual, hipótese interessante pois pressupõe interação entre os indivíduos, o que desenvolve a inteligência e diversas outras capacidades.
As pessoas passam adiante, sem conhecimento ou fonte, dúvidas sobre a evolução, como se fossem certezas. O andar ereto, o manuseio, o cuidado com as plantas, tudo pode ter contribuido ao mesmo tempo, e em tempos diferentes para a evolução de capacidades.
'O homem caça e a mulher coleta' - essa temática é a vigente e pouco foi questionada pelos arqueólogos convencionais. E ainda tem quem use essa falácia como argumento na hora de defender a caça e consumo de carne. Porque o homem a praticou, e muito mal, há 100.000 anos, devemos continuar? Se essa brutalidade deve ser praticada, podemos também retroceder em outras questões?
O humano é um ser que adora explorar a qualquer custo. A maior prova disso é que, mesmo hoje, com a popularização das discussões sobre ética, qualquer descoberta no sentido de que um ser não sinta 'dor' já é motivo para plena apologia ao seu uso, não importando sua dignidade, que é o que mais deveria importar, a despeito de qualquer sensação. O que interessa é que sirva como alimento, roupa, lucro! Até mesmo as recentes possíveis descobertas sobre condições para a vida fora do ambiente terrestre têm, nas mentes mesquinhas dos terráqueos humanos, o brilho de um único fim, o acampamento, a conquista, a exploração a qualquer preço. Quer-se fazer de um lugar imaginário, e talvez inacessível, o mesmo inferno que se está a fazer neste planeta.
Mas talvez a arrogância humana tenha algum dia um fim. Talvez existam outros seres mais poderosos, mais arrogantes ou talvez mais generosos ou simplesmente singelos, por fim, que suplantem nossa deselegante ignorância estelar, de nos considerarmos os únicos.
Publicado no site Olhar Animal na Pensata Animal http://olharanimal.org/pensata-animal/autores/ellen-augusta
Por Ellen Augusta Valer de Freitas
O conto de que o homem era grande caçador na pré história é um fetiche machista fantasioso. Serve de justificativa para atitudes ultrapassadas ligadas ao abuso de animais, endossa a violência, pois a caça - e a pesca - nada mais é do que um ato covarde e bárbaro.
Jared Diamond percebe que algo está exagerado nesse tema, contado por homens.
No seu livro 'O terceiro chimpanzé - A evolução e o futuro do ser humano' há um trecho em que cita sítios arqueológicos onde foram encontrados, junto a ossos de animais diversos, ossos e restos fecais de hienas, que podem ter sido as verdadeiras caçadoras. Em muitos momentos, a humanidade foi simplesmente comedora de restos de animais. Deve-se considerar, além disso, que a maioria dos restos vegetais não se preservam ao longo do tempo.
Só aproximadamente 100.000 anos depois do primeiro humano aparecer é que se obteve alguns indícios de caça, bem ineficientes, aliás. A base da alimentação humana é vegetal, mas isso nunca é lembrado.
"Hoje, atirar num grande animal é visto como a expressão máxima da masculinidade machista. Enredados nessa mística, os antropólogos do sexo masculino gostam de enfatizar o papel crucial da caça de grandes animais na evolução humana.
Supostamente, a caça de grandes presas teria induzido os machos proto-humanos a cooperar entre si, desenvolver a linguagem e o cérebro grande, unir-se em bando e compartilhar alimentos. Até as mulheres foram supostamente moldadas pelas grandes presas", narra o biólogo.
O autor exclama - "quanta fantasia!". E com toda a razão. As mulheres são preteridas na história da evolução. É negligenciada a seleção sexual, hipótese interessante pois pressupõe interação entre os indivíduos, o que desenvolve a inteligência e diversas outras capacidades.
As pessoas passam adiante, sem conhecimento ou fonte, dúvidas sobre a evolução, como se fossem certezas. O andar ereto, o manuseio, o cuidado com as plantas, tudo pode ter contribuido ao mesmo tempo, e em tempos diferentes para a evolução de capacidades.
'O homem caça e a mulher coleta' - essa temática é a vigente e pouco foi questionada pelos arqueólogos convencionais. E ainda tem quem use essa falácia como argumento na hora de defender a caça e consumo de carne. Porque o homem a praticou, e muito mal, há 100.000 anos, devemos continuar? Se essa brutalidade deve ser praticada, podemos também retroceder em outras questões?
O humano é um ser que adora explorar a qualquer custo. A maior prova disso é que, mesmo hoje, com a popularização das discussões sobre ética, qualquer descoberta no sentido de que um ser não sinta 'dor' já é motivo para plena apologia ao seu uso, não importando sua dignidade, que é o que mais deveria importar, a despeito de qualquer sensação. O que interessa é que sirva como alimento, roupa, lucro! Até mesmo as recentes possíveis descobertas sobre condições para a vida fora do ambiente terrestre têm, nas mentes mesquinhas dos terráqueos humanos, o brilho de um único fim, o acampamento, a conquista, a exploração a qualquer preço. Quer-se fazer de um lugar imaginário, e talvez inacessível, o mesmo inferno que se está a fazer neste planeta.
Mas talvez a arrogância humana tenha algum dia um fim. Talvez existam outros seres mais poderosos, mais arrogantes ou talvez mais generosos ou simplesmente singelos, por fim, que suplantem nossa deselegante ignorância estelar, de nos considerarmos os únicos.
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segunda-feira, 24 de novembro de 2014
A dor do outro ou ‘o Grand Canyon que precisamos fechar’
coluna de Marcio de Almeida Bueno
(A dor do outro. Alguém que nasceu já para preencher a demanda de ingredientes culinários. Morreu para ser picotado e virar nome incompreensível no rótulo dos pacotinhos de alimentos industrializados).
Ao contrário, muita vezes uma conversa informal com leigos sobre o veganismo – porque o povo adora fazer sabatina ao ouvir as palavras mágicas – acaba capotando em dicas de saúde, cuidados na hora de bem escolher os alimentos, e recomendações-de-vó. “Diz que tudo que tem glúten faz muito mal, a gente tem que passar longe”, me dizia esses tempos uma cidadã-padrão, enquanto se servia de generosas conchadas de macarrão. De trigo.
Não, diacho, eu não estava falando sobre segredos para o bem-estar, novidades para emagrecer ou o último grito das naturebices de shopping – ração humana, chia, gordura de coco, amaranto, linhaça dourada, quinua, sal rosa ou o próximo campeão de bilheteria. Eu estava falando sobre a dor do outro. A solidão, a corrente, o confinamento, a separação, os chutes eventuais, o isolamento, o mau cheiro, o medo do humano, a faca amolada.
