terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Portas transparentes

Nas imagens que se abrem em meus olhos quando durmo,
fecho portas transparentes
estou só, através de vidros translúcidos,
minha casa é negra, com passagens de luz.

O Sonho ofereceu-me sua morada
A casa, névoa branca e cinza, eterna cortina de saudade
envolve objetos repletos de afeto,
o corpo sonambular,
as memórias apagadas.
A Criança diz teu nome
Não esperava e, fato é:
Abriu-se a percepção
amorosa.

Roubei teu livro no cemitério,
o lugar onde guardei tudo de ti.
Enfeitei com flores o nada, teu espírito e tudo que não mais sei como é,
e decretei morte à minha Assombração.

Acordo de madrugada,
com a solidade cortando meu peito,
feito sal na ferida sangrante.
Eu deveria levantar guerra, ferir-te como quem ama,
Mas nada existe de real.

Sonhos são sonhos,
A fenda de realidade,
que mostra uma profunda verdade.

Ocultada neste olhar, que só sente
Saudade.

Ellen Augusta

domingo, 3 de janeiro de 2016

Imago fantasma

Quando nasce de dentro essa sensação.
O imago ressurge do espaço nuvem do meu espírito
     um companheiro cruel, que nunca me deixou,
trazendo o mal estar da saudade tão sofrida, de lembranças doloridas.
Lembrar é igual a viver
o sentimento sonhado é igual ao deixado, ao perdido,
feito farrapo por mãos iludidas,
por palavras alternadas entre o pensar e o falar, negar e permitir.
Sonhar é como morrer

E eu, que já estou morta, estou farta de sonhos,
mórbidos, em que o passado,

vem, vem, como um fantasma,
assombra-me de novo e sempre....
o anjo denso como um esqueleto
que carrego fechado dentro de mim.

Este, que já não está, não vive na casa da minha mente, não existe....
só viveu no passado, só existiu na trégua da dor,
só atormenta meu ser, quando preciso sofrer...

Mas há, há algo de sua névoa, que sempre aparece,
e quando dói, é como qualquer coisa que crava a pele,

é como se rasgasse uma mortalha
com a sombra da vida.


Ellen Augusta

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Flores para o Solstício de Verão

O que eu faço com estas flores vivas?


Sonhei que minhas flores estavam vivas, prefiro
a eternidade das mortas
Elas que já tiveram um suspiro em minhas mãos
pertenceram ao vento, ao teu sorriso e um dia foram colhidas e destinadas a mim.

Acordam-me nos sonhos, brancas, roxas, sofrem em meu coração.
A concordância de serem frágeis, destinadas ao não ser.
À negação, ao féretro, ao perfume, à conquista efêmera de um momento.

Nunca soube ser nada além do corte.

A névoa de um balanço, as flores se movem no ar. Basta tua presença.
Sinto-me trêmula como as rosas.

Com a melancolia no olhar, ele as observa impassível, porque também é tão sensível
quanto uma flor.

Ellen Augusta

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Feliz Natal, pobre animal

Ao ver um cachorro rasgando uma sacola de lixo para conseguir pegar um osso, como não sentir nojo, repulsa, asco,

do animal humano?

Essa foi a cena que desagradou meu dia, e que trouxe lá do fundo do meu ser, a velha desesperança.

A mesma que ora enterro, ora vem à tona, conforme o dia lá fora, ou a minha disposição interior.
Eles perderam o rumo - domesticados, escravizados - e vagam pelas ruas, a procura de comida, abrigo e carinho. Era de nossa responsabilidade, o afeto e proteção. Hoje, é preciso permitir a liberdade aos animais. Devolver, deixar-lhes a paz, e antes disso, como numa guerra, lhes dar o mínimo necessário, comida, remédios e amor. Mas o que se faz, é o pouco, que não conseguimos sequer fazer a nós mesmos ou o muito, a maldade reflexa.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A tumba da lealdade

Estava num de meus dias em que se misturavam a paixão e a desesperança, quando, procurava uma fotografia para meu blog, para um dos assuntos que virão a seguir. E encontrei esta,  a fotografia da tumba de Jeannette Ryder. Não a conhecia e, fui pesquisar e trazer aqui para o blog um pouco de sua história.

