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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A reunião das bruxas amigas e meu conceito de amizade

Hoje eu passei na frente de um restaurante e vi algumas mulheres vestidas de bruxas cortando um bolo.
Aquela cena me emocionou bastante. Pois eu não vivo algo parecido com essa confraternização há algum tempo.
Saudade de quem se importa. Eu sou amiga de verdade.
Mas como me decepcionei ao ver ao longo de minha vida, mulheres desaparecendo, lentamente, no sumidouro dos dias iguais, no casamento-instituição, que algumas ainda exibem como único troféu, nas definições parcas de amizade que se desmancham assim que o "motivo" termina: Se consegue namorado, se casa, o bebê nasce, aparecem outras amizades que preenchem mais o status social, etc.
Não importa o quanto na minha vida estive ocupada, sempre existe um espaço online ou presente, para falar com um amigo.
Mas a mulher é foda. Não é só comigo não. Não sou especial, pois já vi mulher verter lágrima pela amiga que desapareceu no pior momento de sua vida. Naquele dia me senti mal, pois vi que estava sozinha não apenas no meu próprio mundo, mas no mundo inteiro, pois esse era portanto, um padrão que se repetia novamente e novamente...
Mulheres são desunidas. Uma mágoa que carrego por ser mulher e, apesar de amar minha solidão, ser gregária e fiel.
A técnica que mais funciona para um sistema ser dominado é provocar nos submetidos a competição e a desunião.

Entre as mulheres não é preciso provocar mais nada.

Alguém que me conhece a muito tempo, disse que meu conceito de amizade é muito elevado. Considero a amizade o sentimento mais nobre de todos, talvez esteja aí o meu erro. Não, não estou errada. Eu li o que os filósofos escreveram sobre a amizade. Eu quero essa amizade. Não quero fragmentos.
Nada precisa ser perfeito, mas não quero merdas.
As mulheres passam a vida inteira buscando a paixão e o amor, não estão talvez, preocupadas em aperfeiçoar a amizade, em mantê-las, em se preocupar com o outro?















E quando as pessoas se isolam na sua vidinha de cidadão autosuficiente?  escrevi sobre isso aqui: http://desobedienciavegana.blogspot.com/2014/10/para-que-janelas-tao-grandes-se-estao.html
No show do Ratos de Porão, por exemplo, as duas pessoas que fiz amizade eram de cidades diferentes. Fizeram amizade do nada e eles próprios nem se conheciam.

Hoje fui fazer um exame chato. Ecografia mamária. É desagradável ver um homem passando um bagulho com gel nos seus seios. Sempre tenho a impressão que o cara tá ali se aproveitando de nossa condição de mulher. Só escolho médica mulher, mas não deu dessa vez. Na sala de espera, um monte de mulheres mudas. Até que a chave do armário estragou... todas ficaram amigas.
Não precisamos esperar uma merda acontecer para nos aproximar.

Na época da inquisição, as bruxas escondiam suas crenças e afazeres, justamente porque, se falassem, estavam expondo sua vida. Expor segredos, expor a vida era ameaçador! Ser mulher era um crime!
As próprias mulheres às vezes, foram as que traíram as bruxas, por isso as feiticeiras escondiam a sete chaves seus códigos.

Só que até hoje, ainda existe no ar essa aura de desconfiança.
Não podemos confiar nas mulheres?
Eu sempre confiei. Talvez um dia chegará o momento de parar. Alguém me disse que tenho que focar nas pessoas que me admiram e ignorar quem não merece. Talvez. Mas por que faço o contrário?

Hoje o fenômeno acontece também de outra forma. Poucos querem se envolver. A ameaça é que sua dor a contagie de alguma forma (como se amizade fosse só nos momentos tristes) ou que a sua vida lhe tire a sua alegria (os mesquinhos). Ser solidário está fora de moda.
Até mesmo as religiões propagam essa ideia, especialmente as de cunho esotérico espiritualista. Você nunca deve se envolver. Fique nesse seu casulo idiota, vendo tudo passar ao seu redor. Seja positivo, para você mesmo. Não importa se o mundo está ruindo ao seu redor. Não veem que isso é de um egocentrismo perceptível.

Só que, sentir a dor do outro é natural e, pasme, se você se contagiar, vai ser normal no outro dia. Vai ser mais forte. E não essa besta mortificada sorridente que não se envolve em nada.

Esses dias eu estava nos piores momentos, me sentindo estranha, horrível. Não tinha ninguém para conversar. Não temos ligações femininas, nossas mães e avós muitas vezes perderam esse contato, e, portanto, nós perdemos nossas ligações ancestrais, como eu li no livro "Mulheres que correm com os lobos".
Minha mãe já morreu. Família, não tenho, e mesmo que tivesse, melhor para minha saúde é estar longe. A melhor coisa que aconteceu foi uma amiga minha ter me ligado. E ela ainda me perguntou desapontada: Ah, eu te acordei???
Só que ela ainda não sabe (vou encontrar ela amanhã) que foi a melhor coisa ter me acordado. Eu estava a dias sem querer ver a luz do sol, sem vontade alguma. Para quê? Mas uma simples ligação foi suficiente. Às vezes a simples presença. Um interesse. Um simples estar ali já basta.
Não quero nada da amizade, apenas que ela exista.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A vagina

A VAGINA... (Um artigo de Eliane Brum)

Li este ótimo artigo no site de Ezio Flavio Bazzo e achei tão perfeito que quero tê-lo aqui comigo, afinal, eu não só não tenho o menor nojo de vagina, como até mesmo adoro a minha, pronuncio todas as suas denominações, e faço votos de que as pessoas percam esse preconceito idiota e atrasado.
Todos nascemos de uma buceta e, de qualquer forma, temos de lidar com ela, não importa o sexo.

