terça-feira, 4 de setembro de 2018

Lágrima

É difícil entender que em noites de pura alegria e paixão a única coisa triste de minha vida salta por minha boca e toma a minha voz.
É uma única tristeza, é a única coisa que me fará chorar em qualquer tempo em que puder expressar o que sinto a esse respeito.
Pois então, num misto de fazer-me conhecer, com o fato de que essa dor precisa vez ou outra sair de meu peito eu falei sobre o meu irmão.

É tão raro eu falar sobre o que me dói verdadeiramente. O mais trivial dos dias se passa na esperança de que as pessoas pensem que o que me entristece sejam os climas frios, as nuvens eternamente cinzas do inverno ou um desapontamento qualquer, mas não!

Eu de fato vivo sempre alegre e feliz, tenho a alegria na alma e isso aprendi com minha mãe, quem me ensinou a amar os livros e a ter sensibilidade e intuição para tudo nesta vida. De fato e com efeito, poucas coisas me tiram a graça de viver, muito poucas mas há uma tristeza que não passa sem ser notada por minha alma. Uma tristeza sim, conjunta com a dor do abandono, da minha incapacidade e desesperança frente a uma fatalidade.

Diante da mesquinhez humana e do julgamento alheio eu apenas me calo e sigo os dias como se não importasse o que levo comigo, como se simplesmente as alegrias dos momentos pudessem semear flores onde há uma pequena ferida na alma.

Mas como disse, vez ou outra, eu lembro e falo desse sofrimento, e muitas vezes me recolho e por vezes me arrependo de ter falado pois quem neste mundo poderia me entender? Neste momento vou a dormir quase sempre na certeza de que os sonhos virão e neles a voz do inconsciente que jamais se cala, onde o tempo não existe e onde os sentimentos são transparentes e vivos, cada vez mais vivos, ali estão todas as coisas que eu amo e as que me ferem.

Neste não lugar não importam minhas negações, as coisas estão tão claras como o dia, embora seja sempre noite e os símbolos saltam evidentes, não posso esconder nada de mim mesma. 

Pois, se no amor e no amante encontrei o espelho para todas as coisas lindas de meu espírito, se durante os dias e noites vi-me refletida em coisas belas e naturezas conhecidas do outro, é certo que em meu irmão vejo tão somente espelhadas a solidão incurável de minha alma, a desolação e o sofrimento familiar que é praticamente impossível de esquecer. As tentativas de melhor entender o que se passa apenas me deixam mais triste, que é quando volto-me novamente para o íntimo de meu ser, em silêncio, sem ter mais nada que fazer sobre isso. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O paraíso do Lula Molusco cheio de pessoas chatas

Já presenciei muitas vezes as pessoas de um modo geral se identificarem com o personagem Lula Molusco do desenho do qual sou fã, Bob Esponja. Ele é aquele adulto mediano que adora ficar em casa, no silêncio do seu narcisismo, metido em suas coisas, odiando a tudo e a todos que porventura atacarem seu mundinho de artes complicadas e livros de futilidades.
Não sei porque as pessoas se identificam com o que eu considero mais detestável num adulto normal. Fora o desejo inocente e até saudável de ficar muito tempo em casa que a maior parte das pessoas têm, esse personagem pratica atitudes odiosas em boa parte dos episódios, na interação com os outros vizinhos da Fenda do Biquini.
Ele é debochado, maldoso em quase todas as ocasiões, fofoqueiro e intrigueiro. É uma 'pessoa' que não se importa com os outros, não tem empatia na maior parte das vezes e quando demonstra algum sentimento, isso só acontece depois de ter vivido alguma situação em que teve que se ferrar para aprender alguma coisa.

