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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Feministas Emancipadas e Feministas Ressentidas

Um artigo de Bruno Frederico Müller

"Aquele que vive para combater um inimigo tem interesse na continuidade de sua existência"
Friedrich Nietzsche

PREÂMBULO

Sempre foi minha política não me envolver em debates feministas. Por três motivos. Primeiro, porque como homem, provavelmente não seria bem-vindo e talvez eu mesmo não me sentiria à vontade. Segundo, porque o feminismo tem várias vertentes, e assumir uma posição apenas significaria sair queimado e chamuscado com o rótulo de "machista" pelas outras vertentes diferentes daquela à qual eu me alinhasse. Terceiro porque tenho aquele péssimo hábito do... pensamento crítico. Nunca compro NENHUMA teoria na sua integralidade, e não sem antes analisá-la minuciosamente, microscopicamente, em todos os seus detalhes.
Pois bem. Meu silêncio se encerra agora. Não é do meu feitio acovardar-me por muito tempo, e quem me julgar a partir deste texto estará dizendo mais sobre si do que sobre mim. "Conhece-te a ti mesmo". Eu sei quem sou e não vai ser um ente exterior que vai me colar o rótulo de machista - não sem um excelente arcabouço teórico e muitas evidências para sustentá-lo.
Enfim, depois da publicação da minha TRILOGIA MALDITA, que sequer era endereçada particularmente a elas, eu me vi sendo atacado por feministas virulentas me chamando não só de machista, mas de racista e até explorador de animais. Eu ri. Ri, e refleti. Pois graças aos meus textos também conheci ou estreitei laços com feministas que concordavam com eles e não se sentiram ofendidas na sua feminilidade.

E eu, como estou numa onda criativa de deduzir hipóteses mágicas que se corroboram a si mesmas sem qualquer esforço do investigador (eu), decidi forçar um pouco a minha sorte e formular mais uma hipótese.

Há dois tipos de feministas: as feministas emancipadas, e as feministas ressentidas.

FEMINISTAS EMANCIPADAS

As feministas emancipadas* são aquelas que não veem os homens como inimigos. Elas combatem o machismo como um fenômeno social, mas não guardam mágoas nem cobram "dívidas históricas". Elas sabem que a cor da pele e os genitais não ditam o caráter e as ideias de uma pessoa. Elas mantêm relações estreitas com indivíduos de todos os gêneros, e mantêm amizades e até relações íntimas e saudáveis com indivíduos do sexo masculino, sempre em relação de parceria. Elas buscam um diálogo construtivo. Elas olham para o futuro, o futuro sem discriminações, e não para o passado que não pode ser mudado.

No concernente aos animais, as feministas emancipadas de modo algum se sentem diminuídas quando expostas ao sofrimento, tortura e morte de fêmeas de outras espécies. Porque, emancipadas que são, elas têm aquela sensibilidade, aquela solidariedade que leva a desejar que sua condição livre seja a de a todos os outros seres - como dizia Simone de Beauvoir, com a exceção desta restringir-se à espécie humana. Elas entendem que a liberdade é mais do que uma necessidade de quem está acorrentado ou enjaulado - é, como dizia Jean-Paul Sartre, a própria condição do ser; de novo, com a exceção deste restringir-se à espécie humana. Assim, elas querem a liberdade animal tanto quanto a de si mesmas, quanto de seus irmãos e irmãs de jornada. Elas não querem reverter a ordem - elas querem subvertê-la.
Se amanhã, por mágica, o machismo desaparecesse, as feministas emancipadas se veriam felizes, realizadas, plenas. Sua energia criativa floresceria e voltar-se-ia para outras formas de ação ou diálogo construtivo.

FEMINISTAS RESSENTIDAS

As feministas ressentidas**, por outro lado, não conseguem conceber-se senão como vítimas de um sistema patriarcal opressivo. Elas não se percebem portadoras daquilo que Sartre denominava de "liberdade ontológica". Elas negam a própria liberdade e, assim, incorrem no que o mesmo pensador denominava de "má-fé" - pois podemos negar nossa liberdade, mas jamais renunciar a ela. Em outras palavras, elas ESCOLHEM se postar no papel de vítimas. Por mais que tenhamos efetivamente sofrido na vida, temos a liberdade de usar a dor de forma construtiva ou destrutiva, de modo que nos fortaleça ou nos torne ainda mais vulneráveis. Em outras palavras: emancipação ou vitimização.

Vítimas que são, as ressentidas odeiam seus opressores com todas as forças possíveis. E projetam seu ódio no opressor - denominando os homens de misóginos. É claro que existe misoginia - como existe misandria, o que muitas delas negam. Mas será que o ódio às mulheres está tão amplamente disseminada na sociedade (lembrando que machismo e misoginia não são intercambiáveis, e o segundo é provavelmente mais grave)? Ou será que a simples divergência perante conceitos e práticas das feministas ressentidas pode levar um homem a ser acusado de misoginia? Eu arrisco dizer que a misoginia (diferente do machismo), a despeito do perigo que representa às mulheres, está restrita a uma minoria dos homens. Digressões à espera de pesquisas que elucidem a questão...

Retomando: elas odeiam os homens e tudo que eles representam. O homem opressor. O falo opressor. Todo homem como potencial estuprador. E logo disseminam conceitos como "toda penetração é um estupro". Castração e puritanismo estão sempre à espreita no horizonte de uma feminista ressentida. A amizade ou intimidade torna-se problemática e disfuncional. E, suspeito eu, dificilmente em parceria, mas em condições de dominação de uma das partes.

Elas enxergam tudo como uma relação de poder, e não veem outra alternativa senão reverter tal correlação de forças - de modo que o diálogo igualitário com qualquer indivíduo do sexo masculino é inviável. Ou eles aceitam o debate nos termos por elas ditados, ou eles serão escorraçados e para sempre estigmatizados com o rótulo de "machista" e/ou "misógino". Aliás, consegue a feminista ressentida conceber qualquer homem, mesmo um submisso, como sendo nada além de um machista? Tenho minhas dúvidas...

Encontrando-se assim envenenadas pelo ressentimento, elas não percebem que se tornam presas do sistema que dizem combater. Elas necessitam do machismo como o soldado, da guerra. Elas reproduzem o machismo ao negar-se ao diálogo igualitário, ao separar de forma maniqueísta homens e mulheres (e negros e brancos, ocidentais e orientais, e todas essas falsas e superficiais dicotomias que não conseguem enxergar o conteúdo por detrás do invólucro). Elas tiram toda sua força e legitimidade do machismo e da misoginia. Elas dependem deles para sobreviver. Daí minha afirmação de que essa modalidade de feminista VENERA O MACHISMO***.

Disso resulta que a feminista ressentida não admite ser "comparada" com vacas, cabras, galinhas e fêmeas de outras espécies. Elas o veem como uma afronta, mais uma manifestação de misoginia, de ódio dos homens às mulheres, pois tais "comparações" seriam mais uma forma de humilhação, depreciação de seu gênero. Outro meio de submetê-las a esse sistema patriarcal opressor do qual só podem escapar pela reversão das forças de poder. Elas falam de empatia, mas somente com as "irmãs" e os "submissos" e aqueles que elas percebem como "oprimidos". Qualquer outro será enquadrado - ou silenciado - em nome da... empatia, termo que já percebi extremamente comum entre os ressentidos, mas que não poderia estar mais distante de sua prática.

Em conclusão, se o machismo acabasse amanhã, por mágica, as ressentidas estariam perdidas. A quem odiar? Quais forças de poder reverter? Como destruir o inimigo - se não há mais inimigo? Toda sua energia tóxica, venenosa, carcinogênica, elas teriam de dirigir para outro inimigo, ou para si mesmas, mergulhando em depressão profunda, pois a única coisa que cultivavam, que as mantinha vivas e altivas, subitamente se fez obsoleta - o ressentimento.

NOTAS

* Falo de "emancipadas" em vez de "empoderadas" por vários motivos: primeiro, porque são palavras próximas em significado, e é sempre preferível, neste caso, usar um termo consagrado a um neologismo. Segundo, porque de todo modo eu odeio neologismos, especialmente quando advindos de traduções tati-bitati de idiomas estrangeiros. Terceiro, porque "empoderar" é um verbo feio de dar dó.
** Emprego o conceito de ressentimento, neste breve ensaio, inspirado no sentido a ele atribuído por Friedrich Nietzsche, em Genealogia da Moral.
*** Afirmação que serviu de pretexto para meu banimento do grupo Veganismo e que, à primeira leitura, pode parecer não mais do que um insulto proferido no calor do momento. Ao contrário, ele foi muito pensado e refletido após o que testemunhei naquele mesmo grupo, por parte de feministas supostamente veganas. Tanto que só postei a dita afirmação no dia seguinte.

