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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Feministas Emancipadas e Feministas Ressentidas

Um artigo de Bruno Frederico Müller

"Aquele que vive para combater um inimigo tem interesse na continuidade de sua existência"
Friedrich Nietzsche

PREÂMBULO

Sempre foi minha política não me envolver em debates feministas. Por três motivos. Primeiro, porque como homem, provavelmente não seria bem-vindo e talvez eu mesmo não me sentiria à vontade. Segundo, porque o feminismo tem várias vertentes, e assumir uma posição apenas significaria sair queimado e chamuscado com o rótulo de "machista" pelas outras vertentes diferentes daquela à qual eu me alinhasse. Terceiro porque tenho aquele péssimo hábito do... pensamento crítico. Nunca compro NENHUMA teoria na sua integralidade, e não sem antes analisá-la minuciosamente, microscopicamente, em todos os seus detalhes.
Pois bem. Meu silêncio se encerra agora. Não é do meu feitio acovardar-me por muito tempo, e quem me julgar a partir deste texto estará dizendo mais sobre si do que sobre mim. "Conhece-te a ti mesmo". Eu sei quem sou e não vai ser um ente exterior que vai me colar o rótulo de machista - não sem um excelente arcabouço teórico e muitas evidências para sustentá-lo.
Enfim, depois da publicação da minha TRILOGIA MALDITA, que sequer era endereçada particularmente a elas, eu me vi sendo atacado por feministas virulentas me chamando não só de machista, mas de racista e até explorador de animais. Eu ri. Ri, e refleti. Pois graças aos meus textos também conheci ou estreitei laços com feministas que concordavam com eles e não se sentiram ofendidas na sua feminilidade.

E eu, como estou numa onda criativa de deduzir hipóteses mágicas que se corroboram a si mesmas sem qualquer esforço do investigador (eu), decidi forçar um pouco a minha sorte e formular mais uma hipótese.

Há dois tipos de feministas: as feministas emancipadas, e as feministas ressentidas.

FEMINISTAS EMANCIPADAS

As feministas emancipadas* são aquelas que não veem os homens como inimigos. Elas combatem o machismo como um fenômeno social, mas não guardam mágoas nem cobram "dívidas históricas". Elas sabem que a cor da pele e os genitais não ditam o caráter e as ideias de uma pessoa. Elas mantêm relações estreitas com indivíduos de todos os gêneros, e mantêm amizades e até relações íntimas e saudáveis com indivíduos do sexo masculino, sempre em relação de parceria. Elas buscam um diálogo construtivo. Elas olham para o futuro, o futuro sem discriminações, e não para o passado que não pode ser mudado.

No concernente aos animais, as feministas emancipadas de modo algum se sentem diminuídas quando expostas ao sofrimento, tortura e morte de fêmeas de outras espécies. Porque, emancipadas que são, elas têm aquela sensibilidade, aquela solidariedade que leva a desejar que sua condição livre seja a de a todos os outros seres - como dizia Simone de Beauvoir, com a exceção desta restringir-se à espécie humana. Elas entendem que a liberdade é mais do que uma necessidade de quem está acorrentado ou enjaulado - é, como dizia Jean-Paul Sartre, a própria condição do ser; de novo, com a exceção deste restringir-se à espécie humana. Assim, elas querem a liberdade animal tanto quanto a de si mesmas, quanto de seus irmãos e irmãs de jornada. Elas não querem reverter a ordem - elas querem subvertê-la.
Se amanhã, por mágica, o machismo desaparecesse, as feministas emancipadas se veriam felizes, realizadas, plenas. Sua energia criativa floresceria e voltar-se-ia para outras formas de ação ou diálogo construtivo.

FEMINISTAS RESSENTIDAS

As feministas ressentidas**, por outro lado, não conseguem conceber-se senão como vítimas de um sistema patriarcal opressivo. Elas não se percebem portadoras daquilo que Sartre denominava de "liberdade ontológica". Elas negam a própria liberdade e, assim, incorrem no que o mesmo pensador denominava de "má-fé" - pois podemos negar nossa liberdade, mas jamais renunciar a ela. Em outras palavras, elas ESCOLHEM se postar no papel de vítimas. Por mais que tenhamos efetivamente sofrido na vida, temos a liberdade de usar a dor de forma construtiva ou destrutiva, de modo que nos fortaleça ou nos torne ainda mais vulneráveis. Em outras palavras: emancipação ou vitimização.