“O ______ é vegetariano convicto mas não resistiu ao meu churrasco na semana passada”, comentou, tentando ser simpática e participar da conversa, outra pessoa que também estava à mesa nessa ocasião. Garantia de que realmente a carne estava irresistível.
E penso que talvez o descolamento de duas realidades – o animal que ‘nasce para morrer’, digamos, e a gastronomia – seja o Grand Canyon que precisamos fechar. Haja gotinhas de Super Bonder. Porque essa fenda que nós – ativistas, pensadores, profissionais militantes, simpatizantes – ora começamos a estreitar, é o que garante uma das muitas pernas dessa máquina trituradora chamada ‘desenvolvimento’. Nunca vi tanto orgulho, emoção sincera e boca cheia como naqueles que fazem o discurso desenvolvimentista – que devem ganhar muito dinheiro com isso. Porque o resto do povo, aplaudindo, entra como lombo em festa de chicote. E aplaude, e vota. E olha torto para aqueles que, ousados!, topam falar em algo diferente.
Em algo que não exija o moedor de carne, de almas e de tempo de vida como modelo. Um sistema em que o hamster não tenha que correr na rodinha. Metaforicamente falando, claro.
Porque uma sugestão de rota – veganismo, antidesenvolvimentismo, ateísmo financeiro, iconoclastia laboral – acaba desandando em palpites curtos / rasos sobre saúde, ou trabalhar menos, ou “eu trabalho muito porque eu gosto”, como ouvi nessa mesma ocasião supracitada. OK. Talvez as pessoas estejam tão orgulhosas de se perceberem marchando no passo milimetricamente certo, farda alinhada, depois do medo de não conseguir, que a ideia de ir para outro lado soa estranha, quase uma imprudência. Parar, então, é desperdiçar possibilidades, deixar de aproveitar o que a vida oferece.
O que me lembra uma anedotra real. A Vanguarda Abolicionista fazia uma ação no Dia das Mães, anos atrás, e um gaiato se aproximou para fazer as perguntas óbvias e observações inteligentes que você, leitor, bem imagina. “Então vocês não comem carne?! Estão deixando de fazer a melhor coisa da vida”, riu o subgênio, para quem o sexo deve estar lá pela quinta ou sexta colocação no ranking. Empatado com o amor e com, digamos, capas exclusivas para smartphone, que tal?
Vanguarda Abolicionista - Marcio de Almeida Bueno
![]() |
| Ilustrção: Giambatista Della Porta |
“Bom, nós estamos indo muito bem, eu
suponho / Com nossos carros reluzentes e roupas da moda / Eu visto preto
pelo velho doente e solitário / Eu visto preto em luto pelas vidas que
poderiam ter existido / Há coisas que nunca serão corretas / E coisas
que precisam de mudanças em qualquer lugar que se vá”
(Johnny Cash, em ‘Men in black’)
(Johnny Cash, em ‘Men in black’)
E aí as pessoas ditas instruídas, esclarecidas, antenadas no mundo porque usam muito o celular, experientes, ‘exemplo para a família’, pouco se importam com o trajeto que a comida fez até chegar a seus dentes. Muitos dão risada, do eco-churrasqueiro ao egoico que está na vida para aproveitar, e dane-se o remorso.
(A dor do outro. Alguém que nasceu já para preencher a demanda de ingredientes culinários. Morreu para ser picotado e virar nome incompreensível no rótulo dos pacotinhos de alimentos industrializados).
Ao contrário, muita vezes uma conversa informal com leigos sobre o veganismo – porque o povo adora fazer sabatina ao ouvir as palavras mágicas – acaba capotando em dicas de saúde, cuidados na hora de bem escolher os alimentos, e recomendações-de-vó. “Diz que tudo que tem glúten faz muito mal, a gente tem que passar longe”, me dizia esses tempos uma cidadã-padrão, enquanto se servia de generosas conchadas de macarrão. De trigo.
Não, diacho, eu não estava falando sobre segredos para o bem-estar, novidades para emagrecer ou o último grito das naturebices de shopping – ração humana, chia, gordura de coco, amaranto, linhaça dourada, quinua, sal rosa ou o próximo campeão de bilheteria. Eu estava falando sobre a dor do outro. A solidão, a corrente, o confinamento, a separação, os chutes eventuais, o isolamento, o mau cheiro, o medo do humano, a faca amolada.
“O ______ é vegetariano convicto mas não resistiu ao meu churrasco na semana passada”, comentou, tentando ser simpática e participar da conversa, outra pessoa que também estava à mesa nessa ocasião. Garantia de que realmente a carne estava irresistível.
E penso que talvez o descolamento de duas realidades – o animal que ‘nasce para morrer’, digamos, e a gastronomia – seja o Grand Canyon que precisamos fechar. Haja gotinhas de Super Bonder. Porque essa fenda que nós – ativistas, pensadores, profissionais militantes, simpatizantes – ora começamos a estreitar, é o que garante uma das muitas pernas dessa máquina trituradora chamada ‘desenvolvimento’. Nunca vi tanto orgulho, emoção sincera e boca cheia como naqueles que fazem o discurso desenvolvimentista – que devem ganhar muito dinheiro com isso. Porque o resto do povo, aplaudindo, entra como lombo em festa de chicote. E aplaude, e vota. E olha torto para aqueles que, ousados!, topam falar em algo diferente.
Em algo que não exija o moedor de carne, de almas e de tempo de vida como modelo. Um sistema em que o hamster não tenha que correr na rodinha. Metaforicamente falando, claro.
Porque uma sugestão de rota – veganismo, antidesenvolvimentismo, ateísmo financeiro, iconoclastia laboral – acaba desandando em palpites curtos / rasos sobre saúde, ou trabalhar menos, ou “eu trabalho muito porque eu gosto”, como ouvi nessa mesma ocasião supracitada. OK. Talvez as pessoas estejam tão orgulhosas de se perceberem marchando no passo milimetricamente certo, farda alinhada, depois do medo de não conseguir, que a ideia de ir para outro lado soa estranha, quase uma imprudência. Parar, então, é desperdiçar possibilidades, deixar de aproveitar o que a vida oferece.
O que me lembra uma anedotra real. A Vanguarda Abolicionista fazia uma ação no Dia das Mães, anos atrás, e um gaiato se aproximou para fazer as perguntas óbvias e observações inteligentes que você, leitor, bem imagina. “Então vocês não comem carne?! Estão deixando de fazer a melhor coisa da vida”, riu o subgênio, para quem o sexo deve estar lá pela quinta ou sexta colocação no ranking. Empatado com o amor e com, digamos, capas exclusivas para smartphone, que tal?