A. S.: E largue esse vício moderno de não ler coisas compridas e leia até o final, é um show de sabedoria.

Será que a revolução sexual falhou? Não é curioso que, neste ponto da aventura humana, o órgão feminino ainda ameace tanto? Evelyn Ruman, Casey Jenkins e Naomi Wolf são algumas das artistas que questionam a naturalização da violência contra o desejo das mulheres

Livro de Naomi Wolf, eu amo esta escritora. Absolutamente fã!!! Um dos temas deste artigo.
Evelyn Ruman conta que desembarcou no Vaticano sentindo-se uma espiã da Guerra Fria. Ela tinha se imposto uma missão arriscada, subversiva. Dentro do bolso da sacola de equipamento fotográfico havia um vidrinho com um líquido vermelho e um tanto viscoso. Evelyn se agachou, abriu a tampa e jogou seu conteúdo no chão. O fluido se espalhou sobre a calçada, as pedras. Ela sacou a câmera fotográfica e começou a documentar sua transgressão. Desenrolou a imagem de uma mulher nua, de costas, e a estendeu no chão. O vermelho agora escorria de interiores femininos. Nenhum guarda apareceu para impedi-la, nenhum turista a perturbou. Missão cumprida. Evelyn acabara de jogar sangue menstrual no centro do poder católico.
- Por que você quis fazer isso?, pergunto a ela. “Porque a Igreja Católica representa tudo aquilo que vem oprimindo as mulheres por séculos, tornando a vagina algo feio e fazendo do sangue menstrual uma coisa nojenta.”
Era janeiro de 2012 e Evelyn participava da Bienal Internacional de Arte de Roma. Durante dois anos ela armazenara seu sangue menstrual na geladeira de casa, em São Paulo, para realizar a exposição que chamou de Sangro, logo existo. Seu casal de filhos, hoje com 23 e 18 anos, brincava que era o “carnição da mamãe”. Ao fazer esse percurso artístico, Evelyn se preparava para um momento doloroso para uma mulher: ter seu útero arrancado devido a um mioma. “Sempre gostei muito de menstruar”, diz ela.
Quando foi a Roma, Evelyn percebeu que sua menstruação estava atrasada. Para consumar seu objetivo, precisou pedir um pouco de sangue a uma feminista italiana, Sara Sacerdócio. Fez sua performance com sangue emprestado. A foto (ao lado) é uma das 27 imagens exibidas no EG2O (Escritório Galeria 2Olhares), na cidade histórica de Paraty, no litoral fluminense, até 6 de janeiro. Cinco delas ilustram esta coluna.
Evelyn trabalha desde 1988 com a autoimagem de mulheres. Presidiárias, internas de manicômios judiciários e instituições psiquiátricas comuns, camponesas de origem indígena, meninas com síndrome de Down, soropositivas para o vírus da Aids, ameaçadas por violência doméstica, velhas. Mulheres que a maioria prefere não enxergar. Nunca teve dificuldade para expor seu trabalho, premiado e reconhecido internacionalmente. Mas, quando tentou exibir sua obra moldada em sangue menstrual, encontrou as portas fechadas. Para mostrar o rosto de mulheres condenadas à invisibilidade, foi acolhida. Para mostrar seu corpo que sangra pela vagina não havia espaço. Talvez porque, ao expor o que se prefere escondido e envergonhado, a vítima tivesse virado o jogo. Em vez de compaixão, agora provocava medo.
 Evelyn descobriu-se sozinha. Mesmo outras mulheres, amigas fotógrafas, em todo o resto libertárias, classificaram suas fotos como “nojentas”. “Só consegui fazer a exposição porque abri minha própria galeria”, diz Evelyn. “Dá vontade de botar uma câmera para filmar a reação de nojo das pessoas, muitas delas mulheres, quando veem as fotos e percebem que é sangue menstrual, sangue que saiu de uma vagina, a minha. Se o sangue saísse de um pinto, será que teriam tanto nojo?”
 (Estou presumindo, claro, mas acredito que parte daqueles que leem este texto, a esta altura já soltaram alguns “que noooojo!”. Acertei? Ao comentar com alguns amigos que pretendia escrever sobre o tema, a reação foi: “Mas por quê?”. Por causa desta tua cara, respondi.)
Neste exato momento, a australiana Casey Jenkins realiza a performance que intitulou de Casting Off My Womb (em tradução livre, Tricotando o meu útero). A cada manhã, ela enfia um novelo de lã clara na sua vagina e tricota um cachecol. Ao menstruar, o tricô ganha rajados de vermelho sanguíneo e molhado. (vídeo aqui). O objetivo da intervenção, conforme ela declarou à imprensa, é tornar a vagina da mulher “menos chocante ou assustadora”. Casey queria mostrar que “a vagina não morde” ao ligá-la a um ato acolhedor e “quentinho”, identificado com avozinhas clássicas, como o de tricotar uma manta. O cachecol uterino que passa sensualmente pela vagina de Casey, acaricia seus grandes e pequenos lábios e faz cócegas no seu clitóris estará concluído ao final de 28 dias.
 (Mais nojo?)
O que, afinal, Casey está tricotando, lá no outro lado do mundo? O que Evelyn está tentando nos dizer com seu sangue, no lado de cá do mundo?
É provável que a escritora americana Naomi Wolf, autora de Vagina: uma biografia, que acaba de ser lançado em português pela Geração Editorial, tenha razão ao dizer que “a revolução ocidental sexual falhou”. Ou, pelo menos, “não funcionou bem o suficiente para as mulheres”. A própria trajetória do livro é a prova de que a vagina segue sendo ameaçadora – como corpo, como imagem, como palavra. Me arriscaria a dizer que até mais ameaçadora do que em décadas passadas. Quando a obra foi lançada, em 2012, no mercado de língua inglesa, a loja virtual da Apple colocou asteriscos no título: V****a. A velha vagina, censurada pela marca que representa o ápice do avanço tecnológico do nosso tempo, foi quase uma performance da denúncia contida no livro. Mas involuntária, o que torna tudo mais interessante. Me parece que o episódio fala mais de um momento de potência da vagina do que de vitimização.
Em seu livro, Naomi Wolf compreende a vagina como “o órgão sexual feminino como um todo, dos lábios ao clitóris, do introito ao colo do útero”. Esse todo forma uma complexa rede neural, na qual há pelo menos três centros sexuais – o clitóris, a vagina, o colo do útero – e possivelmente um quarto – os mamilos. Naomi defende que a vagina não é apenas carne, mas um componente vital do cérebro feminino, ligando o prazer sexual amoroso à criatividade, à autoconfiança e à inteligência da mulher. A conclusão é óbvia e não é nova, nem por isso menos importante: massacrar a vagina – ignorando-a ou tornando-a algo sujo, proibido e chulo, seja pelas palavras ou pelas ações – massacra as mulheres na inteireza do que são. Ao aniquilar a vagina, aniquila-se a mulher inteira, sequestra-se a sua potência. “Ao contrário do que somos levados a crer, a vagina está longe de ser livre no Ocidente nos dias de hoje”, diz Naomi. “Tanto pela falta de respeito como pela falta de entendimento do papel que ela exerce.”
