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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Todos os domingos

Uma vez me disseram que os domingos eram dias sofríveis para as pessoas, pois elas cultivavam a angústia da segunda feira. Aquele último dia de descanso antes de começar tudo outra vez, seja lá o que significa esse tudo, em termos de peso e importância em nossas vidas.
Muitas coisas acontecem exatamente no domingo. Neste último foi dia das mães, foi dia de terminar relacionamento, de trazer sacolas de coisas para a casa, de achar que o dia era triste por si só, já que simbolizam tantas perdas de uma vez.

Acostuma-se com silêncio das ruas, poucas pessoas se atrevem a sair de casa. Moro em uma avenida muito movimentada, exceto pelo domingo, neste dia, ela é um deserto, ou quase isso. A janela é como a TV, onde é transmitido o silêncio da praça, a graça das árvores, as aves cultivando suas coisas, uma xícara de café no parapeito da janela, um vizinho na sacada da frente, tudo aqui é paz.
O amor à paz, ao silêncio e ao ficar em casa é o que tornam estes domingos mais acolhedores. E o trabalho, e o estudo, fazem dele apenas mais um dia. É mais um dia em que se arruma a casa, se faz café, se escreve, se escreve, e assim se passa, com a janela como TV.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Las manos de mi madre


Las manos de mi madre
parecen pajaros en el aire
historias de cocina
entre sus alas heridas
de hambre.

Las manos de mi madre
saben que ocurre
por las mañanas
cuando amasa la vida
hornos de barro
pan de esperanza.



Las manos de mi madre
llegan al patio desde temprano
todo se vuelve fiesta
cuando ellas vuelan
junto a otros pajaros
junto a los pajaros
que aman la vida
y la construyen con los trabajos
arde la leña, harina y barro
lo cotidiano
se vuelve magico.


Las manos de mi madre
me representan un cielo abierto
y un recuerdo añorado
trapos calientes en los inviernos

Isso que ela tá pendurando no varal é massa para fazer macarrão em casa...



Ellas se brindan calidas
nobles, sinceras, limpias de todo
¿como seran las manos
del que las mueve
gracias al odio?


Mercedes Sosa



terça-feira, 11 de julho de 2017

Onde mora minha alma

Todas as noites tenho sonhado com minha mãe. Estou na casa dela, e peço que ela fique uns dias comigo. Ela está tão viva e me diz que sim, irá ficar. E decerto ficará. Mas quando acordo, um desespero me atinge, ao lembrar que vivi em outra realidade, e nesta, ela está morta.
No portão da casa às vezes aparece meu amado de tantas eras. O rosto como de um cadáver, o aspecto de um morto, as mãos brancas e um silêncio que eu entendo. O coração batendo forte. Meus cabelos estão compridos, exatamente como estão agora, porém, nesta realidade, não há nada naquele portão, e o coração que pulsa é somente meu.

Esta casa que aparece em meus sonhos apenas me atormenta, é um lugar onde minha alma às vezes se aprisiona, de onde não consigo sair devido à saudade, à dor, à lembrança. Quero muito vê-la, quero desesperadamente sentí-la perto de mim, sei que isto não me é permitido, mas eu imploro à morte por favor, deixe-me ver minha mãe.
Mas eu tenho meu lar e meu templo. E hoje vou contar como ele é.
Moro em uma casa com janelas muito grandes. Minha vista é para onde nasce a lua. Bem em frente está um cemitério e suas árvores, todas aparentemente imóveis e silentes. Vejo essa paisagem todos os dias, foi por isso que escolhi morar aqui.
No outro oposto da casa é onde o Sol termina. A janela da minha sala recebe todos os dias as cores vermelhas, rosas e roxas do por do sol. E nas madrugadas é por ali que acompanho a trajetória da lua...
Aqui tem uma energia bonita, a minha paz e a paz da casa. As duas juntas formam um lugar onde eu adoro ficar.