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
A sua sogra é um inferno? A minha salva animais
Publicado no Dia da Mulher, em 2010, em minha coluna na ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais
Ellen Augusta Valer de Freitas
Mulheres guerreiras sempre foram uma raridade. Isto por diversos motivos. Seja por que a sociedade tende a menosprezar o trabalho bem feito de uma mulher, chamando-a de histérica ou radical, seja por que as próprias mulheres muitas vezes se comportam como minoria, sendo que são maioria em muitos lugares do mundo.
A minha sogra é uma mulher guerreira que enfrenta uma cidade. Ela batalha pelo bem-estar de animais abandonados nas ruas, numa cidade em que as pessoas não se comprometem com essa questão (mas querem que seja resolvida). Isso é uma realidade em muitos pontos do país, e em cada ponto há alguém fazendo algo, mesmo que discretamente.

Embora animais de rua sejam um problema claramente ambiental e de saúde pública, nem todos os “ambientalistas” pensam assim. E ocorre de as secretarias do meio ambiente em diversas cidades ignorarem essa questão, que está prevista em lei.
Ela faz suas batalhas publicamente, busca ajuda, sai de casa todos os dias e vai cuidar dos cães que a esperam correndo e muito alegres. Busca comida em locais que doam restos, algumas vezes presencia o desprezo de algumas pessoas. Leva lá e serve, depois de separar e preparar os pratos. Faz a limpeza, arruma as casinhas e quase nunca dá tempo de fazer tudo.

A Vivânia Caser Bueno é uma batalhadora que vive em Veranópolis, a terra da longevidade. E, de lá, ela mantém de forma corajosa um canil com 40 cães em média. Trabalhando praticamente sozinha e com pouco apoio da população.

Todos sabemos que o cão é um animal extremamente ligado ao ser humano. Ele é carente e dependente, e é muito cruel quando o abandonam depois de o acostumar na companhia humana. Ele gosta de brincar com bola, vem nos abraçar, demonstra que querem estar próximo de nós e nos é fiel. Mas a humanidade o trai de forma vergonhosa, toda vez que o deixa num depósito, ou o abandona na rua.

Espalha-se a ideia de que as ONGs ganham muito dinheiro, mas a verdade é que nem todas têm a atenção que mereceriam. Os demagogos que sugerem que devemos cuidar de criancinhas carentes geralmente são os inúteis que não fazem nada, nem pelas crianças e nem pelos animais. Mas acham que nós é que temos de nos preocupar com toda a causa. Como se ajudar animais fosse diminuir a cota de amor aos outros seres vivos. Muito ao contrário.
A Vivânia Caser ganhou uma condecoração na cidade, pelo trabalho que faz. Exibe orgulhosamente na sua sala. E com toda a razão. É um reconhecimento pelo ótimo trabalho que vem fazendo sozinha todos os dias do ano. Um ato de solidariedade que raramente se vê.

É um privilégio saber que, quando vou visitar minha sogra, vou fazer trabalho voluntário com ela ali no canil. Me sinto importante no mundo, pois sei que eles olham para a gente com esperança.
Quem não gostaria de ter uma sogra assim? Por isso admiro as protetoras de animais.
Em vez de fazer fofoca e cuidar da vida alheia como muitos fazem, vão fazer algo pela vida.
Admiro-as, pois eu não tenho coragem de catar um cachorro todo quebrado, pegar um cavalo que foi humilhado fisicamente e tem aquela vida miserável que todos nós sabemos como é, salvar um gato de donos cruéis e psicopatas.
Eu não tenho coragem. Minha coragem está aqui nas minhas palavras. E nas minhas atitudes diante da turba que insiste em seguir outro rumo diferente do meu, que é respeitar os animais de forma ativa e genuína, no prato também.
Admiro-a por ser mãe (e mãe do meu marido!) e ao mesmo tempo ter muitos filhos cães, que com certeza são bem cuidados. As doações dos animais sempre são feitas com muitas considerações. Geralmente quem vai ao canil são famílias humildes, à procura de um companheiro para seus filhos. O Humberto, o cão gigante e brincalhão, foi doado na semana em que eu estava ajudando. Ela chorou muito, pois ele era o mais antigo dali. Por ser de grande porte, era mais difícil de ser doado. E muitos o queriam para pôr numa corrente, o que é um pecado, pois ele adora correr. Foi doado a uma família que tem um grande sítio.
Ela também acolhe gatos, e os doa mais facilmente. A dificuldade maior está em adotar cães que são geralmente de portes variados e idades variadas. Os mais feios, os castigados pela vida ninguém quer. Conhecemos exemplo semelhante em outro lugar? Sim. Crianças também são desprezadas, depois que passam dos primeiros anos de idade. As pessoas declaradamente só querem os branquinhos que acabaram de nascer. Isto as que algum dia pensaram em adotar.
Mas a vida nos mostra que em toda generalização existem as exceções. E foi o que vimos ao constatar que muitas pessoas apareciam lá e levavam cães mais velhos. Outras preferiam os filhotes. E tem gente que liga perguntando se tem siamês, ou pequinês. Estas são as que nada sabem da realidade do canil. Querem chow chow, poodle. Obviamente estes cães também são abandonados e merecem respeito, mas não é o comum.
As rádios da cidade sempre a convidam para dar entrevista e colaboram para que o tema entre nas casas das pessoas.
Ela diz que poderia estar jogando cartas com as amigas, em vez de enfrentar tantos problemas. Ao perguntar se estaria feliz jogando carta com as amigas ela responde: não.
Ela é feliz fazendo o que gosta e é o que mais importa.
Ellen Augusta Valer de Freitas
Mulheres guerreiras sempre foram uma raridade. Isto por diversos motivos. Seja por que a sociedade tende a menosprezar o trabalho bem feito de uma mulher, chamando-a de histérica ou radical, seja por que as próprias mulheres muitas vezes se comportam como minoria, sendo que são maioria em muitos lugares do mundo.
A minha sogra é uma mulher guerreira que enfrenta uma cidade. Ela batalha pelo bem-estar de animais abandonados nas ruas, numa cidade em que as pessoas não se comprometem com essa questão (mas querem que seja resolvida). Isso é uma realidade em muitos pontos do país, e em cada ponto há alguém fazendo algo, mesmo que discretamente.
Embora animais de rua sejam um problema claramente ambiental e de saúde pública, nem todos os “ambientalistas” pensam assim. E ocorre de as secretarias do meio ambiente em diversas cidades ignorarem essa questão, que está prevista em lei.
