segunda-feira, 28 de julho de 2014

Um contorno no olhar

Abandonei a maquiagem.
O cabelo vai ser agora mais comprido. O oposto do que estava antes, curto e raspado. O punk ficou para trás. Tudo dura pelo menos quanto tempo eu quiser.
Às vezes acontecia sem querer, mas sempre gostei de provocar o preconceito oculto, principalmente daqueles que se acham superiores.
Os misóginos, as mulheres-que-odeiam-mulheres... até mesmo quando eu era pura inocência, ao meu redor sempre tinha essa gente me secando... Depois desencanei.
Hoje é diferente. As pessoas continuam as mesmas, e eu escolho o que há de melhor.
Saí de casa com meu marido, romanticamente, para ver o filme daquele que sempre admirei. O performático Ney Matogrosso. Chama-se Olho Nu.
Para os macharedos da época e para os de hoje, francamente, tem que ser muito macho para encarar toda aquela repressão, em plena ditadura, com aquela libido toda, com aquela voz, música e performance!
O que me atrai nele é algo que simboliza muito o que eu sou. Amo o performático. A liberdade de inventar, de não ser exatamente o que esperam de você.
O andrógino, o incoerente, o provocante. O punk, por ser fora do eixo. Ele afirma ser subversivo sempre. E concordo. Quando você não age de acordo, você é subversivo. Não tenho que me maquiar sempre, posso encher minha cara de maquiagem amanhã se eu quiser. Admiro mulheres masculinas, sou assim em muitas épocas do ano e é por isso que metade do meu guarda roupa é bem masculino. A outra metade é praticamente infantil.
Mas sou completamente madura e sou convencida disso! Não sou modesta. Admiro homens com esse lado masculino performático como o Ney Matogrosso e minha música preferida dele é Homem com H.
O que importa no entanto, é o que se perde em beleza, quando nos preocupamos com a 'opinião' da sociedade.
Quem questiona a ordem vigente é sempre um alvo pois as pessoas querem manter o que está estabelecido. Ninguém quer discutir nada. E se incomodam a ponto de procurar na roupa algo para falar. É só a gente lembrar a recente polêmica dos black blocs. Quase todo mundo ficou do lado dos patrões.
Os dentes separados, o corpo magro, a sensualidade no palco, a voz indefinível.
Quantas vezes vemos talentos sumirem por vergonha, por repressão?
Eu sempre assumi meus defeitos depois que os superei. Tinha vergonha de meus dentes tortos. Decidi não usar aparelho. Depois de uma conversa com uma dentista, reafirmei minha decisão. Se todas as pessoas se fizessem um pergunta interna primeiro, antes de pedir opinião, daí nasceria a atitude.
Na escola é preciso um professor de verdade, eu eu tive poucos, para mostrar as qualidades dos alunos, os dons. Um professor cego para angústias de adolescentes, crianças e adultos não é um bom professor.
Uma professora me disse, na frente da turma toda, que eu tinha uma beleza diferente.
Dois disseram que eu escrevia coisas legais. Um professor um dia me chamou sozinha na sala e disse que achava legal o fato dos meus dentes serem tortos. Eu só tirava notas altas na aula dele, e tinha vergonha de me expressar verbalmente, mas era ótima quando escrevia.
Como professora, meu ideal é ser tudo que meus professores não foram e me inspiro nestes professores.
Ney Matogrosso, quando morava em Brasília,  ia com as crianças do hospital onde trabalhava para os fundos e brincava com elas. Isso aparece no documentário e também na biografia do Renato Russo, que estou em plena leitura.
Quando há talento e um dom, em qualquer lugar ele aparece. Bem no começo da carreira, ele pediu para baixar o som, olhou bem na cara de um 'homi' que o chamou de veado num show e disse, "se você é homem, repita.". Tudo ficou em silêncio.
Tornar possível algo, mesmo que pequeno e depois passar por ali e saber que aquilo aconteceu por sua causa, é felicidade. Quando um homem junto com uma história é tema de um documentário, nos faz chorar.
Quanto à maquiagem, já saí de casa pensando em desapegar da parafernália. É o que farei. Daqui para a frente, apenas um contorno no olhar.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Black bloc - caixa preta e a mania brasileira de acusar sem provas