Bruno Frederico Müller é historiador e escritor.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Nós veganos temos que dar muita satisfação

A fragilidade de um ser ao auxiliar

Eu tive dificuldades de ver algumas coisas, mas nunca fui estúpida. Depois de vir morar nessa cidade, e, depois de entrar nas redes sociais, conheci pessoas maravilhosas e me aproximei delas. Mas conheci também muita gente indiferente - meus vizinhos. E muita gente estúpida - meus vizinhos virtuais.

Uma vez fui com uma vizinha lá na outra cidade onde nasci, num asilo para ajudar. Tive muita dificuldade pois sofri. Havia lá um carro de uma padaria, iam todo o domingo e levavam doces, salgadinhos, sucos. Eu já me questionava pois cada um dos idosos deixava a sua aposentadoria ali. Porém o lugar era precário. Onde estava o dinheiro? Eu tinha dificuldade de ver, mas nunca fui estúpida...

Nunca mais pude voltar ao lugar. Não conseguia. Para certas coisas não tenho coragem. Sou sim corajosa e tenho bondade porém respeito minhas limitações. Deixo para quem sim peita com bravura e vai lá. Mas tem que ir! Não ficar no sofá latindo sem parar. Eu nunca mais esqueci o que vi. E me fiz muitas perguntas, críticas, tanto para um lado, quanto para um outro.

Aqueles pais que fazem filho "para os cuidar na velhice" e todo mundo some, aqueles maus pais, que depois querem atenção, etc...tudo me passou pela cabeça mas tive compaixão.

Pois não sou ingênua. Posso ter dificuldades para ver algumas coisas, mas não sou cega. E eu sei, que vejo mais que a maior parte das pessoas.

Nós veganos temos que dar muita satisfação. Só que eu não dou. Pó Chorá.

Ninguém vai perguntar ao dono do frigorífico por que ele não está fazendo nada pelas pessoas. Ele apenas está matando. Ganhando dinheiro e vendendo carne. Não é só isso, ele está fazendo muito mais estrago. Mas ninguém pergunta nada para ele. Ao contrário, alguns até defendem.

Mas todo mundo vem tirar satisfação com os veganos. Somos culpados, somos responsáveis por tudo.
Nós não podemos errar nunca.

Eu poderia não fazer nada. Eu poderia também não escrever. Não.

Eu ajudo por revolta.
Porque odeio a vida.
Porque odeio este mundo.
Não suporto injustiça.

Por que quero dar a cada pessoa uma possibilidade de ter algo, com que curar suas feridas, assim como eu tenho todos os dias, um remédio para, senão curar, pelo menos amenizar as minhas.

Sou afortunada e feliz. Não sou como a maioria das pessoas que aparenta muita felicidade e esconde rancor e mágoa. Eu não perdoo.
E não vou morrer sem dizer o que penso na cara de todo mundo. Adoro ser espelho do que ninguém quer ver. Dessas pessoas que se arvoram libertárias, mas que no fundo são mais reacionárias do que os ditadores, seus argumentos se encostam.
Mas aqui na minha frente, ninguém vai bancar o que não é, porque eu vou escrever e desvelar.

É fazer comida e levar pra rua
Neste domingo nós fomos distribuir comida ali no centro. O lance é fazer comida vegana em casa, ir pra rua. E a ideia era ir ao encontro deles. Mas não precisou. Eles chegaram. Tinha gente de todo o tipo, cadeirante, pessoas sem calçado nos pés, gente com muita fome, outros que estavam com sede, menina, senhora, os vida loka, e alguns que vieram pegar roupas e já levavam uma quentinha para a casa. Nós fizemos comida na hora. Estava quente, saborosa. Nutritiva e vegana. Com todo o capricho, e mais do que tudo, demos atenção, pois sabemos que são pessoas solitárias.

E eu entendo bastante de solidão.

Os andantes que tinham animais de estimação foram orientados, os bichos receberam ração, também remédios. E a gente ficou um tempo ali servindo comida e conversando, até que a comida acabou.
É emocionante ver as pessoas comendo. É como quando eu vejo Chaves com sua fome sendo saciada. Chaves como símbolo de tantas crianças com fome. Chespirito, o autor do Chaves e sua turma, me definiu nos personagens pois ele criou a vizinhança pobre, como a minha família humilde.
Eu nunca passei fome, mas minha família, lá da parte de meus avós eram muito pobres e minha mãe sempre ajudava-os, vi a pobreza de perto. Não ter chuveiro elétrico, e nem luz, essas coisas. Não sofro com isso, nem romantizo, pois acho idiota romantizar qualquer coisa. As pessoas que hoje tenho contato, muitas não passaram por isso. Talvez não entendam o que é ser pobre, não ter quase nada. E choram quando perdem o celular.
Outros ficam nas redes sociais dando palpite, nos pedindo explicação e nos acusando de tudo, chamando os veganos de "elite" enquanto suas contas (e a sua universidade que só 1% da elite desse país tem acesso) é paga pelos pais ou pelo governo.
Amo Chaves pois ele torna universal e ensina a quem nunca viveu o que é ser pequeno e simples. Por isso me emocionei ao ver aquelas pessoas comendo.
Comer é um ato universal, todo ser vivo se alimenta.
Um senhor que comeu nossa comida, nos deu um passe de sua religião. Eu, mesmo descrente nas religiões e nos deuses, que nos traíram a muito tempo, fiquei muito emocionada perante a gratidão dele e em sua bênção, claro que aceitei! Pois a bondade é com certeza essa divindade que cultuamos dentro de nós.
Quando o segundo rapaz chegou, dei para ele a comida bem quentinha e um garfo, ele me pediu desculpas e perguntou se podia comer com a tampa, pois estava com muita fome.
Eu, por traz daqueles meus óculos "de policial" verti umas lágrimas.. Mas segui firme, pois era só o começo.

sábado, 29 de agosto de 2015

Porcos no Rodoanel: as feministas especistas e o baile da ignorância

por Ellen Augusta Valer de Freitas
Artigo publicado na Vanguarda Abolicionista, na ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais e no Olhar Animal - Pensata Animal e replicado onde mais as pessoas encheram o saco e ligaram o foda-se.

Estou a cada dia mais chocada com o retrocesso das mulheres nos tempos atuais. Mas não são todas as mulheres não. Existem muitas mulheres, batalhadoras, as do dia a dia, que estão pouco se lixando para essa troupe que agora quero me ater. Falo das feministas reacionárias, disfarçadas de pseudolibertárias. Esse tipinho facista que vem invadindo as redes sociais, para atacar o ativismo vegano.

Nossa luta já é árdua, mas temos que ficar às voltas com um povo atrasado com pinta de libertário, posando com roupas de gosto duvidoso e ideias que o grupo aprova.
Os reaças clássicos nem precisam fazer mais nada. Não. Pois essa gente está fazendo mais estrago. Estão entranhandos dentro dos movimentos, dando opiniões errôneas, equivocadas, insistentes e facistas, pois querem que todos sigam sua cartilha autoritária, sob a pena de ser barrado do baile dos politicamente corretos.
São opiniões perigosas pois passam por 'certas', pois têm apelo entre os do grupinho, tem vocabulário, jargão instrumentalizado, e são movidas por preconceitos enraizados, disfarçados de "teorias" só por que são bem ditas.
Essas feministas obedientes no fundo são as mais machistas, elas defendem macho. Estavam aos montes, nas postagens da Rodoanel, defendendo os motoristas, e não os animais. Elas defendem o status quo e não os vulneráveis. São umas mulherzinhas que tomam leite e comem ovos por que o pai ensinou. E muitas delas, com seus namorados, usaram imagens minhas e de minha amiga feminista vegana, para debochar de nossas imagens, mas não souberam peitar nossas ideias. Não foram "machas" para me bancar, é preciso fazer o jogo social de desqualificar mulher. Feminista de araque. Libertário de merda.

