Nas imagens que se abrem em meus olhos quando durmo,
fecho portas transparentes
estou só, através de vidros translúcidos,
minha casa é negra, com passagens de luz.
O Sonho ofereceu-me sua morada
A casa, névoa branca e cinza, eterna cortina de saudade
envolve objetos repletos de afeto,
o corpo sonambular,
as memórias apagadas.
A Criança diz teu nome
Não esperava e, fato é:
Abriu-se a percepção
amorosa.
Roubei teu livro no cemitério,
o lugar onde guardei tudo de ti.
Enfeitei com flores o nada, teu espírito e tudo que não mais sei como é,
e decretei morte à minha Assombração.
Acordo de madrugada,
com a solidade cortando meu peito,
feito sal na ferida sangrante.
Eu deveria levantar guerra, ferir-te como quem ama,
Mas nada existe de real.
Sonhos são sonhos,
A fenda de realidade,
que mostra uma profunda verdade.
Estava num de meus dias em que se misturavam a paixão e a desesperança, quando, procurava uma fotografia para meu blog, para um dos assuntos que virão a seguir. E encontrei esta, a fotografia da tumba de Jeannette Ryder. Não a conhecia e, fui pesquisar e trazer aqui para o blog um pouco de sua história.
Ela era norteamericana e viveu no começo do século XX em Cuba, fundou a Sociedade Protetora de Crianças, Animais e Plantas, também conhecida como Bando de Piedad.
Criou um hospital para animais, combateu a utilização abusiva de animais para tiro e carga (carroças), também fazia campanhas para o controle de natalidade de animais e era contra às corridas de touros em seu país.
Típica protetora, sempre levava comida para cães e gatos nas ruas, não se importando com as críticas e zombarias do povo ignorante.
Quando foi enterrada, sua cachorra Rinti se instalou em seu túmulo, e nunca mais saiu de lá. Os visitantes lhe levavam comida, que ela sempre recusou, até que morreu de fome, sendo fiel à sua tutora, até o fim de seus dias, numa demonstração de amizade rara e tão próxima do amor.
Eu não suporto a luz do Sol, fere meus olhos e queima minha pele, e prefiro-a branca, cada vez mais branca, como se fosse possível que fosse mais. Mas não posso escolher os dias e muitas vezes não há outro remédio que não sair de casa. O trabalho me obriga, e também a vida lá fora me chama, pois a morte é uma tentação, e não pretendo-a todos os dias.
Gosto de fotografar o Sol, nessas imagens, ele já não fica tão lúcido, as sombras ficam mais evidentes. São recursos da câmera para disfarçar a luz e contê-la dentro da fotografia. Eu prefiro os efeitos que ele causa nas sombras.
Quando a luz se projeta sobre as águas, parece que até influenciam no aroma, no movimento, em tudo ao redor. Como qualquer ser que pode usar a visão é assim que conheço as coisas. Mas sem as sombras, a luz apenas seria uma agressão sem sentido, uma queimadura a me ferir.
Uma das coisas mais lindas que já vi, foi o amanhecer na praia. O dia chegando, ainda sendo noite. O desespero do sol sobre a inconstância das ondas... Aquela névoa refrescante da manhã e eu ali, sem saber o que ver primeiro, o que sentir, o que esperar.
Ou então o contrário, a luz que a lua projeta sobre as ondas que vem chegando até a borda.
O olhar solitário da lua sobre o absoluto impenetrável do mar.
Essa sensação é completamente agradável, sem ela jamais poderia saber o que é terra ou o que é oceano, eu amava essa luz. Agora, já não a tenho ou, se terei, não sei. Nunca mais vi o mar.
Há tristezas que não podem ser mostradas. Elas são mais tristes, penosas e não são bonitas.
Tentativas de poesia para o fatídico não se encaixam no mais terrível destino, onde nada é tão penoso, tão sofrível, tão desastroso.
Ver o outro sofrer, estar preso em si mesmo, em um outro mundo.
Não é meu mundo, mas eu sofro tão profundamente, que mesmo gritando não consigo aplacar essa dor.