A calma da casa é complementar ao ruído da rua. A combinação destas duas estão em perfeita ordem em minha vida. Eu adoro esta rua, eu idolatro minha casa. É uma rua simples, é uma casa antiga. As duas tem aspectos de mim mesma, por isso as amo.
A cozinha é unida à àrea de serviço. Arranquei a porta que as separava. Quero espaço! Tem ali outra janela, para o mesmo sol que eu sinto no entardecer.
O banheiro é ao lado do quarto, é grande e claro. E está cheio de livros, minha amiga me diz: esta casa está ficando a tua cara.
Há livros também na cozinha, na sala e principalmente no quarto, onde está provisoriamente minha biblioteca maior.

Na minha sala existe um painel na parede. É a ilustração de um parque com muitas árvores e um lago. Sempre quis ter esse tipo de painel na minha sala e, por 'coincidências' da vida, aí ele está.

Aqui passo os meus dias, mais precisamente os finais de tarde, as noites e também alguns fins de semanas...
Procuro não misturar a tristeza que se aproxima de mim em certos dias, ao aconchego de minha casa. Ao entrar aqui, procuro deixar lá fora minhas lástimas, porém nem sempre é possível, ao adormercer meus sonhos me despertam, e acordo todos os dias às três da manhã, com a memória forte de um desses sonhos... Eis a nova fase de minha vida, estranha e feliz. Estou simplesmente sendo eu, por fim!




segunda-feira, 3 de julho de 2017

Visita à minha mãe

Sempre vejo em meus sonhos, a casa da minha mãe, dessa vez sem ruínas, pintada de branco, com as janelas marrons, e uma névoa silenciando o ambiente.
Eu fazendo promessas de visitá-la mais vezes, dormir naquela casa. Um lugar que só existe hoje em minha mente.


E lá, no sonho, ela estava tão viva, tão minha, tão profundamente real. Sentia imenso desejo de ficar ali com ela, só para conversar.

Suas coisas, seus pertences, quase nada existe mais. Seu corpo se foi morto, frio e roxo como todos os cadáveres... Ela deixou esse mundo, mas não deixa meus pensamentos. Todos os dias nesta casa, eu a encontro. A casa branca, as rosas no jardim, as roupas que eram dela, tudo o que foi de minha mãe.

Naquela casa, que hoje desaba sobre minha alma, há a memória do meu pai, há a trajetória do meu irmão. Eu também estou lá, de certa forma, naquele quarto solitário, naquela solidão que conheço tão bem, mas que hoje dói bem mais.

A morte corta tudo, nos tira tudo, só tenho algumas fotos, algumas roupas, um espelho, um perfume, e a lembrança da vida e da morte no seu corpo, que um dia me criou.

Eu nasci, daquela que hoje é simplesmente um nome em um túmulo. Eu era parte dela, e hoje carrego suas características dentro de mim. Minha mãe: agora me acho parecida contigo, na doçura e na teimosia, na tristeza, na desesperança, na alegria de viver, no cuidado com o outro.

Eu me abandonei algumas vezes, como você fez certa vez, eu desisti de algumas coisas, como você também desistiu, hoje me reflexo em seu olhar, pois sei tanto o que você passou. Eu luto todos os dias para orgulhar-te, eu escrevo estas linhas, para que possas ler... aí em algum lugar onde estejas.

Mãe, se leres isso, estou no melhor momento de minha vida. Estou percebendo as coisas que são realmente minhas, as que devo deixar para trás, e o que eu penso realmente, que não é influência de outros.
Só o que não muda são os sonhos, em que vou te visitar, aquela casa perturbadora, aquela saudade do que nunca mais será.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Saudade, essa palavra

Existem basicamente três tipos de saudade, as que eu sinto.

Sentir saudade de alguém que veremos em breve é bom. O alvo do sentimento está em nosso alcance, e logo iremos acabar com a falta, abraçar, estar perto. A saudade sequer acaba, ela está presente, nunca parece ser suficiente o tempo de estar com quem se ama.
Aquele corpo amado, a presença, a voz. A alma até esquece que neste mundo tudo parece estar errado. Não, não mais está. A presença apaga todas as marcas, e forma outras....
Fagner Canteiros


Existe aquela saudade dos fantasmas vivos. Aqueles que jamais voltarão.
Somente se percebe em sonhos, já que a razão compressa em esquecimento toda forma de expressão da saudade de quem afastamos por precaução, ou foi embora por que quis ir.

