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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A dor do outro ou ‘o Grand Canyon que precisamos fechar’

 coluna de Marcio de Almeida Bueno

Vanguarda Abolicionista - Marcio de Almeida Bueno

Ilustrção: Giambatista Della Porta

“Bom, nós estamos indo muito bem, eu suponho / Com nossos carros reluzentes e roupas da moda / Eu visto preto pelo velho doente e solitário / Eu visto preto em luto pelas vidas que poderiam ter existido / Há coisas que nunca serão corretas / E coisas que precisam de mudanças em qualquer lugar que se vá”
(Johnny Cash, em ‘Men in black’)

E aí as pessoas ditas instruídas, esclarecidas, antenadas no mundo porque usam muito o celular, experientes, ‘exemplo para a família’, pouco se importam com o trajeto que a comida fez até chegar a seus dentes. Muitos dão risada, do eco-churrasqueiro ao egoico que está na vida para aproveitar, e dane-se o remorso.

(A dor do outro. Alguém que nasceu já para preencher a demanda de ingredientes culinários. Morreu para ser picotado e virar nome incompreensível no rótulo dos pacotinhos de alimentos industrializados).

Ao contrário, muita vezes uma conversa informal com leigos sobre o veganismo – porque o povo adora fazer sabatina ao ouvir as palavras mágicas – acaba capotando em dicas de saúde, cuidados na hora de bem escolher os alimentos, e recomendações-de-vó. “Diz que tudo que tem glúten faz muito mal, a gente tem que passar longe”, me dizia esses tempos uma cidadã-padrão, enquanto se servia de generosas conchadas de macarrão. De trigo.

Não, diacho, eu não estava falando sobre segredos para o bem-estar, novidades para emagrecer ou o último grito das naturebices de shopping – ração humana, chia, gordura de coco, amaranto, linhaça dourada, quinua, sal rosa ou o próximo campeão de bilheteria. Eu estava falando sobre a dor do outro. A solidão, a corrente, o confinamento, a separação, os chutes eventuais, o isolamento, o mau cheiro, o medo do humano, a faca amolada.

“O ______ é vegetariano convicto mas não resistiu ao meu churrasco na semana passada”, comentou, tentando ser simpática e participar da conversa, outra pessoa que também estava à mesa nessa ocasião. Garantia de que realmente a carne estava irresistível.

E penso que talvez o descolamento de duas realidades – o animal que ‘nasce para morrer’, digamos, e a gastronomia – seja o Grand Canyon que precisamos fechar. Haja gotinhas de Super Bonder. Porque essa fenda que nós – ativistas, pensadores, profissionais militantes, simpatizantes – ora começamos a estreitar, é o que garante uma das muitas pernas dessa máquina trituradora chamada ‘desenvolvimento’. Nunca vi tanto orgulho, emoção sincera e boca cheia como naqueles que fazem o discurso desenvolvimentista – que devem ganhar muito dinheiro com isso. Porque o resto do povo, aplaudindo, entra como lombo em festa de chicote. E aplaude, e vota. E olha torto para aqueles que, ousados!, topam falar em algo diferente.

Em algo que não exija o moedor de carne, de almas e de tempo de vida como modelo. Um sistema em que o hamster não tenha que correr na rodinha. Metaforicamente falando, claro.

Porque uma sugestão de rota – veganismo, antidesenvolvimentismo, ateísmo financeiro, iconoclastia laboral – acaba desandando em palpites curtos / rasos sobre saúde, ou trabalhar menos, ou “eu trabalho muito porque eu gosto”, como ouvi nessa mesma ocasião supracitada. OK. Talvez as pessoas estejam tão orgulhosas de se perceberem marchando no passo milimetricamente certo, farda alinhada, depois do medo de não conseguir, que a ideia de ir para outro lado soa estranha, quase uma imprudência. Parar, então, é desperdiçar possibilidades, deixar de aproveitar o que a vida oferece.