Criticada até mesmo por parte das feministas, a biografia da vagina faz um percurso bastante curioso. Mesmo quem a elogia tem sempre uma graça para dizer, uma piadinha, algo que garanta um distanciamento desta escritora que a certo momento chega a falar em “dança da deusa”. Parece continuar obrigatório ser engraçadinho com qualquer menção à palavra vagina. Adultos maduros se expressam como se fossem adolescentes soltando risadinhas, o que em si já diz bastante coisa. Ao anunciar que escrevia o livro, Naomi foi recebida para um jantar entre amigos com um cardápio temático: massa em forma de vaginas e grandes (bem grandes mesmo) salsichas. Como finalização, filés de salmão, referindo-se ao cheiro de peixe relacionado ao órgão sexual feminino. Para aqueles homens intelectualizados de Nova York, a obviedade, um tanto bocejante, parecia muito divertida. Depois da “homenagem”, Naomi amargou um bloqueio criativo: por seis meses não conseguiu escrever uma palavra do livro. “Senti que havia sido punida – tanto no nível criativo quanto no físico – por ir a um lugar aonde as mulheres não deviam ir”, conta.
Se o livro de Naomi Wolf apresenta generalizações e pode ser questionado em alguns ou vários aspectos, como todos os livros, aliás, acho difícil que alguém, seja homem ou mulher, não tenha a vida ampliada por questões mais interessantes depois de ler Vagina: uma biografia. Se não fosse por mais nada, pelo simples fato de que, para muitos, demais, a vagina ainda é uma fenda, uma ferida, um buraco.
A pergunta que Evelyn, Casey e a própria Naomi nos propõe, a partir da expressão de cada uma, é por que, no século 21, no Ocidente, a vagina ainda provoca tanto antagonismo. E que efeito isso tem sobre a experiência cotidiana das mulheres, principalmente, mas também a dos homens. Ou sobre como isso empobrece enormemente a nossa vida sexual e afetiva, assim como a nossa vida como um todo. O maior mérito de cada uma delas ao se arriscar ao escárnio público – e, neste caso, sempre se pode contar com ele – é o de questionar a naturalização de um olhar sobre a vagina e as mulheres que nos viola a todas. E talvez a todos. Ao naturalizá-lo, oculta-se a trama histórica e não linear em que esse olhar foi sendo tecido, assim como as relações de poder que o determinam.
Não é tremendamente instigante que, neste ponto da aventura humana, a vagina das mulheres ainda assombre tanto que a violência contra ela parece ter recrudescido? Na época em que as revistas femininas ocupam uma parte considerável de suas páginas com lições para melhorar a performance sexual das mulheres, a vagina, aquela que parece não caber neste discurso atlético, vive tempos de escândalo. No mesmo período em que a Apple censurou a vagina como palavra no título do livro de Naomi Wolf, no Brasil o crítico de arte Jorge Coli teve interrompida a transmissão pela internet de sua palestra pela Academia Brasileira de Letras. Foi censurado no momento em que pronunciou a palavra “buceta” e mostrou A origem do mundo, o famoso quadro do francês Gustave Courbet, que retrata uma vagina entre coxas abertas. Ao longo de sua acidentada trajetória, o quadro esteve coberto por um véu, fosse uma cortina ou mesmo uma outra pintura. Só foi exposto sem nada ocultando-o depois que a família de seu último dono, o psicanalista Jacques Lacan, o doou ao Museu D’Orsay. Em fevereiro deste ano, a revista francesa Paris Match anunciou um “furo de reportagem”: a descoberta do suposto rosto da vagina famosa. Desta vez, o rosto que tentaram lhe impor, como uma parte faltante, teria a função de um véu definitivo. (Escrevi sobre isso aqui e aqui.)
Evelyn, Casey, Naomi, assim como outras artistas mundo afora, têm corajosamente tentado nos chamar a atenção para o fato de que tanto a censura quanto a piada ocultam algo que precisa ser enfrentado. Enfrentado porque estreita a nossa vida psíquica, afetiva e sexual, mas também porque é gerador de violência. Nas universidades brasileiras, os trotes às calouras têm se transformado nos últimos anos em episódios chocantes de agressões contra mulheres. Na Universidade de Brasília (UnB), em 2011, calouras tiveram de lamber leite condensado numa linguiça encapada com camisinha. Em 2012, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), duas estudantes foram amarradas a um poste. Os veteranos vestiram-se de policiais militares e colocaram camisinhas na ponta de cassetetes, obrigando-as a chupar os bastões. Em 2013, na UFMG, uma estudante com o corpo pintado de preto carregava um cartaz que dizia “caloura Chica da Silva”, em alusão à famosa escrava com este nome. As mãos estavam presas por uma corrente, que era controlada por um veterano. Também neste ano, uma caloura da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia denunciou à polícia ter sido obrigada a lamber pênis e testículos de bois. Ela desmaiou, sua boca sangrava. Na Universidade de São Paulo, no campus de São Carlos, realizou-se o concurso “Miss Bixete”, no qual as calouras são obrigadas a fazer um “desfile de beleza” repleto de situações humilhantes. Durante o trote, veteranos tiraram a roupa e simularam fazer sexo com uma boneca inflável. Distribuíram ainda um panfleto parodiando o best-seller Cinquenta Tons de Cinza, com os seguintes dizeres: “Cinquenta golpes de cinta – a cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida”. A série de violências sexuais contra as calouras torna-se ainda mais espantosa – e é preciso se espantar muito – se pensarmos que foram perpetradas por homens jovens e escolarizados, nascidos pós-revolução sexual, filhos de mulheres que usam anticoncepcionais e trabalham fora de casa.
Na semana passada, o radialista Fabiano Gomes, da Rádio Correio, da Paraíba, afirmou no programa Correio Debate que a polícia não deveria perder seu tempo investigando os casos em que homens divulgaram na internet imagens de mulheres nuas ou em relações sexuais. Ele se referia a um caso ocorrido na cidade paraibana de Pombal e ao recente suicídio de Júlia dos Santos, de 17 anos, no Piauí. Júlia e a gaúcha Giana Fabi, de 16 anos, enforcaram-se em outubro depois de sofrerem linchamento moral por terem fotos e vídeos íntimos postados nas redes sociais. Algumas das frases usadas pelo radialista: “Sem-vergonha é quem manda foto nua para o namorado”, “Foram pro espelho mostrar o chibiu”, “A cocotinha tirou foto nua pro namorado bater punheta”.