Ela faz suas batalhas publicamente, busca ajuda, sai de casa todos os dias e vai cuidar dos cães que a esperam correndo e muito alegres. Busca comida em locais que doam restos, algumas vezes presencia o desprezo de algumas pessoas. Leva lá e serve, depois de separar e preparar os pratos. Faz a limpeza, arruma as casinhas e quase nunca dá tempo de fazer tudo.
A Vivânia Caser Bueno é uma batalhadora que vive em Veranópolis, a terra da longevidade. E, de lá, ela mantém de forma corajosa um canil com 40 cães em média. Trabalhando praticamente sozinha e com pouco apoio da população.
Todos sabemos que o cão é um animal extremamente ligado ao ser humano. Ele é carente e dependente, e é muito cruel quando o abandonam depois de o acostumar na companhia humana. Ele gosta de brincar com bola, vem nos abraçar, demonstra que querem estar próximo de nós e nos é fiel. Mas a humanidade o trai de forma vergonhosa, toda vez que o deixa num depósito, ou o abandona na rua.
Espalha-se a ideia de que as ONGs ganham muito dinheiro, mas a verdade é que nem todas têm a atenção que mereceriam. Os demagogos que sugerem que devemos cuidar de criancinhas carentes geralmente são os inúteis que não fazem nada, nem pelas crianças e nem pelos animais. Mas acham que nós é que temos de nos preocupar com toda a causa. Como se ajudar animais fosse diminuir a cota de amor aos outros seres vivos. Muito ao contrário.
A Vivânia Caser ganhou uma condecoração na cidade, pelo trabalho que faz. Exibe orgulhosamente na sua sala. E com toda a razão. É um reconhecimento pelo ótimo trabalho que vem fazendo sozinha todos os dias do ano. Um ato de solidariedade que raramente se vê.
É um privilégio saber que, quando vou visitar minha sogra, vou fazer trabalho voluntário com ela ali no canil. Me sinto importante no mundo, pois sei que eles olham para a gente com esperança.
Quem não gostaria de ter uma sogra assim? Por isso admiro as protetoras de animais.
Em vez de fazer fofoca e cuidar da vida alheia como muitos fazem, vão fazer algo pela vida.
Admiro-as, pois eu não tenho coragem de catar um cachorro todo quebrado, pegar um cavalo que foi humilhado fisicamente e tem aquela vida miserável que todos nós sabemos como é, salvar um gato de donos cruéis e psicopatas.
Eu não tenho coragem. Minha coragem está aqui nas minhas palavras. E nas minhas atitudes diante da turba que insiste em seguir outro rumo diferente do meu, que é respeitar os animais de forma ativa e genuína, no prato também.
Admiro-a por ser mãe (e mãe do meu marido!) e ao mesmo tempo ter muitos filhos cães, que com certeza são bem cuidados. As doações dos animais sempre são feitas com muitas considerações. Geralmente quem vai ao canil são famílias humildes, à procura de um companheiro para seus filhos. O Humberto, o cão gigante e brincalhão, foi doado na semana em que eu estava ajudando. Ela chorou muito, pois ele era o mais antigo dali. Por ser de grande porte, era mais difícil de ser doado. E muitos o queriam para pôr numa corrente, o que é um pecado, pois ele adora correr. Foi doado a uma família que tem um grande sítio.
Ela também acolhe gatos, e os doa mais facilmente. A dificuldade maior está em adotar cães que são geralmente de portes variados e idades variadas. Os mais feios, os castigados pela vida ninguém quer. Conhecemos exemplo semelhante em outro lugar? Sim. Crianças também são desprezadas, depois que passam dos primeiros anos de idade. As pessoas declaradamente só querem os branquinhos que acabaram de nascer. Isto as que algum dia pensaram em adotar.
Mas a vida nos mostra que em toda generalização existem as exceções. E foi o que vimos ao constatar que muitas pessoas apareciam lá e levavam cães mais velhos. Outras preferiam os filhotes. E tem gente que liga perguntando se tem siamês, ou pequinês. Estas são as que nada sabem da realidade do canil. Querem chow chow, poodle. Obviamente estes cães também são abandonados e merecem respeito, mas não é o comum.
As rádios da cidade sempre a convidam para dar entrevista e colaboram para que o tema entre nas casas das pessoas.
Ela diz que poderia estar jogando cartas com as amigas, em vez de enfrentar tantos problemas. Ao perguntar se estaria feliz jogando carta com as amigas ela responde: não.
Ela é feliz fazendo o que gosta e é o que mais importa.
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sábado, 8 de novembro de 2014
Ajude o meu blog Desobediência Vegana
"Trabalho em cartório, mas sou escritor. Perdi minha pena, não sei qual foi o mês." Raul Seixas
Meus botões de pedir grana já estão prontos. E hoje vou contar uma história, que como tantas, são o motivo, o único motivo que me obriga a escrever: a revolta. A existência, descobri antes mesmo de saber que existia Émile Cioran, para mim é algo revoltante!
Uma história de suicídio, contada por alguém, sobre outra pessoa, que eu nunca vi. Isso já basta, para provocar em mim, um furacão de palavras. Foi apenas uma cena. O rapaz, empurrando seu pai, em uma cadeira de rodas. Ele tinha um problema. E cometeu suicídio.
Somente essa cena me fez derramar os rios de solidão que haviam dentro de mim e que ninguém imagina o quanto são tristes.
Uma cena, é um instante, não vivi. Não sei que pessoas são. Pensei. Se eu, assim mesmo como sou, já pensei em zarpar dessa umas vinte mil vezes, sinto compaixão por alguém, por essa cena, que se apresentou diante de mim. E que a sociedade finge que não existe, pois vive com o olho e o dedo em outro lugar.
No minuto seguinte estava rindo e comendo. Sou assim. Minhas trevas não impedem a serenidade. Nem a alegria.
Chorei à luz do dia. A dor não pode ser motivo de vergonha. Meus cinco ou seis leitores sabem que eu escrevo sobre dores, infantilidades, decoração ou meus brinquedos do Chaves e sobre muito mais, além. Pois é isso mesmo o que sei oferecer. Estou aprendendo. A inspiração, vem de séculos de escritores, que amo e admiro. Mas não me iludo de que me pareço com eles.
Quando criança, desenhava. As palavras hoje sangram de meus dedos e desenham o mundo, tomaram o lugar das imagens. O olho é o instantâneo choroso, o suicídio do objeto que eu não vi, mas vivenciei, pois aconteceu também em mim. Por isso é que sigo aqui e, por hora, ainda não parti, junto com o fato em si. O que sobrou foi a caneta, lápis, dedos no teclado - a dor da lembrança do que precisa sair em forma de -escrita.