Ela era norteamericana e viveu no começo do século XX em Cuba, fundou a Sociedade Protetora de Crianças, Animais e Plantas, também conhecida como Bando de Piedad.

Criou um hospital para animais, combateu a utilização abusiva de animais para tiro e carga (carroças), também fazia campanhas para o controle de natalidade de animais e era contra às corridas de touros em seu país.

Típica protetora, sempre levava comida para cães e gatos nas ruas, não se importando com as críticas e zombarias do povo ignorante.

Quando foi enterrada, sua cachorra Rinti se instalou em seu túmulo, e nunca mais saiu de lá. Os visitantes lhe levavam comida, que ela sempre recusou, até que morreu de fome, sendo fiel à sua tutora, até o fim de seus dias, numa demonstração de amizade rara e tão próxima do amor.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O brilho do Sol faz minhas sombras mais belas

Eu não suporto a luz do Sol, fere meus olhos e queima minha pele, e prefiro-a branca, cada vez mais branca, como se fosse possível que fosse mais. Mas não posso escolher os dias e muitas vezes não há outro remédio que não sair de casa. O trabalho me obriga, e também a vida lá fora me chama, pois a morte é uma tentação, e não pretendo-a todos os dias.
Gosto de fotografar o Sol, nessas imagens, ele já não fica tão lúcido, as sombras ficam mais evidentes. São recursos da câmera para disfarçar a luz e contê-la dentro da fotografia. Eu prefiro os efeitos que ele causa nas sombras.
Quando a luz se projeta sobre as águas, parece que até influenciam no aroma, no movimento, em tudo ao redor. Como qualquer ser que pode usar a visão é assim que conheço as coisas. Mas sem as sombras, a luz apenas seria uma agressão sem sentido, uma queimadura a me ferir.
 Uma das coisas mais lindas que já vi, foi o amanhecer na praia. O dia chegando, ainda sendo noite. O desespero do sol sobre a inconstância das ondas... Aquela névoa refrescante da manhã e eu ali, sem saber o que ver primeiro, o que sentir, o que esperar.
Ou então o contrário, a luz que a lua projeta sobre as ondas que vem chegando até a borda.
O olhar solitário da lua sobre o absoluto impenetrável do mar.
Essa sensação é completamente agradável, sem ela jamais poderia saber o que é terra ou o que é oceano, eu amava essa luz. Agora, já não a tenho ou, se terei, não sei. Nunca mais vi o mar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Enlevo

Por que fui conhecer o medo
diante de seus olhos fechados
onde estava minha loucura
precisava dela ali.


a saudade inventa traços
descrevendo o que cai pela janela - um céu negro imensurável
a caneta escreve o inegável, por dentro
o sonho de ser teu corpo

Encantada pelas lembranças de tuas palavras,
o invólucro da presença,
é suicídio, mas para quem quer morrer
é alívio.

É o contrário, mas para minha poesia, precisa ser assim.

A recordação, caminha com os pés em direção às marés
carregada de cortadas dores, eróticos pensamentos,
lágrimas incômodas
a falta doentia levo-a e jamais voltará.

se tudo o que escrevo inexiste, eu mesma nem sei
se alguma coisa restou
o que sinto, já não entendo,
a noite, a nuvem quando cai,
é por ter adormecido
dentro da história que eu sou.

Ellen Augusta





sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Branco nos meus sonhos

Eu chorava imensamente, dentro do sonho e quando acordei.
E dizia para quem estava, lá dentro
e para a música que ouvia, aqui fora:
Que, o problema aqui, não é bem a distância que nos separa, talvez bem mais seja a melancolia interior.
Essa angústia, ferida, que nos separou a alma.
Eu atravesso ruas perigosas, os carros passam, voam por cima de mim, não há ordem em nada.
Há algo vermelho e terroso por todo o lugar. Como é diferente meu íntimo, das coisas que eu tenho em meu pensamento.
Como é diferente a minha cor, dos tons que guardo em meu inconsciente.


Um lençol branco imenso

cobria pedras com rachaduras profundas, meus pés eram tão frágeis, pois sei, quase sempre não tenho chão.

Eu via aquela criança, de camiseta branca, sentada a me olhar.