No exterior ninguém acreditou na mídia brasileira, na época da copa, quando gargantearam bastante sobre a 'segurança' durante dos jogos.
E hoje leio no site Rádio Voz da Rússia, que a embaixada russa no Brasil divulgou na segunda-feira, 21, uma Carta de Repúdio a informações precipitadas da imprensa brasileira sobre a tragédia do Boeing malaio. O documento diz que "as acusações infundadas contra a Rússia e seu presidente na ausência de quaisquer provas e resultados de investigação nos deixam perplexos e indignados".
Não conseguem ficar neutros. Tomam partido. Para saber das coisas você precisa ler sites do exterior.
As escutas colocadas nos celulares dos advogados dos ativistas detidos pelas manifestações no Instituto de Defesa dos Direitos Humanos é um alerta para o fato de que este é um local que serve para defender casos de violência e pessoas ameaçadas, entre outras coisas importantes. Mas nem neste lugar estaremos a salvo?
Em outra notícia assusta os termos usados nos autos dos processos contra ativistas supostamente envolvidos em atos violentos na época das manifestações. Eram os mesmos usados na época da ditadura, mostrando que a chama ainda arde.
O inquérito acusa o Instituto de Defensores de Direitos Humanos (IDDH) de "questionar a ordem vigente distribuindo o terror".
A morosidade no país é notória, mas quando querem, resolvem até mesmo o mais irresoluto dos mistérios policiais, dignos de um filme de suspense ou quem sabe até de terror.
Quem acreditou no conto do cambista mais famoso do mundo que saiu pelos fundos, filmado por câmeras, e mais ninguém viu? E sinceramente, era preciso perder tantos meses só nesse caso como se o Brasil não tivesse mais nada a fazer?
É. Mas se é a galera do rolezinho os empresário pira mano.
Enquanto isso, depois da copa do mundo, o país ficou com as obras inacabadas, os estádios inúteis, contas para pagar e um futebol para discutir, como se importasse tanto assim.

terça-feira, 22 de julho de 2014

A amiga e o Hip Hop

Adoro música. Não entendo de música.
Vamos ao funk, rap, hip hop.
E ao break!
Eu via na Rua da Praia, final dos anos 80, uma galera dançar break com aqueles rádios grandes carregados no ombro, bem coisa anos 80. Eles faziam toda aquela coreografia.
Amo o funk antigo que vem dos Estados Unidos, que aqui praticamente ninguém conhece, como por exemplo, o Uptovn Funk Empire. O funk carioca também curto. Um pouco de humor que tal?
- A música negra, vítima de preconceito -
A classe média hoje está em cima do funk, ontem o alvo era o samba.
Sim meus amigos. Os pobres tinham que sambar escondido.
Hoje o samba é chique e todos acham fino sambar.
Me encantam todas as variações que começaram  no chorinho ou no partido alto. Também aceito um bom pagode.
A indústria cultural transforma, pega o que quer, corrompe e vende para o populacho (classe média também é povão viu meu bem?) que pensa 'ter bom gosto'. Tem quem se venda em qualquer lugar, mas no meio mais humilde há principalmente pessoas que caem nas armadilhas de gente muito esperta.
Pois neste sábado minha amiga me convidou para um lance de hip hop ali no centro.
O pessoal dançou break, houve apresentações e venda de CDs e artes.
Eu que passei tanto tempo sem ouvir Hip Hop, nas minhas fases Sem-Música... (é amigas, sou assim... meu defeito número um milhão e....).
O pessoal se aproximou para assistir o show de break e até o anjo colaborou com as moedas...
Encontrei crianças alegres, dançando...A moradora de rua foi tirando a roupa e ficou com a parte de cima de um biquini... sem pudor.
O centro é algo incrível. O centro é o centro.
Me sinto feliz ali. Sempre tem gente simples, diferente, de todos os tipos.
Se o anjo ajudou, por que eu não?
Uma vez ouvi no rádio as feministas defendendo as mulheres do funk. Elas responderam a uma psicóloga que acusou as funkeiras de provocar os homens com seus shortinhos enfiados nas bundas. (Sim, se a pessoa se forma em psicologia para fazer esse tipo de análise - eu prefiro escrever neste blog). Afirmaram que elas usam shortinho porque é a maneira da mulher pobre, da favela, expressar sua identidade sexual. A mulher de classe média e alta usa salto alto, que é um símbolo sexual, mas sai por aí falando mal da funkeira.  Por que a mulher de classe média pode usar um símbolo sexual e a outra mulher não pode usar shortinho? Até por que ninguém usa salto alto por que é confortável. Por que não podemos ser sensuais?
Mulher sem-cérebro é o que mais tem por aí, mas isso não significa que ter um cabeção te faz ter sabedoria.
A banalização do sexo/violência e a industrialização da música é outra conversa, mas o preconceito precisa ficar de lado. Não é dando uma de preconceituoso reaça que você vai acabar com a falta de educação. Há outros grupos culturais com os mesmos problemas, como o tradicionalismo gaúcho, com o machismo gritante, violência contra animais, sectarização, etc. De CTG e bailão ninguém fala nada.
Nosso dia foi super musical. Super dançante, afinal!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Por que a fábula do beija flor é uma farsa e a coragem de fazer mais que isso