A esses eu os guardo em um lugar, que é como um cemitério. Não levo-lhes flores, não os lembro. Apenas ficam lá em silêncio, como um lembrete do que foram, do que fizeram.
Não, eu não sou perdão. Eu guardo em mim todas as coisas e para o que importa tenho memória.

Existe a saudade eterna. A saudade da mãe, a saudade da casa em que se viveu, a saudade do pai.
Essa saudade dói até para escrever.
É a saudade que a morte nos provoca, esse sentimento que apenas crava uma faca no peito, todos os dias. E para este sentir não há cura, nunca mais os verei.

Nunca mais verei o sorriso da minha mãe, seu rosto triste, seu jeito que era tão eu. Hoje eu sei.

Nem adianta eu morrer, não sei para onde irei. Talvez fique exatamente aqui, no mais obscuro silêncio do não mais. E nunca mais a verei. Minha mãe era linda, meu pai, era meu pai.
Quando penso neles só sinto dor.





segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Flores de novembro

Margaridas lembram minha tia e minha mãe.
 Leucanthemum vulgare e Coleostephus myconis
Essa margaridinha amarela é comum nascer espontaneamente em terrenos vazios e em cemitérios. Minha mãe me trazia essas flores, mesmo que durassem pouco no vaso, era tão bom tê-las ali comigo.
Hoje eu não recebo flores. Esse costume romântico acabou, mas não queria que acabasse.
Minha mãe era a única que regularmente enchia minha casa de flores. Rosas muito perfumadas, margaridas, flores que nunca mais eu vi.
Esse ano, levei flores para ela no cemitério, foi como se eu tivesse visitado sua casa, senti como se ela estivesse ali. Eu sempre levei flores aos vivos, mas os mortos de algum modo também precisam delas.
Sei que sua finalidade é outra. Sei que não é por isso que estão aqui. Nós as cortamos porque são lindas, essa beleza sedutora que conquista o polinizador.
Adivinha o que tem dentro? Muitas pétalas de uma rosa vermelha perfumada que minha mãe me deu, um ímã envolto em papel laminado, que ela colocou ali não sei porquê. E eu deixei. E umas pedrinhas prateadas bem pequenas... 
 Esse porta joia foi um presente do Avon para minha mãe, que sempre foi vendedora, mesmo antes de eu nascer. Esses dias eu tava numa conversa muito boa e nostálgica com minha amiga. E trocamos várias fotos de coisas antigas dessa marca, pois eu lembro que minha mãe vendia. Inclusive alguns objetos nem achei foto na Internet, talvez ninguém tenha guardado, mas eu lembro.
 Lembro de um dia, quando perguntei o nome dessa flor e minha mãe respondeu: É a alegria da noite, ou algo assim. As sempre vivas conheci através dela. As flores que jamais morrem.
Caliopsis - Elegans bicolor

Conhece essas flores lindas? Sempre-viva - Xerochrysum bracteatum (Todas as flores dessa postagem pertencem à família botânica Asteraceae)
Às vezes passo na rua e sinto um cheiro. Volto no tempo instantâneamente, pois são as flores de novembro. Flores da minha mãe.