A dor antiga, impossível resgate. A doçura infantil espelhada num disfarce.
Ao meu lado, tentando me fazer lembrar.
E estava sentado, sobre as pedras, como alguém que simplesmente tenta oferecer ajuda.
A inocente infantil tentativa.
Como sou. Senti o carinho dentro de mim, sentimentos de uma mulher morta.
Mas o menino ficou para trás, quando acordei.

Buscava recolher todas as coisas. Objetos do chão, símbolos oníricos.
Fecho meus olhos. Ignoro o que guardo em mim.

Só podia dizer aquelas palavras.

A figura inquietante, a me torturar,
O irmão, a criança.
E a lembrança, a cor que persiste em cada sonho.


Ellen Augusta

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Feministas Emancipadas e Feministas Ressentidas

Um artigo de Bruno Frederico Müller

"Aquele que vive para combater um inimigo tem interesse na continuidade de sua existência"
Friedrich Nietzsche

PREÂMBULO

Sempre foi minha política não me envolver em debates feministas. Por três motivos. Primeiro, porque como homem, provavelmente não seria bem-vindo e talvez eu mesmo não me sentiria à vontade. Segundo, porque o feminismo tem várias vertentes, e assumir uma posição apenas significaria sair queimado e chamuscado com o rótulo de "machista" pelas outras vertentes diferentes daquela à qual eu me alinhasse. Terceiro porque tenho aquele péssimo hábito do... pensamento crítico. Nunca compro NENHUMA teoria na sua integralidade, e não sem antes analisá-la minuciosamente, microscopicamente, em todos os seus detalhes.
Pois bem. Meu silêncio se encerra agora. Não é do meu feitio acovardar-me por muito tempo, e quem me julgar a partir deste texto estará dizendo mais sobre si do que sobre mim. "Conhece-te a ti mesmo". Eu sei quem sou e não vai ser um ente exterior que vai me colar o rótulo de machista - não sem um excelente arcabouço teórico e muitas evidências para sustentá-lo.
Enfim, depois da publicação da minha TRILOGIA MALDITA, que sequer era endereçada particularmente a elas, eu me vi sendo atacado por feministas virulentas me chamando não só de machista, mas de racista e até explorador de animais. Eu ri. Ri, e refleti. Pois graças aos meus textos também conheci ou estreitei laços com feministas que concordavam com eles e não se sentiram ofendidas na sua feminilidade.

E eu, como estou numa onda criativa de deduzir hipóteses mágicas que se corroboram a si mesmas sem qualquer esforço do investigador (eu), decidi forçar um pouco a minha sorte e formular mais uma hipótese.

Há dois tipos de feministas: as feministas emancipadas, e as feministas ressentidas.

FEMINISTAS EMANCIPADAS

As feministas emancipadas* são aquelas que não veem os homens como inimigos. Elas combatem o machismo como um fenômeno social, mas não guardam mágoas nem cobram "dívidas históricas". Elas sabem que a cor da pele e os genitais não ditam o caráter e as ideias de uma pessoa. Elas mantêm relações estreitas com indivíduos de todos os gêneros, e mantêm amizades e até relações íntimas e saudáveis com indivíduos do sexo masculino, sempre em relação de parceria. Elas buscam um diálogo construtivo. Elas olham para o futuro, o futuro sem discriminações, e não para o passado que não pode ser mudado.

No concernente aos animais, as feministas emancipadas de modo algum se sentem diminuídas quando expostas ao sofrimento, tortura e morte de fêmeas de outras espécies. Porque, emancipadas que são, elas têm aquela sensibilidade, aquela solidariedade que leva a desejar que sua condição livre seja a de a todos os outros seres - como dizia Simone de Beauvoir, com a exceção desta restringir-se à espécie humana. Elas entendem que a liberdade é mais do que uma necessidade de quem está acorrentado ou enjaulado - é, como dizia Jean-Paul Sartre, a própria condição do ser; de novo, com a exceção deste restringir-se à espécie humana. Assim, elas querem a liberdade animal tanto quanto a de si mesmas, quanto de seus irmãos e irmãs de jornada. Elas não querem reverter a ordem - elas querem subvertê-la.
Se amanhã, por mágica, o machismo desaparecesse, as feministas emancipadas se veriam felizes, realizadas, plenas. Sua energia criativa floresceria e voltar-se-ia para outras formas de ação ou diálogo construtivo.

