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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A mulher pública* – como lidar com os obstáculos

Eu ando diariamente na rua. Caminho longamente por prazer e pelo meu trabalho.
O único obstáculo que enfrento todos os dias são os homens.
Sim. Todos os dias é um mar de caras, uns tarados, outros asquerosos, outros babando e aqueles que podem te agredir, seja num assalto ou coisa pior. E isso que não ando sozinha à noite, senão já viu.
Se vem dois juntos e de boné, atravesso a rua. É preconceito? Sim. Mas, eu sei bem os tipos de caras que enchem o saco, os que agridem, etc. E todos, mudam o padrão, mas pode crer, estão todos dentro de um. Aprenda, é muito difícil ter a mente flexível. Eu tenho e confio na minha capacidade de mudar. Mas até que me provem o contrário, para mim a maioria somente reproduz a forma de pensar e a violência que aprendeu com os pais (machistas) e no lugar onde vivem.
Quem é mulher e não sabe do que estou falando, entenda quem passa por isso. A maioria de nós vive todos os dias e é desagradável, além de perigoso. Quem é pobre e vive nas periferias, pode crer, é bem pior.
Tive uma péssima experiência com meu antigo Facebook. Velhos e meia idade add de forma insistente, mesmo que você negasse. Entrando no inbox, falando merdas apenas para se afirmarem como homem perante uma mulher mais jovem. É uma total falta de respeito, muitos tem mulher em casa e filha. São nojentos e ainda estão acompanhados. É mulheres, vocês têm muito o que aprender.
“Ah mas você provoca com suas roupas, com suas palavras”(ouvi isso de mulher, mas homem pensa assim também). SIM. Eu provoco. Sou provocante por natureza.
Desde criança eu chamo a atenção e hoje já sei lidar com isso. Até gosto. Eu lembro de ser ainda muito pequena e já haver comentários sobre minha beleza ou inteligência. E, pode crer, acredito e confio que é por aí.
Tenho personalidade, visto a roupa conforme o dia, conforme a vontade, mas não estou “disponível”, mesmo que estivesse sem namorado. O fato de você ter seu jeito, não significa que é para ser invadida com desrespeito.
Sempre fui muito olhada na rua. Isso para mim é natural. E gosto. Homem e mulher olham, variados são os motivos. Mas quando passa por mim esses nojentos, minha vontade é dar um murro na cara deles. Aposto que se apanhassem, aprenderiam a respeitar mulher.
Homem bonito passa por mim. Sim, muitos. E os mais lindos ainda me olham! Mas isso não significa que eu vou lá abrir minha boca e babar feito uma retardada, ou vou catar o cara no Face e dizer “Oi Lindo”, “Vc tem namorada?”
Não. Isso é coisa que uma pessoa íntegra mentalmente não faz. Mas muito homem faz isso com mulher. E depois ficam putinhos quando ‘viados’ dão em cima. Dói né safado?

NÃO dá para confiar em homem. Mas a gente confia, pois tem exceções. Mesmo assim, só acredito quando me provam o contrário da regra. E já me decepcionei até com quem já convivi por anos. Caráter é uma caixa de surpresa. Um dia você descobre que a pessoa que conviveu com você é um lixo. Deu pistas antes? Não. (às vezes sim, mas você ignorou). Então, liguem-se mulheres.
Amigas minhas, que moram sozinha, falam que não dá para chamar o gás, nem o encanador, sem viver com medo. Medo de ser agredida, enrolada, tratada como inferior, enfim.
Como eu me sinto andando na rua, algumas vezes.

“Ah mas vc não gosta de homem”. Sim, eu gosto e bastante. Mas sinceramente, gostaria de ser mais lésbica. Há homens legais, educados. Há exceções. Mas eu to falando do bastantão. Desse lixo que anda nas ruas, sempre procurando algo, como “animais”. Eles não se controlam porque não precisa. A sociedade acha tudo normal.
E esse bastantão é o que aborrece, o que deixa mulheres inseguras, provoca violência, esse é o alvo do feminismo.
Há muita gente assim. Você pode não concordar, talvez no seu bairro a coisa seja melhor. Mas há e é preocupante. Onde essas pessoas tiveram educação? Porque são tão animalescas?
Vivemos num lugar misógino. Ganhamos um governo misógino que não só vai ferrar com todos, mas especialmente com as mulheres. Por que isso é tão aceitável?
Mas a minha questão particular é essa: por que é tão aceitável que um homem seja assim?
Sim, pois eles chegam à idade adulta praticando todo tipo de grosseria e nunca foram parados por ninguém? Nem por mulheres, nem por outros homens? Porque essa escória continua e abundante?
E, se você chegou até aqui e montou a ideia em sua cabeça que eu detesto os homens, saiba: eu não desejo mal para ninguém, mas não suporto 99% da humanidade. E no fundo acredito que cretinice e escrotisse não tem idade, posição social, profissão, roupa, dinheiro, nem religião, e nem mesmo sexo.


*Se você pesquisar esse termo no Google só vai encontrar lixo e a definição machista do dicionário que é bem diferente do 'homem público'.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Por que Fernanda Torres tem que pedir perdão?

Independente de concordar ou não com o texto da Fernanda Torres, que você pode ler aqui, ela não tem que pedir desculpas.
Protesto contra a Violência em que participei com a admirável feminista Vera Daisy
“perdão por ter abordado o assunto a partir da minha experiência pessoal que, de certo, é de exceção”
Todas nós falamos a partir de nossa experiencia pessoal. Um texto isento de vivências é artigo científico e mesmo estes, hoje, já contam com uma certa flexibilidade no uso de termos pessoais. Fernanda é colunista, escreve crônicas, escreve o que pensa.

O artigo em questão, chamado Mulher, considerei fraco, um tanto machista, talvez equivocado em alguns pontos. Me pareceu que ela apenas se expressou mal em algumas questões. Mas concordei com outras. Uma delas, por exemplo, é que apoio a campanha contra o assédio mas tenho também minhas críticas e penso um pouco como ela: ser desejada também pode ser bom.
Há diferenças entre tipos de cantadas, há assédio, há abuso e há quem goste de elogiar e ser elogiada, numa boa.
Eu posso mandar um cara tomar no cú quando me assedia (acabei de fazer isso hoje), e também posso sorrir, se eu quiser e isso também já fiz. Mas o movimento contra o assédio quer a liberdade das mulheres na rua. Não temos que ser objeto, nem ter medo de sair à rua. O ambiente público também é nosso.

Dá para pensar dessa maneira sim, sem ser contra a campanha.

Mas por que ela tem que se desculpar?
No seu texto de desculpas, chamado Mea Culpa, ela escreve:
“as críticas procedem, quando dizem que eu escrevi do ponto de vista de uma mulher branca de classe média. É o que sou.” 
Essa tentativa de barrar as pessoas de emitirem suas opiniões baseada na cor da pele ou condição é simplesmente censura.
E notem que a atriz sequer tocou em questões raciais. Apenas descreveu como era sua empregada de infância, parte de sua experiência como mulher.
Até homem tem esse tipo de discurso quando afirma que eles não podem falar sobre feminismo. Mas aí quando um homem fala isso e outras regras sobre as mulheres que se inventou nas redes sociais - e que só funcionam lá dentro - nenhuma feminista manda ele calar a boca.
Se perde muito por não ouvir a ponderação de alguém, apenas por que não é do mesmo gênero que o seu, se essa opinião for relevante.
Ok, mas ela é uma mulher. E mesmo sendo mulher, seu direito de falar está restrito por causa de seu corpo? Qual será a próxima condição que teremos que vencer?
Esse tipo de 'cale-se' é uma tendência irritante nos meios interseccionistas, que misturam ideias e querem impor seu modo de pensar a todos, censurando quem é diferente.
O feminismo em particular sofre de um problema: não aceita ser criticado. Há sérias questões a serem repensadas e as mulheres deveriam ser as primeiras a fazê-las. Criticar não significa ser anti feminista ou ser contra o feminismo.

Essa conversa de ser contra o feminismo é apenas um discurso aprendido que nos coloca contra nossa própria natureza. Devemos lutar e marcar presença em todos os lugares.

Num mundo machista, toda mulher deveria ser feminista.

E, sendo feminista, não guardar o machismo dentro de si.
Mas o feminismo precisa se renovar.

Os protestos das alunas contra a proibição de usar short no Colégio Anchieta, que você pode ler aqui, é a prova de que o feminismo vem sendo renovado, mas ainda falta mais.
Eu gostaria de ter alunas como estas. Sempre abordei o feminismo em sala de aula, coisa rara, que deveria ser estimulado pelas feministas (e por professores e professoras) em todas as matérias escolares, para meninos e meninas, ressalto.

Todos tem o direito de se manifestar. E uma mulher pode e deve falar, independente do seu biotipo ou classe.
Até quando o tipo físico de alguém vai ser impedimento para a liberdade de expressão?


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Educação medíocre e educação vegana, quem vencerá?