sábado, 30 de julho de 2016

A rua

Era um encontro ao acaso, os fantasmas lá fora, as coisas sempre nebulosas. Como é difícil lidar com a clareza, aí vamos para as sombras. Tão mais fácil é sonhar, quando me escondo do Sol.
Nada se compara à essa terrível timidez. Me deixa ora pálida, morta, outras vezes vermelha, como algo queimando no rosto. Eu não consigo mentir, fingir que não me importo.
É impossível formular uma palavra, o medo de que ela saia 'errada' e leve para longe, toda a possibilidade. Eu me concentro na beleza das coisas, até chego a amar a vida novamente, durante um segundo, a pureza de um instante me faz esquecer, de toda a tristeza anterior.
A rua se mostrava iluminada. Era final de tarde, havia tantas árvores e um brilho dourado por onde se passava. Eu só queria ir pra casa, me atormentava o medo, a insegurança, essa merda chamada vontade. Esses sentimentos, que ao sol de um final de dia ficam mais bonitos, nem parecem o que são.
Ontem, eu senti um certo orgulho de estar viva. Geralmente eu anseio pela morte, como uma forma de alívio. Geralmente a vida para mim não tem sentido.
E, dessa vez não é licença poética, eu já quis morrer tantas vezes quanto são os dias.
Mas, ontem, ali naquela praça, com aquelas árvores verde-brilhantes e pessoas andando para todos os lados... eu curti estar onde estava. Ali. E percebi que meu coração é vazio, das coisas banais esperadas por todos, mas é repleto, de coisas que nem mesmo sei, e me surpreende, por vezes.

Será que o amor que conheci, se transformou? Será que esse sentimento adentrou-se aqui dentro e me tornou isso? Outra coisa, outros sentimentos, mas todos parte desse, tão profundo e esperado?

Minha mãe

Faz alguns dias que sonho com minha mãe. Faz alguns dias que choro quando ouço RR. Sentir saudade de quem já partiu dessa vida estúpida é quase a mesma coisa que se torturar, não há corte mais profundo, nem mais infeliz, pois é inútil.
Só há uma sensação chamada ausência, As flores secas, a casa fechada, minha mãe completamente cinza, a cor dos fantasmas quando, por fim, estão mortos.
E essa presença soturna a me dizer o que devo carregar. Mas, por quê devo obedecer? Por que passar a vida a levar pesos, mágoas, formas de tapar grandes buracos na alma?

Não, mãe, eu desobedeço. Não levarei nada, partirei com a alma vazia, nada mais restou.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

A Mãe

A Mãe, era assim que eu a chamava.
Seu nome, eu guardava.
Mãe era tão bom pronunciar.

Ela sentia um nó no peito, toda a vez que eu conhecia um cara.
Se sentisse uma coisa ruim, ela já disparava: Não vai dar certo. Eu ficava puta. Como assim mãe?

E era tão fatídico: o mais amado, ou o que mais me perseguia, sumia frente à intuição cristalina de um coração de mãe.
 E, se ela sentisse aquela pontada no coração, era questão de tempo. Não dava certo.
Mas, quando eu casei, perguntei a ela: Mãe, o que você sentiu dessa vez? E ela não havia sentido nada. Mãe, você não errou.

 Minha intuição não me diz mais nada, desde que não lhe dei ouvidos quando ela me chamava dia após dia e, nada fiz. Eu sou tão torpe, mal sei o que eu mesma sinto, meu coração é morto às vezes. Sofreu demais e hoje prefere o silêncio de nada saber.

Queria tanto ter essa intuição dolorida, essa dor no peito que dizia à minha mãe o que ia acontecer. Sempre fui fascinada pela morte. E mesmo sabendo que foi um alívio para ela, sair desse mundo de tristezas, que falta que minha mãe me faz!

Eu sonhei com ela essa noite. Acordei desolada, me sentindo tão órfão, perdida no mundo de um coração vazio. Sem dor, sem amor.

Queria que ela estivesse aqui. Não precisava falar nada, nem ser nada, pois exigia tanto dela quando era viva. Hoje só queria seu ser. Como era, com seus defeitos, qualidades, e sua presença. Nem mesmo no sonho a via direito.

Ela estava ausente. Essa ausência que senti a vida inteira. Me conforta saber que ela pode estar em silêncio. A mudez da morte, sem essa de "vida no além" pois o que mais queria era que ela ficasse em paz.

Fiquei com tão poucas coisas suas, as rosas, a solidão e o modo de amar, talvez. Ausente e profundo.
 Ellen Augusta

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A poesia familiar do peso obscuro

Leva a mala negra e pesada, ali dentro vai o morto.
Que se há de fazer?
Italo Zetti (1913-1978), Portrait of a woman, 1933
Irmandade perdida
Algo há que eu não tenha feito.
Nem o mundo nos escolheu.