Seria preferível receber um recado dos mortos. Do que saber de certas coisas.
Saber, me faz gritar à noite. Me faz infeliz, me faz sofrer, me faz sozinha no mundo.
O outro. É a minha irmandade. É parte, que eu tentei ignorar. Mas nada pode ser esquecido, o que no fundo ficou e está.
Misturam-se tristeza com a dor do irmão/Misturam-se a lembrança do amigo com a temível cortina, o véu de ausência.
Tento trazer à luz o funesto, torná-lo bonito, pois assim sempre sobrevivi.
A um mundo insuportável,
Busquei palavras, amei cada uma delas. Procurei com cada letra,
a outra forma de morrer.
A cada dia, naquelas pedras batem os mesmos pensamentos, o ritual.
O ilusório, a morte, para esquecer a vida estúpida
que te faz infeliz.
Sentido guardado
isolado.. em silêncio.
no ponto luminoso do farol
respiro o vento
quando traz o cheiro do mar, eu lembro.
meus cabelos crescem, eu os corto
no sonho vejo-os longos, as roupas de cores: azul, verde, violeta.
eu os corto, ainda não é hora
uso o negro pois minha alma traz seu nome igual ao meu.
tenho nas mãos as marcas roxas do sono, as flores brancas do encanto
suspensas por todo o ar
como uma saudade que eu possa capturar
A chuva se aproximava e era de flores:
Por que estavam no ar, no meu corpo, na minha boca e por todo o lado que voltasse o olhar?
Por que brancas, sem em mim tudo é violáceo?
por quê? esses cruzamentos essa distância, esses pensamentos?
sonhos/ em que tudo são tormentos, guardam em si mesmos boas lembranças - porém!
Eu vivo como uma concha, tragando liberdades.
Cada pétala caída, cada flor colhida,
Morrem comigo, nas palavras, em um movimento de minhas mãos, covardes.
O medo, a solidão, esta flor branca , vive internamente.
Abre-se e chora.
Não consegue jamais desvencilhar-se
de uma condição.
Caminhando em busca de beleza, um motivo para preencher o dia de Sol, um tanto nublado.
Um motivo para enchê-lo com mais nuvens, pois adoro os dias de nuvens ensolaradas.
Assim saímos para a rua!
E, com meu olho biônico fui atrás de algumas igrejas, os castelos urbanos...
Olha que lindo!!! Eles lutam ou se complementam?
Que linda arte, linda para uma tatoo ou um quadro, simplesmente demais.
A maior parte das igrejas, sempre com portas cerradas, esconde suas belezas internas. Foda-se, pego o que dá. Outras, revelam os tesouros em cima de suas torres, apontando sempre para o impossível, a única coisa que podem mesmo comprovar: o nada ilusório, o ar, a morte.
As nuvens, a incerteza de tudo. E caminhando por essas capelas fui encontrando símbolos perdidos, capturados de outras eras, transformados em outros signos, tornados visíveis para uns, perdidos para outros, desconhecidos para a quase totalidade das pessoas.
Eu, que nem mesmo creio tanto, quero saber. Por respeito e admiração, curiosidade e afeição aos signos eternos universais.
Mas muitos daqueles que creem, nem mesmo se interessam pelo que está debaixo de seus pés e acima de suas cabeças?
Nos observam sempre com seus assombros e sua proteção em demasia
Essa é a Igreja São Pedro, linda por fora e rica por dentro.
Sempre que passo na sua frente, entro para ver sua riqueza.
Neste dia havia senhoras recitando o Rosário.
São lindos os adornos de cada canto dessa igreja, nunca me canso de olhar.
As cores que me encantam, o azul negro, o céu morto como aquele que o criou.
E outros cantos obscuros. Um lugar de paz, sem dúvida.
A luz só entra no recinto se for para tornar sagrado os símbolos, para dar essa aura de mistério a tudo.
É um lugar perfeito para meditar, mas eu jamais consegui, não são coisas para mim.