Enquanto trabalhei como professora, falei abertamente sobre veganismo para meus alunos, adultos e adolescentes. Agora cansei e dei uma parada. Mas vou voltar, quando estiver afim, e vamos ver qual é!
Considero obrigação do biólogo e dos professores de qualquer área, informar sobre os impactos da criação de animais para consumo e as implicações éticas dessa merda que as pessoas fazem com estes seres, que não são nossa propriedade.
Nunca fui questionada pelos meus diretores. Sim, havia professores invejosos, ficava sabendo das fofocas. Sim, faziam cara feia. Havia alunos que não gostavam. Ninguém nunca está satisfeito, bem vindo ao mundo. Nem ligava para isso, na verdade me divertia com isso. Adoro. Mas eu recebia elogios pelo meu trabalho. Tenho certeza de que foi um bom trabalho.
Mas, hoje, o veganismo está crescendo. E os educadores veganos, estão começando a incomodar.

Um professor vegano foi proibido de lecionar por três anos em Minas Gerais, por ensinar sobre direitos animais em sala de aula.
Já escrevi crônicas e ensaio participando de livros com ele. É um professor de Filosofia admirável, desses que gostaria de ter. Ele chama-se Leon Denis: Aqui estão seus artigos sobre educação

Pois das aulas de Filosofia que tive no meu Segundo Grau, não me lembro de nada. Perdão, professores que tive, mas, se estiverem lendo este blog, é isso mesmo. Fui ler filosofia depois, e com os podres ou os bons, os escritores obscuros e os alternativos que escrevem do jeito que querem e como querem.

Hoje, ser bom professor na opinião dessa gentinha, é cumprir o papel. É falar do mesmo, é ser como sempre foi. Desde o tempo em que eu estudava no colégio e faculdade, nada mudou. Aqueles professores idiotas que tive, que não sabiam a diferença entre eu, que era inteligente (e hoje sou mais, bem mais inteligente que naquela época), e a nulidade ao meu lado. Um ou dois professores bons que tive tinham que se cuidar para não serem expulsos da escola. E no Primeiro Grau tive um professor que foi expulso da escola porque estava entre um monte de mulheres (professorinhas de merda) que não estavam habituadas a conviver com um professor, ou seja, por ele ser homem. Pode crer, eu vivi para ver isso. E nem entro em detalhes aqui, pois hoje mais adulta, sei que só pode ser por isso e, quero que aquela gente se exploda.

Enquanto lecionei nas escolas e projetos com adultos e adolescentes passei documentários como Terráqueos, A carne é fraca, Não Matarás, e fiz trabalhos com meus alunos, chamei palestrantes de grupos ativistas, tudo quanto fosse didático e pudesse chamar a atenção para um conteúdo atual e necessário para o conhecimento dos alunos. E isso não agride ninguém. Ao contrário, muito interesse surgiu.

O professor Leon Denis, como filósofo, questiona e ensina os alunos a  olhar o mundo que gira em torno de valores sexistas, opressores e violentos. Essa sociedade, banhada em sangue, precisa se manter como está, e cala a boca de quem a questiona. Tudo pelo prazer de comer a carne morta com dor, da conivência com a violência institucionalizada, que começa em casa.

Para ver lixos violentos, sexistas ou pornográficos na TV e no celular todo mundo tem capacidade e acha o máximo, mas para ver um vídeo sobre a realidade que enfia na boca e ajuda a financiar, aí fica nervoso, fragilizado? Não. Esses materiais e outros são recursos pedagógicos, usado na dose certa, no momento certo, para a faixa etária correspondente. Não estamos lidando com retardados. E somos bons professores.

Justamente na Filosofia, onde deveria ser o local onde os alunos aprendem a questionar a vida, a ver a verdade sobre as coisas, essas pessoas, pais alienados, sociedade idiotizante, querem silenciar.

Existem diversos tipos de censura no Brasil, algumas vem de cima, outras estão bem aqui, dentro de cada uma dessas pessoas, ao redor de todos nós.

Leia a matéria completa sobre o que aconteceu aqui

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Por que o homem domina tanto e as cobranças das mulheres sobre as mulheres

Estava caminhando no shopping e uma menina passou por mim me encarando com cara de nojo. Como percebi a hostilidade gratuita e também as motivações internas disso, apenas lhe cumprimentei, para quebrar essa corrente milenar, de ódio entre as mulheres.

Essa rivalidade que existe em todas as idades.

Eu sou mais velha que ela, mas meu estilo se assemelha ao dela. Meu corpo também, isso já é motivo para suscitar um ódio generalizado, sem necessidade. Um ódio aprendido.

Por que precisa ser assim? As pessoas nas ruas não são nossas inimigas. Os homens nas ruas não vão nos atacar, e não são potenciais noivos ou agressores. Mas não é assim que aprendemos. Não é isso que a sociedade nos ensina.

Uma paquera inocente não é um caso de estupro. Claro que é desagradável ser assediada. Mas nem tudo é assédio. Há diferenças entre uma coisa e outra. Nem tudo é tudo. É preciso ter olhos atentos para não ver sangue ao redor.

Não é isso que nossas mães e especialmente nossos pais enfiam em nossas cabeças. Nem isso que as empresas e o sistema quer que você pense.

As gordas são cobradas, as magras demais sofrem cobranças e querem engordar. Mas quem é magra e diz que sofreu bullying na infância, como eu, é hostilizada constantemente, por isso nunca mais falei nisso. Essa é uma prova de desunião incurável entre as mulheres. E já escrevi sobre isso, pela última vez aqui: Gordofobia e magrofobia - quando as palavras segregam
Fiquei muito decepcionada. E saí do movimento feminista 'normativo' por causa desse fato. É nojento não ter apoio nem respeito daquelas que querem reivindicar o mesmo dos demais.

Uma curiosidade normal, qualquer um tem. Homens se interessam pela beleza de outros homens. Mulheres maduras ou seja, sem inseguranças, querem ver outras mulheres bonitas, sem invejar. Eu adoro ver mulheres lindas, para me inspirar. Para me arrumar, me sentir bem, vendo nelas um modelo de beleza, ou de inteligência, e os dois juntos. Não precisamos invejar ninguém.

Mas não é isso que as mulheres vem fazendo.

Elas se cobram, invejam, policiam umas às outras. Mas colocam a culpa nos outros, na "sociedade", no homem.

O shortinho da outra é muito curto. E daí? Eu tive que escrever esses dias no Face "Ela tá lindona, eu só uso assim!" para a foto de uma menina com o shortinho mais curto e sensual que vi. Pois só tinha mulher esculachando.

Porra, por que temos que nos esculhambar? Ela não tinha o corpo esperado, mas sabe, quem dita o padrão? Será que não são aquelas mulheres que estão dizendo o que temos que usar??

Homem nem liga para isso, no mais das vezes.

E depois ficam de cara comigo quando escrevo artigos que tocam lá no Rim da questão???

Pois eu acho que o homem domina mais porque ele gosta de dominar sim, mas enquanto isso a mulher desperdiça seu poder natural perdendo tempo policiando a barriguinha da outra, a bunda com celulite da outra, a minha barriga, que todo mundo tem que olhar, só porque é bonita (e é bonita mesmo, sou convencida, mas não fico depreciando a barriga das outras, acho lindas, de coração).

E todo mundo tem coisas bonitas, e eu tenho defeitos, mas ninguém precisa saber, nem vir apontar esse dedo sujo na minha direção.

Sobre esse assunto escrevi isso: Mulher, dá para tirar esses olhos invejosos de cima de mim?

Não, a mulher, em vez de se valorizar, se preocupar em se tornar poderosa de verdade, fica perdendo tempo com isso, com ninharias, com conquistar a atenção, seja do homem ou da rival, pois não são só as pobres e incultas que estão nesse rol, muitas feministas também estão perdendo tempo evitando a autocrítica, mas achando muita bobagem para criticar nas outras, mas não em si mesmas.
Escrevi bastante sobre isso, e tem quem não goste, pois serve o chapéu.

Não estou inventando nada, esse assunto já foi abordado por feministas de peso. Sou professora a mais de dez anos e sempre ensinei isso em sala de aula. Mas nunca vi uma abordagem feminista de outras professoras, grupos de feministas que fossem nas escolas públicas ou privadas, para ensinar isso às meninas e meninos, pois essa educação não pode ser determinada por gênero.

No Brasil tudo chega atrasado. As pessoas aqui seguem apenas uma linha do feminismo, e ainda estão paradas no tempo. Não avançam para questões modernas e isso não é levado às pessoas, essas mulheres que andam nas ruas e que nos olham como ameaças, como rivais.

Não. Ninguém é ameaça. As mulheres são amigas, sofremos as mesmas pressões, temos problemas de relacionamentos, perdemos, ganhamos, e temos forças que nem sabemos direito. Quem não sabe a força que tem ou quem não tem essa força, pode ser ajudada por quem a tem de sobra. Quem é pacata, pode ser encontrada por quem tem a revolta no couro. Ninguém precisa estar sempre de punhos levantados. Isso só afasta e dá margem para a dominação.

