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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Flowers for the dead brother

Trancam o louco no quarto.
E voltam-se para a minha lucidez.
 Há alguma coisa errada
com a bondade de Deus.
A inocência é cortada com vidro. Um ursinho, objetos guardados em uma caixa. Para nunca mais.
Trasntornando palavras, amortecendo a dor. O amor sepultado, a poesia floresce.
Eu levo flores, mas não há nem vasos para as receber.
Eu roubo os vasos de outras tumbas. Ele nunca teve nem um quarto para dormir!
Você não sabe o que é viver só, neste imenso hospital.
Só sei o que mora em mim, o silencioso sabor do fim.
Silêncio e nada. O depois, o poema feito, das dores reformuladas. Todas as melancolias transformadas em palavras lúgubres, a morte transparecida, entrelaçada, recortada com o sangue roxo.
Abro a caixa. Ali, só pequeninas coisas, carentes de sentido para o mundo, que o abandonou, no seu nascimento e até hoje, sempre, na solidão eterna da loucura.
Esta solidão que também carrego dentro de mim.
A solidão da lucidez, da desventura.
Ellen Augusta
 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Translucidez

Não mereço
a lucidez, se,
enquanto a penso
meu irmão sofre sua falta.
O meu castigo
é ser como Blimunda.
É ver a maldade nos corações
É ver a bondade em quem julguei ser somente o mal.

Ser como a mãe que sofre mais
Ser também o filho
Ser também a dor.
Sofrer pelo outro, que é o meu outro.

Ser tão louca quanto.
Ser tão triste e sozinha quanto.
Não mereço.

O espelho que é igual a mim.
Não mereçe.
Sofrer e ver sofrer. Nada poder fazer.

Pedir um perdão quando não há como perdoar.
Pedir perdão a um universo que jamais perdoará.

Meu irmão, me perdoe.
Sei que não há...
Só a tristeza de quem sabe o que se passa.
Me perdoe, por que minha dor não é nada
perto da sua.
E eu, que nunca soube perdoar, jamais poderei pedir perdão.
Ellen Augusta

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Poema para Lorena


A vida como um imenso hospital
Pelos corredores um fim de tarde invade as vidraças
Ando à noite, escapo à visão dos estranhos
Que sensação é estar vivo em meio a doentes.
Lanço cacos de vidro ao chão. Deita-se em meio a fragmentos, tudo é dor.
Olhamos para as paredes de um mundo, estamos provisoriamente aqui, eu sei.
Presos em grades e acorrentados a conceitos estreitos.
O oceano está distante, a estrada perseguida outrora, a companhia de um amigo. Deixei tudo lá fora.
Neste sonho, enferma, conto as horas e lembro de histórias, passo o tempo a contar com colegas de quarto as angústias tais, que ninguém pode entender.
Sabemos certamente o que é ser sozinho, sabemos certamente o que é ser confinado mas um silêncio inteiro preenche a origem de tudo.
Não há nada além de um presente, um presente de vazio.
Quando percebi que estava ferida, não consegui levantar-me sozinha
Esperei um longo tempo até amanhecer, caminhei silenciosamente até que ninguém pudesse saber.
Pedi ao tempo que jamais fizesse lembrar e ele não pode atender meu pedido em virtude de minha capacidade de ser.
A cada olhar, a cada contato com a presença, com a lembrança, com a ausência, meu ser inteiro se desfazia e um mundo inteiro se fazia novo.
Ellen Augusta Valer
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