Por que as pessoas romantizam esse personagem e se identificam tanto com ele?
Na verdade ele me lembra as pessoas mais insuportáveis que conheci em minha vida: gente que não suporta tua felicidade, pessoas fofoqueiras e imaturas emocionalmente, gente incapaz de ser amigo de verdade pois nunca se interessou de fato pelos outros.
Por que não se identificar com os seus vizinhos, bobos, infantis, porém verdadeiros em seus atos, alegres a maior parte do tempo, com algum entusiasmo pela vida? Ou pela Sandy que é estranha por ser um mamífero na água porém consegue adaptar-se a esse mundo com muita inteligencia e uma capacidade inventora.
Acredito que isto se deve pelo fato de convivemos com pessoas comuns, algumas vezes chatas e insistentes, com todas as características do nosso personagem tocador de clarinete. E muito raramente encontramos alguém que ainda mantenha dentro de si o entusiasmo pela vida, a vontade de fazer amigos e de trabalhar por simples amor ao que se faz.

É realmente legal ser o Lula Molusco? Ser como essa pessoa que precisa estar sempre recluso com medo de perder sua personalidade, alguém que não sabe lidar com o sucesso alheio sem ser tomado pela inveja? Sério que alguém se inspira em um personagem como este? É claro que sim. Este é um desenho basicamente adulto e esse personagem reflete muitos de nossos defeitos e coisas que raramente admitimos sentir.

No episódio "Cidade de Lula Molusco" ele vai para uma cidade onde tudo é como ele sempre sonhou. Uma cidade de seus iguais, onde ele encontra outros de sua espécie com suas manias e começa a viver nessa cidade, fazendo todos os dias as mesmas coisas.
Só que em determinado momento, ele percebe que sente falta daquele caos onde ele vivia, se percebe pensando em como poderia ser legal fazer algo diferente. E então ele será o primeiro habitante da cidade a fazer algo contra a cultura. Ele se torna o Bob Esponja do lugar! Uma espécie de punk destruidor dos costumes, barulhento, pois aquela cidade pacata o ameaça.
Esse é o episódio que mais gosto pois nos mostra o quanto viver fazendo tudo igual nos torna doentes de egoísmo, não nos deixando ver as outras pessoas e admirando elas como elas realmente são.
Ele sente até mesmo saudade do seu vizinho ruidoso, alegre e criança. E isso é seu o toque de 'humanidade', é o que o torna possível de ser alguém melhor.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Metade de meu corpo me ignora completamente

Viver completamente, que grande ilusão. Sou feita de metades que se distanciaram. Minha parte mais pura, a mais verdadeira e talvez a única coisa realmente minha, simplesmente me ignora veementemente. Foi preciso sacar de meu centro essa ruptura, foi preciso ignorar e viver na sombra de uma grande árvore, minha, porém ali, fora de mim.

Esse lugar que me cabe, essa parte que está cada vez mais longe, está inacessível, pois não tenho mais olhos, o coração perdeu-se, sou apenas um corpo vivo, que evita o sofrimento, que também ignora. Um corpo quebrado, um espelho irrefletido, é uma casa sem alma, parece que vivo morta enquanto vivo.

E sei que estou aqui, sei que há essa parte, sei que ela está e até mesmo onde. Mas de nada importa. Há coisas que não são para ser. E ainda não percebi que, recuperar fragmentos talvez seja a sina. Talvez seja o sinal. Por favor, corpo inerte, por que estás assim?

Por que esse descolamento, de certo não quero saber. De certo eu sei, e desconheço. Vou caminhando até a estrada do farol, só para ter a certeza de que esta parte, se porventura se manterá longe, pelo menos que esteja iluminada ainda, pelos sinais.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Espelho de mulher

Há vezes que nos isolamos em nós mesmas, mas existe algo que eu chamo de espelho de mulher. É quando você encontra uma mulher especial, no qual vale a pena se espelhar.
É quando saio desse meu horizonte tão curto, tão finito, e me permito ouvir, perguntar, as respostas parecem que acertam meu coração.

Hoje aconteceu. Não foi nada genial, não foi nada transcendente. Foi comum, foi cotidiano, mas o fato de conversarmos, me deu tanta esperança, me tirou deste mudinho de preocupações bestas e inúteis. Sim, era assim que me sentia. 

Ela me disse coisas muito simples, o tempo não existe, e vale a pena continuar. Não importam os outros, importa o sonho. Assim, não nestas palavras, seguiu o rumo dessa conversa. 