A única coisa que faço num lugar desses é admirar. Ver o belo, e saber que nestes locais, o que mais acontece são outros olhos a me observar. Outros fiéis a me sondar, outros julgamentos, outros deuses com mais voz gritando, dentro de si mesmos. Ou não!
Fotografando um desses castelos urbanos, encontramos um fotógrafo, arquiteto amador, que também estava a fotografar igrejas. Ficamos um bom tempo conversando sobre arquiteturas de templos.
Ele nos explicou a diferença entre arquitetura gótica e neo gótica, e de como algumas igrejas misturam estilos, por conta de motivos políticos e econômicos. Também contou sobre algumas igrejinhas do interior e das forças entre religiões, e de como existem diferenças entre as siglas das religiões luteranas de acordo com sua origem, por exemplo.
Considerando que portoalegrense não conversa com estranhos, por diversas razões, entre elas o nariz empinado e o medo do outro, me espantei com a simpatia desse senhor. Talvez ele fosse do interior. Simplesmente nos encontramos na rua, conversamos bastante tempo e nos despedimos. Trocamos ideias sobre casas antigas também, lugares que, em breve, deixarão de existir pela especulação imobiliária.
Essa é uma cruz de uma igreja luterana que fica bem ali no centro.
Sabe no que eu acredito? Na água benta. Sempre que saio de um local sagrado (quando eu entro em um), pego um pouco da água benta, seja da religião que for. Não interessa quem a benzeu, nem as intenções, por que na verdade sou simpática à ideia apenas, não tenho interesses envolvidos.
Apenas acho que a água conduz todas as coisas e vontades. Ao sair sempre toco na água, não penso em nada, mas gosto dela.
Respirei e a segurei como pude
ao fechar os olhos
caiu
revelando minha dor.
Fecho a cortina escura do olhar
atrás da qual estão aquelas lembranças
o tempo morto através de meus olhos fechados.
E o presente no brilho da visão, que se nos toca.
A lágrima, um mar corre em mim
Odeio a vida porque te conheci.
e a cada correnteza, a cada ferida aberta
mais desejo morrer
para cerrar tantas portas e sepultar
o que tento tanto ocultar
A lágrima denuncia, denuncia o quê?
Um olhar denuncia, mas exatamente o quê?
Nenhuma resposta, visão líquida
Nenhuma resposta, coração indomado
A água salgada, escurecida pela maquiagem, corre pelo rosto
Leva algo, eu sempre soube. Hoje não mais.
Meu sonho revela, carrego a premonição em minhas mãos.
Todas as vezes, a vida inteira. E agora?
Os dedos pálidos sentem as palavras, que saem uma a uma detrás destes negros portais lacrimosos.
E agora?
Elas, lágrimas, já caíram e eu, que anseio tanto pelo fim,
ainda respiro.
Escrever de madrugada, é encontrar tempo onde ninguém o procura.
Eu estou desperta quando grande parte já se foi. Só os vagabundos estão insones, quando não é hora de trabalhar. E aproveitei para procurar umas fotografias. São imagens de mim. Adoro me mostrar, um lado humano de outro lado tão desumano que escondo muito bem. O lado imortal, que o tempo tem.
Adoramos caminhar pela cidade. Andar até este ponto foi fácil. Eu moro muito longe daqui. Não preciso de carro, nem bicicleta, não quero ter nada. Se tenho tempo, este só me basta. Porque um dia eu não o tive. E sangrei por sua falta.
Ao olhar tão distante, busco um ideal de poesia. Poder ver a cidade e dizer, és minha, mesmo sabendo que não pertenço a quase nada. A nada. Meu orgulho é dizer não. Mesmo sabendo que pode ser uma grande mentira.
Templo Positivista
Porque, lá no fundo, a morte é um fascínio e nunca deixou de me atrair. Sempre pertenci ao mundo dos mortos, desde que nasci.
Templo Positivista
Minha única certeza de estar presente é que o sofrimento deste mundo, este corpo, tudo é terrivelmente vivo. Tudo é prova. A felicidade rara, a paixão perfeita que às vezes se vai. O amor e a amizade verdadeira, que se leva tanto tempo a conquistar. E é preciso manter com a espada.