Depois essas mulheres que dominam jargões idiotizantes, entram nas redes sociais para dizer "o homem é o único culpado", mas nós mulheres é que dominamos o poder de ficar nos policiando 24horas, roupa, comportamento, atitudes. Nem entro no mérito do especismo contra as fêmeas fora do círculo moral, imposto pela cultura machista, que a moral cristã aplacou, que todo mundo acatou, pois é conveniente sim. Por isso ninguém dá um pio e, quando alguém abre a boca é para ser contra. Mulher contra mulher, e contra os vulneráveis. Asqueroso.

Até nas publicações dos meus artigos, tem mulherzinha que pediu opinião dos outros para definir a sua, ou ficou perguntando quem era meu marido, ou achava que eu não era real. #medo.

Oh, existem outros tipos de dominação, sim. Não precisamos ignorar o básico só porque existe o difícil.
Isso é primário, infantil, e imaturo.

Não faço críticas construtivas, minha crítica é para destruir as bases, é para chocar mesmo. Essa coisa de todo mundo se amar é falso.
Eu só admiro e gosto de algumas mulheres, de alguns homens.
Mas as pessoas lá fora não são inimigas. Não precisamos andar com punhos levantados.
Não significa que devemos sair nas ruas com medo das pessoas. Não saia lá fora se achando melhor que os outros, nem pior. Pois você é só você.
Não precisamos ter medo das pessoas, e ninguém precisa nos temer. Nem por roupa ou comportamento.

Esses dias, vi uma mulher toda tatuada, com adornos incríveis. Como é raro ver tatuagens bonitas, eu ia elogiar, mas morri de vergonha!
Hoje, tudo é encarado meio de viés...por isso não tive coragem de falar, pois, o que ela iria pensar?

Geralmente puxo assunto nos lugares q vou, elogio sempre que posso, não tenho medo, mas nesse dia.... Ela era muito linda!

Estava na esquina da Av. Independência, mas ainda me falta um pouco para chegar lá...

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Para conversinha de ex

 ou suas consortes
 ou para qualquer um que já vai se achando, meu recado.

Escuta, baby, seu umbigo não é o Sol.
Embora às vezes alguém goste de incensar ali.
E eu, por diversão, goste de provocar as vaidades de quem as tem de sobra.
E os homens, não os que leem meu blog, pois são os inteligentes, mas cá para nós: alguns outros.
Como é chato alguns caras que puxam assunto comigo. A primeira ou segunda coisa que perguntam é se sou casada. Puxa, já uso um sinal na minha mão esquerda. E, quando a conversa é virtual, tenho no meu perfil bem claro, escrito "casada" e outras descrições sutis.

Esta pergunta é extremamente ofensiva pois parece indicar que, conforme minha resposta, a conversa irá se bifurcar em dois caminhos diferentes.

E, fico chateada, não por mim, pois não me interessa esse tipo de conversa, deixo o simplório sozinho. Mas, me choca saber que, sou casada há quase dez anos e,

nada mudou!

Isso é um indício de várias coisas.
Um, as mulheres ainda se contentam com isso.
Pois se os caras ainda acham que essa conversinha atrai algum tipo de continuidade, seja para amizade ou algo mais, é porque tem gente que adora.
Não tem como ser amigo de alguém que não leu nada sobre você, que pergunta coisas banais, mesmo que isso esteja escrito em todo o lugar! Mas deixa de perguntar coisas importantes.

Dois, os homens não seduzem. E ninguém se importa. As mulheres gostam de sedução. Na verdade todos gostam, mas ninguém se importa mais. A carência fala mais alto.


E, o que considero mais importante e grave: qualquer demonstração de afeto, conforme o tipo de pessoa, já é visto com maus olhos. Se você trava amizade com um homem, pronto. Já tem gente que acha que você está querendo dar para o cara. Já tem homem que acha que você está a fim. Não meu filho, ninguém está a fim. Hoje a mulher faz o que quiser, ri alto, puxa assunto, fala palavrão, é sensual sem querer dar para ninguém. E, pode ser casada e, ao mesmo tempo conversar com outro homem.


Estou lendo um livro maravilhoso sobre sedução. Mas não é aquela bobagem de mulher se vestir de enfermeira para conquistar o marido de cuecão.

Note que a maioria dos libros com a tag "sedução" é isso: a mulher se preparando para conquistar, nunca o contrário. "Vista uma lingerie (o mercado está cheio delas), dance maravilhosamente, faça cursos, etc". Eu amo calcinhas provocantes, fio dental amor, adoro dançar, não faço o tipo de ser contra isso não, mas:
Não se acha um livro ensinando o macho a ser menos grosseiro, a enviar flores, a ser educado e observador.
Se tem mulher que não acha isso importante, ok, que bom, pois a mulher tem toda a liberdade de gostar do que quiser sim. Só que eu acho e homem para mim, só se for assim. Senão, solteira.
Não, é um livro que fala sobre como ser sedutor, para ambos os sexos. E sedução, para este livro (e para mim), não significa sexo, nem se detém apenas a namoro. A sedução se aplica além disso. É um jogo de delicadezas, é ser observador, educado, etc.
O livro tem mais de 600 páginas e é um livro para se usar a inteligência e a astúcia. Está para além da arte, amizade, a sedução existe na política e encanta em todo o lugar.
Eu ainda não sei se irei falar sobre o livro, pois estou lendo-o ainda.

Mas me incomodou muito essa coisa frívola de papinho perscrutador, enquanto existe um mundo de possibilidades (amizade, claro está) que pode existir entre as pessoas, sem nenhuma malícia. Mas, quem quer ser além dessa secura, dessa carência sem fim?

Sempre foi assim. As mulheres reclamam dos homens, mas são elas que selecionam esse tipo de comportamento. Nunca dão um basta. E eles apenas vão lá e aplicam essas "técnicas de conquista" baratas e velhas, na próxima vítima carente que achará o máximo, e parece que quanto mais idiota, mais gente tem para considerar o cara, visto que essas pintas estão sempre com alguém. Portanto, meu recado já está dado.

sábado, 29 de agosto de 2015

Porcos no Rodoanel: as feministas especistas e o baile da ignorância

por Ellen Augusta Valer de Freitas
Artigo publicado na Vanguarda Abolicionista, na ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais e no Olhar Animal - Pensata Animal e replicado onde mais as pessoas encheram o saco e ligaram o foda-se.

Estou a cada dia mais chocada com o retrocesso das mulheres nos tempos atuais. Mas não são todas as mulheres não. Existem muitas mulheres, batalhadoras, as do dia a dia, que estão pouco se lixando para essa troupe que agora quero me ater. Falo das feministas reacionárias, disfarçadas de pseudolibertárias. Esse tipinho facista que vem invadindo as redes sociais, para atacar o ativismo vegano.

Nossa luta já é árdua, mas temos que ficar às voltas com um povo atrasado com pinta de libertário, posando com roupas de gosto duvidoso e ideias que o grupo aprova.
Os reaças clássicos nem precisam fazer mais nada. Não. Pois essa gente está fazendo mais estrago. Estão entranhandos dentro dos movimentos, dando opiniões errôneas, equivocadas, insistentes e facistas, pois querem que todos sigam sua cartilha autoritária, sob a pena de ser barrado do baile dos politicamente corretos.
São opiniões perigosas pois passam por 'certas', pois têm apelo entre os do grupinho, tem vocabulário, jargão instrumentalizado, e são movidas por preconceitos enraizados, disfarçados de "teorias" só por que são bem ditas.
Essas feministas obedientes no fundo são as mais machistas, elas defendem macho. Estavam aos montes, nas postagens da Rodoanel, defendendo os motoristas, e não os animais. Elas defendem o status quo e não os vulneráveis. São umas mulherzinhas que tomam leite e comem ovos por que o pai ensinou. E muitas delas, com seus namorados, usaram imagens minhas e de minha amiga feminista vegana, para debochar de nossas imagens, mas não souberam peitar nossas ideias. Não foram "machas" para me bancar, é preciso fazer o jogo social de desqualificar mulher. Feminista de araque. Libertário de merda.

Sabemos que os animais tem emoções, desde Darwin. Ele escreveu um livro sobre isso, chamado: "A expressão das emoções nos homens e nos animais". Mas os argumentos dessas mulheres é que a diferença entre "as mulheres" e os animais é que estes não podem saber das agressões que sofrem. Oi? Me senti no supletivo. Sou professora e tive alunos melhores.
Agora sabemos por que ainda existe violência contra a mulher e por que ela está aumentando a olhos vistos diante da passividade das 'feministas', que só sabem postar xingamentos, e porque hoje o movimento pelos direitos animais está tão avançado passando até o movimento feminista, que se arrasta, diante desse marasmo mental. Pois essas pessoas nem aulas de Biologia frequentaram, pouco sabem de leituras mas se criou essa cultura do muito falar, sem critério, sem conteúdo. Nas postagens sobre direitos animais, elas chamam homens para as defender, chamam 'galeras' e apelam para baixarias, ideias falsas, falácias facilmente derrubáveis, tudo para negar o óbvio: que a exploração de animais e o consumo de laticínios é essa cultura machista e retrógrada onde elas estão enfiadas até o pescoço, estão adorando o mito da beleza, coisa que nunca ouviram falar, e estão cultuando o deus machista que tanto querem derrubar na outra, mas cultuam tão forte dentro delas mesmas.