A solidão nos deixará na porta, daquela casa esquecida.

Eu sangro de dor em algumas tardes tristes,

Pois não sei onde você deve estar.
Eu sei que não quero saber. E não vou.
A negação é sempre a forma de se cortar por dentro.
E o intento de morrer é a tentativa de punir
a vida.
Vida cretina que levou o que eu tive a conta-gotas.
E carrego comigo os fantasmas de uma família de sombras.
Anseio esquecer.
Não a tenho mais.

Ellen Augusta

sábado, 2 de maio de 2015

Quando a terra me chama e não é para morrer - As três fases de uma mulher

 Há aquele momento da tarde de um dia livre, ausente daquela sensação de prisão que eu tive até então, dos dias de intenso trabalho, que as ruas da cidade me chamam para a caminhada tão desejada. Mas não é só isso. A terra me chama, mas não é só ela. Sinto que algo tão profundo vem de longe até o presente, lá do fundo de minha memória.
 O cheiro da rua, da grama, desta terra que nunca mais eu vi. De um pátio de minha casa esquecida. De quando eu vivia mesmo, era outra época, havia pátio, pedras no chão, terra e grama por todos os lados. Havia mãe e pai. Eu senti saudades de ter terra debaixo de meus pés.
 Senti falta de ter um jardim. Senti um ambiente, pois já não há mais pessoas, não há mais quase nada humano. Sempre ficam os lugares, as pessoas, essas já morreram. A terra as leva para longe.
Essa mesma terra que eu hoje sinto me chamar, para uma vida que eu tive e, se não era tão feliz, que digamos, pelo menos me fazia respirar!
 Andar pelas ruas e encontrar casas antigas, pátios e jardins, cruzar por pessoas que até te cumprimentam, quando se vive em apartamentos convivendo com vizinhos 'bem sucedidos' que jamais podem descer do salto e baixar a guarda é um contraste louco. Pensar que na mesma cidade há gatos e antiguidades, flores e árvores tudo isso ao nosso redor e aqui mesmo ao lado de minha casa, mas não vejo, ou vejo tão pouco, é triste e feliz ao mesmo tempo.
 O chão é tão limpo que é preciso sentar nele e ali ficar mais um pouco.
 A imagem abaixo não foi montada para a foto, foi o desejo sincero de sumir. Não de sugar a natureza como fazem os ambientalistas, naturebas, os esotéricos e toda a corja que usa a Natureza como tema eterno de seus falatórios. Tão logo a sua ansiedade acaba, já estão surfando em seu egoísmo e ganância, explorando a natureza, as pessoas, e sobretudo os animais.
 Abracei a árvore que considero a mais linda de todas.
 Caesalpinia ferrea, conhecida como pau ferro


 Não sei o que o pintor queria dizer com a cena abaixo, mas eu interpretei como sendo a Deusa Tríplice, ou as três fases da mulher, também conhecida como as fases da lua, etc.
 As três fases de uma mulher: A jovem, a mulher na sua fase plena - se ela QUISER poderá ser mãe, e a mulher anciã.
Eu sempre estive entre a mulher jovem e velha. Sempre fui plena. E sempre fui todas. Tenho o instinto materno mais forte que já pude conhecer. E decidi nunca ter filhos. Tomei essa feliz decisão na minha adolescência.
 E sempre fui afortunada, por um lado. Por outro, eternamente buscando minha mãe, mesmo tendo a minha, mesmo quando a tive, a buscava. E quando a perdi, a perdi duas vezes.
Todas as fotos: Marcio de Almeida Bueno/http://diretodeportoalegre.blogspot.com.br/

 E só há um remédio para acalentar um coração que busca: caminhar e escrever. As palavras saem e caminham com as mãos e os pés.
 Estou escrevendo, em paralelo com este blog, um outro texto, sobre um tesouro que encontrei, que vai entrelaçar histórias. Talvez ali a melancolia se transforme cada vez mais em poesia. 
Lá as três deusas são anciãs, incluindo eu.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

N. Maria

Um sopro quase musical do vento a correr. Escorre o pranto.
Flores vermelhas, rosas negras. As rosas que eu recebi e as que te levei.
O sol brilhava nas folhas verdes.
Saudade botânica, infinita.
O passado existe apenas por detrás de meus olhos.
 A solidão hereditária
é uma flor interior
branca e perfumada. Alegre e cortante.