Sabemos que os animais tem emoções, desde Darwin. Ele escreveu um livro sobre isso, chamado: "A expressão das emoções nos homens e nos animais". Mas os argumentos dessas mulheres é que a diferença entre "as mulheres" e os animais é que estes não podem saber das agressões que sofrem. Oi? Me senti no supletivo. Sou professora e tive alunos melhores.
Agora sabemos por que ainda existe violência contra a mulher e por que ela está aumentando a olhos vistos diante da passividade das 'feministas', que só sabem postar xingamentos, e porque hoje o movimento pelos direitos animais está tão avançado passando até o movimento feminista, que se arrasta, diante desse marasmo mental. Pois essas pessoas nem aulas de Biologia frequentaram, pouco sabem de leituras mas se criou essa cultura do muito falar, sem critério, sem conteúdo. Nas postagens sobre direitos animais, elas chamam homens para as defender, chamam 'galeras' e apelam para baixarias, ideias falsas, falácias facilmente derrubáveis, tudo para negar o óbvio: que a exploração de animais e o consumo de laticínios é essa cultura machista e retrógrada onde elas estão enfiadas até o pescoço, estão adorando o mito da beleza, coisa que nunca ouviram falar, e estão cultuando o deus machista que tanto querem derrubar na outra, mas cultuam tão forte dentro delas mesmas.

Não suportam ver uma mulher vegana livre, que não se importa, que está ao lado do seu marido, dizendo foda-se eu não participo da cultura da morte. Não, elas precisam atacar com raiva e um pouquinho de inveja. Não suportam ver as ativistas ajudando animais, pois não suportam quem ajude algo que não seja seu próprio umbigo narcisista. As feministas chegaram ao ponto de defender os funcionário da Rodoanel, se colocando contra as mulheres que estavam lá ajudando os animais. Com aquele papinho de que o coitadinho estava sendo explorado, parece coisa de mãe defendendo o filho mais velho. Todo mundo conhece o arquétipo de mãe machista frente ao filho e à filha.

Nós somos contra todo o sistema que explora o funcinário, o motorista da rodoanel, o açougueiro, o assassino e a mulherzinha que vai no açougue bancar o assassinato.

Por isso nessa hora não nos interessa pagar pau para macho, nos interessa tirar os animais dali. Depois sim, o funcionário, é uma pessoa explorada sim, como qualquer outra pessoa do sistema que justamente usamos como argumento para que essa mesma 'feminista' pare de comer carne leite ovos, e ela curiosamente tão preocupada com isso, não para. Usamos sempre desse mesmo argumento, para que esses trabalhadores tenham trabalho melhores, pois a pecuária hoje é uma das áreas que mais tem trabalho escravo e degradante no país.

Uma outra se deu o trabalho de comparar um caso grave de violência doméstica que aconteceu aqui na Região Metropolitana onde uma mulher teve mãos e pés decepados com o caso dos porcos na rodoanel e óbvio que a culpa é "dos veganos". Achei o cumulo da falta de respeito. A pessoa só falava em cumprir metas. Fiquei pensando se, em vez de porcos fossem crianças, ou seus filhos, ela não calaria sua boca. Especista e cruel com a vida dos outros e usando o nome de outra mulher. Eu ajudei essa mulher com dinheiro que eu nem podia gastar. Não ajudei no caso dos porcos pois meu trabalho na causa animal é muito bom obrigada. Não tenho que dar satisfação. Mas neste caso falo, pois achei mesquinho da parte dessas feministas, que muito provavelmente não ajudaram com um real, mas tiveram disposição para fazer um meme, entrar na comunidade dos veganos, como se todo o dinheiro doado aos porcos viessem dos veganos. E sabemos que as doações vieram também da sociedade comum.

Esse ódio direcionado faz parte desse incômodo provocado pela consciência de que se está participando da sociedade da crueldade, do machismo, da cultura machista e retrógrada, mas como não se quer admitir, é preciso direcionar na outra o ranço, a raiva, a inveja daquela que já pode considerar-se livre das amarras machistas. É o velho jogo de ver a outra com um lindo vestido e querer jogar lama para o sujar. É ver a mulher magra e querer a desqualificar. É querer diminuir as outras causas para engrandecer sua causa, parada no tempo por falta de atualização, por falta de leitura e afinação com a ampliação do círculo moral que inclui os animais, especialmente as fêmeas.
Deve dar muita raiva ver que estamos livres e não precisamos escravizar fêmeas durante sua vida inteira, nem tiramos seus filhos, não usamos mais outros seres como objeto, não objetificamos outros animais, não somos hipócritas, falando em liberdade humana com animais sob nossos pés, e não somos ignorantes pois temos argumentos para nossa decisão.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Livros achados e doados - um balaio de gatos

 Apresento uma coleção de livros encontrados na Feira do Livro do ano de 2014. Alguns doados, outros trocados e alguns lidos. Não gasto um centavo em feiras caras, com livros caros e clichês.
Não tenha preconceito com livros. Não leia só os famosos. A tendência é acharmos bom aquilo que está na mídia, o que nos foi apresentado como aceitável. Existem outros livros de um mesmo escritor. Existem outras coisas desconhecidas.
 Procure por aqueles que nunca foram publicados, jamais foram anunciados. Procure os malditos, os desconhecidos.
Ah, e procure também os batidos, os que todos falam mal, e chamam de popularescos... ali também tem tesouros, mesmo que piegas ou místicos, que os "da alta" preferem ignorar com medo de parecerem gentalha.
Abra um livro e leia umas páginas com a cabeça fresca, antes de formar opiniões.
Lembre sempre que a publicidade te ensina a pensar o que é certo, consumível, bonito ou inteligente... será? Talvez...
Já li :)
Comprei alguns livros do Paulo Coelho. Já li praticamente toda a obra dele. O escritor vivo mais famoso do mundo.
Minha vontade de ter alguma coisa de sua obra em minha estante veio depois de ver o filme de sua biografia. Me deu uma puta saudade da minha adolescência, época em que li tudo que aparecia do escritor que era moda então. Hoje pouco se fala. Todo mundo tem vergonha de admitir que o leu, o lê, e até mesmo dizer que ele é bom. Como de costume, no Brasil, só se lê o que está na moda. Mas ele continua brilhando no mundo inteiro, onde as pessoas lêem o tempo todo.
Não li :)

 Este livro feminista é muito interessante. No início achei que era apenas um livro de auto ajuda, mas quando abri para ler, vi que é um livro prático sobre o comportamento feminino. Um guia para ensinar a mulher a ser mais afirmativa, dizer não, sim, ser firme nas suas decisões. É sim auto ajuda, mas bem diferente dos livros convencionais. Eu sempre fui de ler coisas feministas, tenho muitas aqui. Hoje muitas pessoas tem discurso na ponta da língua, mas não lê uma linha de nada. É exatamente por isso que muitas feministas ainda carregam o discurso ultrapassado, carnista, pois não se atualizaram. E não falo isso apenas pelo veganismo. Há uma série de questões a serem discutidas atualmente, e muitas ainda estão no tempo do 'queimar sutiã'.  Não leram mais nada depois disso ou nunca leram. 
Quando você aborda o veganismo e conversa cinco minutos com certas feministas, já desmonta o discurso delas. 
Imagina então como a sociedade machista e preparada para explorar fêmeas, deve adorar isso.
Peguem material para ler e produzam, senão o macharedo toma conta minhas filhas...
 Por que será que este livro me atraiu? A solidão é meu assunto preferido. Eu a conheço bem e vivo em paz com ela. Um livro muito interessante sobre pessoas solitárias, empregos nas grandes cidades e atitudes em solidão. Admirável!
 Um marcador de livros de chá... o destino o levou para mim...
 Este livro é sobre o assunto que mais me encanta: o rádio.
 Outro livro abordando o assunto solidão. Desta vez o tema são os profissionais da solidão. Como é o trabalhar só.
 Mais um livro para minha coleção de materiais e meus estudos sobre Portugal, o país que eu adoro e estudo. Alexandre Herculano, narrativas.
 A Vida Mística de Jesus eu queria ter lido a muito tempo atrás, e só agora o encontrei. Agora, atéia. Mesmo assim continuo me interessando por temas religiosos e, vez ou outra, leio livros sobre algum assunto quando me interessa. Não sei se eu leria todo esse livro, mas sempre me interessei por essa ideia. Quem não parou para pensar nisso? Mesmo com buracos de cupim, adotei este livro. Até agora, Jesus de Saramago, com Madalena, foi o mais convincente e verdadeiro. Mas o deste livro parece muito interessante também.
 Este livro é uma raridade. Eu doei para o troca troca de livros da feira.
 Mais um livro doado para o troca troca. Amo a rainha do crime, Agatha Christie.
Ela é simplesmente impecável e eterna.
 Livros que eu doei para o troca troca de livros.
 Livros que eu adquiri para minha Biblioteca de Terror.
 Um livro em espanhol do Gabriel García Márquez, Vivir Para Contarla
Aliás, no troca troca de livros havia um leitor que frequentava a biblioteca e deixava todos os dias vários livros em espanhol, e todos de ótima qualidade! Quem fofocou isso foi a atendente, que me contou que era um homem e que falava espanhol. Os livros eu pude averiguar, pois este é um deles. Este é outro dos livros de García Márquez  fora do eixo, eu nem sei se tem tradução dele aqui no Brasil. É sua autobiografia. No ano passado encontrei o livro de contos La increíble y triste historia de la cándida Eréndira y de su abuela desalmada, um dos melhores livros que eu li deste autor. Só que eu havia lido em português. Será que é do mesmo leitor misterioso, do troca troca de livros?
 Meus livros! Meu marido fez outra pilhona gigante, só dos livros dele... é muito bom ter livros, mas não me apego a nada, fico com eles, ano que vem, não sei se estarão aqui. O que importa é ler. Mas não garanto ler todos. Bem que eu gostaria...
 Este eu já li. E o comentário sobre ele está aqui: http://desobedienciavegana.blogspot.com.br/2014/11/truman-capote-sangue-frio-e-mulher-com.html
 Mais livros para minha Biblioteca de Terror
 Livros em espanhol, idioma que busco ler porque gosto. Estes temas, ao que pude notar, são suspense e terror.
 Mais um suspense/terror e um romance. Akhenaton e Nefertiti - Uma história Amarniana de dois escritores de Porto Alegre. Estou lendo e adorando! É um romance sobre este período obscuro da história egípcia.
 Mais dois livros, um deles para minha Biblioteca de Terror e a novela de Amy Tan em espanhol.
 E um livro da Seicho No Ie sobre prosperidade, que eu já li.
 Esses dois livros de terror são muito interessantes. Uma menina deixou lá, e por coincidência, levou os meus da Agatha Christie. Os leitores desse gênero sempre se encontram. Meu sogro adora esse tipo de leitura também. Ele vem aqui em casa e lê todos, em um dia ele lê um inteiro. Eu admiro, gostaria de ter essa agilidade para ler.
 Livros de fotografia. Esse é sobre o Mercado Público.
 Esse é sobre a Redenção e encontrei um sobre os povos do Rio Grande do Sul, que enviei para minha amiga de Minas Gerais.
 Um dos livros do Paulo Coelho que mais gostei. Eu procurei este livro logo depois que assisti seu filme: Não Páre na Pista. Assista o vídeo de Paulo Coelho do ano de 2014 onde ele mostra o momento mais emocionante do filme: um dos livros mais vendidos de todos os tempos sendo menosprezado pela gentalha das editoras.