Eu não sou da terra nem do ar, sou do mar. Sou o fogo de encontro com a água e ela não é limpa nem leve.
Sou a contradição em si. Há poucas coisas aqui que não sejam ambíguas e, foda-se. Adoro descobrir qual é o conjunto de paradoxos novos em mim.
O ato de escrever é um espelho de minhas coisas pessoais. Meu diário do que vivo no dia a dia dos meus passos na cidade, nas pausas no Sol, um pensamento de paz ao ler, ao reencontrar alguém.
O poeta perdido no meio da cidade, o amigo encantado, a querida amiga verdadeira: a única a quem pude contar meu lamento. A angústia a quem mais ninguém poderia confiar...
E meu eterno companheiro de jornada, sempre caminhando comigo. Tudo isso dentro da metrópole.
Igreja gótica Santa Teresinha
Do céu ou da terra, nascem as igrejas.
Ferem o céu com suas cúspides e colunas, e nos vigiam eternamente com seus anjos.
Igreja gótica Santa Teresinha
Procurar cada cicatriz de suas construções, admirar os símbolos de seus ancestrais, oculto em cada detalhe. Imperceptível para quem não tem tempo...
Meus passeios acabam, ou começam, às margens do Estuário Guaíba. Ali, onde já naveguei, onde dancei, namorei, fui a um show do Replicantes e até em roda punk me meti. E muito trabalho de ativista fiz. É um encontro de rios.
Eu já fui de outro lugar. Não faz diferença nenhuma viver nesta ou naquela cidade. Onde morei desde que nasci era uma cidade simples. Lá eu cresci, amei, estudei e trabalhei. Tanto faz. Nunca reclamei de lá, muito pelo contrário. Defendia a cidade: eu me sinto bem onde estou!
Já fui da praia "três meses por ano". Um dia me libertei de lá também. Do mar sempre sou. E lá morrerei.
Sempre lembro com carinho dos bons momentos que vivi naquela cidade onde nasci e morei, mas lembro mais do alívio que senti, no dia da minha partida.
E assim será com tudo, até com minha própria vida.
A insanidade, sintomas de minha loucura
é perder-me neste hospital, é queimar-me neste fogo do distanciamento
estar longe do que mais amo -
a umidade do sal.
Uma ave que pudesse voar
meu amor que soubesse viajar
Se eu pertencesse a algum lugar?
A visão do oceano me perturba
eu nem posso mais olhar
A vontade de estar lá e nunca mais/nunca mais voltar
Esteja dentro de minha alma, por favor.
Uma súplica líquida, de amor.
Volte para mim/Não se distancie.
-Eu estou distante, porque sou covarde.
A brutalidade do encontro com o mar
Na noite mais escura um coração cortado com sal
é essa distância covarde do que eu deixei para trás.
Minha morada, meu mar, meu farol
meus pés em cada grão de areia: teu corpo.
A água líquida, o fantasma.
O anjo negro que nunca mais me deixou.
Caminho desnuda, o frio me congela, os pés pouco mais flutuam, pois já não sentem.
Não há nada mais lindo que uma noite descalça.
O sonar das músicas, lá fora é madrugada.
As ondas batem nas pedras, respiro.
Da janela vem um pouco da lembrança, era ela.
Um jeito diferente de ser, uma mulher que outrora caminhava ali.
Era um fantasma de mim.
A mulher que de certa forma te ampara.
O sonho os pés nus de tanto chorar.
O mar continua a ser ameaçador, está tão tarde, preciso morrer.
Não é preciso ser louca, me basta dizer
teu nome.
Oceano!
Luar sobre as pedras, por que não vou ao teu encontro?
O frio do Inverno provoca-me delírio.
Não sei escrever.
Só sei inspirar novamente os mesmos devaneios,
impregnar-me com a mesma recordação.
Eu me vi no espelho das ondas. O espírito no mar noturno.
Nunca mais, eu me dizia.
Nem para a vida, nem para a morte.
Presa entre as vagas marinhas sem saber para onde ir.