Vítimas que são, as ressentidas odeiam seus opressores com todas as forças possíveis. E projetam seu ódio no opressor - denominando os homens de misóginos. É claro que existe misoginia - como existe misandria, o que muitas delas negam. Mas será que o ódio às mulheres está tão amplamente disseminada na sociedade (lembrando que machismo e misoginia não são intercambiáveis, e o segundo é provavelmente mais grave)? Ou será que a simples divergência perante conceitos e práticas das feministas ressentidas pode levar um homem a ser acusado de misoginia? Eu arrisco dizer que a misoginia (diferente do machismo), a despeito do perigo que representa às mulheres, está restrita a uma minoria dos homens. Digressões à espera de pesquisas que elucidem a questão...

Retomando: elas odeiam os homens e tudo que eles representam. O homem opressor. O falo opressor. Todo homem como potencial estuprador. E logo disseminam conceitos como "toda penetração é um estupro". Castração e puritanismo estão sempre à espreita no horizonte de uma feminista ressentida. A amizade ou intimidade torna-se problemática e disfuncional. E, suspeito eu, dificilmente em parceria, mas em condições de dominação de uma das partes.

Elas enxergam tudo como uma relação de poder, e não veem outra alternativa senão reverter tal correlação de forças - de modo que o diálogo igualitário com qualquer indivíduo do sexo masculino é inviável. Ou eles aceitam o debate nos termos por elas ditados, ou eles serão escorraçados e para sempre estigmatizados com o rótulo de "machista" e/ou "misógino". Aliás, consegue a feminista ressentida conceber qualquer homem, mesmo um submisso, como sendo nada além de um machista? Tenho minhas dúvidas...

Encontrando-se assim envenenadas pelo ressentimento, elas não percebem que se tornam presas do sistema que dizem combater. Elas necessitam do machismo como o soldado, da guerra. Elas reproduzem o machismo ao negar-se ao diálogo igualitário, ao separar de forma maniqueísta homens e mulheres (e negros e brancos, ocidentais e orientais, e todas essas falsas e superficiais dicotomias que não conseguem enxergar o conteúdo por detrás do invólucro). Elas tiram toda sua força e legitimidade do machismo e da misoginia. Elas dependem deles para sobreviver. Daí minha afirmação de que essa modalidade de feminista VENERA O MACHISMO***.

Disso resulta que a feminista ressentida não admite ser "comparada" com vacas, cabras, galinhas e fêmeas de outras espécies. Elas o veem como uma afronta, mais uma manifestação de misoginia, de ódio dos homens às mulheres, pois tais "comparações" seriam mais uma forma de humilhação, depreciação de seu gênero. Outro meio de submetê-las a esse sistema patriarcal opressor do qual só podem escapar pela reversão das forças de poder. Elas falam de empatia, mas somente com as "irmãs" e os "submissos" e aqueles que elas percebem como "oprimidos". Qualquer outro será enquadrado - ou silenciado - em nome da... empatia, termo que já percebi extremamente comum entre os ressentidos, mas que não poderia estar mais distante de sua prática.

Em conclusão, se o machismo acabasse amanhã, por mágica, as ressentidas estariam perdidas. A quem odiar? Quais forças de poder reverter? Como destruir o inimigo - se não há mais inimigo? Toda sua energia tóxica, venenosa, carcinogênica, elas teriam de dirigir para outro inimigo, ou para si mesmas, mergulhando em depressão profunda, pois a única coisa que cultivavam, que as mantinha vivas e altivas, subitamente se fez obsoleta - o ressentimento.

NOTAS

* Falo de "emancipadas" em vez de "empoderadas" por vários motivos: primeiro, porque são palavras próximas em significado, e é sempre preferível, neste caso, usar um termo consagrado a um neologismo. Segundo, porque de todo modo eu odeio neologismos, especialmente quando advindos de traduções tati-bitati de idiomas estrangeiros. Terceiro, porque "empoderar" é um verbo feio de dar dó.
** Emprego o conceito de ressentimento, neste breve ensaio, inspirado no sentido a ele atribuído por Friedrich Nietzsche, em Genealogia da Moral.
*** Afirmação que serviu de pretexto para meu banimento do grupo Veganismo e que, à primeira leitura, pode parecer não mais do que um insulto proferido no calor do momento. Ao contrário, ele foi muito pensado e refletido após o que testemunhei naquele mesmo grupo, por parte de feministas supostamente veganas. Tanto que só postei a dita afirmação no dia seguinte.