Há até piadas práticas que alguns escritores famosos já fizeram, mandando alguns de seus livros mais obscuros para análise nestas bancadas esnobes. Depois eles publicavam as críticas das  mesmas, revelando coisas humilhantes, do tipo: "voce não tem nenhum talento para ser escritor", etc. Portanto, não confie nunca na opinião de críticos, jornalecos, TV, enfim. Leia você primeiro. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A vagina

A VAGINA... (Um artigo de Eliane Brum)

Li este ótimo artigo no site de Ezio Flavio Bazzo e achei tão perfeito que quero tê-lo aqui comigo, afinal, eu não só não tenho o menor nojo de vagina, como até mesmo adoro a minha, pronuncio todas as suas denominações, e faço votos de que as pessoas percam esse preconceito idiota e atrasado.
Todos nascemos de uma buceta e, de qualquer forma, temos de lidar com ela, não importa o sexo.

A. S.: E largue esse vício moderno de não ler coisas compridas e leia até o final, é um show de sabedoria.

Será que a revolução sexual falhou? Não é curioso que, neste ponto da aventura humana, o órgão feminino ainda ameace tanto? Evelyn Ruman, Casey Jenkins e Naomi Wolf são algumas das artistas que questionam a naturalização da violência contra o desejo das mulheres