A esposa de Amarildo, também sumida, foi encontrada em depressão profunda. Usuária de álcool, ela desaparece na multidão, enquanto o país grita 'um gol' contra sete que levou, nesta copa que pagou.
O álcool foi liberado dentro dos estádios. A venda continuará depois da copa. A lei não tem valor.
O Brasil enche a cara, porque não sabe perder.
Amarildo perdeu a vida, porque sumiu, ninguém nunca mais o viu.
Por muito grito, a mídia ouviu. Depois de um ano, nenhum dos policiais receberam punição.
Estou lendo a biografia de Renato Russo, cujo tema recorrente é Brasília, cidade que tem como favorito nas pesquisas para as eleições, nada menos que José Roberto Arruda. Ele aparece em primeiro lugar nas intenções de voto.
E sabem por quê? Pois ele tem no seu currículo dois escândalos éticos na sua carreira política, depois se envolveu no chamado Mensalão do DEM, já foi preso, já teve seu mandato cassado, etc.
E a mesma fonte onde pesquisei diz que o povo de Brasília considera que "Ser ético e honesto é o atributo mais importante para um futuro governador."
Se você perguntar a um eleitor o que é ética ou, o que é honestidade, o que ele lhe responderá?
Agora você, que está aí com seu celular na mão, você que fala mal dos direitos humanos e acha que 'fazer sua parte' é dar roupas que você não tem onde guardar a alguém no final do ano, olhe para esse panorama e me responda:
É fácil fazer o bem?
É arrogância querer realizar uma mudança de grande impacto?
Já está na hora de amadurecer para a ideia de que a fábula do beija-flor que apaga o incêndio com o bico na floresta, além de completamente ingênua, é uma farsa, porque os animais são inteligentes o suficiente para desaparecer antes mesmo da fumaça surgir, ou morrem consumidos quando não conseguem se livrar do fogo.
E porque, numa sociedade intrincada, uma pessoa faz sim muitas coisas, mas todos fazem mais. Falar bonito e agir como um idiota não resolve.
ca. 1880s, [cabinet card, occupational portrait of three butchers preparing a steer]. Alfred Atkinson
Cada um fazer sua parte funciona, claro. Assim como funciona toda a maldade, fazendo o dobro, do outro lado.
Portanto, cada um levando sua caneca, por exemplo, enquanto existe uma montadora de carros, uma fábrica de plásticos e uma empresa de máquinas de café e você faz parte desse todo, sua xícara de café acaba sendo só uma parte mesmo, se você não fizer mais que isso. Trazendo para perto de si muitas pessoas, através de exemplos e atitudes, mudamos contextos maiores. E então, desabando estruturas, o pouco que se faz também é válido.
É parar de comer carne, parar de ir no açougue,  parar de compactuar com o trabalho escravo nas indústrias da pecuária onde existem milhares de pessoas em situação de degradação humana. Isso sim é fazer sua parte, mas exige coragem.
É preciso fazer muito. Fazer certo e aprender. E propor-se a isso. Educar-se para fazer o bem e praticar todos os dias, como um sábio.
Pois fazer pouco e fazer errado até prejudica, como podem ver neste panorama chamado 'país'.
Isso é bem diferente de cada um exercer o seu dom, ou o que tem de melhor, pois é a partir daí que se conquista o maior de todos os bens.
E sem humildade. Por que a humildade é a religião dos fracos, já disse Nietzsche.
E como já disse nosso filósofo Renato Russo, "Esse é o nosso mundo.
O que é demais nunca é o bastante. E a primeira vez é sempre a última chance".
E para você brasileiro, que acha que pátria é alguma coisa, já lhe aviso, para mim, pátria é nada. É só uma linha em um papel. Um mapa construído através de guerras e mortes.
Eu acredito em povos, internacionalidades, etnias, línguas e dialetos, não sou obrigada a torcer por um time, e torço para todos. Não tenho uma preferência, adoro certos aspectos daqui e não há país perfeito.
Para você que se deliciou com os estrangeiros visitantes, lhes apresento abaixo um link com outros estrangeiros vivendo dramas bem aqui debaixo de nossos narizes:
 Leia querido leitor e obrigada pela visita a este blog:
http://www.cartacapital.com.br/revista/803/onde-ala-nao-influencia-3446.html