Mudei as palavras, pois escrevo. Escrever também é criar, e não consigo ser "literal" em quase nada. Eu sou literatura em toda a parte. Um pouco de fantasia literária, um pouco de drama, afinal, a vida é minha. As suas palavras, as exatas, estão aqui até agora. As lembro muito bem. 

Citamos exemplos dos sonhos, dos nossos sonhos, citamos o tempo e como ele age. E tudo isso porque arrisquei fazer uma pergunta, uma pergunta que iria expor toda a minha fragilidade. Mas fiz. 




terça-feira, 29 de maio de 2018

Amizade com prazo de validade

Tenho percebido a cada dia que a amizade é algo raro e precioso. Considero que ser amigo é como um investimento que se faz em outra pessoa. Estamos no mundo com outros e a amizade é um laço que se escolhe de bom grado, não somos obrigados a ser amigos de ninguém, a amizade é um presente que se forma entre duas pessoas, de livre vontade, e deve ser preservado, mantido, cuidado, como qualquer outro relacionamento.
Como tenho visto mulheres que investem tanto em um relacionamento com o sexo oposto, por exemplo, mas não conseguem investir nem um pouco do seu tempo em preservar amigos ao seu redor.

Como tenho visto homens que apenas se aproximam do sexo oposto para fins de qualquer coisa que não seja amizade. É o que eu chamo de homem clichê, o que faz exatamente o que todos fazem, mas pensa que só ele faz e que nenhuma mulher percebe o comportamento normótico dele.

Há também pessoas difíceis, muito solitárias, a que a solidão em excesso lhes tirou quase toda a possibilidade de saber como lidar com outros, como ser um bom amigo e manter uma amizade duradoura.
A esse tipo de pessoa, quando as encontro, sempre penso que esta amizade tem prazo de validade. Pois assim como ela age com as pessoas ao redor, expulsando todos de sua volta, da mesma forma irá acontecer comigo, mais cedo ou mais tarde.
Há aqueles amigos que torcem contra sua felicidade. Isso mesmo, já me aconteceu. A pessoa é muito sua amiga enquanto você está sem dinheiro, está sem namorado ou em qualquer outra situação. Ao ver que você melhora, fica melhor consigo mesmo, encontra um companheiro, um bom trabalho, ou alcança boas notas, qualquer dessas coisas, deixa esse "amigo" muito furioso com você.
É porque para muitos é difícil lidar com o sucesso alheio, pois isso coloca o outro em reflexo com o que você mesmo é. Para ver o outro feliz e se sentir feliz assim mesmo, é preciso ter um desprendimento de si mesmo, e isto é o que torna a amizade algo tão especial.
Eu sei que tenho meus defeitos, meus problemas, sei que meus amigos também não são perfeitos, mas estamos aí no mundo e podemos nos dar bem acima de qualquer coisa. E ver o outro feliz e se sentir feliz com isso é algo muito superior, é nobre e denota alguém de bom coração.
A amizade sempre foi um tema de estudo para mim. Algo que sempre levei a sério, tão à sério quanto um casamento (já fui casada) e namoro (já namorei muito em minha vida). Essa coisa que eu levo a sério, a amizade, percebo que na cabeça de muitas pessoas, não há tanta seriedade nesse item.
A amizade é apenas algo que ocorre fortuitamente, se desfaz por qualquer tipo de diferença, até mesmo porque o curso acabou, as aulas terminaram, a época de sair solteira findou.
Não consigo entender por que as pessoas se tratam como coisas utilizáveis, por que não pensam que a amizade é algo que se bem cuidada, pode ser algo bom e duradouro.
O valor de uma amizade vai muito além de ter alguém com quem contar problemas momentâneos, crises de ansiedade, paqueras perdidas ou parceria para sair.
Para quem já vive sozinho, para quem não tem mais familiares, um amigo significa um companheiro com quem conversar, dividir emoções, conhecer novas coisas. Para quem é adolescente, a amizade é praticamente tudo, nos tira daquela ilha que é o núcleo familiar, nos coloca em contato com o mundo.
E para mim, a amizade quando eu era adolescente simplesmente me salvou de muita coisa, as quais prefiro nem mesmo comentar.
Amigos são espelhos, do que temos de bonito, eles nos ajudam a vernos como realmente somos, e muitas vezes o que vemos em nós mesmos pode não ser bom, mas é aos amigos que devemos esta possibilidade. Quem vive fechado em seu mundinho, não enxerga nada. Só vê aquilo que quer ver.
Ser solitário e viver sozinho pode ser muito bom, mas é preciso ter muita inteligência para não se tornar um adulto chato e ranzinza, rançozo com tudo ao redor, porque não é o modo dele de ser.
O contato com outros, por mais difícil que às vezes possa ser, nos coloca em contato conosco mesmo.
E é por isso que entendo quando surge a inveja, o preconceito e a intolerância em algumas pessoas. Elas estão entrando em contato com o que possuem dentro de si. Não podem ver a felicidade dos outros que este lado aflora. A mim só resta uma coisa, agradecer a Deus de me livrar desse tipo de pessoa, que está ao seu lado e torce contra você.
Para descobrir este tipo de pessoa assim como para descobrir qualquer coisa nesta vida: observe o seu comportamento.
Preste bem a atenção em quem sempre tem um inimigo, quem vive falando mal dos outros para você hoje, amanhã fará a mesma coisa quando chegar a sua vez. Olhe com cautela para quem vive metido em fofocas e se aproxima de você sem mesmo perguntar se estás bem, mas para sacar algum tipo de informação. Quando você não for mais útil, não estiver mais na moda ou quando qualquer crise aparecer, não se preocupe que chegará a sua vez de ser o alvo.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Beautiful land