Não suportam ver uma mulher vegana livre, que não se importa, que está ao lado do seu marido, dizendo foda-se eu não participo da cultura da morte. Não, elas precisam atacar com raiva e um pouquinho de inveja. Não suportam ver as ativistas ajudando animais, pois não suportam quem ajude algo que não seja seu próprio umbigo narcisista. As feministas chegaram ao ponto de defender os funcionário da Rodoanel, se colocando contra as mulheres que estavam lá ajudando os animais. Com aquele papinho de que o coitadinho estava sendo explorado, parece coisa de mãe defendendo o filho mais velho. Todo mundo conhece o arquétipo de mãe machista frente ao filho e à filha.

Nós somos contra todo o sistema que explora o funcinário, o motorista da rodoanel, o açougueiro, o assassino e a mulherzinha que vai no açougue bancar o assassinato.

Por isso nessa hora não nos interessa pagar pau para macho, nos interessa tirar os animais dali. Depois sim, o funcionário, é uma pessoa explorada sim, como qualquer outra pessoa do sistema que justamente usamos como argumento para que essa mesma 'feminista' pare de comer carne leite ovos, e ela curiosamente tão preocupada com isso, não para. Usamos sempre desse mesmo argumento, para que esses trabalhadores tenham trabalho melhores, pois a pecuária hoje é uma das áreas que mais tem trabalho escravo e degradante no país.

Uma outra se deu o trabalho de comparar um caso grave de violência doméstica que aconteceu aqui na Região Metropolitana onde uma mulher teve mãos e pés decepados com o caso dos porcos na rodoanel e óbvio que a culpa é "dos veganos". Achei o cumulo da falta de respeito. A pessoa só falava em cumprir metas. Fiquei pensando se, em vez de porcos fossem crianças, ou seus filhos, ela não calaria sua boca. Especista e cruel com a vida dos outros e usando o nome de outra mulher. Eu ajudei essa mulher com dinheiro que eu nem podia gastar. Não ajudei no caso dos porcos pois meu trabalho na causa animal é muito bom obrigada. Não tenho que dar satisfação. Mas neste caso falo, pois achei mesquinho da parte dessas feministas, que muito provavelmente não ajudaram com um real, mas tiveram disposição para fazer um meme, entrar na comunidade dos veganos, como se todo o dinheiro doado aos porcos viessem dos veganos. E sabemos que as doações vieram também da sociedade comum.

Esse ódio direcionado faz parte desse incômodo provocado pela consciência de que se está participando da sociedade da crueldade, do machismo, da cultura machista e retrógrada, mas como não se quer admitir, é preciso direcionar na outra o ranço, a raiva, a inveja daquela que já pode considerar-se livre das amarras machistas. É o velho jogo de ver a outra com um lindo vestido e querer jogar lama para o sujar. É ver a mulher magra e querer a desqualificar. É querer diminuir as outras causas para engrandecer sua causa, parada no tempo por falta de atualização, por falta de leitura e afinação com a ampliação do círculo moral que inclui os animais, especialmente as fêmeas.
Deve dar muita raiva ver que estamos livres e não precisamos escravizar fêmeas durante sua vida inteira, nem tiramos seus filhos, não usamos mais outros seres como objeto, não objetificamos outros animais, não somos hipócritas, falando em liberdade humana com animais sob nossos pés, e não somos ignorantes pois temos argumentos para nossa decisão.

domingo, 5 de julho de 2015

A propaganda animal é machista

DESOBEDIÊNCIA VEGANA - ELLEN AUGUSTA VALER DE FREITAS
É fácil apontar quando há algo explícito indicando uma propaganda machista, não é? Não é. Porque é preciso inteligência para analisar. Mas tem gente que se delicia com isso sem compreender. É fácil ser especialista do óbvio. É fácil ler? Não. Qualquer um lê, mas a maioria não entende sutilezas, ironias e nem mesmo uma piada. A maioria lê o título acima e fica nisso. Com as imagens é a mesma coisa. As propagandas mais machistas e abusivas são sutis e estão fora da causa animal, ensinando a oprimir o mais fraco, seja humano ou animal.

Propagandas de revistas, a TV, que eu nem tenho em casa, e o álcool, que eu não bebo, possuem coisas machistas. O consumo de carne está ligado a uma cultura machista e atrasada, e tem feminista enchendo o cu de carne a torto e a direito, sem dar um pio a respeito.

Recentemente uma figura publicitária causou polêmica por usar uma imagem supostamente machista, e os autores dela não ganharam um centavo com isso pois foi feita pela causa animal. A peça nas redes sociais brincou com a ideia de traição ou ciúme no Dia dos Namorados. A traição não é algo exclusivo do mundo masculino. O sexo não é algo destinado ao homem. Todo o material foi feito para pensar. Mas quem quer pensar em um espaço onde é melhor bater boca?

Ao redor da imagem havia animais mortos submetidos – como a mulher da foto, indignada, mas é problema dela pois ela tem escolha de dar um chute no cara – mas não importa os animais! Estes, como sempre, estão em última instância no círculo moral.

Tomemos como exemplo uma imagem real. Um protesto feminista de mulheres com seios à mostra seria exatamente o que os homens adorariam ver, especialmente aqui, neste país que explora a imagem de seios na TV, mas nunca a imagem da vagina exposta. E a maior parte das mulheres abomina a imagem da vagina e até suas denominações. As não-feministas e até mesmos estas poderiam apontar as protestantes como machistas, só porque estão mostrando o ‘objeto’ de desejo masculino, mas que para elas tem outro sentido?

É fácil mostrar os seios, que já estão na TV e em todo o lado, mas as mulheres que mostram a vagina politicamente e artisticamente são hostilizadas ate pelas suas companheiras feministas, mostrando que quem está na vanguarda está sempre sozinho. Não é mesmo?

Por outro lado, o comer é algo ligado ao sabor, a uma coisa boa. Comer também é um ato ligado ao sexo. É bom transar, pelo menos deveria ser. Sou mulher, tenho toda a possibilidade de fazer o que um homem faz. Faço se quiser, não preciso imitar. Que saco ficar esmiuçando termos e imagens nas redes sociais, quando o que acontece na vida das mulheres, crianças e jovens que nada sabem sobre jargões é um inferno e o movimento feminista está como uma múmia frente a isso. Essa conversa de libertário, amor livre, se desmancha ao ver uma insinuação de ciúme de uma propaganda, que, sinceramente, é fácil combater – basta mandar o cara às favas e escolher outro melhor, o que talvez confirme a proposta da campanha publicitária, a de comer uma coisa diferente! Melhor, fiel e vegano.

A comida sempre foi ligada ao sexo, pois sempre foi ligada ao prazer. Um homem que cozinha bem é sensual, saber cozinhar é atraente e bonito para uma mulher, pelo menos para mim. A paixão sempre foi ligada ao quente. O frio é ligado ao refrescante, ao distante do calor. Sempre que um homem ou uma mulher é quente dizemos que ele é apimentado, por exemplo. Dizemos o mesmo de comidas picantes.

Não preciso me alongar nesse ponto, eles o fazem. E há mulheres provocantes, picantes, que não estão nem aí para essa coisa fria do não-sexo, da não-associação.

Mas por que esse pessoal adora vir encher com teoria de Facebook? Eu sou feminista desde o tempo que ser feminista era ler livros e ser na prática. As propagandas machistas, outdoor com características opressoras eram estudadas e desde então tenho encontrado tais anúncios com sutilezas misóginas. Mas temos que ter cuidado com essa manias esquerdóides de querer taxar, examinar, achar que tudo no mundo tem de passar por sua teoria da conspiração. Nem tudo é tudo. Nem tudo é machista. Nem tudo é ‘a teoria de tudo’. Nem todos os homens são iguais. Sou diferente de todas as mulheres que conheci. E, sim, os homens podem falar sobre as mulheres. Falam mais e até melhor do que algumas mulheres. Qual é o medo de saber a opinião deles? Tenho nojo dessa soberba de achar que só porque tem um espaço em baixo da postagem de alguém na Internet, significa que você pode ir lá e pichar.

Ninguém vai lá na iniciativa privada. Porque morre de medo. E principalmente porque está cagando para o machismo deliberado – porque envolve grana – que existe na mídia e na sociedade. Todo mundo é bem reativo e instrumentalizado na obscuridade, mas covarde no meio da rua, às claras e quando tem que falar com uma empresa, com um SAC ou com as mulheres reais a quem subjuga ali na vida real. E isso vale para minhas companheiras mulheres. Delas eu posso falar porque sou mulher, ou não?

terça-feira, 10 de março de 2015

Da violência contra éguas e mulheres

Artigo de Marcio de Almeida Bueno - publicado na ANDA e no Olhar Animal http://www.anda.jor.br/category/colunistas/marcio-de-almeida-bueno e http://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/marcio-de-almeida-bueno

No vídeo, o cavalo está caído no chão, com as patas amarradas, e preso a um poste de madeira. Ele se debate, tenta se levantar – sem sucesso. Um gaúcho se aproxima – aquele bem caricato, com roupa típica, bigodão – e, com o chicote, espanca o rosto do cavalo. A cena é brutal. A pessoa que filma dá risadas. Pela voz, percebe-se que é uma mulher.