Sepultaste o amor em teu coração.
Quando perdeste o ar em teu peito.
Transparece em meus olhos teus traços.
A melancolia lastimosa de saber
que parte de mim também morreu.
Ellen Augusta

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A sua sogra é um inferno? A minha salva animais

Publicado no Dia da Mulher, em 2010, em minha coluna na ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais
Ellen Augusta Valer de Freitas

Mulheres guerreiras sempre foram uma raridade. Isto por diversos motivos. Seja por que a sociedade tende a menosprezar o trabalho bem feito de uma mulher, chamando-a de histérica ou radical, seja por que as próprias mulheres muitas vezes se comportam como minoria, sendo que são maioria em muitos lugares do mundo.
A minha sogra é  uma mulher guerreira que enfrenta uma cidade. Ela batalha pelo bem-estar de animais abandonados nas ruas, numa cidade em que as pessoas não se comprometem com essa questão (mas querem que seja resolvida). Isso é uma realidade em muitos pontos do país, e em cada ponto há alguém fazendo algo, mesmo que discretamente.

Embora animais de rua sejam um problema claramente ambiental e de saúde pública, nem todos os “ambientalistas” pensam assim. E ocorre de as secretarias do meio ambiente em diversas cidades ignorarem essa questão, que está prevista em lei.
Ela faz suas batalhas publicamente, busca ajuda, sai de casa todos os dias e vai cuidar dos cães que a esperam correndo e muito alegres. Busca comida em locais que doam restos, algumas vezes presencia o desprezo de algumas pessoas. Leva lá e serve, depois de separar e preparar os pratos. Faz a limpeza, arruma as casinhas e quase nunca dá tempo de fazer tudo.

A Vivânia Caser Bueno é uma batalhadora que vive em Veranópolis, a terra da longevidade. E, de lá, ela mantém de forma corajosa um canil com 40 cães em média. Trabalhando praticamente sozinha e com pouco apoio da população.

Todos sabemos que o cão é um animal extremamente ligado ao ser humano. Ele é carente e dependente, e é muito cruel quando o abandonam depois de o acostumar na companhia humana. Ele gosta de brincar com bola, vem nos abraçar, demonstra que querem estar próximo de nós e nos é fiel. Mas a humanidade o trai de forma vergonhosa, toda vez que o deixa num depósito, ou o abandona na rua.

Espalha-se a ideia de que as ONGs ganham muito dinheiro, mas a verdade é que nem todas têm a atenção que mereceriam. Os demagogos que sugerem que devemos cuidar de criancinhas carentes geralmente são os inúteis que não fazem nada, nem pelas crianças e nem pelos animais. Mas acham que nós é que temos de nos preocupar com toda a causa. Como se ajudar animais fosse diminuir a cota de amor aos outros seres vivos. Muito ao contrário.
A Vivânia Caser ganhou uma condecoração na cidade, pelo trabalho que faz. Exibe orgulhosamente na sua sala. E com toda a razão. É um reconhecimento pelo ótimo trabalho que vem fazendo sozinha todos os dias do ano. Um ato de solidariedade que raramente se vê.