Acordar cedo, que tortura fascinante, que algo impossível de ser feito em qualquer momento da vida, nunca estou preparado, nem sei se preciso tanto desse feito.
Hoje por fim, acordei de um sonho. Acordei e aquela névoa se manteve sobre o quarto e as janelas. E me perguntei risonho, por que diabos sonho de maneira tão real. E por que dessa vez acordo tão cedo, com a sensação de ainda estar lá, no lugar em que nunca mais irei voltar.
Móveis, objetos, aconchego, a luz obtusa de uma janela distante. O quarto, também, o quarto triste, de um lugar que não mais existe, num espaço que apenas cabe nos metros quadrados de um sonho. Uma cena que apenas eu posso entender.
Um espírito desgraçado, que perdeu qualquer chance de voltar à sua terra natal.

Todos os domingos

Uma vez me disseram que os domingos eram dias sofríveis para as pessoas, pois elas cultivavam a angústia da segunda feira. Aquele último dia de descanso antes de começar tudo outra vez, seja lá o que significa esse tudo, em termos de peso e importância em nossas vidas.
Muitas coisas acontecem exatamente no domingo. Neste último foi dia das mães, foi dia de terminar relacionamento, de trazer sacolas de coisas para a casa, de achar que o dia era triste por si só, já que simbolizam tantas perdas de uma vez.

Acostuma-se com silêncio das ruas, poucas pessoas se atrevem a sair de casa. Moro em uma avenida muito movimentada, exceto pelo domingo, neste dia, ela é um deserto, ou quase isso. A janela é como a TV, onde é transmitido o silêncio da praça, a graça das árvores, as aves cultivando suas coisas, uma xícara de café no parapeito da janela, um vizinho na sacada da frente, tudo aqui é paz.
O amor à paz, ao silêncio e ao ficar em casa é o que tornam estes domingos mais acolhedores. E o trabalho, e o estudo, fazem dele apenas mais um dia. É mais um dia em que se arruma a casa, se faz café, se escreve, se escreve, e assim se passa, com a janela como TV.

Bob

Lembra do beijo no nariz? Era um focinho com marca de batom e era tão doce essa imagem que dava vontade de morder.
Sempre que ele bebia água ficava com uma gota na ponta do nariz. Era o seu jeito, tão felino, altivo e amigo.
Seu nariz era uma espécie de sinalização, tocava em mim para dizer: estou aqui e te gosto.
Nunca precisei de um filho para ter instinto materno. Nesse ser eu via uma companhia nessa vida. E que saudade de você Bob.