Doe qualquer quantia clicando no botão doar:
Doe por um ano, o valor de 1,99 por mês, clicando no botão assinar:
Meus botões de pedir grana já estão prontos. E hoje vou contar uma história, que como tantas, são o motivo, o único motivo que me obriga a escrever: a revolta. A existência, descobri antes mesmo de saber que existia Émile Cioran, para mim é algo revoltante!
Uma história de suicídio, contada por alguém, sobre outra pessoa, que eu nunca vi. Isso já basta, para provocar em mim, um furacão de palavras. Foi apenas uma cena. O rapaz, empurrando seu pai, em uma cadeira de rodas. Ele tinha um problema. E cometeu suicídio.
Somente essa cena me fez derramar os rios de solidão que haviam dentro de mim e que ninguém imagina o quanto são tristes.
Uma cena, é um instante, não vivi. Não sei que pessoas são. Pensei. Se eu, assim mesmo como sou, já pensei em zarpar dessa umas vinte mil vezes, sinto compaixão por alguém, por essa cena, que se apresentou diante de mim. E que a sociedade finge que não existe, pois vive com o olho e o dedo em outro lugar.
No minuto seguinte estava rindo e comendo. Sou assim. Minhas trevas não impedem a serenidade. Nem a alegria.
Chorei à luz do dia. A dor não pode ser motivo de vergonha. Meus cinco ou seis leitores sabem que eu escrevo sobre dores, infantilidades, decoração ou meus brinquedos do Chaves e sobre muito mais, além. Pois é isso mesmo o que sei oferecer. Estou aprendendo. A inspiração, vem de séculos de escritores, que amo e admiro. Mas não me iludo de que me pareço com eles.
Quando criança, desenhava. As palavras hoje sangram de meus dedos e desenham o mundo, tomaram o lugar das imagens. O olho é o instantâneo choroso, o suicídio do objeto que eu não vi, mas vivenciei, pois aconteceu também em mim. Por isso é que sigo aqui e, por hora, ainda não parti, junto com o fato em si. O que sobrou foi a caneta, lápis, dedos no teclado - a dor da lembrança do que precisa sair em forma de -escrita.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Assunto de estudo no momento: a farsa do tradicionalismo gaucho, por Tau Golin
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| 1870-90s carte de visite portrait of two acrobat musicians with violin and horn |
Agora estou estudando a verdadeira História. Meu terapeuta me disse que negar a História é o mesmo que negar a família. Acertou na mosca, pois odeio família, aliás, família? Não tenho família. Só aquela que eu construí conscientemente, no presente.
Mas, voltando ao aqui, agora, estou estudando os artigos do jornalista, historiador, Tau Golin.
Ele fala basicamente sobre a farsa do tradicionalismo gaúcho, e que textos!
Um dos artigos que estou lendo, chama-se Hegemonia gauchesca, que compartilho um tantito com vocês, leitores:
"Os tradicionalistas colocaram-se no centro da operação sobre a autenticidade, assumiram os postos de guardiões de um pretenso Rio Grande tradicional, usando artifícios das construções das nações étnicas em uma região mestiça. Ou seja, o Tradicionalismo evidenciou-se como problema contemporâneo, vitorioso na celebração da identidade, construída pela rede societária de CTGs e Piquetes, com um órgão central de orientação, adestramento e controle (MTG), imposição de cartilhas de comportamento e visão sobre o passado, o lugar e o futuro de seus milhares de militantes no mundo. Para vingar, precisou supor que as suas “práticas” decorrem como sucedâneas da história.
Entretanto, todas as suas “verdades” são refutadas pela historiografia, sociologia, antropologia críticas e jornalismo culto."
Que tal papudos?
Esse cara é fera! Sou fã.
E o que mais me atrai neste escritor e estudioso, é o fato de ele destruir esse mito opressor, não só de humanos, mas principalmente de animais. Conforme as leituras forem para este rumo, elas serão refletidas aqui, neste blog.
E, para complementar sua coragem, ainda tem o Manifesto Contra o Tradicionalismo, que está aqui, neste link: http://gauchismos.blogspot.com.br/ É só entrar e assinar. Tem muita gente famosa que já assinou.
Meus assuntos de estudo não giram em torno somente desse tema, Os interesses permanentes são sobre a morte, os costumes do México ligados ao místico, religião e à morte, cemitérios, etc. Não há regularidade, portanto não esperem nada, ou melhor, esperem qualquer coisa...
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Vanguarda Abolicionista é selecionada para projeto do Vista-se
Vanguarda Abolicionista é
selecionada para projeto do Vista-se
O portal Vista-se lançou o projeto Doe, que convida os internautas a colaboraram com R$ 2,99 por mês para grupos de defesa animal no país. A Vanguarda Abolicionista foi a mais recente selecionada, e está no link http://vista-se.com.br/doe/#van. Um vídeo de apresentação do coletivo está em http://youtu.be/yAM3A2QV7QE, e toda ajuda é bem-vinda.
O portal Vista-se lançou o projeto Doe, que convida os internautas a colaboraram com R$ 2,99 por mês para grupos de defesa animal no país. A Vanguarda Abolicionista foi a mais recente selecionada, e está no link http://vista-se.com.br/doe/#van. Um vídeo de apresentação do coletivo está em http://youtu.be/yAM3A2QV7QE, e toda ajuda é bem-vinda.
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sábado, 11 de outubro de 2014
Materiais recebidos e o templo do saber
Recebi recentemente materiais para distribuição. Esse senhor envia coisas legais para mim há muito tempo.
Este livro, ele me ofereceu como presente e é para ser lido e circular... vai fazer parte dos livros livres, aqueles que são feitos para voar. A saber, quase todos os que estão aqui em casa... Tirando é claro, os escritores amados, que são pouquinhos e cabem em uma mão.
Abaixo o DVD, Campanha Nacional Em Favor Aos Animais, feito com todo o capricho. Eu vi e vou passar adiante.
Vou enviar coisas para ele também. Eu sou afortunada por conhecer pessoas que não se importam e ao contrário, se mobilizam em fazer acontecer, em tornar realidade e trocar materiais, dar de si, de graça, sem esperar, sem ser mesquinho.
É importante fazer circular os materiais, passar adiante. Nada pode ficar parado. E não digo isso por misticismo, toque ou religião. Apenas porque é um grande prazer desapegar e passar para os demais os livros e o conhecimento. Saber que o que foi seu está cursando um caminho e não está ali, naquela estante, posando de 'templo do saber', não tem sabor melhor...
Este livro, ele me ofereceu como presente e é para ser lido e circular... vai fazer parte dos livros livres, aqueles que são feitos para voar. A saber, quase todos os que estão aqui em casa... Tirando é claro, os escritores amados, que são pouquinhos e cabem em uma mão.