Livro de Naomi Wolf, eu amo esta escritora. Absolutamente fã!!! Um dos temas deste artigo.
Evelyn Ruman conta que desembarcou no Vaticano sentindo-se uma espiã da Guerra Fria. Ela tinha se imposto uma missão arriscada, subversiva. Dentro do bolso da sacola de equipamento fotográfico havia um vidrinho com um líquido vermelho e um tanto viscoso. Evelyn se agachou, abriu a tampa e jogou seu conteúdo no chão. O fluido se espalhou sobre a calçada, as pedras. Ela sacou a câmera fotográfica e começou a documentar sua transgressão. Desenrolou a imagem de uma mulher nua, de costas, e a estendeu no chão. O vermelho agora escorria de interiores femininos. Nenhum guarda apareceu para impedi-la, nenhum turista a perturbou. Missão cumprida. Evelyn acabara de jogar sangue menstrual no centro do poder católico.
- Por que você quis fazer isso?, pergunto a ela. “Porque a Igreja Católica representa tudo aquilo que vem oprimindo as mulheres por séculos, tornando a vagina algo feio e fazendo do sangue menstrual uma coisa nojenta.”
Era janeiro de 2012 e Evelyn participava da Bienal Internacional de Arte de Roma. Durante dois anos ela armazenara seu sangue menstrual na geladeira de casa, em São Paulo, para realizar exposição que chamou de Sangro, logo existo. Seu casal de filhos, hoje com 23 e 18 anos, brincava que era o “carnição da mamãe”. Ao fazer esse percurso artístico, Evelyn se preparava para um momento doloroso para uma mulher: ter seu útero arrancado devido a um mioma. “Sempre gostei muito de menstruar”, diz ela.
Quando foi a Roma, Evelyn percebeu que sua menstruação estava atrasada. Para consumar seu objetivo, precisou pedir um pouco de sangue a uma feminista italiana, Sara Sacerdócio. Fez sua performance com sangue emprestado. A foto (ao lado) é uma das 27 imagens exibidas no EG2O (Escritório Galeria 2Olhares), na cidade histórica de Paraty, no litoral fluminense, até 6 de janeiro. Cinco delas ilustram esta coluna.
Evelyn trabalha desde 1988 com a autoimagem de mulheres. Presidiárias, internas de manicômios judiciários e instituições psiquiátricas comuns, camponesas de origem indígena, meninas com síndrome de Down, soropositivas para o vírus da Aids, ameaçadas por violência doméstica, velhas. Mulheres que a maioria prefere não enxergar. Nunca teve dificuldade para expor seu trabalho, premiado e reconhecido internacionalmente. Mas, quando tentou exibir sua obra moldada em sangue menstrual, encontrou as portas fechadas. Para mostrar o rosto de mulheres condenadas à invisibilidade, foi acolhida. Para mostrar seu corpo que sangra pela vagina não havia espaço. Talvez porque, ao expor o que se prefere escondido e envergonhado, a vítima tivesse virado o jogo. Em vez de compaixão, agora provocava medo.
 Evelyn descobriu-se sozinha. Mesmo outras mulheres, amigas fotógrafas, em todo o resto libertárias, classificaram suas fotos como “nojentas”. “Só consegui fazer a exposição porque abri minha própria galeria”, diz Evelyn. “Dá vontade de botar uma câmera para filmar a reação de nojo das pessoas, muitas delas mulheres, quando veem as fotos e percebem que é sangue menstrual, sangue que saiu de uma vagina, a minha. Se o sangue saísse de um pinto, será que teriam tanto nojo?”
 (Estou presumindo, claro, mas acredito que parte daqueles que leem este texto, a esta altura já soltaram alguns “que noooojo!”. Acertei? Ao comentar com alguns amigos que pretendia escrever sobre o tema, a reação foi: “Mas por quê?”. Por causa desta tua cara, respondi.)
Neste exato momento, a australiana Casey Jenkins realiza a performance que intitulou de Casting Off My Womb (em tradução livre, Tricotando o meu útero). A cada manhã, ela enfia um novelo de lã clara na sua vagina e tricota um cachecol. Ao menstruar, o tricô ganha rajados de vermelho sanguíneo e molhado. (vídeo aqui). O objetivo da intervenção, conforme ela declarou à imprensa, é tornar a vagina da mulher “menos chocante ou assustadora”. Casey queria mostrar que “a vagina não morde” ao ligá-la a um ato acolhedor e “quentinho”, identificado com avozinhas clássicas, como o de tricotar uma manta. O cachecol uterino que passa sensualmente pela vagina de Casey, acaricia seus grandes e pequenos lábios e faz cócegas no seu clitóris estará concluído ao final de 28 dias.
 (Mais nojo?)
O que, afinal, Casey está tricotando, lá no outro lado do mundo? O que Evelyn está tentando nos dizer com seu sangue, no lado de cá do mundo?
É provável que a escritora americana Naomi Wolf, autora de Vagina: uma biografia, que acaba de ser lançado em português pela Geração Editorial, tenha razão ao dizer que “a revolução ocidental sexual falhou”. Ou, pelo menos, “não funcionou bem o suficiente para as mulheres”. A própria trajetória do livro é a prova de que a vagina segue sendo ameaçadora – como corpo, como imagem, como palavra. Me arriscaria a dizer que até mais ameaçadora do que em décadas passadas. Quando a obra foi lançada, em 2012, no mercado de língua inglesa, a loja virtual da Apple colocou asteriscos no título: V****a. A velha vagina, censurada pela marca que representa o ápice do avanço tecnológico do nosso tempo, foi quase uma performance da denúncia contida no livro. Mas involuntária, o que torna tudo mais interessante. Me parece que o episódio fala mais de um momento de potência da vagina do que de vitimização.
Em seu livro, Naomi Wolf compreende a vagina como “o órgão sexual feminino como um todo, dos lábios ao clitóris, do introito ao colo do útero”. Esse todo forma uma complexa rede neural, na qual há pelo menos três centros sexuais – o clitóris, a vagina, o colo do útero – e possivelmente um quarto – os mamilos. Naomi defende que a vagina não é apenas carne, mas um componente vital do cérebro feminino, ligando o prazer sexual amoroso à criatividade, à autoconfiança e à inteligência da mulher. A conclusão é óbvia e não é nova, nem por isso menos importante: massacrar a vagina – ignorando-a ou tornando-a algo sujo, proibido e chulo, seja pelas palavras ou pelas ações – massacra as mulheres na inteireza do que são. Ao aniquilar a vagina, aniquila-se a mulher inteira, sequestra-se a sua potência. “Ao contrário do que somos levados a crer, a vagina está longe de ser livre no Ocidente nos dias de hoje”, diz Naomi. “Tanto pela falta de respeito como pela falta de entendimento do papel que ela exerce.”
Criticada até mesmo por parte das feministas, a biografia da vagina faz um percurso bastante curioso. Mesmo quem a elogia tem sempre uma graça para dizer, uma piadinha, algo que garanta um distanciamento desta escritora que a certo momento chega a falar em “dança da deusa”. Parece continuar obrigatório ser engraçadinho com qualquer menção à palavra vagina. Adultos maduros se expressam como se fossem adolescentes soltando risadinhas, o que em si já diz bastante coisa. Ao anunciar que escrevia o livro, Naomi foi recebida para um jantar entre amigos com um cardápio temático: massa em forma de vaginas e grandes (bem grandes mesmo) salsichas. Como finalização, filés de salmão, referindo-se ao cheiro de peixe relacionado ao órgão sexual feminino. Para aqueles homens intelectualizados de Nova York, a obviedade, um tanto bocejante, parecia muito divertida. Depois da “homenagem”, Naomi amargou um bloqueio criativo: por seis meses não conseguiu escrever uma palavra do livro. “Senti que havia sido punida – tanto no nível criativo quanto no físico – por ir a um lugar aonde as mulheres não deviam ir”, conta.
Se o livro de Naomi Wolf apresenta generalizações e pode ser questionado em alguns ou vários aspectos, como todos os livros, aliás, acho difícil que alguém, seja homem ou mulher, não tenha a vida ampliada por questões mais interessantes depois de ler Vagina: uma biografia. Se não fosse por mais nada, pelo simples fato de que, para muitos, demais, a vagina ainda é uma fenda, uma ferida, um buraco.
A pergunta que Evelyn, Casey e a própria Naomi nos propõe, a partir da expressão de cada uma, é por que, no século 21, no Ocidente, a vagina ainda provoca tanto antagonismo. E que efeito isso tem sobre a experiência cotidiana das mulheres, principalmente, mas também a dos homens. Ou sobre como isso empobrece enormemente a nossa vida sexual e afetiva, assim como a nossa vida como um todo. O maior mérito de cada uma delas ao se arriscar ao escárnio público – e, neste caso, sempre se pode contar com ele – é o de questionar a naturalização de um olhar sobre a vagina e as mulheres que nos viola a todas. E talvez a todos. Ao naturalizá-lo, oculta-se a trama histórica e não linear em que esse olhar foi sendo tecido, assim como as relações de poder que o determinam.
Não é tremendamente instigante que, neste ponto da aventura humana, a vagina das mulheres ainda assombre tanto que a violência contra ela parece ter recrudescido? Na época em que as revistas femininas ocupam uma parte considerável de suas páginas com lições para melhorar a performance sexual das mulheres, a vagina, aquela que parece não caber neste discurso atlético, vive tempos de escândalo. No mesmo período em que a Apple censurou a vagina como palavra no título do livro de Naomi Wolf, no Brasil o crítico de arte Jorge Coli teve interrompida a transmissão pela internet de sua palestra pela Academia Brasileira de Letras. Foi censurado no momento em que pronunciou a palavra “buceta” e mostrou A origem do mundo, o famoso quadro do francês Gustave Courbet, que retrata uma vagina entre coxas abertas. Ao longo de sua acidentada trajetória, o quadro esteve coberto por um véu, fosse uma cortina ou mesmo uma outra pintura. Só foi exposto sem nada ocultando-o depois que a família de seu último dono, o psicanalista Jacques Lacan, o doou ao Museu D’Orsay. Em fevereiro deste ano, a revista francesa Paris Match anunciou um “furo de reportagem”: a descoberta do suposto rosto da vagina famosa. Desta vez, o rosto que tentaram lhe impor, como uma parte faltante, teria a função de um véu definitivo. (Escrevi sobre isso aqui e aqui.)
Evelyn, Casey, Naomi, assim como outras artistas mundo afora, têm corajosamente tentado nos chamar a atenção para o fato de que tanto a censura quanto a piada ocultam algo que precisa ser enfrentado. Enfrentado porque estreita a nossa vida psíquica, afetiva e sexual, mas também porque é gerador de violência. Nas universidades brasileiras, os trotes às calouras têm se transformado nos últimos anos em episódios chocantes de agressões contra mulheres. Na Universidade de Brasília (UnB), em 2011, calouras tiveram de lamber leite condensado numa linguiça encapada com camisinha. Em 2012, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), duas estudantes foram amarradas a um poste. Os veteranos vestiram-se de policiais militares e colocaram camisinhas na ponta de cassetetes, obrigando-as a chupar os bastões. Em 2013, na UFMG, uma estudante com o corpo pintado de preto carregava um cartaz que dizia “caloura Chica da Silva”, em alusão à famosa escrava com este nome. As mãos estavam presas por uma corrente, que era controlada por um veterano. Também neste ano, uma caloura da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia denunciou à polícia ter sido obrigada a lamber pênis e testículos de bois. Ela desmaiou, sua boca sangrava. Na Universidade de São Paulo, no campus de São Carlos, realizou-se o concurso “Miss Bixete”, no qual as calouras são obrigadas a fazer um “desfile de beleza” repleto de situações humilhantes. Durante o trote, veteranos tiraram a roupa e simularam fazer sexo com uma boneca inflável. Distribuíram ainda um panfleto parodiando o best-seller Cinquenta Tons de Cinza, com os seguintes dizeres: “Cinquenta golpes de cinta – a cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida”. A série de violências sexuais contra as calouras torna-se ainda mais espantosa – e é preciso se espantar muito – se pensarmos que foram perpetradas por homens jovens e escolarizados, nascidos pós-revolução sexual, filhos de mulheres que usam anticoncepcionais e trabalham fora de casa.
Na semana passada, o radialista Fabiano Gomes, da Rádio Correio, da Paraíba, afirmou no programa Correio Debate que a polícia não deveria perder seu tempo investigando os casos em que homens divulgaram na internet imagens de mulheres nuas ou em relações sexuais. Ele se referia a um caso ocorrido na cidade paraibana de Pombal e ao recente suicídio de Júlia dos Santos, de 17 anos, no Piauí. Júlia e a gaúcha Giana Fabi, de 16 anos, enforcaram-se em outubro depois de sofrerem linchamento moral por terem fotos e vídeos íntimos postados nas redes sociais. Algumas das frases usadas pelo radialista: “Sem-vergonha é quem manda foto nua para o namorado”, “Foram pro espelho mostrar o chibiu”, “A cocotinha tirou foto nua pro namorado bater punheta”.
Se houve reação formal de repúdio ao episódio, vale a pena prestar atenção também na gravação, para escutar a opinião dos ouvintes, homens e também mulheres, ao apoiar as agressões do radialista. Se os comentários são uma amostra do senso comum, as meninas que mostraram seus corpos nus a homens em quem confiavam são “vagabundas”. É aterrador constatar que, às vésperas de 2014, depois de todas as conquistas feministas, num país governado pela primeira vez por uma mulher, duas adolescentes tenham sido tão humilhadas por terem seus corpos e seu desejo sexual expostos que preferiram morrer. Ao sacrificarem-se (ou serem sacrificadas), seguem sendo humilhadas. Na segunda década do século 21, no Brasil associado ao mito da liberação sexual dos trópicos, o corpo e o desejo feminino são tão ameaçadores que a morte não basta.
A violência contra a vagina é disseminada no cotidiano, dentro de casa, no trabalho, no percurso entre a casa e o trabalho, em todos os espaços, mesmo os de lazer. As mulheres estão tão habituadas a ela desde que nascem que já a internalizaram como “normal”. Ou reagem muito menos do que deveriam, resignadas por uma vida inteira de agressões tão corriqueiras que fingem não ligar. Que neste contexto ainda consigam ter desejo sexual e prazer com suas vaginas é um tanto impressionante.
Como ilustração, um resumo de alguns – só alguns – momentos da minha trajetória pessoal. Na primeira vez em que fui tocada por um homem, eu era criança. O homem era um menino ainda menor do que eu. Ao passar por mim na rua da cidade pequena, deu um tapa forte na minha vagina e disse: “bucetuda”. Foi meu primeiro contato. Voltei para casa chorando, mas me sentia tão envergonhada por ter uma vagina que não contei a ninguém. Adolescente, ao caminhar no centro de Porto Alegre de minissaia, um homem cuspiu nas minhas coxas. No ônibus lotado da faculdade, tentaram se masturbar na minha bunda mais de uma vez. Num Dia das Mães levei minha filha de nove anos ao cinema. Um homem sentou-se ao nosso lado e começou a se acariciar. Adulta, no trabalho, nas redações por onde passei, ouvi de tudo sobre a vagina, assim como minhas colegas. A melhor de todas: “A mulher é a parte chata da buceta”. Era dita por um homem inteligente e realmente gentil, que acreditava estar fazendo uma graça com colegas “sem frescura”. Nós ríamos para não sermos “a parte chata – e ainda por cima sem humor – da buceta”. Toda vez que escrevo algo que contraria algum grupo, como determinada polícia, recebo ameaças como: “vou te estuprar” ou “quero ver tua buceta”. Quando um líder evangélico discordou de um artigo que escrevi sobre as mudanças no Brasil provocadas pelo crescimento das igrejas neopentecostais, ao dar uma entrevista para o New York Times, entre todas as palavras disponíveis para me definir, ele escolheu esta: “tramp”. E lá estava eu, tomando café tranquilamente num sábado pela manhã, na minha casa, com minha família, quando o telefone começou a tocar: “Você viu que foi chamada de vagabunda no Times?”.
Assim é. Hoje, agora. E não me parece que a resposta para a violência naturalizada contra a vagina e o desejo sexual feminino seja transformar-se numa atleta sexual com orgasmos performáticos. Este é possivelmente um padrão para o consumo e para o mercado, muito mais à imagem, também estereotipada, do que seria um comportamento masculino na cama. Soa como uma resposta à repressão histórica, mas na prática está mais para uma embalagem palatável e enganadora para a mesma repressão, na medida em que não deixa de ser mais uma tentativa de controle sobre o corpo e o desejo feminino. A imagem da atleta sexual, determinada e agressiva, pode ser só uma outra prisão para as mulheres. A vagina e o desejo feminino, diferentes em cada uma, são muito mais complexos e potentes do que isso. Vale a pena lembrar que, na pornografia, a mulher que expõe sua vagina, seu ânus, sua nudez em cada detalhe e em close é aquela da qual menos sabemos.
Por tudo isso Evelyn, Casey e Naomi são tão importantes. O livro de Naomi costuma peregrinar por diferentes seções das livrarias, da pornografia a assuntos gerais, já que parece não haver lugar para encaixar a vagina. Evelyn precisou abrir uma galeria para conseguir expor suas fotos com sangue menstrual. E as matérias sobre Casey, na internet, em geral são colocadas em seções da vida “bizarra”, misturada a outras “bizarrices” como, por exemplo, vender carne de rato. A revista Time, que teve a clarividência de colocar sua performance como “arte”, decidiu fazer um título engraçadinho: Not Available on Etsy: This Woman Knits With Her, Uhhh Yeah (em tradução livre: “Não disponível na Etsy: esta mulher tricota com sua, hããã... Isso mesmo”) Sim, a vagina parece continuar impronunciável.
Quem escreve sempre tem um desejo. O meu é que talvez, em vez de dizer “que nojo!”, ao ler este texto você contenha a agressão ou a piada, sempre mais fáceis porque calam a possibilidade de reflexão. E comece a pensar sobre a vagina e o papel que cada um de nós desempenha, tanto nos atos quanto nas palavras quanto nas omissões, mesmo naqueles comentários que você acredita ser apenas uma mostra de humor, na reprodução de uma cultura de estupro e morte das mulheres. Morte física, mas também psíquica e criativa. Morte do desejo. Uma cultura que tem se ampliado e alcançado parâmetros novos com o poder de difusão da internet.
Se a violência contra a vagina tem aparecido – e em alguns casos aumentado – em diferentes espaços da sociedade, é legítimo pensar que o ímpeto de fortalecer a resposta repressiva ao desejo feminino possa revelar que as mulheres estejam assumindo um controle maior sobre seus corpos e a sua sexualidade. Neste sentido, a necessidade de fazer vítimas seria uma reação ao fato de as mulheres se recusarem com maior veemência a ocupar o lugar de vítimas. Nesta hipótese, a “Marcha das Vadias”, que começou no Canadá e ganhou o mundo e também o Brasil, é um exemplo contundente de uma ação feminina que desloca o imaginário, ao se apropriar da palavra da violência e transformá-la numa afirmação de potência, embaralhando a lógica machista. Mais uma vez, a vagina vive tempos turbulentos. Que são tempos de violência, já sabemos. Que sejam tempos de libertação, depende de nós.