 

domingo, 20 de maio de 2018

A angústia da saudade

É uma morte mínima, uma desolação, é como se o outro estivesse morto, e a minha vontade também. Correr contra esse sentimento, lutar por preservar o pouco que sobrou. É o que a razão ordena, mas por onde começo essa limpeza?


Sonambular

Eu fujo da dor e do amor, todas as horas do dia
Mas o amor e a dor são irmãos
um menino e uma menina,
 estão de mãos dadas, 
e me perseguem lá, 
nos sonhos, onde não posso me defender.

Eu gostava de homens muito altos.
Quando encontrava um homem muito alto caminhado pela rua, 
sentia vontade de andar ao seu lado, por alguns instantes 
(como uma criança que pensa: "hoje eu andei ao lado de um grande homem")

Não entendo porquê temos essas particularidades, que mudam conforme o tempo e a época, a vivência.
Deve ser pelo fato de que meu modelo romântico sempre foi
O amor platônico do Professor Girafales (com as rosas e o charuto, claro) e a Dona Florinda. 

É fácil caminhar ao lado de um estranho.
E manter o segredo, tão preso e guardado.
É a sina de ser transeunte e viver caminhando em um mundo de estranhos.




sexta-feira, 11 de maio de 2018

Uma semana de cada vez

Viver o presente, um dia de cada vez, não ter ansiedade e não esperar nada. Como seria fácil se não fosse eu. Minha vida se divide em semanas, em que sigo tentando acertar o meu ritmo com o do mundo. E confesso que vou perdendo... As coisas vão rápido demais, não consigo acompanhar. Se eu não sentisse essa sensação que me assola pela manhã, essa pena da vida, essa vontade de desaparecer, que segue pelo dia até que há um momento em que acaba, talvez eu pudesse fazer muito mais do que faço, talvez fosse a pessoa de sucesso que esperam que eu seja - e não sou.

O meu sucesso é conseguir ser eu mesma. A minha vitória é conquistar uma semana. É conseguir ir a todas as aulas sem perder o ânimo, é conquistar as pessoas pelo que eu sou e não pelas coisas que ostento em meu currículo, corpo ou casa, como se eu fosse uma árvore de natal cheio de adornos desejáveis.
Eu não sou essa árvore. Sou apenas alguém que não precisa de muito para ser feliz. O meu muito é pouco para a maioria. Sou feliz em ver minha casa, sou realizada em estar bem e em paz. Não quero nenhum título, não quero ser nada mais do que penso que sou. Não preciso de um status de relacionamento, não preciso fazer o que todo mundo faz. Eu só quero ler meus livros e viajar quando puder.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

O livro roubado

A Caverna é o livro que iniciou minha paixão pela literatura de José Saramago, e ela tem uma longa história. Vou contar porque é bonita.

A Caverna, como começou
Logo que meu pai morreu eu sonhei com ele. Nesse sonho meu pai me disse para ler um livro do José Saramago e então quando acordei, procurei descobrir quem era esse escritor.
Ao falar com uma amiga, ela me emprestou A caverna, e eu comecei a ler. Porém na época, como era de se esperar, não consegui me concentrar em seu modo de leitura. Saramago tem um jeito peculiar de escrever, misturados a gírias, expressões portuguesas, modos e estilos. É um tipo de texto que é necessário atenção para que seja compreendido em plenitude.
Pois bem, desisti. Mas, logo pensei que não deveria desistir do escritor, pois sonhei, e levo meus sonhos à sério.