Trata-se da doma, à moda tradicional do Rio Grande do Sul.

No outro vídeo de faça-você-mesmo, uma égua é presa pela primeira vez pela boca, em um campo cercado. A corda, firme, está em um palanque. O gaúcho dá um susto no animal, que sai correndo, na sua força, sem saber do resultado. A corda estica é dá um tranco daqueles, inesperado. Dor e pavor. O processo se repete, e a égua dispara pelo gramado e então recebe o impacto. Chama-se ‘quebra de queixo’, uma espécie de ritual que diverte certa parcela da população ligada ao RS.

Não, o cavalo não é uma motocicleta que já vem de fábrica com acelerador, freio, marcha-a-ré e embreagem. Esses comandos todos são aprendidos, à custa de dor e, dali pra diante, temor para o resto da vida. Claro que a patricinha-de-feicibúqui que ‘adora cavalos’ e volta e meia vai a um sítio com passeios de montaria, jamais ficou sabendo disso. Não foi aos bastidores ver o choro do palhaço.

Porque estamos acostumados a ver o cavalo já com os arreios, com os apetrechos todos, na boca, cabeça, pescoço, costas, barriga. A propaganda é pesada, e mesmo um cavalinho de pelúcia, fofo, para dar de presente à namorada, já tem um arreio na boca. Reparem.

E há quem se auto-intitule vegano, aboliticonista ou defensor dos direitos animais, algo cool, e ao mesmo tempo passeia no lombo de um equino. Falo aqui 1% da dor física – sim, já existe a ‘doma racional’, parente do abate humanitário – e 99% da dor moral, uma vez que aquele quadrúpede vai passar o resto da vida obediente, Joãozinho-do-passo-certo, temeroso da próxima vez em que *aquela* dor vai voltar. A prova é que o ‘freio’ do cavalo-motocicleta é um puxão nas cordas, com mais ou menos força.

NInguém ousa se mexer na cadeira do dentista, quando *aquela* dor apita, não é mesmo?

E não citarei aqui a parte, digamos, odontológica aplicada ao nosso amigo cavalo, a seco, para fins de encaixe dos acessórios apropriados.

Bem, em 1984 fez muito sucesso uma música gauchesca – sim, há que se ter trilha sonora para o narrado acima – composta por Roberto Ferreira e Mauro Ferreira, chamada ‘Morocha’, cantada por um conjunto intitulado Davi Menezes Junior e Os Incompreendidos.

“Aprendi a domar amanunciando égua / E para as mulher vale as mesmas regras / Animal, te pára, sou lá do rincão / Mulher pra mim é como redomão / Paleador nas patas e pelego na cara”, diz o refrão da música. Traduzindo para a língua falada no Brasil, mais ou menos quer dizer que o autor aprendeu a amansar éguas, e aplica o mesmo procedimento às fêmeas de sua própria espécie, inclusive com uso de uma espécie de algemas e venda para os olhos – que fazem parte da doma equina, conforme o caso.

No vídeo disponível no YouTube, o cantor se apresenta com chicote na mão, e uma elegante senhora da platéia – com uma estola no pescoço equilvante a umas quatro raposas – passa o tempo todo vaiando e xingando os músicos. As demais mulheres focalizadas pela câmera aplaudem ou permanecem comportadas.

Curiosamente, uma música similar foi lançada em resposta à primeira. Intitulada ‘Morocha, não’, de Leonardo, um dos mais conhecidos cantores-compositor da música regional do RS, já falecido, respondia às bravatas. “Ouvi um qüera largado, gritando em uma canção / que as regra pra um ser humano é a mesma dos animais / que trata que nem baguais
maneando patas e mão” diz um trecho. Nota-se, claro, o especismo. Não podemos ser ingênuos. O refrão é “morocha não, respeito sim / Mulher é tudo, vida e amor / Quem não gostar que fique assim / Grosso, machista e barranqueador”.

Barranquear, traduzindo, é estuprar – isto vai ser contestado, mesmo que mentalmente, por muitos, que não vão se manifestar por vergonha – uma égua fazendo uso de um pequeno declive para que, digamos, os genitais fiquem na mesma altura.

Uma espécie de ritual que diverte certa parcela da população ligada ao RS.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A fantasia masculina da caça

A fantasia masculina da caça

Publicado no site Olhar Animal na Pensata Animal http://olharanimal.org/pensata-animal/autores/ellen-augusta

Por Ellen Augusta Valer de Freitas

O conto de que o homem era grande caçador na pré história é um fetiche machista fantasioso. Serve de justificativa para atitudes ultrapassadas ligadas ao abuso de animais, endossa a violência, pois a caça - e a pesca - nada mais é do que um ato covarde e bárbaro.

Jared Diamond percebe que algo está exagerado nesse tema, contado por homens.

No seu livro 'O terceiro chimpanzé - A evolução e o futuro do ser humano' há um trecho em que cita sítios arqueológicos onde foram encontrados, junto a ossos de animais diversos, ossos e restos fecais de hienas, que podem ter sido as verdadeiras caçadoras. Em muitos momentos, a humanidade foi simplesmente comedora de restos de animais. Deve-se considerar, além disso, que a maioria dos restos vegetais não se preservam ao longo do tempo.

Só aproximadamente 100.000 anos depois do primeiro humano aparecer é que se obteve alguns indícios de caça, bem ineficientes, aliás. A base da alimentação humana é vegetal, mas isso nunca é lembrado.

"Hoje, atirar num grande animal é visto como a expressão máxima da masculinidade machista. Enredados nessa mística, os antropólogos do sexo masculino gostam de enfatizar o papel crucial da caça de grandes animais na evolução humana.

Supostamente, a caça de grandes presas teria induzido os machos proto-humanos a cooperar entre si, desenvolver a linguagem e o cérebro grande, unir-se em bando e compartilhar alimentos. Até as mulheres foram supostamente moldadas pelas grandes presas", narra o biólogo.

O autor exclama - "quanta fantasia!". E com toda a razão. As mulheres são preteridas na história da evolução. É negligenciada a seleção sexual, hipótese interessante pois pressupõe interação entre os indivíduos, o que desenvolve a inteligência e diversas outras capacidades.

As pessoas passam adiante, sem conhecimento ou fonte, dúvidas sobre a evolução, como se fossem certezas. O andar ereto, o manuseio, o cuidado com as plantas, tudo pode ter contribuido ao mesmo tempo, e em tempos diferentes para a evolução de capacidades.

'O homem caça e a mulher coleta' - essa temática é a vigente e pouco foi questionada pelos arqueólogos convencionais. E ainda tem quem use essa falácia como argumento na hora de defender a caça e consumo de carne. Porque o homem a praticou, e muito mal, há 100.000 anos, devemos continuar? Se essa brutalidade deve ser praticada, podemos também retroceder em outras questões?

O humano é um ser que adora explorar a qualquer custo. A maior prova disso é que, mesmo hoje, com a popularização das discussões sobre ética, qualquer descoberta no sentido de que um ser não sinta 'dor' já é motivo para plena apologia ao seu uso, não importando sua dignidade, que é o que mais deveria importar, a despeito de qualquer sensação. O que interessa é que sirva como alimento, roupa, lucro! Até mesmo as recentes possíveis descobertas sobre condições para a vida fora do ambiente terrestre têm, nas mentes mesquinhas dos terráqueos humanos, o brilho de um único fim, o acampamento, a conquista, a exploração a qualquer preço. Quer-se fazer de um lugar imaginário, e talvez inacessível, o mesmo inferno que se está a fazer neste planeta.

Mas talvez a arrogância humana tenha algum dia um fim. Talvez existam outros seres mais poderosos, mais arrogantes ou talvez mais generosos ou simplesmente singelos, por fim, que suplantem nossa deselegante ignorância estelar, de nos considerarmos os únicos.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A vagina

A VAGINA... (Um artigo de Eliane Brum)

Li este ótimo artigo no site de Ezio Flavio Bazzo e achei tão perfeito que quero tê-lo aqui comigo, afinal, eu não só não tenho o menor nojo de vagina, como até mesmo adoro a minha, pronuncio todas as suas denominações, e faço votos de que as pessoas percam esse preconceito idiota e atrasado.
Todos nascemos de uma buceta e, de qualquer forma, temos de lidar com ela, não importa o sexo.