Publicado no jornal EL PAIS
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua e A Menina Quebrada e do romance Uma Duas. Email: elianebrum@uol.com.br . Twitter: @brumelianebrum

domingo, 2 de novembro de 2014

A publicidade das mulheres frágeis - e o seu silêncio

Há mais de dez anos eu li artigos de feministas questionando a propaganda de marcas que ilustravam mulheres em posições de submissão, fragilizadas, ou em situações de completa inutilidade, algumas imagens sugerindo que haviam sofrido violações, ou que estavam em posição de presas, ou mesmo em situação de inanição. A lista é longa, mas a noção é uma só: a mulher na propaganda, naquela época, era um ser objetificado, inútil, que apenas servia de manequim, para vestir roupas, usar jóias e sapatos.

O homem, em contrapartida, já era ilustrado como um ser arrojado no trabalho, com a família, em romances, no seu carro. De lá para cá eu observava isso por todo o lado. Se hoje isso mudou um centímetro, ainda continua pairando a mesma mensagem idiota: a mulher quer ser esse lustre de cristal.
Muitas mulheres acreditaram nisso, se iludiram, foram levadas a tal. Existe uma pressão mercantilista muito forte nessas campanhas. E fora delas, na sociedade inteira, silenciosa, o tempo todo. Mas, não vamos culpar os outros vida afora. Vamos nos responsabilizar um pouco. E, depois de adultas, nós mesmos podemos nos educar para a tomada de posição. Não é fácil e, eu mesma sinto as dores do peso de sair fora do padrão.
Ontem eu vi um out door com uma imagem de lascar! Uma mulher com as duas mãos na cara, tapando o rosto, de uma forma perturbadora. Para exibir as jóias.

Eu me pergunto: Em que situação da vida de uma mulher, é necessário fazer uma coisa dessas?
É muito bizarro. Os exemplos de propagandas em que modelos aparecem de pernas abertas, em posições ridículas, olhares meio retardados, são lugar comum. E o pior, essas 'inovações' também se estendem em propagandas infantis - e só para meninas. É de se perguntar qual é o projeto perverso dessa intenção?

Meninas/crianças, de meia calça, bunda de fora, perninhas abertas, calcinhas a mostras e outras situações em momentos inadequados, ilustrando brinquedos, roupas infantis. E mães infantilizadas não são capazes de abrir o bocão e se manifestar. Acham tudo a maior fofura.
Eu já ouvi de um homem a observação de que essas fotografias de caixinhas de meia-calça infantis são eróticas demais para serem expostas nas prateleiras de supermercados.

A última dos místicos dos produtos de beleza, é a polêmica propaganda da modelo passeando com sua bunda (como se fosse a bolsa nova) e os macharedo observando a retaguarda, quando ela olha e lhes pergunta: você sabe por que eu sou feliz?
Não é por nada que a colunista da rádio que eu ouço definiu tudo numa ótima pergunta: Oi? Agora a felicidade mora na bunda?