Comecei a leitura de outros livros, o primeiro é o Memorial do Convento e daí se seguiu História do Cerco de Lisboa, Todos os Nomes, Ensaio Sobre a Cegueira, entre outros... Montei minha biblioteca com alguns de seus livros, o melhor, até hoje? O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
No ano passado fui visitar uma linda praia e fiquei hospedada em uma casa que ficava na beira do mar.
Nesta casa havia uma biblioteca abandonada, os livros jogados de qualquer maneira, a leitora não residia na casa, e os atuais residentes descuidavam desse espaço.
Tenho essa mania de querer ver as coisas em ordem. Tenho esse espírito virginiano de achar que, em melhorando o espaço, as coisas todas se ordenam. Pois fui organizar os livros, desempoeirá-los, colocar todos em uma ordem, a minha.
Quando percebi, havia muitos livros do Saramago, e entre eles, A Caverna.
Era o livro simbólico, por onde tudo começou. Decidi começar sua leitura.
Nos braços do meu então companheiro, bastava eu olhar pela janela que ali estaria o mar. E então, muitas lágrimas caíram pois o livro era outro! Não era o mesmo livro de difícil leitura de muitos anos atrás. Era sim, uma literatura que queria me dizer algo. Assim eu supunha, pois havia sonhado com o escritor, e procurei saber o que este livro tem a me dizer.
Como tenho essa tendência a deixar as coisas pela metade, larguei o livro de mão logo e voltei para a vida na capital .
Mas o livro veio junto comigo e ficou ali à espera de sua leitura. Prometi para mim que o devolveria após sua leitura, mas sinceramente, não sei como irei fazer isso. Um dos motivos é que ainda não o terminei.
Por incrível que pareça, o livro ainda está sendo lido. E, na época de sua partida da estante, jamais imaginaria que um dia estaria cursando Letras na federal, que estaria cursando a faculdade para a qual talvez (talvez) eu tenha sido destinada e que hoje é como um alívio para meu mundo.
Quando escolhi fazer a cadeira Estudos de José Saramago, percebi que uma das leituras obrigatórias é este livro. E estou em plena leitura, faltando apenas algumas páginas para seu final.
Agora, minha visão sobre seu significado é completamente outro. E a curtição é muito maior.

A História

O livro conta a história de um pai e uma filha. Ele é um oleiro e tem uma filha, um genro e logo encontra um cão. A filha neste ponto do livro está grávida. O conflito acontece em torno do Centro Comercial, que é um espaço que praticamente o obriga a questionar seu modo de vida, pois sua profissão agora se torna obsoleta. As pessoas trocaram os utensílios de barro pelos objetos plásticos e descartáveis.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Por que não acordei antes?

Eu tentei tanto, mas, quanto mais me dedicava, mais era insuficiente. Eu aprendi com a vida, mas parece que sempre é algo novo.
Não consigo mais escrever, pois as palavras me parecem poucas, não encontro as certas.
Por que eu me dediquei tanto e hoje estou aqui sozinha?
Sofrendo as mesmas coisas, passando pelas mesmas dores. Por que nunca sou suficiente, não importa o que eu faça?

Se eu implorei para que ficasse, foi por que eu sabia que as coisas não são eternas e eu queria fazer com que isso durasse, pois eu amava e me dedicava àquela relação.
E numa madrugada eu vi uma foto, de uma moça num quarto cheio de livros abertos. Essa foto me levou a um tempo muito longe daqui, em que eu ficava acordada até tarde, lendo trechos de livros, como quando estava com um amigo, que me tirava daquela ilha solitária em que eu vivia. Como na época em que eu não sabia o que era ter um abraço, ter um irmão, ter uma família de verdade. Voltei tão longe no tempo, que parece que aquilo tudo era apenas um sinal, a fotografia, a memória distante, a morte das coisas por causa do tempo. Só eu preservo, só eu lembro, só.