FEMINISTAS RESSENTIDAS

As feministas ressentidas**, por outro lado, não conseguem conceber-se senão como vítimas de um sistema patriarcal opressivo. Elas não se percebem portadoras daquilo que Sartre denominava de "liberdade ontológica". Elas negam a própria liberdade e, assim, incorrem no que o mesmo pensador denominava de "má-fé" - pois podemos negar nossa liberdade, mas jamais renunciar a ela. Em outras palavras, elas ESCOLHEM se postar no papel de vítimas. Por mais que tenhamos efetivamente sofrido na vida, temos a liberdade de usar a dor de forma construtiva ou destrutiva, de modo que nos fortaleça ou nos torne ainda mais vulneráveis. Em outras palavras: emancipação ou vitimização.

Vítimas que são, as ressentidas odeiam seus opressores com todas as forças possíveis. E projetam seu ódio no opressor - denominando os homens de misóginos. É claro que existe misoginia - como existe misandria, o que muitas delas negam. Mas será que o ódio às mulheres está tão amplamente disseminada na sociedade (lembrando que machismo e misoginia não são intercambiáveis, e o segundo é provavelmente mais grave)? Ou será que a simples divergência perante conceitos e práticas das feministas ressentidas pode levar um homem a ser acusado de misoginia? Eu arrisco dizer que a misoginia (diferente do machismo), a despeito do perigo que representa às mulheres, está restrita a uma minoria dos homens. Digressões à espera de pesquisas que elucidem a questão...

Retomando: elas odeiam os homens e tudo que eles representam. O homem opressor. O falo opressor. Todo homem como potencial estuprador. E logo disseminam conceitos como "toda penetração é um estupro". Castração e puritanismo estão sempre à espreita no horizonte de uma feminista ressentida. A amizade ou intimidade torna-se problemática e disfuncional. E, suspeito eu, dificilmente em parceria, mas em condições de dominação de uma das partes.

Elas enxergam tudo como uma relação de poder, e não veem outra alternativa senão reverter tal correlação de forças - de modo que o diálogo igualitário com qualquer indivíduo do sexo masculino é inviável. Ou eles aceitam o debate nos termos por elas ditados, ou eles serão escorraçados e para sempre estigmatizados com o rótulo de "machista" e/ou "misógino". Aliás, consegue a feminista ressentida conceber qualquer homem, mesmo um submisso, como sendo nada além de um machista? Tenho minhas dúvidas...

Encontrando-se assim envenenadas pelo ressentimento, elas não percebem que se tornam presas do sistema que dizem combater. Elas necessitam do machismo como o soldado, da guerra. Elas reproduzem o machismo ao negar-se ao diálogo igualitário, ao separar de forma maniqueísta homens e mulheres (e negros e brancos, ocidentais e orientais, e todas essas falsas e superficiais dicotomias que não conseguem enxergar o conteúdo por detrás do invólucro). Elas tiram toda sua força e legitimidade do machismo e da misoginia. Elas dependem deles para sobreviver. Daí minha afirmação de que essa modalidade de feminista VENERA O MACHISMO***.

Disso resulta que a feminista ressentida não admite ser "comparada" com vacas, cabras, galinhas e fêmeas de outras espécies. Elas o veem como uma afronta, mais uma manifestação de misoginia, de ódio dos homens às mulheres, pois tais "comparações" seriam mais uma forma de humilhação, depreciação de seu gênero. Outro meio de submetê-las a esse sistema patriarcal opressor do qual só podem escapar pela reversão das forças de poder. Elas falam de empatia, mas somente com as "irmãs" e os "submissos" e aqueles que elas percebem como "oprimidos". Qualquer outro será enquadrado - ou silenciado - em nome da... empatia, termo que já percebi extremamente comum entre os ressentidos, mas que não poderia estar mais distante de sua prática.

Em conclusão, se o machismo acabasse amanhã, por mágica, as ressentidas estariam perdidas. A quem odiar? Quais forças de poder reverter? Como destruir o inimigo - se não há mais inimigo? Toda sua energia tóxica, venenosa, carcinogênica, elas teriam de dirigir para outro inimigo, ou para si mesmas, mergulhando em depressão profunda, pois a única coisa que cultivavam, que as mantinha vivas e altivas, subitamente se fez obsoleta - o ressentimento.