Bruno Frederico Müller é historiador e escritor.

domingo, 2 de novembro de 2014

A publicidade das mulheres frágeis - e o seu silêncio

Há mais de dez anos eu li artigos de feministas questionando a propaganda de marcas que ilustravam mulheres em posições de submissão, fragilizadas, ou em situações de completa inutilidade, algumas imagens sugerindo que haviam sofrido violações, ou que estavam em posição de presas, ou mesmo em situação de inanição. A lista é longa, mas a noção é uma só: a mulher na propaganda, naquela época, era um ser objetificado, inútil, que apenas servia de manequim, para vestir roupas, usar jóias e sapatos.

O homem, em contrapartida, já era ilustrado como um ser arrojado no trabalho, com a família, em romances, no seu carro. De lá para cá eu observava isso por todo o lado. Se hoje isso mudou um centímetro, ainda continua pairando a mesma mensagem idiota: a mulher quer ser esse lustre de cristal.
Muitas mulheres acreditaram nisso, se iludiram, foram levadas a tal. Existe uma pressão mercantilista muito forte nessas campanhas. E fora delas, na sociedade inteira, silenciosa, o tempo todo. Mas, não vamos culpar os outros vida afora. Vamos nos responsabilizar um pouco. E, depois de adultas, nós mesmos podemos nos educar para a tomada de posição. Não é fácil e, eu mesma sinto as dores do peso de sair fora do padrão.
Ontem eu vi um out door com uma imagem de lascar! Uma mulher com as duas mãos na cara, tapando o rosto, de uma forma perturbadora. Para exibir as jóias.

Eu me pergunto: Em que situação da vida de uma mulher, é necessário fazer uma coisa dessas?
É muito bizarro. Os exemplos de propagandas em que modelos aparecem de pernas abertas, em posições ridículas, olhares meio retardados, são lugar comum. E o pior, essas 'inovações' também se estendem em propagandas infantis - e só para meninas. É de se perguntar qual é o projeto perverso dessa intenção?

Meninas/crianças, de meia calça, bunda de fora, perninhas abertas, calcinhas a mostras e outras situações em momentos inadequados, ilustrando brinquedos, roupas infantis. E mães infantilizadas não são capazes de abrir o bocão e se manifestar. Acham tudo a maior fofura.
Eu já ouvi de um homem a observação de que essas fotografias de caixinhas de meia-calça infantis são eróticas demais para serem expostas nas prateleiras de supermercados.

A última dos místicos dos produtos de beleza, é a polêmica propaganda da modelo passeando com sua bunda (como se fosse a bolsa nova) e os macharedo observando a retaguarda, quando ela olha e lhes pergunta: você sabe por que eu sou feliz?
Não é por nada que a colunista da rádio que eu ouço definiu tudo numa ótima pergunta: Oi? Agora a felicidade mora na bunda?

E enquanto você continuar achando que isso tudo é exagero, as mulheres continuarão a ganhar menos, enfiar todo o seu dinheiro no rabo dos grandes empresários, vendedores de ilusão para rejuvenescimento e casamento/felicidade e lixo para enganar trouxas, e os disparates entre os sexos continuarão cada vez mais evidentes.
As últimas listas de diferenças salariais estão cada vez mais gritantes no país. Não vou detalhar aqui. O estudo saiu essa semana, procurem!
O índice de estudo entre mulheres e homens estão cada vez mais desiguais e pasmem, quem estuda mais (mulher), ganha menos. Quem estuda menos (homem), ganha mais, segundo o estudo recente. Está na hora de abrir a boca e pedir aumento! Está na hora de apoiar a outra. E não silenciar.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Alguns livros feministas e outros achados!!!