A. S.: E largue esse vício moderno de não ler coisas compridas e leia até o final, é um show de sabedoria.

Será que a revolução sexual falhou? Não é curioso que, neste ponto da aventura humana, o órgão feminino ainda ameace tanto? Evelyn Ruman, Casey Jenkins e Naomi Wolf são algumas das artistas que questionam a naturalização da violência contra o desejo das mulheres

Livro de Naomi Wolf, eu amo esta escritora. Absolutamente fã!!! Um dos temas deste artigo.
Evelyn Ruman conta que desembarcou no Vaticano sentindo-se uma espiã da Guerra Fria. Ela tinha se imposto uma missão arriscada, subversiva. Dentro do bolso da sacola de equipamento fotográfico havia um vidrinho com um líquido vermelho e um tanto viscoso. Evelyn se agachou, abriu a tampa e jogou seu conteúdo no chão. O fluido se espalhou sobre a calçada, as pedras. Ela sacou a câmera fotográfica e começou a documentar sua transgressão. Desenrolou a imagem de uma mulher nua, de costas, e a estendeu no chão. O vermelho agora escorria de interiores femininos. Nenhum guarda apareceu para impedi-la, nenhum turista a perturbou. Missão cumprida. Evelyn acabara de jogar sangue menstrual no centro do poder católico.
- Por que você quis fazer isso?, pergunto a ela. “Porque a Igreja Católica representa tudo aquilo que vem oprimindo as mulheres por séculos, tornando a vagina algo feio e fazendo do sangue menstrual uma coisa nojenta.”
Era janeiro de 2012 e Evelyn participava da Bienal Internacional de Arte de Roma. Durante dois anos ela armazenara seu sangue menstrual na geladeira de casa, em São Paulo, para realizar exposição que chamou de Sangro, logo existo. Seu casal de filhos, hoje com 23 e 18 anos, brincava que era o “carnição da mamãe”. Ao fazer esse percurso artístico, Evelyn se preparava para um momento doloroso para uma mulher: ter seu útero arrancado devido a um mioma. “Sempre gostei muito de menstruar”, diz ela.
Quando foi a Roma, Evelyn percebeu que sua menstruação estava atrasada. Para consumar seu objetivo, precisou pedir um pouco de sangue a uma feminista italiana, Sara Sacerdócio. Fez sua performance com sangue emprestado. A foto (ao lado) é uma das 27 imagens exibidas no EG2O (Escritório Galeria 2Olhares), na cidade histórica de Paraty, no litoral fluminense, até 6 de janeiro. Cinco delas ilustram esta coluna.
Evelyn trabalha desde 1988 com a autoimagem de mulheres. Presidiárias, internas de manicômios judiciários e instituições psiquiátricas comuns, camponesas de origem indígena, meninas com síndrome de Down, soropositivas para o vírus da Aids, ameaçadas por violência doméstica, velhas. Mulheres que a maioria prefere não enxergar. Nunca teve dificuldade para expor seu trabalho, premiado e reconhecido internacionalmente. Mas, quando tentou exibir sua obra moldada em sangue menstrual, encontrou as portas fechadas. Para mostrar o rosto de mulheres condenadas à invisibilidade, foi acolhida. Para mostrar seu corpo que sangra pela vagina não havia espaço. Talvez porque, ao expor o que se prefere escondido e envergonhado, a vítima tivesse virado o jogo. Em vez de compaixão, agora provocava medo.
 Evelyn descobriu-se sozinha. Mesmo outras mulheres, amigas fotógrafas, em todo o resto libertárias, classificaram suas fotos como “nojentas”. “Só consegui fazer a exposição porque abri minha própria galeria”, diz Evelyn. “Dá vontade de botar uma câmera para filmar a reação de nojo das pessoas, muitas delas mulheres, quando veem as fotos e percebem que é sangue menstrual, sangue que saiu de uma vagina, a minha. Se o sangue saísse de um pinto, será que teriam tanto nojo?”
 (Estou presumindo, claro, mas acredito que parte daqueles que leem este texto, a esta altura já soltaram alguns “que noooojo!”. Acertei? Ao comentar com alguns amigos que pretendia escrever sobre o tema, a reação foi: “Mas por quê?”. Por causa desta tua cara, respondi.)
Neste exato momento, a australiana Casey Jenkins realiza a performance que intitulou de Casting Off My Womb (em tradução livre, Tricotando o meu útero). A cada manhã, ela enfia um novelo de lã clara na sua vagina e tricota um cachecol. Ao menstruar, o tricô ganha rajados de vermelho sanguíneo e molhado. (vídeo aqui). O objetivo da intervenção, conforme ela declarou à imprensa, é tornar a vagina da mulher “menos chocante ou assustadora”. Casey queria mostrar que “a vagina não morde” ao ligá-la a um ato acolhedor e “quentinho”, identificado com avozinhas clássicas, como o de tricotar uma manta. O cachecol uterino que passa sensualmente pela vagina de Casey, acaricia seus grandes e pequenos lábios e faz cócegas no seu clitóris estará concluído ao final de 28 dias.
 (Mais nojo?)
O que, afinal, Casey está tricotando, lá no outro lado do mundo? O que Evelyn está tentando nos dizer com seu sangue, no lado de cá do mundo?
É provável que a escritora americana Naomi Wolf, autora de Vagina: uma biografia, que acaba de ser lançado em português pela Geração Editorial, tenha razão ao dizer que “a revolução ocidental sexual falhou”. Ou, pelo menos, “não funcionou bem o suficiente para as mulheres”. A própria trajetória do livro é a prova de que a vagina segue sendo ameaçadora – como corpo, como imagem, como palavra. Me arriscaria a dizer que até mais ameaçadora do que em décadas passadas. Quando a obra foi lançada, em 2012, no mercado de língua inglesa, a loja virtual da Apple colocou asteriscos no título: V****a. A velha vagina, censurada pela marca que representa o ápice do avanço tecnológico do nosso tempo, foi quase uma performance da denúncia contida no livro. Mas involuntária, o que torna tudo mais interessante. Me parece que o episódio fala mais de um momento de potência da vagina do que de vitimização.
Em seu livro, Naomi Wolf compreende a vagina como “o órgão sexual feminino como um todo, dos lábios ao clitóris, do introito ao colo do útero”. Esse todo forma uma complexa rede neural, na qual há pelo menos três centros sexuais – o clitóris, a vagina, o colo do útero – e possivelmente um quarto – os mamilos. Naomi defende que a vagina não é apenas carne, mas um componente vital do cérebro feminino, ligando o prazer sexual amoroso à criatividade, à autoconfiança e à inteligência da mulher. A conclusão é óbvia e não é nova, nem por isso menos importante: massacrar a vagina – ignorando-a ou tornando-a algo sujo, proibido e chulo, seja pelas palavras ou pelas ações – massacra as mulheres na inteireza do que são. Ao aniquilar a vagina, aniquila-se a mulher inteira, sequestra-se a sua potência. “Ao contrário do que somos levados a crer, a vagina está longe de ser livre no Ocidente nos dias de hoje”, diz Naomi. “Tanto pela falta de respeito como pela falta de entendimento do papel que ela exerce.”
Criticada até mesmo por parte das feministas, a biografia da vagina faz um percurso bastante curioso. Mesmo quem a elogia tem sempre uma graça para dizer, uma piadinha, algo que garanta um distanciamento desta escritora que a certo momento chega a falar em “dança da deusa”. Parece continuar obrigatório ser engraçadinho com qualquer menção à palavra vagina. Adultos maduros se expressam como se fossem adolescentes soltando risadinhas, o que em si já diz bastante coisa. Ao anunciar que escrevia o livro, Naomi foi recebida para um jantar entre amigos com um cardápio temático: massa em forma de vaginas e grandes (bem grandes mesmo) salsichas. Como finalização, filés de salmão, referindo-se ao cheiro de peixe relacionado ao órgão sexual feminino. Para aqueles homens intelectualizados de Nova York, a obviedade, um tanto bocejante, parecia muito divertida. Depois da “homenagem”, Naomi amargou um bloqueio criativo: por seis meses não conseguiu escrever uma palavra do livro. “Senti que havia sido punida – tanto no nível criativo quanto no físico – por ir a um lugar aonde as mulheres não deviam ir”, conta.
Se o livro de Naomi Wolf apresenta generalizações e pode ser questionado em alguns ou vários aspectos, como todos os livros, aliás, acho difícil que alguém, seja homem ou mulher, não tenha a vida ampliada por questões mais interessantes depois de ler Vagina: uma biografia. Se não fosse por mais nada, pelo simples fato de que, para muitos, demais, a vagina ainda é uma fenda, uma ferida, um buraco.
A pergunta que Evelyn, Casey e a própria Naomi nos propõe, a partir da expressão de cada uma, é por que, no século 21, no Ocidente, a vagina ainda provoca tanto antagonismo. E que efeito isso tem sobre a experiência cotidiana das mulheres, principalmente, mas também a dos homens. Ou sobre como isso empobrece enormemente a nossa vida sexual e afetiva, assim como a nossa vida como um todo. O maior mérito de cada uma delas ao se arriscar ao escárnio público – e, neste caso, sempre se pode contar com ele – é o de questionar a naturalização de um olhar sobre a vagina e as mulheres que nos viola a todas. E talvez a todos. Ao naturalizá-lo, oculta-se a trama histórica e não linear em que esse olhar foi sendo tecido, assim como as relações de poder que o determinam.
Não é tremendamente instigante que, neste ponto da aventura humana, a vagina das mulheres ainda assombre tanto que a violência contra ela parece ter recrudescido? Na época em que as revistas femininas ocupam uma parte considerável de suas páginas com lições para melhorar a performance sexual das mulheres, a vagina, aquela que parece não caber neste discurso atlético, vive tempos de escândalo. No mesmo período em que a Apple censurou a vagina como palavra no título do livro de Naomi Wolf, no Brasil o crítico de arte Jorge Coli teve interrompida a transmissão pela internet de sua palestra pela Academia Brasileira de Letras. Foi censurado no momento em que pronunciou a palavra “buceta” e mostrou A origem do mundo, o famoso quadro do francês Gustave Courbet, que retrata uma vagina entre coxas abertas. Ao longo de sua acidentada trajetória, o quadro esteve coberto por um véu, fosse uma cortina ou mesmo uma outra pintura. Só foi exposto sem nada ocultando-o depois que a família de seu último dono, o psicanalista Jacques Lacan, o doou ao Museu D’Orsay. Em fevereiro deste ano, a revista francesa Paris Match anunciou um “furo de reportagem”: a descoberta do suposto rosto da vagina famosa. Desta vez, o rosto que tentaram lhe impor, como uma parte faltante, teria a função de um véu definitivo. (Escrevi sobre isso aqui e aqui.)