Abaixo o DVD, Campanha Nacional Em Favor Aos Animais, feito com todo o capricho. Eu vi e vou passar adiante.
Vou enviar coisas para ele também. Eu sou afortunada por conhecer pessoas que não se importam e ao contrário, se mobilizam em fazer acontecer, em tornar realidade e trocar materiais, dar de si, de graça, sem esperar, sem ser mesquinho.
É importante fazer circular os materiais, passar adiante. Nada pode ficar parado. E não digo isso por misticismo, toque ou religião. Apenas porque é um grande prazer desapegar e passar para os demais os livros e o conhecimento. Saber que o que foi seu está cursando um caminho e não está ali, naquela estante, posando de 'templo do saber', não tem sabor melhor...
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segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Apoio o fim da exploração animal
Para ler meu depoimento em Apoio o fim da exploração animal, entre aqui e confira o depoimento de outros colunistas da Pensata Animal.
Em breve meus textos estarão no site e compartilharei com meus leitores aqui também.
Apoio o fim da exploração animal
É preciso destruir a ideia incutida no genoma de nossa espécie de que temos direito à tirania e ao poder sobre outros animais.
A maior prova de que essa pretensão não passa de ilusão, delírio ou fantasia coletiva, reside em que esse mau caratismo só tem trazido à humanidade mais problemas, desequilíbrios ambientais, desordens mentais e quase nada de significativo no processo de cura, saúde ou 'equilíbrio' de qualquer natureza, seja econômica ou de relações, advinda dessa exploração sem limites e dessa cadeia (prisão, jaula) generalizada que escraviza homens, animais e o conhecimento.
O uso de animais é inadmissível, não importa a forma nem a razão. Hoje os animais estão submetidos a uma infinidade de 'usos', seja na alimentação, no vestuário, como objeto sexual ou para suprir carências afetivas, moeda ou mercadoria, etc.
É preciso deixar o orgulho de lado, usar a mente e a ética, que tanto é pregada nas universidades e nos livros, e aprender que se você quer viver bem, se vire sozinho, descubra formas corretas, não use o outro como meio.
Ellen Augusta
Fundadora da Vanguarda Abolicionista, revisora, produtora de conteúdo Web, blogueira, vegana, feminista, defensora dos direitos humanos, atéia, escritora, poeta, colaboradora em ONG e licenciada em Biologia.
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domingo, 14 de setembro de 2014
Lei Arouca: as bases genéticas da falta de percepção
Ellen Augusta Valer de Freitas
publicado na ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais http://www.anda.jor.br/category/colunistas/ellen-augusta-valer-de-freitas e
na Pensata Animal nº 15 - Setembro de 2008 - www.pensataanimal.net
No primeiro semestre deste ano, a senadora Marina Silva defendeu o ensino do criacionismo nas escolas, após participar de um simpósio sobre o assunto, ainda como ministra do Meio Ambiente. Pois o criacionismo, que é uma das inúmeras crenças religiosas a respeito do surgimento da vida, passaria a ser comparado à Evolução, ciência que explica por meio de claras evidências ao longo da história, e na própria composição dos organismos atuais, a trajetória da formação de novas espécies ao longo dos milhares de anos. O criacionismo é apenas um dos mitos sobre a criação do mundo e do ser humano, e deve ser respeitado como qualquer outro de qualquer religião, mas nunca comparado a uma teoria que é base da Biologia e de tantas outras ciências, até hoje nunca refutada. Muito ao contrário, com as descobertas mais recentes sobre o código genético, a teoria de Charles Darwin fica a cada dia mais consistente e fascinante.
As descobertas do naturalista Darwin seguem até hoje como uma espada que corta, provoca e derruba nosso orgulho mais básico. Concordo com os pesquisadores Richard Wrangham e Dale Peterson, que escreveram o livro ‘O Macho Demoníaco: As Origens da Agressividade Humana', que talvez o orgulho seja a principal característica dos grandes primatas - e, neste grupo, estamos incluídos. Uma característica que turva a percepção.
Aí entra a aprovação da Lei Arouca. Pois como explicar que ainda hoje, em face de tantas tecnologias e formas de obter novos conhecimentos, ainda se pratique a barbárie do uso de animais sencientes em pesquisas científicas - de caráter nem sempre claro, nem para os próprios pesquisadores? E como explicar que, embora existam muitas alternativas ao uso de animais de laboratório, e que na Europa estas já venham sendo usadas em diversos hospitais, centros de pesquisas e centros veterinários, aqui no nosso Terceiro Mundo preferimos pagar mais caro por ‘modelos vivos' que dão lucro à imensa indústria de animais?
Uma explicação para que a humanidade siga sobrepujando os animais, negando-lhes o estado de direito, humilhando suas necessidades mais básicas, pode ser a vergonha de admitir que os animais pertencem à mesma natureza humana ou que o ser humano é, enfim, um animal. O ser humano nega estender os direitos morais por diversas razões, desde o preconceito chamado especismo, até por que reconhecer que os animais têm direitos fere mais uma vez o orgulho humano, como muitas vezes na história já aconteceu. Desde o século de Darwin, é deveras difícil assimilar e admitir que não somos o centro do Universo e, se requeremos direitos de sermos respeitados e valorizados nos nossos instintos mais básicos, nada mais natural que estender esses direitos a animais que, como nós, ou como muitos de nós, sentem medo, dor, afeto e possuem até capacidade de abstração.
Nada mais lógico que, se nos regalamos seres dotados de capacidade intelectual, devemos por essa mesma razão aguçar nossa percepção para as necessidades dos outros animais, e não continuar seguindo no egoísmo puramente preconceituoso de colocar a humanidade em primeiro lugar. De fato, colocar o ser humano em primeiro plano não contribuiu para que o mesmo ficasse ileso das conseqüências de seus atos diante da Natureza. A cada dia, percebemos que nossas ações, ao contrário do que gostaríamos, nos coloca como seres frágeis diante de um cataclisma ambiental.
Imaginar que o criacionismo deva ser ensinado nas escolas junto com as idéias evolucionistas, desprezando as demais crenças religiosas e misturando-as com fatos comprováveis e básicos da ciência, é querer preservar o pseudo-poder que nos arrogamos há muitos séculos atrás, quando tais disparates até eram admissíveis em face da ignorância da época. Mas, hoje, não.