Se houve reação formal de repúdio ao episódio, vale a pena prestar atenção também na gravação, para escutar a opinião dos ouvintes, homens e também mulheres, ao apoiar as agressões do radialista. Se os comentários são uma amostra do senso comum, as meninas que mostraram seus corpos nus a homens em quem confiavam são “vagabundas”. É aterrador constatar que, às vésperas de 2014, depois de todas as conquistas feministas, num país governado pela primeira vez por uma mulher, duas adolescentes tenham sido tão humilhadas por terem seus corpos e seu desejo sexual expostos que preferiram morrer. Ao sacrificarem-se (ou serem sacrificadas), seguem sendo humilhadas. Na segunda década do século 21, no Brasil associado ao mito da liberação sexual dos trópicos, o corpo e o desejo feminino são tão ameaçadores que a morte não basta.
A violência contra a vagina é disseminada no cotidiano, dentro de casa, no trabalho, no percurso entre a casa e o trabalho, em todos os espaços, mesmo os de lazer. As mulheres estão tão habituadas a ela desde que nascem que já a internalizaram como “normal”. Ou reagem muito menos do que deveriam, resignadas por uma vida inteira de agressões tão corriqueiras que fingem não ligar. Que neste contexto ainda consigam ter desejo sexual e prazer com suas vaginas é um tanto impressionante.
Como ilustração, um resumo de alguns – só alguns – momentos da minha trajetória pessoal. Na primeira vez em que fui tocada por um homem, eu era criança. O homem era um menino ainda menor do que eu. Ao passar por mim na rua da cidade pequena, deu um tapa forte na minha vagina e disse: “bucetuda”. Foi meu primeiro contato. Voltei para casa chorando, mas me sentia tão envergonhada por ter uma vagina que não contei a ninguém. Adolescente, ao caminhar no centro de Porto Alegre de minissaia, um homem cuspiu nas minhas coxas. No ônibus lotado da faculdade, tentaram se masturbar na minha bunda mais de uma vez. Num Dia das Mães levei minha filha de nove anos ao cinema. Um homem sentou-se ao nosso lado e começou a se acariciar. Adulta, no trabalho, nas redações por onde passei, ouvi de tudo sobre a vagina, assim como minhas colegas. A melhor de todas: “A mulher é a parte chata da buceta”. Era dita por um homem inteligente e realmente gentil, que acreditava estar fazendo uma graça com colegas “sem frescura”. Nós ríamos para não sermos “a parte chata – e ainda por cima sem humor – da buceta”. Toda vez que escrevo algo que contraria algum grupo, como determinada polícia, recebo ameaças como: “vou te estuprar” ou “quero ver tua buceta”. Quando um líder evangélico discordou de um artigo que escrevi sobre as mudanças no Brasil provocadas pelo crescimento das igrejas neopentecostais, ao dar uma entrevista para o New York Times, entre todas as palavras disponíveis para me definir, ele escolheu esta: “tramp”. E lá estava eu, tomando café tranquilamente num sábado pela manhã, na minha casa, com minha família, quando o telefone começou a tocar: “Você viu que foi chamada de vagabunda no Times?”.
Assim é. Hoje, agora. E não me parece que a resposta para a violência naturalizada contra a vagina e o desejo sexual feminino seja transformar-se numa atleta sexual com orgasmos performáticos. Este é possivelmente um padrão para o consumo e para o mercado, muito mais à imagem, também estereotipada, do que seria um comportamento masculino na cama. Soa como uma resposta à repressão histórica, mas na prática está mais para uma embalagem palatável e enganadora para a mesma repressão, na medida em que não deixa de ser mais uma tentativa de controle sobre o corpo e o desejo feminino. A imagem da atleta sexual, determinada e agressiva, pode ser só uma outra prisão para as mulheres. A vagina e o desejo feminino, diferentes em cada uma, são muito mais complexos e potentes do que isso. Vale a pena lembrar que, na pornografia, a mulher que expõe sua vagina, seu ânus, sua nudez em cada detalhe e em close é aquela da qual menos sabemos.
Por tudo isso Evelyn, Casey e Naomi são tão importantes. O livro de Naomi costuma peregrinar por diferentes seções das livrarias, da pornografia a assuntos gerais, já que parece não haver lugar para encaixar a vagina. Evelyn precisou abrir uma galeria para conseguir expor suas fotos com sangue menstrual. E as matérias sobre Casey, na internet, em geral são colocadas em seções da vida “bizarra”, misturada a outras “bizarrices” como, por exemplo, vender carne de rato. A revista Time, que teve a clarividência de colocar sua performance como “arte”, decidiu fazer um título engraçadinho: Not Available on Etsy: This Woman Knits With Her, Uhhh Yeah (em tradução livre: “Não disponível na Etsy: esta mulher tricota com sua, hããã... Isso mesmo”) Sim, a vagina parece continuar impronunciável.
Quem escreve sempre tem um desejo. O meu é que talvez, em vez de dizer “que nojo!”, ao ler este texto você contenha a agressão ou a piada, sempre mais fáceis porque calam a possibilidade de reflexão. E comece a pensar sobre a vagina e o papel que cada um de nós desempenha, tanto nos atos quanto nas palavras quanto nas omissões, mesmo naqueles comentários que você acredita ser apenas uma mostra de humor, na reprodução de uma cultura de estupro e morte das mulheres. Morte física, mas também psíquica e criativa. Morte do desejo. Uma cultura que tem se ampliado e alcançado parâmetros novos com o poder de difusão da internet.
Se a violência contra a vagina tem aparecido – e em alguns casos aumentado – em diferentes espaços da sociedade, é legítimo pensar que o ímpeto de fortalecer a resposta repressiva ao desejo feminino possa revelar que as mulheres estejam assumindo um controle maior sobre seus corpos e a sua sexualidade. Neste sentido, a necessidade de fazer vítimas seria uma reação ao fato de as mulheres se recusarem com maior veemência a ocupar o lugar de vítimas. Nesta hipótese, a “Marcha das Vadias”, que começou no Canadá e ganhou o mundo e também o Brasil, é um exemplo contundente de uma ação feminina que desloca o imaginário, ao se apropriar da palavra da violência e transformá-la numa afirmação de potência, embaralhando a lógica machista. Mais uma vez, a vagina vive tempos turbulentos. Que são tempos de violência, já sabemos. Que sejam tempos de libertação, depende de nós.