Ellen Augusta

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Veganos no dentista - alternativas em cremes dentais não testados em animais

Neste link aqui  mostrei que não existe uma única marca que afirma ser completamente vegana. Os SACs de atendimento responderam a sites veganos e eu capturei essas informações sobre alguns cremes dentais ou pastas de dente, como costumamos chamar, que são comuns em supermercados e farmácias.
Estas marcas aqui são encontradas na parte infantil das farmácias e supermercados. Algumas são da Condor, que, como podem conferir no link acima, são da Dental Prev, dona da grande parte de marcas não testadas. A Action e a Trá Lá Lá são marcas novas nessa nossa lista.
Liguei para a marca Boniquet do Brasil que fabrica a marca Action, que é barata e se encontra em todo o lugar, na linha infantil e adulta. Eles afirmaram que não testam em animais nem possuem qualquer ingrediente de origem animal na sua formulação. O site está aqui para quem quiser conferir e escrever também. Para que não seja uma ou duas pessoas, o importante é que mais pessoas perguntem, pelo fato que pedi informações do produto por e-mail e estou esperando. Até o momento não recebi resposta.
A marca de creme dental infantil Trá Lá Lá, que pertence à empresa Phisalia me enviou o seguinte e-mail:

Agradecemos seu contato.

A Phisalia, fundada em 1974, é uma empresa brasileira focada no público infantil e jovem e é hoje uma referência no mercado de higiene pessoal e cosméticos.

Para nos mantermos atualizados com as novas tecnologias e demandas da sociedade, revisamos anualmente nossos procedimentos e metodologia de testes de segurança e, desde janeiro de 2013, a empresa não realiza ou terceiriza testes em animais.

Nossos esforços têm um foco específico: inovar com qualidade e segurança para oferecer sempre as melhores opções em higiene pessoal para as crianças e jovens, em todo o país, com a oferta de produtos de alta qualidade, que apresentem a melhor relação custo-benefício e que tratem da pele e dos cabelos das crianças e jovens com carinho, proporcionando um momento de alegria em suas vidas.

Nossa assinatura "Cuidar com carinho" traduz nosso compromisso de estar orientada para atuar de forma ética em todos os níveis, oferecer segurança absoluta aos seus consumidores, ser inovadora e atuar de forma sustentável no mercado brasileiro.

Continue a ser uma consumidora participante!
Um abraço da equipe Phisalia.
Portanto, temos um retorno por escrito dessa marca.
Há uma marca mais natural, um pouco mais cara. Mas nem tão cara viu?
Por que as pessoas acham tudo que passa de cinco reais mais caro, mas se você pensar que um creme dental dura um bom tempo, pois se usa uma pequena quantidade, se torna muito mais barato, considerando-se que buscamos uma marca vegana.
É muito difícil escovar os dentes sem creme dental, por isso vou pesquisando as marcas mais comuns, conforme meu tempo e vontade, e publicando aqui no blog as que vou encontrando. E considerando que o público vegano está crescendo e se posicionando na sociedade, espero que as empresas se liguem neste mercado. De qualquer forma, o consumidor precisa se ligar também. Não aceitar qualquer coisa, não consumir produtos com traços pois existem muitas alternativas sem traços, não se contentar com tudo, nem crer cegamente. Ler sempre os rótulos e ficar atento, pois as coisas mudam sim senhor.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Woman is The Nigger of The World

