Artigo de Marcio de Almeida Bueno - publicado na ANDA e no Olhar Animal http://www.anda.jor.br/category/colunistas/marcio-de-almeida-bueno e http://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/marcio-de-almeida-bueno
No vídeo, o cavalo está caído no chão, com as patas amarradas, e preso a um poste de madeira. Ele se debate, tenta se levantar – sem sucesso. Um gaúcho se aproxima – aquele bem caricato, com roupa típica, bigodão – e, com o chicote, espanca o rosto do cavalo. A cena é brutal. A pessoa que filma dá risadas. Pela voz, percebe-se que é uma mulher.
Trata-se da doma, à moda tradicional do Rio Grande do Sul.
No outro vídeo de faça-você-mesmo, uma égua é presa pela primeira vez pela boca, em um campo cercado. A corda, firme, está em um palanque. O gaúcho dá um susto no animal, que sai correndo, na sua força, sem saber do resultado. A corda estica é dá um tranco daqueles, inesperado. Dor e pavor. O processo se repete, e a égua dispara pelo gramado e então recebe o impacto. Chama-se ‘quebra de queixo’, uma espécie de ritual que diverte certa parcela da população ligada ao RS.
Não, o cavalo não é uma motocicleta que já vem de fábrica com acelerador, freio, marcha-a-ré e embreagem. Esses comandos todos são aprendidos, à custa de dor e, dali pra diante, temor para o resto da vida. Claro que a patricinha-de-feicibúqui que ‘adora cavalos’ e volta e meia vai a um sítio com passeios de montaria, jamais ficou sabendo disso. Não foi aos bastidores ver o choro do palhaço.
Porque estamos acostumados a ver o cavalo já com os arreios, com os apetrechos todos, na boca, cabeça, pescoço, costas, barriga. A propaganda é pesada, e mesmo um cavalinho de pelúcia, fofo, para dar de presente à namorada, já tem um arreio na boca. Reparem.
E há quem se auto-intitule vegano, aboliticonista ou defensor dos direitos animais, algo cool, e ao mesmo tempo passeia no lombo de um equino. Falo aqui 1% da dor física – sim, já existe a ‘doma racional’, parente do abate humanitário – e 99% da dor moral, uma vez que aquele quadrúpede vai passar o resto da vida obediente, Joãozinho-do-passo-certo, temeroso da próxima vez em que *aquela* dor vai voltar. A prova é que o ‘freio’ do cavalo-motocicleta é um puxão nas cordas, com mais ou menos força.
NInguém ousa se mexer na cadeira do dentista, quando *aquela* dor apita, não é mesmo?
E não citarei aqui a parte, digamos, odontológica aplicada ao nosso amigo cavalo, a seco, para fins de encaixe dos acessórios apropriados.
Bem, em 1984 fez muito sucesso uma música gauchesca – sim, há que se ter trilha sonora para o narrado acima – composta por Roberto Ferreira e Mauro Ferreira, chamada ‘Morocha’, cantada por um conjunto intitulado Davi Menezes Junior e Os Incompreendidos.
“Aprendi a domar amanunciando égua / E para as mulher vale as mesmas regras / Animal, te pára, sou lá do rincão / Mulher pra mim é como redomão / Paleador nas patas e pelego na cara”, diz o refrão da música. Traduzindo para a língua falada no Brasil, mais ou menos quer dizer que o autor aprendeu a amansar éguas, e aplica o mesmo procedimento às fêmeas de sua própria espécie, inclusive com uso de uma espécie de algemas e venda para os olhos – que fazem parte da doma equina, conforme o caso.
No vídeo disponível no YouTube, o cantor se apresenta com chicote na mão, e uma elegante senhora da platéia – com uma estola no pescoço equilvante a umas quatro raposas – passa o tempo todo vaiando e xingando os músicos. As demais mulheres focalizadas pela câmera aplaudem ou permanecem comportadas.
Curiosamente, uma música similar foi lançada em resposta à primeira. Intitulada ‘Morocha, não’, de Leonardo, um dos mais conhecidos cantores-compositor da música regional do RS, já falecido, respondia às bravatas. “Ouvi um qüera largado, gritando em uma canção / que as regra pra um ser humano é a mesma dos animais / que trata que nem baguais
maneando patas e mão” diz um trecho. Nota-se, claro, o especismo. Não podemos ser ingênuos. O refrão é “morocha não, respeito sim / Mulher é tudo, vida e amor / Quem não gostar que fique assim / Grosso, machista e barranqueador”.
Barranquear, traduzindo, é estuprar – isto vai ser contestado, mesmo que mentalmente, por muitos, que não vão se manifestar por vergonha – uma égua fazendo uso de um pequeno declive para que, digamos, os genitais fiquem na mesma altura.
Uma espécie de ritual que diverte certa parcela da população ligada ao RS.
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terça-feira, 10 de março de 2015
Da violência contra éguas e mulheres
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terça-feira, 25 de maio de 2010
O Abraço de Nietzsche
"Um ano antes de morrer, Nietzsche foi decretado louco. Sua insanidade irreversível teve a gota d’água constatada por causa de um abraço na manhã do dia três de janeiro de 1889. Quem testemunhou a estranha conduta do filósofo alemão disse que ele caminhava pela Praça Carlo Alberto, em Turim, quando viu um cavalo sendo açoitado pelo tutor. Então, como se sentisse a dor do animal, o abraçou e chorou aos soluços. O gesto foi devidamente justificado pelos médicos: Nietzsche tinha a constituição nervosa extremamente sensível e deveria ser internado com urgência.
Tanta estranheza causada por um gesto de amor a um animal, em detrimento da comodidade humana, pode ser justificada por fé e razão. Pois a gênese da Bíblia, dita sagrada, comprova que o ser humano foi criado para imperar sobre os outros animais e a ciência de Descartes nos diz que o cavalo por quem Nietzsche chorou era machinae animatae. Engrenagem que não sente. Se recorrermos à constituição brasileira, veremos que os animais não são titulares de direito, ou seja, não tem direito subjetivo, personalidade jurídica. São, basicamente, propriedade humana."
http://www.anda.jor.br/?p=62614
Tanta estranheza causada por um gesto de amor a um animal, em detrimento da comodidade humana, pode ser justificada por fé e razão. Pois a gênese da Bíblia, dita sagrada, comprova que o ser humano foi criado para imperar sobre os outros animais e a ciência de Descartes nos diz que o cavalo por quem Nietzsche chorou era machinae animatae. Engrenagem que não sente. Se recorrermos à constituição brasileira, veremos que os animais não são titulares de direito, ou seja, não tem direito subjetivo, personalidade jurídica. São, basicamente, propriedade humana."
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