Publicado no jornal EL PAIS
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua e A Menina Quebrada e do romance Uma Duas. Email: elianebrum@uol.com.br . Twitter: @brumelianebrum

domingo, 24 de agosto de 2014

A infância através do espelho - acriança no adulto, a literatura na psicanálise

Já tive minhas épocas de ler alguns livros de psicologia, como já li sobre muitas coisas, amadora de tudo, especialista de nada. Hoje posso me dar a liberdade de vagar, por que não é preciso ser restrito. E fico longe, cada vez mais longe dessa 'especialidade', dessas pessoas que tudo sabem sobre um assunto, e nada sabem sobre mais nada. Como muita gente da época da minha faculdade, verdadeiros torpes metidos nas salas de suas especiarias, ignorantes no tudo o mais que os cercavam.

Porém, jamais devemos desprezar os que verdadeiramente estudam, pois destes dependem toda a sabedoria.

Um dos autores que descobri sozinha foi Freud. Com uma amiga, foi Carl Gustav Jung. Na sua esteira estão livros como Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola, que depois descobri com Ezio Flavio Bazzo, ácido, que eram puramente simbologia escrita por homens para mulheres. De um certo ponto de vista, lhe dei razão, e neste post você verá porquê.

Os livros de psicologia modernos são sempre aqueles livros padronizados, com aquele caráter corporativo. Falam como professorinhas chatas. Ou como professor pateta com conselhos bunda.
Quem nunca olhou pela janela da sala de aula, para ver que o mundo lá fora, se é de crianças, verdeja, se é de adolescentes, pega fogo.

O livro que estou lendo chama-se A infância através do espelho - a criança no adulto, a literatura na psicanálise. E me foi recomendado por alguém com total autoridade no assunto. Por isso aceitei como um presente e um elogio. A literatura foi uma forma de eu, criança, lidar com a solidão. A literatura foi a maneira de eu não ter que depender de religiões e deuses inúteis. Já havia descoberto isso lá na infância quando comecei a ler historinhas infantis, e não me apegar a estrelinhas da sorte.  No dia em que esse livro veio em minhas mãos, eu soube disso em terapia.

Começo sempre pela crítica no que não gostei.
No capítulo sobre sexualidade, o autor já inicia com aquele papo velho de colocar o peso em cima das mães sobre o futuro da sexualidade dos bebês.
Nenhum pio sobre a homossexualidade, essa ambivalência.
Depois, como se estivesse a falar para uma plateia de homens, vem com uma história sexual de um gaúcho, típica das bravatas que se contam por aqui.
O autor, portoalegrense, não foi nada criativo ao escolher como exemplo, o macho gaúcho, sutilmente citado como barranqueador (aquele que transa com animais no campo) que costuma chamar sua parceira de égua. Ele cumpriu seu papel de homem. Como feminista, animalista e leitora, esperava algo melhor.
Especialmente neste assunto delicado que é a infância e a sexualidade.
Daí, foi como se o livro tivesse um divisor, pois esse capítulo foi atípico. Os outros tiveram a mesma qualidade. Foram fluidos e emocionantes, requisito total para leitura.
Ele reuniu a literatura com a psicanálise de uma forma poética, entrelaçando conceitos e mostrando saídas, e também falou de projetos com crianças carentes que realiza em Porto Alegre e de sua experiência no exterior. Lágrimas, sorrisos, pensamentos, reflexões, algumas das coisas que o livro precisa provocar para ser lido, ali encontrei. E principalmente - o assunto Literatura, Poesia, Livros, Escritores, Poetas.
A sexualidade infantil, como sempre, assim como a feminina, ficou em aberto.

O livro chama-se A infância através do espelho - acriança no adulto, a literatura na psicanálise, de Celso Gutfreind.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Um contorno no olhar