NOTAS

* Falo de "emancipadas" em vez de "empoderadas" por vários motivos: primeiro, porque são palavras próximas em significado, e é sempre preferível, neste caso, usar um termo consagrado a um neologismo. Segundo, porque de todo modo eu odeio neologismos, especialmente quando advindos de traduções tati-bitati de idiomas estrangeiros. Terceiro, porque "empoderar" é um verbo feio de dar dó.
** Emprego o conceito de ressentimento, neste breve ensaio, inspirado no sentido a ele atribuído por Friedrich Nietzsche, em Genealogia da Moral.
*** Afirmação que serviu de pretexto para meu banimento do grupo Veganismo e que, à primeira leitura, pode parecer não mais do que um insulto proferido no calor do momento. Ao contrário, ele foi muito pensado e refletido após o que testemunhei naquele mesmo grupo, por parte de feministas supostamente veganas. Tanto que só postei a dita afirmação no dia seguinte.

Bruno Frederico Müller é historiador e escritor.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O jardim frio

Há tristezas que não podem ser mostradas. Elas são mais tristes, penosas e não são bonitas.
Tentativas de poesia para o fatídico não se encaixam no mais terrível destino, onde nada é tão penoso, tão sofrível, tão desastroso.

Ver o outro sofrer, estar preso em si mesmo, em um outro mundo.
Não é meu mundo, mas eu sofro tão profundamente, que mesmo gritando não consigo aplacar essa dor.
Seria preferível receber um recado dos mortos. Do que saber de certas coisas.
Saber, me faz gritar à noite. Me faz infeliz, me faz sofrer, me faz sozinha no mundo.

O outro. É a minha irmandade. É parte, que eu tentei ignorar. Mas nada pode ser esquecido, o que no fundo ficou e está.

Misturam-se tristeza com a dor do irmão/Misturam-se a lembrança do amigo com a temível cortina, o véu de ausência.

Tento trazer à luz o funesto, torná-lo bonito, pois assim sempre sobrevivi.

A um mundo insuportável,

Busquei palavras, amei cada uma delas. Procurei com cada letra,
a outra forma de morrer.

A cada dia, naquelas pedras batem os mesmos pensamentos, o ritual.
O ilusório, a morte, para esquecer a vida estúpida
que te faz infeliz.

Ellen Augusta

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

As flores brancas

Sentido guardado
isolado.. em silêncio.
no ponto luminoso do farol
respiro o vento
quando traz o cheiro do mar, eu lembro.
meus cabelos crescem, eu os corto
no sonho vejo-os longos, as roupas de cores: azul, verde, violeta.
eu os corto, ainda não é  hora
uso o negro pois minha alma traz seu nome igual ao meu.

tenho nas mãos as marcas roxas do sono, as flores brancas do encanto
suspensas por todo o ar
como uma saudade que eu possa capturar
A chuva se aproximava e era de flores:

Por que estavam no ar, no meu corpo, na minha boca e por todo o lado que voltasse o olhar?

Por que brancas, sem em mim tudo é violáceo?
por quê? esses cruzamentos essa distância, esses pensamentos?
sonhos/ em que tudo são tormentos, guardam em si mesmos boas lembranças - porém!

Eu vivo como uma concha, tragando liberdades.
Cada pétala caída, cada flor colhida,
Morrem comigo, nas palavras, em um movimento de minhas mãos, covardes.

O medo, a solidão, esta flor branca , vive internamente.
Abre-se e chora.

Não consegue jamais desvencilhar-se
de uma condição.

Ellen Augusta

sábado, 7 de novembro de 2015

Eu como sem culpa porque sou livre e o filme Terráqueos - uma aula sobre a liberdade

O cozinheiro é meu marido, e minha função é comer. Adoro.

 Estou resgantando as fotos de uns CDs antigos e salvando no meu HD, achei essas fotos.
Enquanto isso, estou ouvindo palestras do de um professor de história que costuma comparar Shakespeare com Facebook. Mas já tirei-as daqui do blog, desde que ele começou a falar que células são animais, plantas sentem dor e que Hitler era vegetariano, da dor das cenouras, etc, depois dessas falácias, infelizmente, não levei mais a sério.