Quando John Lennon fez essa música, ele foi acusado de machismo e racismo.
É impressionante que, quando alguém toca com os dedos os céus, sempre tem alguém que não entende, porque tem o olhar vendado.
Mulheres do Congo
Uma figura foi censurada, pois foi foi considerada especista e machista. A foto era justamente uma crítica ao especismo e ao machismo. Ela foi postada numa rede social. Mas as pessoas, acostumadas a não saber interpretar, entenderam o contrário.
Laerte fez um quadrinho em que sua família ia se revelando outra, como um sonho, e quando se deu conta, acordou na pele de uma pessoa negra. Sua crítica social foi mal interpretada e ele foi chamado de racista.
Quem nunca esteve no lugar do outro? Quem nunca se colocou no lugar daquele que sofre preconceito não tem compaixão nem alteridade. Não pode dizer-se humanitário.
John Lennon e Yoko Ono tinham essa liberdade, a de desafiar o mundo e libertarem-se dele. Muita gente não entendeu. Ela foi acusada de muitas coisas em relação aos Beatles. Como se ele não tivesse personalidade para decidir. Mais um sinal de machismo, que as pessoas sempre jogam em cima da mulher, novamente. Yoko Ono já era uma grande mulher quando conheceu John. E ele sempre foi um grande homem e sempre pensou por si mesmo, nunca precisou da influencia de uma mulher.
Mas a sensível música, talvez tenha sido mal traduzida para o Português, porque os carolas tem medo de traduzir a palavra nigger. Todas as traduções para o português usam a palavra 'negro', o que não é exatamente o que ele queria expressar.
Ele não usou a palavra em inglês que corresponderia a negro. Lennon usou um termo extremamente ofensivo e racista, propositadamente, para fazer uma crítica, e dizer que a mulher é considerada assim, perante o mundo. Quando se queria ofender um negro, usava-se a palavra 'nigger'. Por isso ele fez essa crítica.
Eu não vou colocar o link da música pois sempre depois de um tempo ele fica quebrado, pois os canais saem do ar, então espero que alguém busque ouvir na Internet. A letra é uma profunda percepção de onde estamos no mundo. Portanto busque você por este entendimento, pois eu também estou buscando. E quem sabe, se os homens nos colocam nesta posição, nós mesmas também estamos deste lado, trabalhamos nas instituições onde eles estão exercendo poder, sem nunca nos questionar se estamos a cumprir o papel que nos foi destinado. Quem sabe ainda estamos 'frágeis' ou 'tapadas', para seguir permitindo que mais frágeis sigam sofrendo: animais, homens pobres, negros, travestis, crianças, idosos, e quem sabe quantos mais, seres sensíveis que sofrem nas mãos de outros, sempre que se tem poder e força. Abaixo um link de um fato que acontece a muito tempo. Na primeira vez que fiquei sabendo disso, na presença de minha mãe ainda viva, choramos. Algo tão escancarado e dilacerado fere profundamente minha alma. Somos parte da culpa quando coniventes, de modo que nunca mais pude ficar em silêncio. Mas minha forma de gritar é outra.
Por gentileza, não leia somente, esse link abaixo:

http://www.dw.de/as-crian%C3%A7as-com-sangue-rebelde-da-rep%C3%BAblica-democr%C3%A1tica-do-congo/a-17238993

P.S.
Esperei para escrever este artigo depois da copa, pois torcia para os países pobres da América Latina e países africanos. São times pobres com bons jogadores. Até nisso o futebol é um jogo machista e excludente. Não tenho TV. Adoro narração de futebol por rádio embora não entenda nada, e não me importa. O futebol, que é um jogo apenas, é tomado por mãos poderosas, o povo cumpre o papel, as mulheres cumprem o papel, e se torna o que é.
Ellen Augusta

domingo, 6 de julho de 2014

O coveiro

Aquele que queria ser coveiro. Profissão para homens. O cemitério sempre fica em lugares altos e ermos. Ela sempre foi lá sozinha. Havia quem conhecia, e os estranhos. Estes gostava mais, pois traziam o mistério do anonimato. A morte para todos, sem nomes.
Ainda vivo, ninguém o enxergava. Só os fantasmas sabem de sua função, especialmente no final da tarde, quando o Sol é o que  já sabemos, mas os mortos, estes não conhecemos.
Ele vaga pelas sepulturas, ela nunca o encontrava, mas o conhecia.
Nos seus olhos, o meu desejo.
O transcendente desejo de sumir.
Eu sofria, porque também não o via. Amo os cemitérios, mas o coveiro nunca está.
Um dia

