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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A casa assombrada, o gato preto e minha morte em qualquer rede

Quando nasci neste mundo, não imaginava que um dia talvez poderei me sentir traída por ele e por meu corpo. Ou, nos meus ataques de lucidez, ter simplesmente desejos imensos de abandonos de mim mesma.

A casa que vi, ao contrário, só me traz conforto. Sua solidão e o vazio que representa, é como um túmulo para a alma. Ali eu queria ficar por uns momentos. A poesia dos filmes de terror, mas sem o medo.
A sua solidão e o vazio, não ter mais a neurose humana, as limpezas, os ruídos, as regurgitações de um corpo vivo. Não, ela é um templo de pedra. Já é posta.
O gato negro. Curioso pelo contato humano. O símbolo da magia da força e da solitude. O poder que se sente quando se está íntegro consigo mesmo. Os gatos não precisam da massa, eles se bastam a si mesmos. Gostam de companhia, mas amam a noite e a solidão de suas almas agradáveis.

O gato estava lá, pois foi o lugar que encontrou para morar. E que lugar!
O espírito do assombro. A alma da casa.

A palabra assombro tem um significado lindo. Mas hoje em épocas de mentes estreitas, ninguém sabe a profundidade das palavras, nem querem procurar saber. Ficam no raso e já lhes basta. A misantropia, o cinismo, são palavras que tem mais de um significado e às vezes eu prefiro nem usar estas palavras nos seus sentidos belos ou outros, pois sei que a gentalha só entende os sentidos torpes e entende-os fora dos contextos dos textos. É preciso aprender a ler. Mas não.

As redes sociais entorpecem, minimizam o cérebro.

As redes onde escolho morrer:
Recebi no Facebook a opção de escolher uma pessoa querida para ficar no meu lugar quando eu morrer. Ela pode ficar postando coisas para mim. Adorei a ideia e já escolhi alguém.
Na hora, minutos depois da escolha, me deu um medo idiota, supersticioso, do tipo: "será que isso não é uma espécie de aviso de que eu vou morrer logo?"
Eu, que amo a morte e sua ideia, me encagaçando com uma bobagem idiota de rede social medíocre. Mas que levamos à sério a ponto de perder tempo. Acontece, que não é a morte que me assusta, óbvio. E sim, o antes. O porquê, o como.

Uma coisa é você apagar a luz e sair dessa espelunca, outra coisa é não saber como vai sair dessa idiotice que é viver.

A vontade de sumir é algo completamente natural. Das redes, dos olhos das pessoas. Da vida.
Estou cansada dessa vigilância, desse policiamento constante, essa coisa de que tudo é proibido, essa nova onda de caça às bruxas onde já se perdeu os parâmetros do ridículo e cada vírgula precisa ser contestada, discutida, apontada com um dedo sujo e nojento. Antigamente era moda falar do phalo. Tudo que era pontudo e tinha forma de falo era apontado como símbolo fálico. (Sim, ressucitaram Freud) Aí você não podia andar com um guarda chuva, que já era interpretado como que andando com um pau (pênis) na mão. Era moda. Mas não existia rede social.
Hoje, é moda falar de certas coisas. Tudo é sexismo, tudo é machismo. Tudo é um falar mal do veganismo. Então as pessoas rasas falam, pois ouvem os outros falar. Ou seja, são os mesmos otários de sempre, apenas seguem a corrente, seguem a moda.
Veem uma foto de uma mulher, só porque é mulher, já consideram sexismo. Puta merda, tem que ter muita vontade de torcer as coisas, muita vontade de exorcizar, para ver o mal em tudo. Curiosamente, onde tem sexismo, é cega que nem uma porta. Conheço pessoalmente esses tipinhos. São tão vítimas do machismo e do sexismo, mas no Facebook adoram vociferar.
Não vão lá, onde o sexismo impera, fazer um barraco pessoalmente. São covardes. Vão ali, onde não há sexismo, torcer os fatos, porque viram os outros fazerem isso. Absolutamente manipuláveis, até os ossos.
Outro tipo de pessoa detestável são as que pensam que você quer saber sobre sua religião, você posta uma fotografia que não tem absolutamente nada a ver com o assunto e a pessoa vem surtar com "argumentos" esotéricos e acham que todo mundo está interessado.
Não peço palavras de nenhum sistema de crença, pois isso só faz sentido dentro daquele sistema, fora dele, simplesmente não tem sentido, mas isso as pessoas não se dão conta. Elas acham que todas as outras pessoas pensam como ela. Não pensam, o vizinho do lado, tem outro sistema e pensa o contrário.
Aliás, é por causa da religião que tem havido muitos refugiados no mundo inteiro, mas quem dá um pio a respeito?
Existe sim, quem eu respeito por viver a religião de forma verdadeira, dedicando sua vida inteira ao que crê, diferente de tudo o que vejo nos indivíduos comuns. A religião, como me disse uma dessas pessoas, "é uma linguagem".
Sou atéia, e tenho pavor quando alguém vem impor, e de modo ofensivo, suas palavras de "energia do bem" e, curioso que é sempre em tom de briga e sempre é gente surtada. Por isso, desconfio sempre dos positivos, quanto mais impõe suas palavras de "energia" ou suposta "sabedoria" mais escondem um monstro dentro de si.
E, quem disse que o negativo é ruim? Quem disse que o negro, o obscuro, o preto, é ruim? Quem disse? Por que você aprendeu que no escuro é que estão as coisas negativas? Eu me sinto bem no escuro, adoro a noite. Aprendi desde sempre que o lusco fusco do amanhecer é mais bonito do que o dia, que o por do sol e o começo da noite é poesia.
Que o melhor escritor de todos os tempos (gosto meu) é Edgar Allan Poe, que fala quase totalmente de obscuridades, do soturno, das coisas escuras da vida e descreve os alcoólatras, os doentes e as pessoas solitárias como ninguém.
E, nem por isso deixo de ser criança, deixo de ser alegre, de ser a mulher sensual e bonita, bem como escolhi para mim mesma, de ter as boas energias (acredito sim que existe, mas não dessa forma idiota que essas pessoas amargas ficam jogando na tua cara.).