Se ele fala assim, de coisas que conheço, sou bióloga, como vou saber se o resto é confiável? Bem, ele estava falando sobre utopia quando citou o exemplo de um aluno que queria salvar os cães dos testes em animais, aí ele disse: "por que não salva também os animais unicelulares?" (hã) Disse que nas mãos havia milhares de animais unicelulares. Desliguei o Youtube.
Antes disso, curiosamente ele estava falando dos sintomas da velhice. Só que este, é um sintoma típico de velho. A desesperança, as falácias de que, não se pode fazer nada por uns, se não fizermos por todo um conjunto, por todo o planeta, e ao mesmo tempo agora, temos que ser um velho chato que só reclama "no meu tempo era bom" ou apenas comer a carne que mata, se acostumar, silenciar, o é pior!!!! Senilidade chegando.

Depois ele veio com uma lenda de que Hitler era vegetariano. O livro Der totale Rausch (O delírio total), de Norman Ohler mostra um ditador que usava drogas, e não era natureba como se pensa. No livro Hitler, Not vegetarian, Not Animal lover, de Rinn Berry, o autor mostra Hitler como não vegetariano e tampouco amigo dos animais como se fez crer pelos seus adoradores. Mas como a propaganda nazista foi tão forte, seus retardados até hoje a reproduzem por aí nos fóruns e redes. E até esse professor de HISTORIA não é capaz de saber a verdade.
Essas fotos são do tempo em que eu me preocupava mais com a casa...é sempre assim. Houve tempos, há tempos...em que as coisas te culpam. Você tem que ser como a sociedade te ensina.
E encontrei essas fotografias de comidas, as comidas alegres que meu marido prepara.
Com o tempo a gente foi simplificando a vida e gastando cada vez menos. Para não ter que se matar correndo atrás da máquina. E poder viver a vida. Sem a culpa de cumprir as regras. E o melhor de tudo, poder ajudar os animais.
Hoje tudo é diferente, não tenho tanta preocupação com coisas da casa e dedico meu tempo ao que interessa. E às vezes perco a noção do que importa mais. Meus livros às vezes ficam parados, nem sei onde parei de ler. Eu volto e busco o que eu amei mais. Fica o que brilha.
Me tornei uma espécie de criança que não tem mais a noção do tempo. Mas amadureci para a flexibilidade e o domínio do meu ócio. Nunca mais vou vender minha vida para ninguém, em trabalhos que matem meu tempo. Trabalhar só naquilo que vale a pena. Seu Madruga, meu ídolo maior.
Essas comidas simples e baratas são coisas que a gente faz sem gastar muito.
A comida vegana é barata, e assim você economiza tempo e dinheiro.
Além de tudo, obriga-se a procurar, pesquisar, aprender.. tudo em função de um estilo de vida em que a preocupação é, ao menos deve ser, pelos animais. É a minha!
Ser vegano é o maior ato de liberdade que tomei até hoje. Das melhores decisões da minha vida.
É por isso que sempre recomendo o filme Terráqueos que mudou minha vida.
É forte, sim. Mas é a lembrança, daquilo que acontece à luz do dia, e que não posso esquecer. A trilha sonora é maravilhosa. Emocionante. Eu nunca o vejo como algo triste. Não. Foi triste no primeiro dia. Foi ele que me fez vegana, direto. Mas hoje eu tenho ele como um sinal de quem eu fui. Um marco. Não o vejo como triste.
Esse documentário é o filme da minha vida, é a memória do dia em que me tornei vegana. Minha tomada de liberdade. E o retrato da falta de liberdade dos animais, que a tirania humana tomou.
Recomendo a todos como um marco do antes e depois para uma vida verdadeiramente livre. Um lembrete para quando alguém vacilar, lembrar daquilo que viu ali, milhares de animais sendo torturados e a culpa é sua. Não é de alguém "lá fora" é de cada um que compactua com isso.
Assista aqui depois: http://www.terraqueos.org/
RECADO OU PS para você que acha que esses detalhes sobre conhecimentos gerais são banais. É uma pena que um professor de História não saiba nada sobre uma cenoura, e ainda acredite como a maioria dos idiotas, que ela sente a mesma dor que um animal. Os vegetais não sentem dor. Os animais são torturados e seria preciso comparar, na frente desse ser que aparentemente é culto, mas bruto nesse aspecto, como as plantas são na sua maior parte, não comestíveis, mas os animais, são massacrados pela humanidade - para os mais diversos fins.