 Não coleciono livros, ao contrário, os livros apenas passam por mim. Os únicos que guardo são os do escritor Ezio Flavio Bazzo, que sou fã, as minhas publicações e alguns livros de botânica.
Este livreto encontrei no Bar Café Bonobo, é do projeto livros livres, que já falei aqui no blog. Os livros circulam pelo mundo e quem o recebe, deve cadastrá-lo num site para que se saiba o caminho por onde ele vai passando. Depois de lido, passa-se adiante. Muitos livros eu acabei enviando para minha amiga de Minas Gerais, que como eu, ama ler... Aqui já passaram muitos livros, se eu fosse guardá-los teria outro apartamento. Não gosto de guardar livros, menos ainda de comprar 'só para ter'. E mesmo assim temos uma biblioteca e tanto.
 Para minha biblioteca do feminismo. Este e mais o 'Fogo com fogo' da Naomy Wolf e mais alguns esperam-me... Li o 'Mito da Beleza' (que tem para baixar na Internet) da mesma escritora e me apaixonei por ela.
 Este livro foi meu achado da Feira do Livro. É da mesma autora do 'Complexo de cinderela' que eu não li, por achar meio óbvio demais (mas que para a época era novo). Chama-se  'Complexo de Sabotagem' como as mulheres tratam o dinheiro. É simplesmente maravilhoso e já no primeiro dia de compra, li até a metade do livro. Collete Dowling conta como ela mesma lidava com o dinheiro e como é o famoso fantasma da "velha mendiga carregada de sacolas", um arquétipo que toda mulher imagina, como sendo seu fim, justamente por não saber lidar com suas próprias finanças e, portanto, com sua liberdade. A mulher só é realmente livre se souber lidar com seu dinheiro! Ótima leitura.
 Alguns fanzines feministas comprados com uma pequena contribuição lá no bar Bonobo. Leitura ácida e divertida. Adoro!
 Um fanzine de uma moça aqui de Porto Alegre.
Este é mais um livro feminista encontrado na feira, pela bagatela de 2 pilas. (Livros feministas não são populares nem entre as mulheres). Não sei se vou ler. Fala sobre as paixões femininas e seus modos de expressão. Talvez dê de presente.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Socióloga analisa impactos do Bolsa Família sobre as mulheres

Os países desenvolvidos, todos eles, tem programas assistenciais, mil vezes melhores e mais abrangentes que o nosso. Na Inglaterra, por exemplo, se eu não quiser trabalhar, tudo bem. Vou ao governo e ele me sustenta. Nada mal, para um país mil vezes mais civilizado e educado que o nosso.
O bolsa família é na verdade uma obrigação. Já que nosso dinheiro todo vai para o país, por que não retornar um pouco para quem precisa? O que eles ganham no Bolsa, eu gasto no super em uma tarde. Acho válido dar uma chance para quem precisa. Pois negligenciar isso, significa um país miserável em todos os sentidos, não só financeiramente.
Quem reclama do bolsa família, na minha opinião, é mais miserável do que quem não tem condições de se sustentar.
Parabéns ao único governo (Lula e Dilma) que fizeram o básico, que é tornar o Brasil um lugar decente.

O artigo abaixo é do site Sul21

Socióloga analisa impactos do Bolsa Família sobre as mulheres

Adria de Souza
Com o dinheiro na mão, mulheres beneficiárias do Bolsa Família reorganizam a vida e começam a se planejar, afirma pesquisadora da Unicamp | Foto: Adria de Souza/Prefeitura de Olinda
Igor Natusch
Atualmente atendendo 12,5 milhões de famílias, o Bolsa Família ainda é alvo de críticas de vários setores, que vêem no programa um caráter assistencialista e que não prepara os beneficiados para a busca de modos próprios de sustento. Um estudo de Walquíria Domingues Leão Rego, professora do programa de pós-graduação em Sociologia da Unicamp, vai contra essa visão. Segundo a pesquisa, que já dura cinco anos, o dinheiro do Bolsa Família não apenas melhora a vida das famílias, como muda a percepção dessas pessoas sobre a sua própria vida, fator desencadeado pelo controle das mulheres sobre dinheiro do programa.
Walquíria Leão Rego fez a pesquisa por conta própria, sem apoio financeiro da Unicamp ou do governo federal. Financiou as viagens do próprio bolso, agendando as excursões em seus períodos de férias. A seu lado em parte da pesquisa, esteve o filósofo italiano Alessandro Pinzani, que leciona na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ainda não está definida a editora que publicará o trabalho, o primeiro a abordar de forma acadêmica os impactos do Bolsa Família sobre as mulheres de regiões de menor renda.
A ideia da pesquisa surgiu em 2005. “Eu tinha uma percepção de que a Bolsa Família provocaria impactos sobre a subjetividade das mulheres”, diz Walquíria. Para estudar a fundo a questão, a pesquisadora se dispôs a ouvir as mulheres das regiões mais pobres do Brasil. Visitou o sertão e o litoral de Alagoas, esteve nas periferias de São Luís e Recife e visitou o interior de Piauí e Maranhão. Foi também até o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e à Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Lugares, em sua maioria, onde impera o trabalho informal, já que as oportunidades de emprego são quase inexistentes e o Estado é pouco atuante. As viagens, que começaram em 2006, só foram encerradas em maio deste ano.
“É muito diferente ser pobre em algumas dessas regiões e ser pobre na periferia de São Paulo, onde bem ou mal existem alternativas. Essas regiões continuam sendo carentes de boas estradas, escolas, postos de saúde. A população é em sua maioria semianalfabeta, os níveis de escolaridade são baixíssimos e não existem opções de emprego. São situações que acentuam as dificuldades”, descreve a professora da Unicamp. “As mudanças são muito lentas, por estarmos tratando de questões enraizadas e reforçadas a séculos.”