E enquanto você continuar achando que isso tudo é exagero, as mulheres continuarão a ganhar menos, enfiar todo o seu dinheiro no rabo dos grandes empresários, vendedores de ilusão para rejuvenescimento e casamento/felicidade e lixo para enganar trouxas, e os disparates entre os sexos continuarão cada vez mais evidentes.
As últimas listas de diferenças salariais estão cada vez mais gritantes no país. Não vou detalhar aqui. O estudo saiu essa semana, procurem!
O índice de estudo entre mulheres e homens estão cada vez mais desiguais e pasmem, quem estuda mais (mulher), ganha menos. Quem estuda menos (homem), ganha mais, segundo o estudo recente. Está na hora de abrir a boca e pedir aumento! Está na hora de apoiar a outra. E não silenciar.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Para quem escolheu votar em um homem para fazer as escolhas por você

Aprovado projeto que proíbe propaganda com teor sexual perto de escolas

A Câmara Municipal de Porto Alegre aprovou em sessão ordinária realizada nesta segunda-feira (27/10), no Plenário Otávio Rocha, o projeto de lei do Legislativo nº 153/13 de autoria do vereador Elizandro Sabino (PTB) que visa disciplinar o uso do Mobiliário Urbano e Veículos Publicitários no Município e proíbe a instalação de propaganda com teor sexual ou que possa instigar a sexualidade, em áreas que ficam a uma distância de no mínimo 200 (duzentos) metros de escolas.

Segundo o parlamentar, o objetivo é proteger a formação das crianças e adolescentes que são seres em desenvolvimento. “O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê que crianças e adolescentes tenham a sua condição peculiar de pessoas em desenvolvimento resguardada, uma vez que não possuem maturidade adulta”, explicou Sabino.

Desta forma, vereador está propondo a inclusão de mais um inciso no caput do art. 51 da lei nº 8.279, de 20 de janeiro de 1999, que disciplina o uso do mobiliário urbano e veículos publicitários no município. “A propaganda atua na esfera do imaginário. É um elemento fundamental de persuasão e sedução. Como está lidando com o imaginário, ela vende não só o produto, mas aquilo que ele significa ou representa”, justifica Sabino.

[(Agora mulherada, a - tente para este detalhe

Esconda as crianças e adolescentes e mantenham numa redoma de vidro. Eis o resultado: a sociedade atual. Cheio de adolescentes alienados, meninas grávidas, estupro, abusos de todos os tipos, meninas aceitando a violência e achando que faz parte do jogo. Preconceitos... e esse machismo, porque, 'faz parte'.)]

Emenda rejeitada

A emenda 1, da vereadora Fernanda Melchionna (PSOL), foi rejeitada por 16 votos contra e oito favoráveis. A proposição da parlamentar tinha como finalidade incluir no projeto uma exceção da aplicação desta lei, no que tange à publicação de materiais vinculados à educação sexual e para a diversidade, assim como todos os materiais de prevenção a DST/Aids, combate a homofobia, lesbofobia e transfobia e de conscientização sobre métodos contraceptivos.

Texto: Maurício Macedo (reg. prof. 9532)

 Mariana Kruse (reg. prof. 12088)
Edição: Marco Aurélio Marocco (reg. prof. 6062)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O que há de errado com Pamela Anderson?

De Ellen Augusta - artigo publicado na ANDA e na Pensata Animal

O ativismo pelos animais em muito tem semelhanças com o ativismo feminista, mas podemos perceber hoje exemplos de comportamentos questionáveis entre ativistas pela causa animal.

O que há de errado com a Pamela Anderson? A meu ver nada. Mas percebe-se que, entre mulheres vegetarianas, ela não é muito bem-vinda. Seja pelo seu comportamento que alegam ser fútil ou pela sua aparência: o fato é que ser mulher, famosa, rica, linda e ainda por cima lutar pelos animais tem incomodado muita gente. Pessoas como Morrissey, por exemplo, saem do palco e fazem o que querem, mas não têm essa visão negativa por parte do público. Então por que ela tem?

É uma pergunta que incomoda, pois não há nada de errado em ser vegetariana e usar a sua fama, dinheiro e influência para promover essa causa. Ser vegetariano/vegano não tem relação com o sexo ou com o contexto social das pessoas. Eu posso ser fútil e rica e mesmo assim posso ter consciência de algo que realmente me parece óbvio, que é o sofrimento animal. Se há sexismo e preconceitos diversos nas campanhas, isso é uma outra discussão que não envolve logicamente apenas o meio ativista.

Todos nós temos nossos momentos de futilidade, e a futilidade masculina é curiosamente aceita ou possui outros nomes, a feminina não. O próprio conceito (ser fútil) é vago e o senso popular há muitos séculos não nos serve de referência do que é verdade ou não.

A belíssima Brigitte Bardot é um exemplo de beleza e ativismo e provavelmente em sua época foi dessa forma criticada pelas mulheres de seu tempo. Hoje ela já é velha (e continua linda na minha opinião) e “pode” ser ativista numa boa, mas por que a Pamela Anderson não pode?

A Brigitte Bardot usou seu tempo, sua beleza, influência e dinheiro para ajudar os animais e faz isso de maneira intensa até hoje. Ela é uma referência feminina para muitas mulheres e um exemplo para todos. Provavelmente teve todas as “facilidades” da fama e todas as “futilidades” ao seu alcance, mas ao longo do tempo refletiu e agiu. Será que muitos de nós que nos rogamos corretos e com ‘bom senso’ seríamos assim mesmo, se tivéssemos a oportunidade que estas mulheres tiveram de usar seu dinheiro para a causa animal? Será que muitas das pessoas que possuem o estereótipo de “eco-lógicas” na sua essência são realmente preocupadas com os animais?

Por isso acredito que essa crítica que a ativista Pamela Anderson sofre agora é mais baseada na insegurança feminina, no machismo generalizado, na inveja, do que em algo palpável. E gostaria de estar errada.

Não há problema nenhum em ser bonita, em usar a imagem ou o que quer que seja, se a pessoa é adulta e dona de si. A causa animal não é um dogma, ela é uma ideia e muitas ações em conjunto. Não é uma religião onde mulher não possa entrar pois “ameaça”, pois é uma “tentação”. A mente humana está deveras imersa em conceitos puristas, nossa própria linguagem é baseada em ideias antiquadas, pois nossos ancestrais eram assim. Por isso, temos mesmo que nos desvencilhar de certos conceitos que nos impedem de ver algo real e só ver malícia onde não há.

A mulher vegana deve ter em mente que os meios usados para a escravidão dos animais, exploração da natureza e o condicionamento social a que estamos imersos são muito semelhantes às formas de controle social da mulher. Sejam veladas ou escancaradas, essas formas de controle existem e é bom abrir os olhos para não seguirmos além dos séculos reproduzindo estas ideias.

E um viva à beleza dessas mulheres!!

Obs.: Para quem ainda acha que não existe machismo e que as pessoas exageram quanto ao feminismo, uma sugestão de leitura abaixo que serve muito bem para estas pessoas e contém muitas dicas para os ativistas veganos:

Wolf, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. 439p.
Para ler este e outros artigos na minha coluna no site Olhar Animal - Revista Pensata Animal, clique no link:
http://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/ellen-augusta