Desde a alimentação, até o abuso sexual

Então, ele deveria ter calado a boca e ter usado um outro exemplo, não um exemplo atrasado. Que aliás, todos usam. Todos! Infelizmente. Não conheci, até hoje, uma pessoa - senso comum - , que não veio com algum desses argumentos cretinos para cima de mim, quando veio "argumentar".

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Dia de faxina na casa e na alma

Esses tempos, uma amiga mandou oito minutos de uma palestra sobre o Facebook e Shakespeare, o que me fez entrar em depressão, sei lá quando vou sair.
Esse palestrante, que depois falou merda sobre quem salva animais, sem ter conhecimento, falou dobre coisas que eu tenho vivido, sobre a solidão, sobre o vazio das pessoas e outras questões. Depois de ouvir aqueles oito minutos, eu saí de casa e fui a uma praça...
Para escrever... e pensar porque a minha vida é assim. Estamos numa sociedade que não entende de coisas profundas e, embora valorize a quantidade de amigos e a aprovação dos outros, tem medo de se relacionar.
Hoje assisti outra palestra, agora completa sobre Shakespeare. É uma apresentação do escritor, cuja obra conheço tão pouco, e depois começa a comparação com os dias atuais, tão vagos e solitários, tão carentes de sentido.
Shakespeare: eu conheci, quando li numa tarde, um livro de poemas de amor... suas poesias me deixaram simplesmente com vergonha! Sim. As poesias atuais são fracas, em face dessas palavras tão penetrantes.
Pois em face dos poemas que tenho lido, esses poemas apaixonados e elaborados me deixaram encantada. São poemas eternos, primorosos e cultos. Não costumo fazer comparações. Como sempre digo, os mortos são melhores.

Shakespeare melancólico, veste-se de preto e assume sua tristeza. Shakespeare gótico!
Ser solitário não é ruim. Solidão nunca foi incômodo para mim. O que incomoda é a indiferença, a futilidade das pessoas, as máscaras e o machismo dos homens e mulheres. O modo como elas valorizam muito mais as coisas masculinas. E como tudo é voltado para os homens, às vezes. Ainda.
De como eu tenho, porque sou mulher, de me esforçar muito mais, para algo meu ser aceito, compartilhado, lido, publicado. De como algo, dependendo do assunto, é mais palatável quando é meu marido que escreve. Mas o mesmo seria se fosse eu que escrevesse? Será impressão minha? Talvez paranoia?
Lembro quando uma determinada crônica minha causou muito alvoroço, teve gente que não aceitou a hipótese de que alguém pudesse falar palavrão, ser 'agressiva' e, para atacar a minha pessoa, taxou, tudo de 'machista' misógino, etc. Para estas pessoas, é inadmissível que uma mulher
entre no mundo literário com modos "masculinos" ou seja, diga o que pense, não se preocupe com o Português de colégio, e a ingenuidade do politicamente carola, e não tenha a mão cheia de dedos para não ofender... Dito isso, não é fácil para essas pessoas aceitarem mulher escrevendo o que quer nesse mundo ainda hoje, em 2015. Foi isso que eu senti, naquela época, no meio de um monte de gente 'libertária'. Minha experiência foi muito boa, pois a maioria das pessoas adorou essa crônica,

mas a desilusão que a realidade me causou foi que também muitos, ainda se incomodam com a posição feminina na literatura, seja por não saber o que é Literatura, por não entender, ou simplesmente porque nas redes sociais, falta inteligência para ler uma crônica, saber do que se trata, e consideram tudo pelo seu viés mesquinho e pouco culto... aí tudo é "machismo", "misoginia" "coisa do PT" ou o contrário conforme os grupelhos, e outros linchamentos típicos de Facebook e redes similares.

Eu hoje mostro um lado meu, frágil, não tenho vergonha disso, de quem está de saco cheio dessa palhaçada que é fingir felicidade nas redes sociais. Nunca fingi nada. Será? Mas cansei de estar no meio dessa maré. Pois às vezes você se pega a quase pensar que está nisso também e que tem que fazer isso, senão não terá nada.