Ora, quem hoje considera plausível a teoria de Charles Darwin - e ela é, pois é a base da Biologia e de muitos estudos a ela relacionados - certamente precisa considerar as implicações morais desta brilhante descoberta. Tom Regan defende que não é apenas o sofrimento que infligimos aos animais que está errado. "O que está fundamentalmente errado, em vez, é o sistema inteiro, e não seus detalhes. Pela mesma razão que mulheres não existem para servir aos homens, os pobres para os ricos, e os fracos para os fortes, os animais também não existem para nos servir", aponta. Que já nos serviram, e muito, durante o desenvolvimento humano, não é justificativa para que sigamos explorando, mesmo com tecnologia e inteligência suficientes para utilizar alternativas - que já existem - e criar novas. Não há justificativa moral para a traição que lhes causamos.
Nossa responsabilidade moral por sermos sujeitos que modificam o mundo não nos confere o direito da tirania sobre os animais. Muito ao contrário, nos coloca a obrigação moral de libertar e reparar, se é que é possível, nossos erros. Mas, para tanto, é preciso percebê-los.
BIBLIOGRAFIA
RACHELS, J. Created from animals: the moral implication of Darwinism. Oxford: Oxford University Press, 1990.
WRANGHAM, R., PETERSON, D. O Macho Demoníaco: As Origens da Agressividade Humana. Comportamento, 1998.
REGAN, T. The Philosophy of Animal Rights by Dr. Tom Regan. Em: www.cultureandanimals.org/animalrights.
"DIREITO DOS ANIMAIS - PERGUNTAS E RESPOSTAS", em http://www.vegetarianismo.com.br
NACONECY, C. M. Ética e Animais: um guia de argumentação filosófica. EDIPUCRS, 2006.
Ellen Augusta Valer de Freitas
ellenaugusta@gmail.com
Licenciada em Biologia, com formação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. Foi bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq no Instituto Anchietano de Pesquisas. Tem experiência na área de Ecologia com ênfase em Zooarqueologia, atuando principalmente nos seguintes temas: captação de recursos aquáticos, gerenciamento recursos hídricos, estudo da alimentação de povos indígenas, educação e pesquisa em arqueofauna em alguns sítios arqueológicos do Projeto Corumbá - Pantanal. Trabalha atualmente com educação de jovens e adultos em escola particular, com enfoque para o assunto: ética e animais.
publicado na ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais http://www.anda.jor.br/category/colunistas/ellen-augusta-valer-de-freitas e
na Pensata Animal nº 15 - Setembro de 2008 - www.pensataanimal.net
No primeiro semestre deste ano, a senadora Marina Silva defendeu o ensino do criacionismo nas escolas, após participar de um simpósio sobre o assunto, ainda como ministra do Meio Ambiente. Pois o criacionismo, que é uma das inúmeras crenças religiosas a respeito do surgimento da vida, passaria a ser comparado à Evolução, ciência que explica por meio de claras evidências ao longo da história, e na própria composição dos organismos atuais, a trajetória da formação de novas espécies ao longo dos milhares de anos. O criacionismo é apenas um dos mitos sobre a criação do mundo e do ser humano, e deve ser respeitado como qualquer outro de qualquer religião, mas nunca comparado a uma teoria que é base da Biologia e de tantas outras ciências, até hoje nunca refutada. Muito ao contrário, com as descobertas mais recentes sobre o código genético, a teoria de Charles Darwin fica a cada dia mais consistente e fascinante.
As descobertas do naturalista Darwin seguem até hoje como uma espada que corta, provoca e derruba nosso orgulho mais básico. Concordo com os pesquisadores Richard Wrangham e Dale Peterson, que escreveram o livro ‘O Macho Demoníaco: As Origens da Agressividade Humana', que talvez o orgulho seja a principal característica dos grandes primatas - e, neste grupo, estamos incluídos. Uma característica que turva a percepção.
Aí entra a aprovação da Lei Arouca. Pois como explicar que ainda hoje, em face de tantas tecnologias e formas de obter novos conhecimentos, ainda se pratique a barbárie do uso de animais sencientes em pesquisas científicas - de caráter nem sempre claro, nem para os próprios pesquisadores? E como explicar que, embora existam muitas alternativas ao uso de animais de laboratório, e que na Europa estas já venham sendo usadas em diversos hospitais, centros de pesquisas e centros veterinários, aqui no nosso Terceiro Mundo preferimos pagar mais caro por ‘modelos vivos' que dão lucro à imensa indústria de animais?
Uma explicação para que a humanidade siga sobrepujando os animais, negando-lhes o estado de direito, humilhando suas necessidades mais básicas, pode ser a vergonha de admitir que os animais pertencem à mesma natureza humana ou que o ser humano é, enfim, um animal. O ser humano nega estender os direitos morais por diversas razões, desde o preconceito chamado especismo, até por que reconhecer que os animais têm direitos fere mais uma vez o orgulho humano, como muitas vezes na história já aconteceu. Desde o século de Darwin, é deveras difícil assimilar e admitir que não somos o centro do Universo e, se requeremos direitos de sermos respeitados e valorizados nos nossos instintos mais básicos, nada mais natural que estender esses direitos a animais que, como nós, ou como muitos de nós, sentem medo, dor, afeto e possuem até capacidade de abstração.
Nada mais lógico que, se nos regalamos seres dotados de capacidade intelectual, devemos por essa mesma razão aguçar nossa percepção para as necessidades dos outros animais, e não continuar seguindo no egoísmo puramente preconceituoso de colocar a humanidade em primeiro lugar. De fato, colocar o ser humano em primeiro plano não contribuiu para que o mesmo ficasse ileso das conseqüências de seus atos diante da Natureza. A cada dia, percebemos que nossas ações, ao contrário do que gostaríamos, nos coloca como seres frágeis diante de um cataclisma ambiental.
Imaginar que o criacionismo deva ser ensinado nas escolas junto com as idéias evolucionistas, desprezando as demais crenças religiosas e misturando-as com fatos comprováveis e básicos da ciência, é querer preservar o pseudo-poder que nos arrogamos há muitos séculos atrás, quando tais disparates até eram admissíveis em face da ignorância da época. Mas, hoje, não.
Ora, quem hoje considera plausível a teoria de Charles Darwin - e ela é, pois é a base da Biologia e de muitos estudos a ela relacionados - certamente precisa considerar as implicações morais desta brilhante descoberta. Tom Regan defende que não é apenas o sofrimento que infligimos aos animais que está errado. "O que está fundamentalmente errado, em vez, é o sistema inteiro, e não seus detalhes. Pela mesma razão que mulheres não existem para servir aos homens, os pobres para os ricos, e os fracos para os fortes, os animais também não existem para nos servir", aponta. Que já nos serviram, e muito, durante o desenvolvimento humano, não é justificativa para que sigamos explorando, mesmo com tecnologia e inteligência suficientes para utilizar alternativas - que já existem - e criar novas. Não há justificativa moral para a traição que lhes causamos.