É um privilégio saber que, quando vou visitar minha sogra, vou fazer trabalho voluntário com ela ali no canil. Me sinto importante no mundo, pois sei que eles olham para a gente com esperança.
Quem não gostaria de ter uma sogra assim? Por isso admiro as protetoras de animais.
Em vez de fazer fofoca e cuidar da vida alheia como muitos fazem, vão fazer algo pela vida.
Admiro-as, pois eu não tenho coragem de catar um cachorro todo quebrado, pegar um cavalo que foi humilhado fisicamente e tem aquela vida miserável que todos nós sabemos como é, salvar um gato de donos cruéis e psicopatas.
Eu não tenho coragem. Minha coragem está aqui nas minhas palavras. E nas minhas atitudes diante da turba que insiste em seguir outro rumo diferente do meu, que é respeitar os animais de forma ativa e genuína, no prato também.
Admiro-a por ser mãe (e mãe do meu marido!) e ao mesmo tempo ter muitos filhos cães, que com certeza são bem cuidados. As doações dos animais sempre são feitas com muitas considerações. Geralmente quem vai ao canil são famílias humildes, à procura de um companheiro para seus filhos. O Humberto, o cão gigante e brincalhão, foi doado na semana em que eu estava ajudando. Ela chorou muito, pois ele era o mais antigo dali. Por ser de grande porte, era mais difícil de ser doado. E muitos o queriam para pôr numa corrente, o que é um pecado, pois ele adora correr. Foi doado a uma família que tem um grande sítio.
Ela também acolhe gatos, e os doa mais facilmente. A dificuldade maior está em adotar cães que são geralmente de portes variados e idades variadas. Os mais feios, os castigados pela vida ninguém quer. Conhecemos exemplo semelhante em outro lugar? Sim. Crianças também são desprezadas, depois que passam dos primeiros anos de idade. As pessoas declaradamente só querem os branquinhos que acabaram de nascer. Isto as que algum dia pensaram em adotar.
Mas a vida nos mostra que em toda generalização existem as exceções. E foi o que vimos ao constatar que muitas pessoas apareciam lá e levavam cães mais velhos. Outras preferiam os filhotes. E tem gente que liga perguntando se tem siamês, ou pequinês. Estas são as que nada sabem da realidade do canil. Querem chow chow, poodle. Obviamente estes cães também são abandonados e merecem respeito, mas não é o comum.
As rádios da cidade sempre a convidam para dar entrevista e colaboram para que o tema entre nas casas das pessoas.
Ela diz que poderia estar jogando cartas com as amigas, em vez de enfrentar tantos problemas. Ao perguntar se estaria feliz jogando carta com as amigas ela responde: não.
Ela  é feliz fazendo o que gosta e é o que mais importa.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Verbos infantis - palavras transitivas: escrevendo para a criança morta

Para Erico

Chover pelas árvores, correr pelas calçadas, folhas e rosas esquecidas no olhar.
O guarda-chuva caminha e a música - sempre a voz - fere ouvidos emocionados.
Vou encontrar o mago.
Contar segredos...malditos.
Na sala dos sonhos, não tem velas acesas, nem incenso, nem toda aquela ritualística dos tempos ingênuos.
O que há ali é um imenso espelho a se partir, a rudez de quebrar pedras, atravessar portais translúcidos, com um corpo de nudez, e alma dilacerada.
As lágrimas no vidro dos olhos, vergonhosas mãos escondem a dor, tudo em frente de deus.

No outro lado da rua a criança chora com sua boneca nova. A mãe está atrás da porta. Ela - um conto de lágrimas. Sabe que chorará até o último dia, deste evento que chamamos de: 'sua vida', mas que é nada mais do que - morte - a cada minuto que deixamos para trás.
O bebê que a criança carrega, é de brinquedo. A criança que o adulto adormece dentro de si - chora e sangra.
Caminha por cemitérios enfeitados de rosas, névoa branca entre lápides, ela está morta.
É a melancolia infinita, de tempos remotos, de dores esquecidas. De bonecas partidas. De afetos que nunca existiram. A solitude necessitava o vazio, e seu direito ao amor. A mente viajava para o distante, buscando o domínio de si mesma - a menina poeta. Eu já sabia.
O amigo trouxe pela primeira vez o abraço - irmão - amado, em troca daquele que não foi.
Olhos de água escura, cujo fundo se perdia em ternura.
Jardim cuidado por mãos tristes, por lágrimas sem remédios.
A criança está sozinha. E hoje eu a vi chorar, por uma boneca que ficou para trás.
Ellen Augusta