A palestra foi publicada no blog do escritor, de onde me inspiro para escrever, quero ser como ele, sou fã absoluta de seu modo de escrever: http://eziobazzo.blogspot.com.br/

domingo, 1 de novembro de 2015

Día de los muertos: o povo que é feliz mesmo diante da morte


Este ano, será com toda certeza lembrada a morte de Chespirito no México. Lembra-se a alegria de tê-lo conhecido e a dor de ver sua partida. Essas comemorações são assim, uma mistura de dor e alegria. Aqui eu também vou fazer todas as minhas homenagens a ele.
Esse libreto é de Guadalupe Posada quem faz os famosos desenhos das Catrinas. São composições de poemas sobre a morte, em tom de deboche e alegria. Significam, no geral, que não importa o que você seja, rico ou pobre, esnobe ou simples, não importa o que você acredite ou não, no final você será uma simples caveira. E nada mais!
 É uma raridade, que veio como fanzine. Sempre em dias de Halloween e Día de los muertos, finados, sai das minhas coisas guardadas e vem á tona, para ser relembrado... de um espanhol diferente, antigo e lindo.
Os Mexicanos enfeitam tudo com flores coloridas, a morte pode ser preta, eu também considero-a branca. Mas o roxo é a sua cor preferida. Sempre os mortos ficam, no fim das contas, com essa cor. Dado que, é minha cor preferida. Antes de tudo, o ritual era a única coisa que eu sabia fazer, das poucas coisas, enfeitar algo inerte.

Quando um povo lida tanto com a tristeza, das coisas que ele sabe bem é se despedir.
Neste link aqui: http://desobedienciavegana.blogspot.com.br/2014/11/dia-de-los-muertos.html falei mais especificamente sobre este dia no México. Mas gosto de fazer aqui em casa o meu altar, visto que sou muito fã de Chespirito e acabei estudando muitas coisas dessa cultura que é tão ligada à morte e às suas raízes antigas.
Não tenho crenças, portanto este altar é como um sacrilégio, heresia, nem mesmo sei o termo correto. Uma mistura de tudo que é coisas que tenho em casa, cada uma com um significado. Nem posso explicar tudo. La Santissima Muerte, essa é a minha santa preferida, uma divindade cultuada no México, e outras coisas curiosas que encontrei e guardei por aí.

 Há aqui até mesmo a fotografia de uma defunta, encontrei no lixo, é uma longa história que nem vou contar aqui. Estou escrevendo sobre ela, e seu passado. Foi parar no meu altar também. Afinal, foi abandonada, eu a encontrei...
 Aqui as pessoas só tatuam catrinas e usam camisetas da Fridas k. Eu sempre me interessei por todos os elementos do México e acho muito mais interessante outras entidades mexicanas, como o Senhor do Veneno, Jesus Malverde, Santa Morte e outras significações...
Angelines Fernandez, foi atriz, modelo, guerrilheira, ativista contra a ditadura, entre outras personalidades esquecidas, mulheres tão interessantes quanto pouco lembradas e falo hj apenas das mortas...
 Chespirito merece todas as homenagens, todo meu carinho e de seus fãs. Só uma pessoa que fez tão bem a tanta gente, pode receber tanto carinho e ser lembrado por tanto tempo, por tanta gente e em tantos lugares.
 Meu amor eterno, de todo coração, a esta pessoa tão querida e a todos os seus personagens, queridos atores já mortos.
 Este com a foto do Chespirito fica o ano inteiro pois é minha homenagem a ele desde sua morte.
 Vejam um altar mexicano onde também se homenageou Chespirito. Muito amor para essas pessoas.




Sobre José Guadalupe Posada e sobre México e suas ligações com a morte assista esse documentário maravilhoso cheio de música:



e a parte segunda:
Algumas postagens que eu fiz sobre essas épocas que eu considero as melhores do ano, antes do Verão. Pois para mim, não há nada mais lindo do que a Primavera, e esse ar sombrio:
Halloween e meu olhar 43: http://desobedienciavegana.blogspot.com.br/2014/10/halloween-e-o-meu-mundo.html
O Día de los muertos, Halloween e Beltane: http://desobedienciavegana.blogspot.com.br/2013/10/o-dia-dos-mortos-halloween-e-beltane.html
Comemorando o Halloween:http://desobedienciavegana.blogspot.com.br/2012/10/comemorando-o-halloween.html

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...