terça-feira, 10 de abril de 2018

Leitura para a cadeira Estudos de José Saramago - O ano da morte de Ricardo Reis

Estou cursando a cadeira Estudos de José Saramago e uma das leituras que estou fazendo é o livro O ano da morte de Ricardo Reis, ainda estou nas primeiras cem páginas.
A história inicia com Ricardo Reis chegando a Portugal de navio, se instalando num hotel, voltando à cidade depois de 16 anos vivendo no Brasil.
A vida no hotel é contada pelo ponto de vista desse homem solitário que passeia pelas ruas de Lisboa, sempre num tom sombrio e soturno, a chuva que não dá trégua, as multidões, e tudo isso visto de um ponto de vista da solidão de um hóspede do hotel.
A história vai indo e no começo não é deixado claro que esse Ricardo Reis é o mesmo pseudônimo de Fernando Pessoa, mas o autor vai nos preparando para as múltiplas personalidades do personagem, que assim é como o poeta. E neste mesmo ano em que Ricardo Rei retorna à Portugal, ele recebe a notícia de que o poeta Fernando Pessoa morreu e vai ao cemitério ver o túmulo do poeta.
Essa parte, a descrição dos corredores do cemitério e a forma do personagem encontrar o poeta foi sublime. As reflexões sobre a morte e sobre o quanto é breve a vida e as palavras usadas no livro são simplesmente perfeitas, a cada instante renovando ainda mais a minha admiração pelo escritor.
É um livro sobre a perspectiva poética, sobre a vida dos escritores e pessoas sensíveis, e sobretudo, é um livro sobre a solidão de cada um.
O contexto histórico se passa aos idos de 1934, na ditadura de Salazar, o personagem fugindo do Brasil, onde acontecia a Intentona comunista em 1935.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Crise da BAD, que porre!

A brisa entra pelo quarto... é o vento das lápides, ali na frente há um cemitério. Como eles vivem lá, tão quietos, às vezes penso.
A tristeza vem batendo, não sou o que queria ser. Não sou o que esperam de mim, eu não sei mais quem sou.
No quarto, aquela janela tão ampla, onde a lua vem pela madrugada e o sol me incomoda de manhã, é neste quarto que sou apenas eu.
Não tenho o corpo perfeito que desejaria, não tenho o corpo definido como alguns preferem definir, mal sei qual é minha aparência neste momento. Eu só lembro da brisa que vem lá detrás da árvores do camposanto. Aquela brisa que traz memórias tão antigas, vão imprimindo em minha mente algumas tão singelas: as flores novinhas que se abrem pela manhã, as rosas fortes e viçosas que se tornam presentes para alguém, o vento do mar, o abraço daquele que amo, esse abraço quase entrou em meu quarto, é como se ele estivesse aqui.
As cores, tons de azul e por do sol, entravam em minha mente como fotografia.

As pessoas exigem a mulher perfeita, completa, a que faz tudo no tempo certo, a mulher independente, mas nem tanto. É isso o que todos querem, mas o que eu quero?
Passei minha vida inteira sem saber ao certo como responder a essa pergunta. E, agora, mais do que nunca, há uma certa pressa em minha mente. Eu preciso saber. Mas não por mim. A sociedade me cobra. Preciso saber, quais das possibilidades de mulheres incríveis eu sou.
Eu não poderei ter a escolha de não ser nada, de ser apenas a adolescente que sempre fui, a criança que ainda não se curou das suas feridas, a mulher que pensa diferente e não está nem aí.
Mas eu sinceramente gostaria de espaço, mais tempo, mais consideração, para ser e fazer só o que eu posso, só o que eu quero e que tudo seja ao meu tempo. Que tudo seja conforme minha capacidade. Não sou um gênio, não sou uma mulher maravilha, não quero ser nada.
Só gostaria de ter um pouco dessa paz. A paz de não buscar o impossível.

Quando eu era adolescente, achava que tendo minha casa, tendo minha faculdade e fazendo por mim mesma seria o suficiente.
Pois hoje, tenho minha casa, sou formada e estou na minha segunda faculdade, e parece que para muitos, nunca está bom.

Querem sempre te comparar com "o melhor" na opinião deles, a mulher ideal meus caros, é uma fantasia macabra e simplesmente não existe.
É algo que nos colocam como ideal, é o mito da beleza de Naomi Wolf, é um espantalho que fica em nossas janelas, nos assombrando através de cada pequena conquista nossa.
Por favor, me deixem ser eu mesma. Permita-me saber o que é meu e o que é dos outros, eu só preciso saber que tenho defeitos e está tudo bem não ser tudo, não ser como as outras, pois eu sou eu.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...