Evelyn, Casey, Naomi, assim como outras artistas mundo afora, têm corajosamente tentado nos chamar a atenção para o fato de que tanto a censura quanto a piada ocultam algo que precisa ser enfrentado. Enfrentado porque estreita a nossa vida psíquica, afetiva e sexual, mas também porque é gerador de violência. Nas universidades brasileiras, os trotes às calouras têm se transformado nos últimos anos em episódios chocantes de agressões contra mulheres. Na Universidade de Brasília (UnB), em 2011, calouras tiveram de lamber leite condensado numa linguiça encapada com camisinha. Em 2012, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), duas estudantes foram amarradas a um poste. Os veteranos vestiram-se de policiais militares e colocaram camisinhas na ponta de cassetetes, obrigando-as a chupar os bastões. Em 2013, na UFMG, uma estudante com o corpo pintado de preto carregava um cartaz que dizia “caloura Chica da Silva”, em alusão à famosa escrava com este nome. As mãos estavam presas por uma corrente, que era controlada por um veterano. Também neste ano, uma caloura da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia denunciou à polícia ter sido obrigada a lamber pênis e testículos de bois. Ela desmaiou, sua boca sangrava. Na Universidade de São Paulo, no campus de São Carlos, realizou-se o concurso “Miss Bixete”, no qual as calouras são obrigadas a fazer um “desfile de beleza” repleto de situações humilhantes. Durante o trote, veteranos tiraram a roupa e simularam fazer sexo com uma boneca inflável. Distribuíram ainda um panfleto parodiando o best-seller Cinquenta Tons de Cinza, com os seguintes dizeres: “Cinquenta golpes de cinta – a cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida”. A série de violências sexuais contra as calouras torna-se ainda mais espantosa – e é preciso se espantar muito – se pensarmos que foram perpetradas por homens jovens e escolarizados, nascidos pós-revolução sexual, filhos de mulheres que usam anticoncepcionais e trabalham fora de casa.
Na semana passada, o radialista Fabiano Gomes, da Rádio Correio, da Paraíba, afirmou no programa Correio Debate que a polícia não deveria perder seu tempo investigando os casos em que homens divulgaram na internet imagens de mulheres nuas ou em relações sexuais. Ele se referia a um caso ocorrido na cidade paraibana de Pombal e ao recente suicídio de Júlia dos Santos, de 17 anos, no Piauí. Júlia e a gaúcha Giana Fabi, de 16 anos, enforcaram-se em outubro depois de sofrerem linchamento moral por terem fotos e vídeos íntimos postados nas redes sociais. Algumas das frases usadas pelo radialista: “Sem-vergonha é quem manda foto nua para o namorado”, “Foram pro espelho mostrar o chibiu”, “A cocotinha tirou foto nua pro namorado bater punheta”.
Se houve reação formal de repúdio ao episódio, vale a pena prestar atenção também na gravação, para escutar a opinião dos ouvintes, homens e também mulheres, ao apoiar as agressões do radialista. Se os comentários são uma amostra do senso comum, as meninas que mostraram seus corpos nus a homens em quem confiavam são “vagabundas”. É aterrador constatar que, às vésperas de 2014, depois de todas as conquistas feministas, num país governado pela primeira vez por uma mulher, duas adolescentes tenham sido tão humilhadas por terem seus corpos e seu desejo sexual expostos que preferiram morrer. Ao sacrificarem-se (ou serem sacrificadas), seguem sendo humilhadas. Na segunda década do século 21, no Brasil associado ao mito da liberação sexual dos trópicos, o corpo e o desejo feminino são tão ameaçadores que a morte não basta.
A violência contra a vagina é disseminada no cotidiano, dentro de casa, no trabalho, no percurso entre a casa e o trabalho, em todos os espaços, mesmo os de lazer. As mulheres estão tão habituadas a ela desde que nascem que já a internalizaram como “normal”. Ou reagem muito menos do que deveriam, resignadas por uma vida inteira de agressões tão corriqueiras que fingem não ligar. Que neste contexto ainda consigam ter desejo sexual e prazer com suas vaginas é um tanto impressionante.
Como ilustração, um resumo de alguns – só alguns – momentos da minha trajetória pessoal. Na primeira vez em que fui tocada por um homem, eu era criança. O homem era um menino ainda menor do que eu. Ao passar por mim na rua da cidade pequena, deu um tapa forte na minha vagina e disse: “bucetuda”. Foi meu primeiro contato. Voltei para casa chorando, mas me sentia tão envergonhada por ter uma vagina que não contei a ninguém. Adolescente, ao caminhar no centro de Porto Alegre de minissaia, um homem cuspiu nas minhas coxas. No ônibus lotado da faculdade, tentaram se masturbar na minha bunda mais de uma vez. Num Dia das Mães levei minha filha de nove anos ao cinema. Um homem sentou-se ao nosso lado e começou a se acariciar. Adulta, no trabalho, nas redações por onde passei, ouvi de tudo sobre a vagina, assim como minhas colegas. A melhor de todas: “A mulher é a parte chata da buceta”. Era dita por um homem inteligente e realmente gentil, que acreditava estar fazendo uma graça com colegas “sem frescura”. Nós ríamos para não sermos “a parte chata – e ainda por cima sem humor – da buceta”. Toda vez que escrevo algo que contraria algum grupo, como determinada polícia, recebo ameaças como: “vou te estuprar” ou “quero ver tua buceta”. Quando um líder evangélico discordou de um artigo que escrevi sobre as mudanças no Brasil provocadas pelo crescimento das igrejas neopentecostais, ao dar uma entrevista para o New York Times, entre todas as palavras disponíveis para me definir, ele escolheu esta: “tramp”. E lá estava eu, tomando café tranquilamente num sábado pela manhã, na minha casa, com minha família, quando o telefone começou a tocar: “Você viu que foi chamada de vagabunda no Times?”.
Assim é. Hoje, agora. E não me parece que a resposta para a violência naturalizada contra a vagina e o desejo sexual feminino seja transformar-se numa atleta sexual com orgasmos performáticos. Este é possivelmente um padrão para o consumo e para o mercado, muito mais à imagem, também estereotipada, do que seria um comportamento masculino na cama. Soa como uma resposta à repressão histórica, mas na prática está mais para uma embalagem palatável e enganadora para a mesma repressão, na medida em que não deixa de ser mais uma tentativa de controle sobre o corpo e o desejo feminino. A imagem da atleta sexual, determinada e agressiva, pode ser só uma outra prisão para as mulheres. A vagina e o desejo feminino, diferentes em cada uma, são muito mais complexos e potentes do que isso. Vale a pena lembrar que, na pornografia, a mulher que expõe sua vagina, seu ânus, sua nudez em cada detalhe e em close é aquela da qual menos sabemos.
Por tudo isso Evelyn, Casey e Naomi são tão importantes. O livro de Naomi costuma peregrinar por diferentes seções das livrarias, da pornografia a assuntos gerais, já que parece não haver lugar para encaixar a vagina. Evelyn precisou abrir uma galeria para conseguir expor suas fotos com sangue menstrual. E as matérias sobre Casey, na internet, em geral são colocadas em seções da vida “bizarra”, misturada a outras “bizarrices” como, por exemplo, vender carne de rato. A revista Time, que teve a clarividência de colocar sua performance como “arte”, decidiu fazer um título engraçadinho: Not Available on Etsy: This Woman Knits With Her, Uhhh Yeah (em tradução livre: “Não disponível na Etsy: esta mulher tricota com sua, hããã... Isso mesmo”) Sim, a vagina parece continuar impronunciável.
Quem escreve sempre tem um desejo. O meu é que talvez, em vez de dizer “que nojo!”, ao ler este texto você contenha a agressão ou a piada, sempre mais fáceis porque calam a possibilidade de reflexão. E comece a pensar sobre a vagina e o papel que cada um de nós desempenha, tanto nos atos quanto nas palavras quanto nas omissões, mesmo naqueles comentários que você acredita ser apenas uma mostra de humor, na reprodução de uma cultura de estupro e morte das mulheres. Morte física, mas também psíquica e criativa. Morte do desejo. Uma cultura que tem se ampliado e alcançado parâmetros novos com o poder de difusão da internet.
Se a violência contra a vagina tem aparecido – e em alguns casos aumentado – em diferentes espaços da sociedade, é legítimo pensar que o ímpeto de fortalecer a resposta repressiva ao desejo feminino possa revelar que as mulheres estejam assumindo um controle maior sobre seus corpos e a sua sexualidade. Neste sentido, a necessidade de fazer vítimas seria uma reação ao fato de as mulheres se recusarem com maior veemência a ocupar o lugar de vítimas. Nesta hipótese, a “Marcha das Vadias”, que começou no Canadá e ganhou o mundo e também o Brasil, é um exemplo contundente de uma ação feminina que desloca o imaginário, ao se apropriar da palavra da violência e transformá-la numa afirmação de potência, embaralhando a lógica machista. Mais uma vez, a vagina vive tempos turbulentos. Que são tempos de violência, já sabemos. Que sejam tempos de libertação, depende de nós.