Houve rumores de que tirou-se a vida...
Esse assunto incômodo.
Ninguém fala. As religiões só ameaçam. "O castigo é duro".
O desespero bate em tantas portas. Fechadas. Os números não param de crescer. Foi mais um? Se a mídia e as entidades tratassem desse assunto de forma madura? Há só um silêncio na sociedade.
Todos querem esconder, por medo de uma semente, plantada em si mesmos.
Mais uma vida se perdeu por causa do preconceito.
Por causa do silêncio dele, ou nosso.
O já invisível desapareceu!
Nunca se disse uma só palavra.
A curiosidade mórbida de quem não se importa, fez saber que ele não trabalhava mais lá.
E ainda estava entre os mortos.
Ellen Augusta

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A filha camareira - o filho hóspede

Quem nunca viu essa combinação em uma casa ou na sua cidade, tem sorte ou venda nos olhos.
Visitar um amigo e ver que a mãe lhe servia café e passava margarina no pão. Na cozinha a irmã esfregava panelas. E fazia tudo o mais.
Esse era o modelo de educação. Em muitos lugares ainda segue sendo.
A eterna desunião feminina começa neste egoísmo maternal. Nessa euforia de amar o homem a qualquer preço.
Passa por uma adolescência distanciada do ensinamento das mães, das avós.
É a sua amiga conversando mais com seu marido. E não com você.
É o casamento distanciando as mulheres, mais que o trabalho, este que deveria uni-las em projetos, não em competição.
Ficam isoladas, considerando que mais vale um homem que a riqueza da partilha.
 - Focando na limpeza da casa - talvez a única coisa que aprenderam com as mães e avós. -
Se encontram uma mulher admirável, em vez de se aproximar, secam, invejam, se afastam.
Conheci mulheres que moraram juntas, por determinado tempo, para criar os filhos. Por isso elas são tão alegres e inteligentes. São mulheres expansivas. Aprenderam que a vida não é o combo machista que as mulheres compram logo depois da adolescência.
Um egoísmo sem tamanho é uma mãe dar atenção a um dos filhos, deixando outro trabalhando. O paparicado, por sua vez, nem sempre é beneficiado, sendo pois prejudicado até mesmo intelectualmente.
Quem se interessaria por um sujeito inábil para tarefas simples, que garantem a sobrevivência em qualquer lugar do mundo? Bem, a maior parte de nossa geração anterior foi feita de homens que no máximo aprendiam a fazer 'churrasco' ou 'carreteiro', demonstrando que tem gosto para tudo e que não se teve escolha em maior parte das vezes.
Hoje, apesar do modelo antigo andar por aí, conheço mães, homens e mulheres diferentes que resolveram seguir um modelo novo, talvez por terem sofrido essa agressão, querendo mudar o futuro, talvez por terem aprendido a amar melhor, ou pela vontade de quebrar essa corrente, pelo menos em algum ponto. Só faz bem para a alma pensar no outro.
Ellen Augusta

terça-feira, 1 de julho de 2014

Se essa rua fosse minha - a estante pública estava viva

revista encontrada no lixo, a poucos metros da estante demolida
A educação brasileira falhou em não ensinar a compartilhar e a entender o conceito de público.