Abandonei a maquiagem.
O cabelo vai ser agora mais comprido. O oposto do que estava antes, curto e raspado. O punk ficou para trás. Tudo dura pelo menos quanto tempo eu quiser.
Às vezes acontecia sem querer, mas sempre gostei de provocar o preconceito oculto, principalmente daqueles que se acham superiores.
Os misóginos, as mulheres-que-odeiam-mulheres... até mesmo quando eu era pura inocência, ao meu redor sempre tinha essa gente me secando... Depois desencanei.
Hoje é diferente. As pessoas continuam as mesmas, e eu escolho o que há de melhor.
Saí de casa com meu marido, romanticamente, para ver o filme daquele que sempre admirei. O performático Ney Matogrosso. Chama-se Olho Nu.
Para os macharedos da época e para os de hoje, francamente, tem que ser muito macho para encarar toda aquela repressão, em plena ditadura, com aquela libido toda, com aquela voz, música e performance!
O que me atrai nele é algo que simboliza muito o que eu sou. Amo o performático. A liberdade de inventar, de não ser exatamente o que esperam de você.
O andrógino, o incoerente, o provocante. O punk, por ser fora do eixo. Ele afirma ser subversivo sempre. E concordo. Quando você não age de acordo, você é subversivo. Não tenho que me maquiar sempre, posso encher minha cara de maquiagem amanhã se eu quiser. Admiro mulheres masculinas, sou assim em muitas épocas do ano e é por isso que metade do meu guarda roupa é bem masculino. A outra metade é praticamente infantil.
Mas sou completamente madura e sou convencida disso! Não sou modesta. Admiro homens com esse lado masculino performático como o Ney Matogrosso e minha música preferida dele é Homem com H.
O que importa no entanto, é o que se perde em beleza, quando nos preocupamos com a 'opinião' da sociedade.
Quem questiona a ordem vigente é sempre um alvo pois as pessoas querem manter o que está estabelecido. Ninguém quer discutir nada. E se incomodam a ponto de procurar na roupa algo para falar. É só a gente lembrar a recente polêmica dos black blocs. Quase todo mundo ficou do lado dos patrões.
Os dentes separados, o corpo magro, a sensualidade no palco, a voz indefinível.
Quantas vezes vemos talentos sumirem por vergonha, por repressão?
Eu sempre assumi meus defeitos depois que os superei. Tinha vergonha de meus dentes tortos. Decidi não usar aparelho. Depois de uma conversa com uma dentista, reafirmei minha decisão. Se todas as pessoas se fizessem um pergunta interna primeiro, antes de pedir opinião, daí nasceria a atitude.
Na escola é preciso um professor de verdade, eu eu tive poucos, para mostrar as qualidades dos alunos, os dons. Um professor cego para angústias de adolescentes, crianças e adultos não é um bom professor.
Uma professora me disse, na frente da turma toda, que eu tinha uma beleza diferente.
Dois disseram que eu escrevia coisas legais. Um professor um dia me chamou sozinha na sala e disse que achava legal o fato dos meus dentes serem tortos. Eu só tirava notas altas na aula dele, e tinha vergonha de me expressar verbalmente, mas era ótima quando escrevia.
Como professora, meu ideal é ser tudo que meus professores não foram e me inspiro nestes professores.
Ney Matogrosso, quando morava em Brasília,  ia com as crianças do hospital onde trabalhava para os fundos e brincava com elas. Isso aparece no documentário e também na biografia do Renato Russo, que estou em plena leitura.
Quando há talento e um dom, em qualquer lugar ele aparece. Bem no começo da carreira, ele pediu para baixar o som, olhou bem na cara de um 'homi' que o chamou de veado num show e disse, "se você é homem, repita.". Tudo ficou em silêncio.
Tornar possível algo, mesmo que pequeno e depois passar por ali e saber que aquilo aconteceu por sua causa, é felicidade. Quando um homem junto com uma história é tema de um documentário, nos faz chorar.
Quanto à maquiagem, já saí de casa pensando em desapegar da parafernália. É o que farei. Daqui para a frente, apenas um contorno no olhar.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Conversa com a leitora feminista

É comum pensar que não há solidão. Ao ver as pessoas em suas máscaras e disfarces, característica da espécie e quiçá de outras, é normal pensar que tudo é assim. Mas, escrevo sempre sobre solidão, para mostrar que sim, ela existe, e não é ruim.
Sempre há um pouco de solidão na alma de qualquer um.
Sempre carreguei comigo um quarto de solidão que mantive fechado, aberto, conforme a luz, ou a escuridão, nem sempre nessa ordem.
A mulher tem esse medo de estar só, pois entende que a solidão é não ter companhia. Mas a solidão é algo bom. Ou pode ser algo ruim, depende de você. Há motivos históricos para nosso medo de estar só, motivos econômicos, psíquicos, biológicos. Por isso não aprendemos, não fomos preparadas para lidarmos com o fato de que podemos estar sós. Não nos ensinamos umas às outras. As mulheres podem ser solteiras, podem morar sozinhas, podem casar sim. Ou não.
Essa conversa incomoda, sobretudo quando parte de alguém que já está acompanhada. (Pois que fácil falar não?) Mas quando solteira eu já pensava assim.
Um lugar em mim sempre esteve preparado para a solidão. Na sociedade, a mulher solteirona é encarada diferentemente do homem solteirão. E eu sempre me revoltei contra isso.
E resolvi ser uma mulher 'casadona' diferente do padrão 'mulher casada'.
Ou seja, não quero ser a mulher machista que teme as outras, que não aceita mais nada, que não cultiva sua solidão e não compartilha sua sabedoria. Todas temos algo a compartilhar, nem que seja uma xícara de chá.
Escrever sobre isso também é delicado, pois existem mil detalhes que escapam, tudo bem, não sou especialista, ao contrário, e longe de mim. Detesto especialidades. Cada um sabe o quanto dói estar só e o quanto é silenciosa a solidão. Eu já a experimentei, ruim, sobretudo no que se refere à amizade.
Mas que tal abraçar a solidão, eventual para alguns, eterna para tantos, natural de todo humano, e torná-la algo positivo?
Escrevi, em homenagem a uma conversa sobre esse assunto, com uma leitora do meu blog. Conversamos justamente sobre esse tema, que vive aparecendo aqui, em imagens e palavras. Pois gosto de escrever neste muro, ou vidraça, coisas delicadas, que podem quebrar.