Publicado no jornal EL PAIS
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua e A Menina Quebrada e do romance Uma Duas. Email: elianebrum@uol.com.br . Twitter: @brumelianebrum

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Violento viver

dedicado ao dia nacional da luta contra a violência à mulher
Roubaram-lhe o céu. Construíram um muro ao seu lado. Perdeu a vista dos prédios e das árvores... A mais velha, será arrancada.
A vizinha de baixo fuma o dia inteiro. Já teve câncer, mas acha que conseguiu superar. Até quando?
A churrasqueira começa a tostar a carne às nove da manhã, todo demoníaco dia.
As moscas sobem e entram pela cozinha.
A senhora que aparece na janela é uma vovó com seu cigarrillo, seus netos tossem. Suas filhas, mulheres, andam pela casa. São lindas.
Há um cão sozinho no apartamento de baixo.
Há gato curioso na janela da frente, pronto para voar ao chão, pois para ele não há proteção.
A dona do bar, recolhe as mesas, de olhos no balcão. Expressão envelhecida, roupas 'incorretas' para o padrão das outras mulheres.  Impassível, segue no ritmo do trabalho. Como são interessantes essas senhoras que peitam esse mundo masculino, esse reduto de solitários e bêbados.
As mulheres não confiam em outras mulheres.
'Ginecologista tem que ser homem'.
Afinal, ela se sente mais segura quando um homem autoriza seu corpo.
São bonecas nas mãos de um sistema que as tortura. São perfeitas no que fazem e fazem tudo, no papel que cumprem. Pensa que é livre, até onde aprendeu ser.
A violência mina as meninas.
As torna pequenas armadilhas de si mesmas.
O homem com sua arma de fogo. O pau é uma arma que a sociedade idolatra.
Ellen Augusta

terça-feira, 8 de julho de 2014

Woman is The Nigger of The World

Quando John Lennon fez essa música, ele foi acusado de machismo e racismo.
É impressionante que, quando alguém toca com os dedos os céus, sempre tem alguém que não entende, porque tem o olhar vendado.
Mulheres do Congo
Uma figura foi censurada, pois foi foi considerada especista e machista. A foto era justamente uma crítica ao especismo e ao machismo. Ela foi postada numa rede social. Mas as pessoas, acostumadas a não saber interpretar, entenderam o contrário.
Laerte fez um quadrinho em que sua família ia se revelando outra, como um sonho, e quando se deu conta, acordou na pele de uma pessoa negra. Sua crítica social foi mal interpretada e ele foi chamado de racista.
Quem nunca esteve no lugar do outro? Quem nunca se colocou no lugar daquele que sofre preconceito não tem compaixão nem alteridade. Não pode dizer-se humanitário.
John Lennon e Yoko Ono tinham essa liberdade, a de desafiar o mundo e libertarem-se dele. Muita gente não entendeu. Ela foi acusada de muitas coisas em relação aos Beatles. Como se ele não tivesse personalidade para decidir. Mais um sinal de machismo, que as pessoas sempre jogam em cima da mulher, novamente. Yoko Ono já era uma grande mulher quando conheceu John. E ele sempre foi um grande homem e sempre pensou por si mesmo, nunca precisou da influencia de uma mulher.
Mas a sensível música, talvez tenha sido mal traduzida para o Português, porque os carolas tem medo de traduzir a palavra nigger. Todas as traduções para o português usam a palavra 'negro', o que não é exatamente o que ele queria expressar.
Ele não usou a palavra em inglês que corresponderia a negro. Lennon usou um termo extremamente ofensivo e racista, propositadamente, para fazer uma crítica, e dizer que a mulher é considerada assim, perante o mundo. Quando se queria ofender um negro, usava-se a palavra 'nigger'. Por isso ele fez essa crítica.
Eu não vou colocar o link da música pois sempre depois de um tempo ele fica quebrado, pois os canais saem do ar, então espero que alguém busque ouvir na Internet. A letra é uma profunda percepção de onde estamos no mundo. Portanto busque você por este entendimento, pois eu também estou buscando. E quem sabe, se os homens nos colocam nesta posição, nós mesmas também estamos deste lado, trabalhamos nas instituições onde eles estão exercendo poder, sem nunca nos questionar se estamos a cumprir o papel que nos foi destinado. Quem sabe ainda estamos 'frágeis' ou 'tapadas', para seguir permitindo que mais frágeis sigam sofrendo: animais, homens pobres, negros, travestis, crianças, idosos, e quem sabe quantos mais, seres sensíveis que sofrem nas mãos de outros, sempre que se tem poder e força. Abaixo um link de um fato que acontece a muito tempo. Na primeira vez que fiquei sabendo disso, na presença de minha mãe ainda viva, choramos. Algo tão escancarado e dilacerado fere profundamente minha alma. Somos parte da culpa quando coniventes, de modo que nunca mais pude ficar em silêncio. Mas minha forma de gritar é outra.
Por gentileza, não leia somente, esse link abaixo:

http://www.dw.de/as-crian%C3%A7as-com-sangue-rebelde-da-rep%C3%BAblica-democr%C3%A1tica-do-congo/a-17238993

P.S.
Esperei para escrever este artigo depois da copa, pois torcia para os países pobres da América Latina e países africanos. São times pobres com bons jogadores. Até nisso o futebol é um jogo machista e excludente. Não tenho TV. Adoro narração de futebol por rádio embora não entenda nada, e não me importa. O futebol, que é um jogo apenas, é tomado por mãos poderosas, o povo cumpre o papel, as mulheres cumprem o papel, e se torna o que é.
Ellen Augusta

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A filha camareira - o filho hóspede

Quem nunca viu essa combinação em uma casa ou na sua cidade, tem sorte ou venda nos olhos.
Visitar um amigo e ver que a mãe lhe servia café e passava margarina no pão. Na cozinha a irmã esfregava panelas. E fazia tudo o mais.
Esse era o modelo de educação. Em muitos lugares ainda segue sendo.
A eterna desunião feminina começa neste egoísmo maternal. Nessa euforia de amar o homem a qualquer preço.
Passa por uma adolescência distanciada do ensinamento das mães, das avós.
É a sua amiga conversando mais com seu marido. E não com você.
É o casamento distanciando as mulheres, mais que o trabalho, este que deveria uni-las em projetos, não em competição.
Ficam isoladas, considerando que mais vale um homem que a riqueza da partilha.
 - Focando na limpeza da casa - talvez a única coisa que aprenderam com as mães e avós. -
Se encontram uma mulher admirável, em vez de se aproximar, secam, invejam, se afastam.
Conheci mulheres que moraram juntas, por determinado tempo, para criar os filhos. Por isso elas são tão alegres e inteligentes. São mulheres expansivas. Aprenderam que a vida não é o combo machista que as mulheres compram logo depois da adolescência.
Um egoísmo sem tamanho é uma mãe dar atenção a um dos filhos, deixando outro trabalhando. O paparicado, por sua vez, nem sempre é beneficiado, sendo pois prejudicado até mesmo intelectualmente.
Quem se interessaria por um sujeito inábil para tarefas simples, que garantem a sobrevivência em qualquer lugar do mundo? Bem, a maior parte de nossa geração anterior foi feita de homens que no máximo aprendiam a fazer 'churrasco' ou 'carreteiro', demonstrando que tem gosto para tudo e que não se teve escolha em maior parte das vezes.
Hoje, apesar do modelo antigo andar por aí, conheço mães, homens e mulheres diferentes que resolveram seguir um modelo novo, talvez por terem sofrido essa agressão, querendo mudar o futuro, talvez por terem aprendido a amar melhor, ou pela vontade de quebrar essa corrente, pelo menos em algum ponto. Só faz bem para a alma pensar no outro.
Ellen Augusta
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