Walquíria: "A vida delas mudou porque o universo de escolhas se amplia. E exercer o direito de escolha é uma questão fundamental para a democracia" | Foto: Unicamp
“Há um aprendizado”, diz professora da Unicamp
O principal impacto, de acordo com Walquíria Leão Rego, deve-se ao fato do Bolsa Família ser entregue em dinheiro, sem a intromissão de autoridades locais como prefeitos ou vereadores. “Se fosse uma cesta básica, aí sim teríamos espaço para o assistencialismo, porque não seria possível desenvolver certas capacidades e competências que o dinheiro, em sua função comunicativa e simbólica, acaba estimulando”, argumenta.
Ela exemplifica dizendo que várias mulheres consultadas admitiram que, no primeiro mês em que receberam o benefício, acabaram gastando todo o valor rapidamente. Em meses seguintes, porém, elas já conseguem organizar seus gastos de forma que o dinheiro recebido durasse até o começo do mês seguinte. “Há um aprendizado”, descreve a socióloga. “Essas pessoas vão aos poucos adquirindo a capacidade de programar a própria vida, além de adquirirem escolhas, como ter a opção de comer macarrão ou batata uma vez por semana, por exemplo. É algo pequeno, mas que se aplica a pessoas que não tinham nenhuma margem para escolher e agora estão desenvolvendo essa capacidade”.
Há efeitos evidentes, segundo a pesquisadora, também sobre a visão que essas mulheres fazem de si mesmas. “Elas passaram a ter crédito”, conta. “Fiz algumas entrevistas muito significativas, onde elas me falavam desse sentimento novo, de se tornar uma pessoa confiável. E elas se tornam pessoas muito mais cuidadosas, até porque passam a ter mais responsabilidades, perante a família e perante o Estado. Precisam apresentar a carteira de vacinação e os boletins escolares dos filhos para continuar recebendo”. Quase nenhuma delas dá o dinheiro para o marido, diz a professora, justamente pelo sentimento de responsabilidade que a obtenção dos recursos traz. “Algumas das entrevistadas disseram que não há futuro para elas, mas que querem usar o dinheiro para garantir um futuro para seus filhos”.
Walquíria explica que a renda do Bolsa Família estimulou o surgimento de pequenas fábricas familiares de alimentos, ou mesmo de confecções de pequeno porte. Na medida em que gerenciam esses recursos, as famílias se tornam capazes de melhorias em sua qualidade de vida, fazendo pequenos reparos em suas casas ou mesmo adquirindo eletrodomésticos e antenas parabólicas, mesmo que usadas. Algumas já estariam até demandando intervenções cirúrgicas para não ter mais filhos. “A vida delas mudou porque o universo de escolhas se amplia. E exercer o direito de escolha é uma questão fundamental para a democracia”.
A situação dos homens, no entanto, pode se tornar um fator de preocupação para o futuro próximo. “Eles estão abandonados”, adverte Walquíria. “São pobres, sem educação, não conseguem emprego e se sentem inferiorizados. Eles não são pequenos proprietários que possam usufruir do Pronaf. São pessoas esquecidas. Não há políticas para eles.” Para potencializar os efeitos do Bolsa Família sobre as populações carentes, segundo a socióloga, seria necessário um trabalho de valorização cultural e econômica dessas comunidades, além de investimentos em educação.
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