sexta-feira, 7 de março de 2014

As duas crianças

São os dois chinesinhos do restaurante.
Um menino e uma menina.
Eles são irmaozinhos e brincam, correm o tempo todo.
Falam duas línguas, brincam com celular, veem desenhos orientais. São muito inteligentes.
Hoje a menina se machucou e veio chorando e o menino foi consolá-la e assoprou o joelhinho dela.
Não pretendo ter filhos e não compactuo com essa infantilidade que a grande maioria das mulheres tem para com as crianças, tratando-as como bonecas. Esses dias, numa sala de espera, uma dessas revistas detestáveis estampava na capa uma dessas 'mães' com uma criança que exibia como se fosse o mais novo copo de cristal, ou cachorrinho comprado, o qual também sou contra, por que é o mesmo comércio de comprar 'objetos decorativos'... Ela estampava a criança, tirava fotos do bebê de alguns dias com chapéus ridículos, de perninhas abertas, etc... Depois mais à frente uma outra tinha um filho especial que exibia também da mesma maneira e já planejava outra gravidez arriscada, como se fosse mais uma brincadeira, sem se dar conta de que milhões de pessoas leem essas informações.
Por isso aqui no blog quase nunca tem assuntos relacionados à crianças. Mas isso não significa que não as gosto. Esses dois amiguinhos eu sempre vejo no restaurante quando vou almoçar e adoro-os.
Acredito que o instinto materno é algo que uma mulher pode ter independente de ser mãe ou não. E sou muito bem resolvida com relação a isso. Mas tem mulher que não é, mesmo sendo mãe, por isso vem encher o meu saco, mas aqui não, minha filha. Vá resolver seus conflitos com seu terapeuta. A doçura da infância é pura poesia, não deve jamais ser maculada por delírios de pessoas mal resolvidas.
Quando vejo uma injustiça sendo cometida contra uma criança jamais fico quieta ou indiferente. E não sou imatura com relação ao mundo infantil. Quem tem que ser criança são as crianças, não os adultos.
Mas eu me permito muito ser criança quando estou pertinho destes chinesinhos adoráveis.



terça-feira, 22 de outubro de 2013

Pagando uma promessa

Fui pagar uma promessa
Não sei a quem pedi, nem o que pedi.

Minha promessa era levar até a igreja do centro
uma sacola de terços que eu tinha aqui em casa
para as duas pessoas que ficam lá na porta vendendo velas.
Quando cheguei ao local, vi que havia apenas uma mulher com uma criança no colo.
Eu fiquei sensibilizada ao ver que aquela mãe estava sentada na porta da igreja.
E lhe entreguei os saquinhos. Ela me agradeceu muito.
E quando viu os pequenos terços, olhou-os como se fossem brilhantes.
Sério, nunca esperei isso. Achava até que ela ia negar.
O que Jesus, que expulsou os vendedores de animais daquele templo, pensaria hoje, ao ver uma mãe na porta dessa igreja?
Ele, que disse ser nosso corpo um templo do espírito, com certeza se espantaria ao ver que essa religião se apropriou de suas palavras.
O sinal de que uma religião não funciona é ver que a pobreza viceja ao seu redor.
Dói ver que lá dentro se cultua uma mãe, e aqui fora outra espera que lhe comprem um pacote de velas.
Ellen Augusta

sábado, 10 de agosto de 2013

Livros que terminei de ler!

image -James-Vaughan

Mulher-ninguém

Você trouxe presidentes ao mundo e só lhes ensinou trivialidades.
Você teve o mundo na palma da mão e o que fez?
Deixou cair suas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasáqui; ou melhor, seu filho

deixou cair...
Porque você não teve a humanidade de dar um aviso aos homens, mulheres e crianças de

Hiroshima e de Nagasáqui.
Não tem a mínima importância o que você pense ou faça agora, mulher-ninguém, que

trouxe ao mundo generais idiotas.


"...Como não tem memória para coisas que aconteceram há dez ou há vinte anos, você

ainda repete os mesmos disparates de dois mil anos atrás."

"Eu sei zé-ninguém, que você é muito rápido no diagnóstico da loucura quando uma verdade não lhe convém."

"Com uma convicção implacável, deixa de lado o essencial e se agarra ao que é ilusório e errôneo."

"Você rouba os benefícios da vida. Eu o respeitaria se você fosse um grande ladrão, mas você é pequeno e covarde."

"Você se reúne com quem dá com alegria e disposição e o suga até a última gota... "

"Você se farta com o conhecimento, a felicidade e a grandeza dele, mas não consegue digerir o que comeu."

trechos do livro de Wilhelm Reich - Escute, zé-ninguém!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Perséfone - a Deusa gótica

Estou lendo um livro bárbaro, que encontrei num brechó beneficente pelos animais a um pila! O livro chama-se A Deusa Interior, e como vários livros que já li sobre mitos e sobre o feminino, tenta entender os arquétipos femininos e por que foram suprimidos durante tanto tempo. Mesmo nas mitologias, prevalecem apenas um dos lados, por exemplo, no mito de Perséfone, se destaca apenas um de seus lados e não se entende que ela, como toda mulher, alterna escuridão com a luz, da mesma forma que a lua.
 Perséfone come grãos de uma romã que a liga eternamente ao mundo dos mortos. Cada grão corresponde   a ciclos como os das estações e os da menstruação.
A romã tem significados de abundância e também é ligado ao feminino, pois através de sua cor, se fabricam maquiagens naturais. Minha mãe de vez em quando coloria os cabelos com água de romã. Uma discípula de Perséfone, como eu.
 A Deusa se apresenta sob diversas formas, luminosa, triste, a raptada, a cruel, etc. Ela brincava num bosque com inocentes quando foi raptada. Mais detalhes deve-se ler no livro, pois são muitos...
O livro fala de diversas deusas da mitologia grega e as compara com deusas de outras culturas.
 Escolhi ler diretamente sobre essa deusa, por que ela reflete especificamente a mim mesma! E a cada linha era exatamente o que encontrava! Fui direto nela, pois já sabia.
Entender a vida visitando o mundo dos mortos é o necessário para se entender diversas situações da mente e do interior. O livro afirma que até mesmo nos mitos gregos algumas coisas são suprimidas. 

O trabalho de Martin Bernal, Black Athena: the Afroasiatic Roots of Classical Civilization, coloca em dúvida a noção de que tudo no Ocidente tem valor a partir dos gregos... leia!
Aprendi no subtítulo - a Perséfone idosa - que as origens da palavra anglo-saxã Witch (bruxa) sugerem que talvez provenha da antiga palavra Wicca, que se refere àquela que pratica a arte da sapiência.