terça-feira, 22 de julho de 2014

A amiga e o Hip Hop

Adoro música. Não entendo de música.
Vamos ao funk, rap, hip hop.
E ao break!
Eu via na Rua da Praia, final dos anos 80, uma galera dançar break com aqueles rádios grandes carregados no ombro, bem coisa anos 80. Eles faziam toda aquela coreografia.
Amo o funk antigo que vem dos Estados Unidos, que aqui praticamente ninguém conhece, como por exemplo, o Uptovn Funk Empire. O funk carioca também curto. Um pouco de humor que tal?
- A música negra, vítima de preconceito -
A classe média hoje está em cima do funk, ontem o alvo era o samba.
Sim meus amigos. Os pobres tinham que sambar escondido.
Hoje o samba é chique e todos acham fino sambar.
Me encantam todas as variações que começaram  no chorinho ou no partido alto. Também aceito um bom pagode.
A indústria cultural transforma, pega o que quer, corrompe e vende para o populacho (classe média também é povão viu meu bem?) que pensa 'ter bom gosto'. Tem quem se venda em qualquer lugar, mas no meio mais humilde há principalmente pessoas que caem nas armadilhas de gente muito esperta.
Pois neste sábado minha amiga me convidou para um lance de hip hop ali no centro.
O pessoal dançou break, houve apresentações e venda de CDs e artes.
Eu que passei tanto tempo sem ouvir Hip Hop, nas minhas fases Sem-Música... (é amigas, sou assim... meu defeito número um milhão e....).
O pessoal se aproximou para assistir o show de break e até o anjo colaborou com as moedas...
Encontrei crianças alegres, dançando...A moradora de rua foi tirando a roupa e ficou com a parte de cima de um biquini... sem pudor.
O centro é algo incrível. O centro é o centro.
Me sinto feliz ali. Sempre tem gente simples, diferente, de todos os tipos.
Se o anjo ajudou, por que eu não?
Uma vez ouvi no rádio as feministas defendendo as mulheres do funk. Elas responderam a uma psicóloga que acusou as funkeiras de provocar os homens com seus shortinhos enfiados nas bundas. (Sim, se a pessoa se forma em psicologia para fazer esse tipo de análise - eu prefiro escrever neste blog). Afirmaram que elas usam shortinho porque é a maneira da mulher pobre, da favela, expressar sua identidade sexual. A mulher de classe média e alta usa salto alto, que é um símbolo sexual, mas sai por aí falando mal da funkeira.  Por que a mulher de classe média pode usar um símbolo sexual e a outra mulher não pode usar shortinho? Até por que ninguém usa salto alto por que é confortável. Por que não podemos ser sensuais?
Mulher sem-cérebro é o que mais tem por aí, mas isso não significa que ter um cabeção te faz ter sabedoria.
A banalização do sexo/violência e a industrialização da música é outra conversa, mas o preconceito precisa ficar de lado. Não é dando uma de preconceituoso reaça que você vai acabar com a falta de educação. Há outros grupos culturais com os mesmos problemas, como o tradicionalismo gaúcho, com o machismo gritante, violência contra animais, sectarização, etc. De CTG e bailão ninguém fala nada.
Nosso dia foi super musical. Super dançante, afinal!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Socióloga analisa impactos do Bolsa Família sobre as mulheres

Os países desenvolvidos, todos eles, tem programas assistenciais, mil vezes melhores e mais abrangentes que o nosso. Na Inglaterra, por exemplo, se eu não quiser trabalhar, tudo bem. Vou ao governo e ele me sustenta. Nada mal, para um país mil vezes mais civilizado e educado que o nosso.
O bolsa família é na verdade uma obrigação. Já que nosso dinheiro todo vai para o país, por que não retornar um pouco para quem precisa? O que eles ganham no Bolsa, eu gasto no super em uma tarde. Acho válido dar uma chance para quem precisa. Pois negligenciar isso, significa um país miserável em todos os sentidos, não só financeiramente.
Quem reclama do bolsa família, na minha opinião, é mais miserável do que quem não tem condições de se sustentar.
Parabéns ao único governo (Lula e Dilma) que fizeram o básico, que é tornar o Brasil um lugar decente.

O artigo abaixo é do site Sul21

Socióloga analisa impactos do Bolsa Família sobre as mulheres

Adria de Souza
Com o dinheiro na mão, mulheres beneficiárias do Bolsa Família reorganizam a vida e começam a se planejar, afirma pesquisadora da Unicamp | Foto: Adria de Souza/Prefeitura de Olinda
Igor Natusch
Atualmente atendendo 12,5 milhões de famílias, o Bolsa Família ainda é alvo de críticas de vários setores, que vêem no programa um caráter assistencialista e que não prepara os beneficiados para a busca de modos próprios de sustento. Um estudo de Walquíria Domingues Leão Rego, professora do programa de pós-graduação em Sociologia da Unicamp, vai contra essa visão. Segundo a pesquisa, que já dura cinco anos, o dinheiro do Bolsa Família não apenas melhora a vida das famílias, como muda a percepção dessas pessoas sobre a sua própria vida, fator desencadeado pelo controle das mulheres sobre dinheiro do programa.
Walquíria Leão Rego fez a pesquisa por conta própria, sem apoio financeiro da Unicamp ou do governo federal. Financiou as viagens do próprio bolso, agendando as excursões em seus períodos de férias. A seu lado em parte da pesquisa, esteve o filósofo italiano Alessandro Pinzani, que leciona na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ainda não está definida a editora que publicará o trabalho, o primeiro a abordar de forma acadêmica os impactos do Bolsa Família sobre as mulheres de regiões de menor renda.
A ideia da pesquisa surgiu em 2005. “Eu tinha uma percepção de que a Bolsa Família provocaria impactos sobre a subjetividade das mulheres”, diz Walquíria. Para estudar a fundo a questão, a pesquisadora se dispôs a ouvir as mulheres das regiões mais pobres do Brasil. Visitou o sertão e o litoral de Alagoas, esteve nas periferias de São Luís e Recife e visitou o interior de Piauí e Maranhão. Foi também até o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e à Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Lugares, em sua maioria, onde impera o trabalho informal, já que as oportunidades de emprego são quase inexistentes e o Estado é pouco atuante. As viagens, que começaram em 2006, só foram encerradas em maio deste ano.
“É muito diferente ser pobre em algumas dessas regiões e ser pobre na periferia de São Paulo, onde bem ou mal existem alternativas. Essas regiões continuam sendo carentes de boas estradas, escolas, postos de saúde. A população é em sua maioria semianalfabeta, os níveis de escolaridade são baixíssimos e não existem opções de emprego. São situações que acentuam as dificuldades”, descreve a professora da Unicamp. “As mudanças são muito lentas, por estarmos tratando de questões enraizadas e reforçadas a séculos.”

Walquíria: "A vida delas mudou porque o universo de escolhas se amplia. E exercer o direito de escolha é uma questão fundamental para a democracia" | Foto: Unicamp
“Há um aprendizado”, diz professora da Unicamp
O principal impacto, de acordo com Walquíria Leão Rego, deve-se ao fato do Bolsa Família ser entregue em dinheiro, sem a intromissão de autoridades locais como prefeitos ou vereadores. “Se fosse uma cesta básica, aí sim teríamos espaço para o assistencialismo, porque não seria possível desenvolver certas capacidades e competências que o dinheiro, em sua função comunicativa e simbólica, acaba estimulando”, argumenta.
Ela exemplifica dizendo que várias mulheres consultadas admitiram que, no primeiro mês em que receberam o benefício, acabaram gastando todo o valor rapidamente. Em meses seguintes, porém, elas já conseguem organizar seus gastos de forma que o dinheiro recebido durasse até o começo do mês seguinte. “Há um aprendizado”, descreve a socióloga. “Essas pessoas vão aos poucos adquirindo a capacidade de programar a própria vida, além de adquirirem escolhas, como ter a opção de comer macarrão ou batata uma vez por semana, por exemplo. É algo pequeno, mas que se aplica a pessoas que não tinham nenhuma margem para escolher e agora estão desenvolvendo essa capacidade”.
Há efeitos evidentes, segundo a pesquisadora, também sobre a visão que essas mulheres fazem de si mesmas. “Elas passaram a ter crédito”, conta. “Fiz algumas entrevistas muito significativas, onde elas me falavam desse sentimento novo, de se tornar uma pessoa confiável. E elas se tornam pessoas muito mais cuidadosas, até porque passam a ter mais responsabilidades, perante a família e perante o Estado. Precisam apresentar a carteira de vacinação e os boletins escolares dos filhos para continuar recebendo”. Quase nenhuma delas dá o dinheiro para o marido, diz a professora, justamente pelo sentimento de responsabilidade que a obtenção dos recursos traz. “Algumas das entrevistadas disseram que não há futuro para elas, mas que querem usar o dinheiro para garantir um futuro para seus filhos”.
Walquíria explica que a renda do Bolsa Família estimulou o surgimento de pequenas fábricas familiares de alimentos, ou mesmo de confecções de pequeno porte. Na medida em que gerenciam esses recursos, as famílias se tornam capazes de melhorias em sua qualidade de vida, fazendo pequenos reparos em suas casas ou mesmo adquirindo eletrodomésticos e antenas parabólicas, mesmo que usadas. Algumas já estariam até demandando intervenções cirúrgicas para não ter mais filhos. “A vida delas mudou porque o universo de escolhas se amplia. E exercer o direito de escolha é uma questão fundamental para a democracia”.
A situação dos homens, no entanto, pode se tornar um fator de preocupação para o futuro próximo. “Eles estão abandonados”, adverte Walquíria. “São pobres, sem educação, não conseguem emprego e se sentem inferiorizados. Eles não são pequenos proprietários que possam usufruir do Pronaf. São pessoas esquecidas. Não há políticas para eles.” Para potencializar os efeitos do Bolsa Família sobre as populações carentes, segundo a socióloga, seria necessário um trabalho de valorização cultural e econômica dessas comunidades, além de investimentos em educação.
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