sábado, 11 de outubro de 2014

Por que existe o Dia das Meninas

Hoje é o Dia da Menina
Descobri por acaso, fazendo minhas leituras, por aí.
O comércio, e as pessoas, deliram com o dia das crianças. Sem qualquer critério. Eu penso que toda criança merece presentes e mais que tudo, afeto. Mas isso nada tem a ver com o ilusionismo que ocorre nesta data.
Acontece um egocentrismo sem limites, uma falta de percepção. Cada um por si. E isso quando as próprias crianças não são esquecidas. Irmão contra irmão, parentes chatos, funções inúteis, paparicos deseducantes, segregações entre crianças, só para dar alguns exemplos.
Já fui criança e tive infância, e sei a diferença entre o que é bom e o que é ruim. E posso falar sobre infância com toda a autoridade.
Sim, pois não pense que só quem é mãe, pai, ou seja lá que profissão especialista em crianças, pode falar sobre infância. É preconceito querer tornar sectária a experiência. E Não me refiro a questões técnicas. Falo do povo que quer monopolizar o assunto, proibindo os outros de ajudar. Tipo, homem não poder participar do feminismo.
Esqueceram o dia das meninas. E foi preciso criar este dia, pode crer.
Elas são 'dadas' em casamento, são obrigadas a se casar com animais (vide religiões orientais e indianas, para quem ainda 'mistifica' essas coisas), são prostituídas, são escravas do lar, trabalham na rua, são abusadas sexualmente são, como as mulheres em geral, submetidas ao machismo. A lista é longa e acontece também com meninos. Mas até nisso as meninas perdem. Mães tendem a preferir meninos. (não inventei nada, pergunte ao Freud, ele costuma explicar tudo) E daí existe uma série de meninas obrigadas a trabalhar, serem esquecidas, abortadas, a sofrerem violência doméstica, abandono, etc. Meu texto, que você pode ler aqui: A filha camareira, o filho hóspede, revela todo meu asco a esse tipo de preferência, que mostra mães imaturas, machistas, que parecem ter filhos apenas para satisfazer desejos egoístas, narcisistas.
Lembre das meninas neste dia. E se você foi uma menina. Parabéns por ter sobrevivido neste mundo, pintado por Renato Russo, nesta homenagem feita pela Vanguarda Abolicionista.

domingo, 3 de agosto de 2014

A alma do farol

Ando com os pés em dor na areia
o corpo está no farol, perdido, dentro do oceano.
A cabeça é um ponto de luz ofuscante e brilhante.
Uma pedra imensa em direção às águas, carrega os cabelos que crescem.
Eu os corto.
A mãe primeira, a que me salvou do mar, já não está aqui.
A que agora está em silêncio, não olha mais para as ondas.
A primeira mãe me levou aos livros. Pois era sua forma de sumir.
A poetisa, é minha segunda mãe.
Tem os cabelos dourados, como a primeira.
Brilhando como a luz noturna.
Eu os corto,
De minhas mãos só saem dores.

A segunda mãe, mostrou-me suas palavras.
De suas mãos, eu já vi rosas, poesias marítimas, e alguma lágrima de sal.
Chegam à praia e voltam,
ao profundo, um ventre de mar.

Desejo a morte porque nunca pude
jogar-me de um farol.
O medo é para quem não conhece.
O soturno espaço das ondas.
O contato entre o farol e o barco - o sinal luminoso.
As vagas - espelhos que refletem teu amigo, aquele esqueleto interno.


A mãe segunda ensina-me a separar palavras.
Cercar-me do farol e suas sombras.
Águas ensanguentadas, luas estranguladas.
Sondar a melancolia com ternura.

O fantasma ronda as pedras
sobe as escadas.
Conservo-o sagrado.
Uma chama interna.
Preservo a solidão dentro de mim.
Fecho-a junto à lâmpada do farol.
Os livros me libertaram das crendices nos deuses inúteis.
Cerco de velas, flores e cinzas, o sagrado destino das poetas que me fizeram mulher e escritora.
Ellen Augusta
Este poema é dedicado a Maria Helena Sleutjes
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