Nossa responsabilidade moral por sermos sujeitos que modificam o mundo não nos confere o direito da tirania sobre os animais. Muito ao contrário, nos coloca a obrigação moral de libertar e reparar, se é que é possível, nossos erros. Mas, para tanto, é preciso percebê-los.
BIBLIOGRAFIA
RACHELS, J. Created from animals: the moral implication of Darwinism. Oxford: Oxford University Press, 1990.
WRANGHAM, R., PETERSON, D. O Macho Demoníaco: As Origens da Agressividade Humana. Comportamento, 1998.
REGAN, T. The Philosophy of Animal Rights by Dr. Tom Regan. Em: www.cultureandanimals.org/animalrights.
"DIREITO DOS ANIMAIS - PERGUNTAS E RESPOSTAS", em http://www.vegetarianismo.com.br
NACONECY, C. M. Ética e Animais: um guia de argumentação filosófica. EDIPUCRS, 2006.
Ellen Augusta Valer de Freitas
ellenaugusta@gmail.com
Licenciada em Biologia, com formação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. Foi bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq no Instituto Anchietano de Pesquisas. Tem experiência na área de Ecologia com ênfase em Zooarqueologia, atuando principalmente nos seguintes temas: captação de recursos aquáticos, gerenciamento recursos hídricos, estudo da alimentação de povos indígenas, educação e pesquisa em arqueofauna em alguns sítios arqueológicos do Projeto Corumbá - Pantanal. Trabalha atualmente com educação de jovens e adultos em escola particular, com enfoque para o assunto: ética e animais.
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terça-feira, 9 de setembro de 2014
Cara de qual carne?
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| Capsicum annuum var. annuum ‘Peter ‘ ( Penis Pepper) . |
Minha coluna pode ser lida, com atualizações mensais, neste link: ColunaDesobediênciaVegana
Recentemente uma pessoa famosa foi vista com um casaco de pele. A pele era falsa, mas como a celebridade é alvo de fofoca, só depois foi confirmado o fato. Até então, os mesmos que espalharam o boato, não se furtaram de usar seus sapatos e artefatos de couro – que é pele sem pelos – nem deixaram de tomar leite, nem de praticar toda a extensão do mal que causam aos animais. Mas julgam-se defensores, gritam em nome de uma justiça que talvez não sejam capazes de fazer.
O que a celebridade incentivou, na verdade, foi a indústria têxtil que não utiliza peles de animais.
O que essas pessoas ‘críticas’ incentivam, é a indústria do couro e o cinismo, de que se pode comer e utilizar uns, e sacralizar outros. É muito mais nocivo usar algo de origem animal, mesmo escondido, do que usar um produto que poupe os animais. Lembrando que os curtumes de couro podem poluir até muito mais, pois é mais comum. Nas lojas, vendedoras mal informadas dizem: couro é caro. Mentira. Existem couros animais de todos os tipos, vagabundos. A carne e o couro brasileiro nem são aceitos em alguns países pela sua baixa qualidade, exploração do trabalho e poluição.
O purismo de evitar as comidas veganas que ‘lembram’ carne beira a ingenuidade, já que o sabor é independente do formato e da origem. O sabor defumado da carne, soja ou glútem, bem como embutidos, vem da fumaça, basicamente. É um método antigo e era aplicado até mesmo ao chá na China.
É preciso deixar de endeusar a carne e esse é um erro que até mesmo veganos cometem quando se recusam a comer coisas veganas, só porque se parecem com carne. Não se desapegaram, é preciso desencanar. Desprezam a criatividade dos chefs, os avanços da indústria e mercado, que criam sabores atribuídos erroneamente à carne. Ficar implicando porque algo parece ovo ou lembra o gosto de queijo é preciosismo, pois animais estão morrendo de verdade e as pessoas os comem muito mais por vício, lobby e imposição social. É um resquício da visão especista achar que livrando-se da forma, liberta-se do conteúdo.
Os alimentos práticos foram criados para o dia a dia. A salsicha, por exemplo, era feita de tripas de animais. Foi substituída por celulose vegetal. Os veganos substituem seu conteúdo por produtos vegetais. A salsicha tem praticidade semelhante à banana, uma fruta que nem precisa ser lavada e pode ser consumida em qualquer parte. O leite vegetal, o (‘milk’)-shake vegetal, o pão, tudo é prático e não queremos deixar de comê-los. Queremos deixar de explorar os animais.
Toda a alimentação vegana corresponde à alimentação que ‘lá fora’ é de origem animal. A pizza vegana, é uma versão da pizza que, comumente é feita com ingredientes de origem animal. Um cogumelo (Reino Fungi) que, botanicamente falando, não é nem do Reino Vegetal nem do Reino Animal, tem sabores que lembram carnes na maior parte das vezes. Ele é saboroso e nutritivo. Até mesmo um inocente azeite aromático que eu preparo em casa com alho e manjericão, tem gosto de linguiça! Pois a base do tempero da linguiça é praticamente a mesma.
Algumas coisas, ao contrário, eram originalmente vegetais, e foram adaptadas à culinária tradicional por misturas culturais e as pessoas nem sabem, mas se recusam a comer a versão vegana. Há sabores únicos na culinária vegana, porém, pode-se criar pratos comuns, como os que lembram as coisas da infância, trazendo para perto da filosofia vegana, muitas pessoas.
O argumento de que a carne é nojenta não coloca em dúvida o ato de comer ou não animais. Questões particulares não se aplicam ao todo. A carne e derivados de origem animal, ovos, leite, queijo, couros-peles, são símbolos de exploração, porém atribuir nojo como o único argumento para o não consumo de carne não sensibiliza quem come carne e não sente nojo algum, pois este não foi o motivo que fez a maioria das pessoas a parar de comer carne. Nem mesmo o argumento de que ela faz mal para a saúde é convincente, já que há pessoas saudáveis a consumir animais.
O incômodo para elas é de outra natureza. Há pesquisas aos montes comprovando a longevidade e saúde dos veganos, do nascimento à velhice. Mas o ser vegano é um estilo de vida baseado na ética, pois somos contrários à exploração de animais ‘felizes’ e às ditas galinhas saudáveis e vacas verdes, já que é o mesmo que bater com permissão ou com anestesia.
Não há um selo que consagra à pecuária e à carne e derivados de origem animal a detenção dos direitos sobre os sabores, formatos e até mesmo os nomes para alimentos e para o nosso paladar. Então é preciso acordar para o fato de que não existe patente requerida para o sabor.
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