Buscar a sabedoria algumas vezes fere a si e aos outros que vêem no sábio um espelho triste de sua própria ignorância. É por essa razão que dizer a verdade a alguém é motivo para que essa pessoa se afaste, se for ignorante ou se aquilo a fere profundamente. A maioria fica feliz com a ilusão e até mesmo com a falsidade.
 Como não dou uma de boazinha, fico triste pois perdi gente que amava, que viram espelhos em mim. Tenho defeitos e vejo espelhos em outros. Buscar a sabedoria é um exercício para a vida.
 Fiquei feliz em saber que a palavra wicca significa buscar a sapiência. O livro cita alguns poetas que conviveram com Perséfone em si mesmos... Como T.S. Eliot

...é o desconhecido, e portanto exige fé -
o tipo de fé que provém do desespero
o ponto de chegada não pode ser descrito:
você saberá muito pouco enquanto não chegar lá
sua viagem será às cegas. Mas o caminho conduz á posse
daquilo que você buscou no lugar errado. (peça The Cocktail Party)
 Não é possível ter uma máscara feliz, mas dentro um universo escuro e triste, nem ficar eternamente no lado sombrio, só por que acha que não merece conhecer também o lado luminoso. É preciso, portanto, conhecer e mergulhar no lado sombrio da morte e voltar para a vida deveras, sem sombra do passado!
Durante muitos anos li muito sobre tudo. Hoje alterno leitura com vida e experiência. Não basta apenas ficar sabendo, é preciso aplicar o que se sabe. Isso é sapiência e isso é o que mais me falta....
Sem estrutura psíquica para suportar o que se sabe, mergulha-se no mundo da morte.
Mas é possível voltar. Espero que seja possível! E se não for, o caminho que eu faço já me é saboroso e conhecido, como o gosto estranho das romãs e as flores de Perséfone.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A mulher que não suportava a bondade


Vi recentemente um filme de terror extremo, do famoso diretor de cinema Takashi Miike, conhecido pelos filmes de terror insuportáveis. Apesar de gostar muito de filme de terror, não costumo gostar deste tipo de filme, mas o filme que vi dele é muito bonito.
Chama-se ImPrint, e conta a história de um americano que volta a uma ilha de prostituição japonesa para buscar uma mulher pelo qual se apaixonou e lá encontra coisas inacreditáveis.
O filme mostra de uma forma singela e ao mesmo tempo terrível, o lado negro de todas as mulheres, suas doenças, fantasias, mentiras e bizarrices. A pobreza que condena milhares de mulheres à prostituição, que é ignorada pela quase totalidade de homens e mulheres que apenas fingem que isso não existe. O aborto como símbolo do feminino esquecido, renegado, e como símbolo de um machismo que permeia toda a sociedade.
A violência e crueldade feminina é mostrada com toda força neste filme, onde as cenas são de tal forma chocantes, que em muitas saí da sala para não ver.
O filme jamais nos faz esperar algo, pelo contrário, tudo o que esperaríamos das pessoas se corrompe, pois nada é o que parece.
Takashi Miike

Nada mal para uma realidade em que tudo se parece, mas que no fundo está corrompido por fantasias, inveja, canalhices de todos os tipos. O autor do filme apenas mostra que nem tudo o que esperamos de fato irá acontecer e que a maldade está mais arraigada do que podemos admitir.
Ellen Augusta 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Absorventes ecológicos - recicláveis e econômicos

São confeccionados com sobras de tecidos e aquele material que se fabrica calças plásticas de bebê.
Comprei o do saquinho bege para experimentar, e gostei muito.
Com uma proposta auto-suficiente, ecológica, feminista e um tanto punk, o "faça você mesmo" e não dependa da indústria poluidora. Certamente a indústria que produz absorventes e afins é extremamente poluidora e além disso, a maior parte dos absorventes são testados em animais. O legal é que podemos fazer em casa, basta saber costurar.
 Com estes absorventes, voce não precisa mais gastar naqueles pacotes, lógico que não dá para usar sempre, é preciso ter absorventes descartáveis de reserva. E há que lavar sempre que usar. Mas é muito fácil de lavar e seca rápido. Para quem tem tempo, como eu, é uma boa pedida. Trabalho parte do tempo em casa, outra parte na rua, e tenho tempo livre também. Mas para mulheres que trabalham o dia inteiro fora, já é mais complicado. Nossos dias não são os das nossas avós...
Mas vale tentar, e não depender de uma indústria que prejudica os animais, seja fazendo testes cruéis, seja pelo lixo que vai gerando. É o ecofeminismo prático minha gente!
A embalagem é muito fofa, com um absorvente com botões de pressão nas abas e 3 toalhinhas. Custa em torno de R$17,00. Há outros tipos de absorventes confeccionados em pano. E também o absorvente chamado MOONCUP, que é um copo de silicone reutilizável, mas este precisa introduzir, o que não faz muito meu estilo.

Dêem uma pesquisada nos links acima e também em outros sites e conheçam os tipos de absorventes ecológicos, com materiais biodegradáveis e outros.  E lembre-se, não é retrocesso e sim ter um estilo de vida mais autosuficiente, feminino e feminista, pois a autosuficiência da mulher tem tudo a ver com uma postura de apoio ao feminino.
Economiza-se uma boa grana que seriam desperdiçados em pacotes de fibras poluidoras e além do mais é amigo dos animais e ambiente. O Mooncup, por exemplo, tem selo vegan!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Maquiagem e unhas...

 Algumas maquiagens minhas, a maioria não tenho mais... mas fica o registro. Hoje tenho mais batons... não uso mais sombra por causa de uma alergia que tive, mas estou pensando em voltar a usar aos poucos.


 este conjunto de sombras é vintage, do Avon... muito velho isso sim... a foto saiu fora de foco, mas vale pela lembrança.
 minha coleção de batons, hoje muito maior. Infelizmente é difícil achar batons sem ingredientes de origem animal, como cera de abelha, mas existem. A marca do Avon - que é a que compro frequentemente - não faz testes em animais.
 não tenho mais nada disso. Tive que ficar muito tempo sem usar maquiagem e acostumei muito. Hoje não sinto a menor falta. Só uso batom. Mas às vezes bate aquela vontade de comprar sombras, rímel....bem coisa de mulherzinha....e daí;;;
 sombras de bazar chinês...sabe-se lá quanto chumbo deve ter aí...
Pó da Panvel, os produtos "marcas brancas" como chamam em Portugal, ou "marca própria" como chamamos aqui, da Panvel são muito bons.
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