O negativo é como o filme de uma fotografia antiga. Ali está a alma das coisas. Nela está o esqueleto de tudo o que é vivo. Eu queria muito ver um fantasma nas janelas daquela casa. Não tenho medo.
Tenho repulsa é da vigilância dos vivos, que já estão mortos, de medo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Tarde demais

Esta é a foto da minha mãe com 18 anos feita pelo fotógrafo e poeta  Lino Estefano de Nes , que ganhou um prêmio com uma fotografia em que minha mãe segurava um filhote de pássaro na mão. Ele dedicava poemas à minha mãe. Ela guardava os livros e fotos dele com dedicatórias de amor.  Hoje é falecido. Não achei mais nada sobre sua obra e vida. Nada dessas coisas se preservaram, somente em minha lembrança. Descobri que existem peças dele no museu de Encantado RS.
Eu era uma criança no escuro
Você não teve culpa
Você não sabia
Nossa dor foi ter nascido
Eu te vi e sentia a mim mesma
O corpo tão frágil e sofrido
A dor da alma
Translúcida na falta do ar.

Como era inesperado!
Da morte feliz no mar profundo...
À uma cama de hospital
Com uma cruz na alma e a dor no corpo.

Eu não me perdoo
Ainda não
Eu quis morrer todos os dias
O oceano a me chamar
A luz de um farol a brilhar
Os pés na areia
Lágrimas de sal
À espera de um sonho
Que suplantasse todos os outros
Em que te vejo por dentro
Não. Fiquei aqui, só.
Quase, quase todos contra mim.
E a verdadeira versão dos fatos
Somente o que hoje é meu espelho
Soube!
Ellen Augusta


Meu mundo e nada mais - Guilherme Arantes

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Alfonsina y el mar

Alfonsina foi outra descoberta das minhas pesquisas pelas mulheres oceânicas, como eu.

A poeta feminista e ligada à morte e ao mar.
Alfonsina Storni nasceu na Suíça, no Cantão Italiano, em 29 de maio de 1892.
Chamaram-na Alfonsina, que quer dizer 'disposta a tudo'.
Em 1896 imigrou com os seus pais para a província de San Juan na Argentina.
Aos 12 anos, Alfonsina escreve seu primeiro poema centrado na morte e o deixa sob a almofada de sua mãe que lhe repreende, dizendo que a vida é muito bela para aquilo.
Em 1901, vai para Rosario (Santa Fé), onde tem uma vida com muitas dificuldades financeiras. Trabalha para o sustento da família como costureira, operária, atriz suplente numa companhia de teatro e professora. Ela era considerada para a época em que viveu, uma feminista. Aos 20 anos tem seu único filho, Alejandro, seu companheiro inseparável. A esse respeito disse: Eu tenho um filho fruto do amor, do amor sem lei. O suicídio de um amigo Horacio Quiroga, em 1937, deixa-a profundamente abalada. Em 1938, três dias antes de se suicidar, envia de um hotel de Mar del Plata, para um jornal, o soneto Vou a Dormir.

Vou a dormir

Dentes de flores, cofia de sereno,
Mãos de ervas, tu ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada a cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos...
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças... obrigado.
Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que sai...

Seu corpo foi encontrado na praia La Perla, Mar del Plata, no dia 25 de outubro de 1938.

Música de  Violeta Parrá, cantada por Mercedes Sosa

Alfonsina y el mar

Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.

Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.

Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.


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