O que me lembra uma anedotra real. A Vanguarda Abolicionista fazia uma ação no Dia das Mães, anos atrás, e um gaiato se aproximou para fazer as perguntas óbvias e observações inteligentes que você, leitor, bem imagina. “Então vocês não comem carne?! Estão deixando de fazer a melhor coisa da vida”, riu o subgênio, para quem o sexo deve estar lá pela quinta ou sexta colocação no ranking. Empatado com o amor e com, digamos, capas exclusivas para smartphone, que tal?

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O cérebro das vacas e sua falta de maturidade – ou educação

Coluna Desobediência Vegana - Ellen Augusta Valer de Freitas
Você entra no açougue e não se importa de comprar carne. Ou lida com pedaços de animais, embutidos, ou traços deles por toda a parte. Mas sente repugnância quando está diante de partes específicas como rins, tripas, cabeça?

Ou não! Não sente nada disso, você é a macha, ou o machão, mas fica cheio de dedos pois acha que esses assuntos devem ser tratados com ‘cuidado’, com ‘educação’, com ‘mimos’, como se todo mundo fosse idiotizado, como se ninguém pudesse ter maturidade para falar abertamente sobre temas fortes e para maiores de 18 anos?

Pois vamos falar de maturidade e de nojeiras. Vamos falar de miolos de vacas, de tripas, de rins.

No açougue, são vendidas cabeças de vacas, cabeças de porcos, com seus cérebros intactos, congelados. Os olhos esbugalhados, nos olhando. Muitas vezes observei atentamente os consumidores. Se é na zona nobre, eles compram as partes nobres, pois é o que há. Se é na zona simples, eles compram tudo, pois tudo pode ser comido. Eu mesma, nos meus tempos de comer carne, pois não nasci vegana, já comi algumas dessas coisas. Meu pai ia ao matadouro, que provavelmente era clandestino. Rins, fígado, tripas, que se chama ‘educadamente’ para as madames e gentlemen de mondongo ou dobradinha. E não tenho nojo de nada. Sou vegana há muitos anos, desde o primeiro momento, por ética e revolta.
Meu talento é este, é o que sei oferecer, falar sobre corações de vacas, tripas, fortaleza, através do bizarro, do obscuro, da crítica a tudo o que me fere. Procurar a justiça. Quem entra por mim há milênios e se choca com o mesmo muro, forte, mas frágil por dentro, suave e limpo, pois me conheço muito bem, e ainda assim se incomoda, deve procurar aquela esquina ali, e dobrar. E voltar sempre que, lá fora, encontrar a mesma falsidade disfarçada de bobagem de auto-ajuda.

Escândalos do leite sujo e contaminado, seguidas por propagandas cada vez mais insistentes, abusivas, e você ainda acredita? Pois siga… dobre a esquina. Abra esse pacote que te levou ao vício, compre esse combo de especismo, essa maravilha de palavras doces, açucaradas e corrigidas pelo dicionário do cinismo, e compre leite, ovos caipiras, carne colorida, branca, vermelha, incolor.

E é preciso ter maturidade e perceber que o sujeito pode criar para si armadilhas, mas pode também libertar-se. E isso não tem só relação com o consumo de carne, ou a procura do que ler. É impactante a visão de alguém preso. Amarrado a relacionamentos imbecis, a amizades com gente perigosa, vícios, sensação de poder, bagulhos dentro de casa que o torna prisioneiro de si mesmo, doenças e síndromes que o sistema oferece. Tudo dentro de uma bandeja, para depois ir buscar no comércio a solução.

A ilusão de que uma opinião é sabedoria, de que um objeto é riqueza, de que uma sensação é um sentimento, só traz mais sofrimento aos animais. Pois é assim que se escolhe: no açougue e na vida.

publicado na ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais
 http://www.anda.jor.br/11/11/2014/cerebro-vacas-falta-maturidade-educacao
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