Hoje fui fazer minhas caminhadas e levar livros e materiais na estante pública, que encontro pelo caminho. Ela é uma das últimas que havia restado em Porto Alegre.
Mas, hoje eu encontrei isso. Ela foi demolida e em seu lugar foi construída uma parada de metal.
A minha estante, a sua e nossa estante morreu. Mas isso doeu mais em mim. Pois sei que boa parte dos vizinhos nem abriu a janela para ver o que aconteceu. Muitos estavam mesmo era preocupados com o fato de aquela árvore ser uma ameaça para a sagrada família que habita o lar de cada um. A parada de ônibus estava a meses sem lixeira, e ninguém ligou para pedir uma. Estranho... será que eu moro em outro país? Na frente da sua casa não tem lixeira pública e você não faz nada?
Eu levava uma sacola e juntava o lixo jogado na estante e levava nas lixeiras particulares (que ficam nas calçadas - públicas)...
Para aqueles que acham que penso mais nos livros que na árvore: Sim, acertaram. Gostaria de lembrar que há milhares de velhas árvores na cidade. Pobres, caem ou são obrigadas a cair por causa de um vizinho chato, ou por causa dessas chuvas fortes. Eu sempre liguei para pedir a reposição dessas Senhoras Gertrudes e sempre me atenderam em todas as vezes. E entendo disso porque sou da área. Me formei em Biologia e Botânica é meu forte.
A estante morta é um sintoma. Que neste país, as pessoas querem apenas VER. Mas ver de uma forma idiota. Ver o que não interessa. Ver sem entender, ver sem interpretar. Sem fazer uma leitura das coisas. Leitura, não é somente ler livros. Mas para quê explicar algo que neste país nem é ensinado em muitas escolas?
Um país dominado pela Televisão, por poucas famílias que dominam toda a comunicação em rádio de TV.
Na Internet, as pessoas acessam sempre o mesmo recurso. Não lembram mais o que é navegar. Você fala de um site, de uma leitura e a pessoa pergunta se tem ali, na mesma rede de sempre. Internet já virou sinônimo de rede social. Igual a TV. #medo.
Toda a América Latina lê muito mais que o nosso país.
Minha cidade tem essa característica: vizinhos que jamais abrem as janelas, não falam uns com os outros, não compartilham nada. Essa pose de superioridade, é falsa e está escancarada, dá vontade de rir.
Mais tarde, na velhice, os que agora estão com o nariz empinado, viram poços de carência, pois não amadureceram para a amizade.
Eu fiz amizade com uma pessoa no supermercado, ela perguntou o que era minha sacola. Contei a história da estante. Dei parte dos livros para ela.
Como aquela rua não é minha, cada um tem o lugar que merece. Na frente da minha casa tem a árvore que eu pedi para ser plantada e cuido. Eu estou doando toda a minha biblioteca. Já comecei a doar parte do material que tenho em inglês para um projeto de inglês nas favelas. O material sobre direitos humanos já tem rumo, vai para o MJDH. Sempre faço doações regularmente pois recebo muitos materiais do exterior e daqui também por conta de ser professora.
E vou seguindo com a estante pública.
Da minha estante particular, para os outros.
Esta foto mostra bem o padrão portoalegrense. Conheci uma pessoa que leu livros na estante, que deixou material lá e adorou a ideia. Conheci projetos semelhantes, conheci gente diferente desse padrão.
A atitude mais subversiva consiste em ser idealista, eu acredito no panfletário, nesta minoria com poder de maioria. A estante foi derrubada, porque a maioria  não se interessou por ela, mas nas ruas, a arte urbana tem muito a dizer. O desinteresse é muitas vezes uma inabilidade em saber o que fazer. Muita gente descia do ônibus, via a estante e nem sabia o que era. Eu explicava, as pessoas ficavam meio envergonhadas. Falhou a educação, as pessoas tem medo do público. O espaço público, para elas, pertence ao prefeito. A culpa é da presidente, o prefeito vai pagar, etc... é por isso que as pessoas torcem para o time, mas no outro dia esquecem do país.
Ellen Augusta

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O frio a faz respirar

Estava com ela na claridade.
As vozes entram pela janela
Ela sozinha em meio à luz noturna, o frio luminar.
Eu saí do quarto a buscar o som, precisava das sombras, e jamais pude retornar.
As portas fechadas, abertas escuras, o interruptor alternava entre sim e não. Mas era sempre obscuro.
Os quartos escuros não me assustam, pois já estão dentro de mim.
O fantasma se ramificou em meu esqueleto, portanto.
Deixei suas mãos.
Lux.
Escuridão.
Eu buscando as sombras. O frio a faz respirar.
(Só ela soube porquê.)
A luz protegia os moribundos.
Mortem - Uma perna te enlaça. A que te pertence não teme.
Eu que te pertenço. Sou o medo em si.
Anda na casa vazia do tempo. Sólida e distante, melancólica e sombria. A amiga. A amada.

A esquecida estava no quarto escuro.

Acordei viva, deixei a-morta, deixei a-morte.
Nos sonhos perturbadora.
Companheira no vislumbre diurno.
Ellen Augusta