terça-feira, 28 de julho de 2015

Um sonho endemoniado

Na estação desconhecida
Não podia descrever
A quem me levava e não sabia
Palavra alguma me dizer

Profanações no silêncio, sua voz saia muda
O ambiente frívolo, uma curva de estrada
Me carregava, como um demônio.

Implorava por saber.

{Meu amor não estava lá, não poderia me dizer
Como eu faria para retornar
ao estado de lucidez.}

Presa desta forma, acorrentada
Ao telefone, a um toque destas mãos
Só confiava:
Em que meu corpo deixaria-me em paz
de que minha alma entregaria-me
à própria natureza, se eu pudesse livrar-me

Do inferno deste sonho.

{Senhoras ao meu redor sabiam, mas apenas me condenavam
Cercavam minha alma de não-sei}

O que sei: conheci a índole triste e doce de seu coração
Embora pareça, sei lá, embora seja, engano meu.

Meu desejo era de acordar, mas meus pés descem, descem...
O corpo flutua, só quer ficar.
Mas as lágrimas, negras lágrimas encantadas
Falsas, fantasias que acordam amanhã.

Ellen Augusta

sábado, 25 de julho de 2015

As santas do interior

 Este é meu arquivo de simbologia da Serra Gaúcha, algumas fotografias de símbolos sagrados que capturo quando viajo para o interior.
 Toda vez que escapo para a Serra ou cada vez que vejo um lugar como este eu sempre faço algumas imagens. Visito disfarçadamente, como uma fiel, cada recinto, sagradamente, em busca de uma descoberta.
E eu me sinto parte de um mundo incrível. Ou melhor, cheio de pessoas que creem nele.


 
Sou sinceramente apaixonada por estes símbolos e passeio pela cidade a procura destes objetos.
Nesta cidade em particular, existem diversas grutas, pequenos santuários com santas onde se acendem velas, levam-se flores e outros objetos de devoção.

Observem a composição da foto acima: essas duas cruzes semelhantes à cruz pagã, cruz de Malta, o Disco Solar, como queiram, e essa vassoura colocada bem no meio desse armário. Até hoje é praticamente impossível esconder as tradições antigas!
 
Estes lugares são repletos de pequenos museus, pois sabem guardar estas relíquias, objetos históricos do lugar. As cidades investem grana nas atividades de uma religião específica. Vivemos num Estado laico, mas ninguém se importa. E no interior a séculos apenas uma religião existia. Agora a coisa está mudando um pouco.

Nos dias em que fui fazer trabalho voluntário em uma das cidades da região, tirei alguns dias para conhecer os cemitérios e esses lugares sagrados. E vi muitos desses pequenos museus.

Porém o que mais gosto, são os chamados "capitéis", são pequenas capelinhas de beira de estrada, feitas para orações, pelos moradores locais.

 Este é um armazém colonial com muitos artefatos religiosos e antigos.
 Eu fotografei tudo, pois é muito bonito e tem a ver com a cultura italiana local.
 Eles enchem a casa de símbolos religiosos. Eu acho legal, na verdade, mesmo não crendo em nada disso.
Aqui é uma casa decorada para turista, mas há muitos lugares preservados, com móveis realmente antigos. É muito bonito.

 Há um armazém cheio de rádios antigos. Tenho as fotos, mas não sei onde estão.
Coleciono as imagens, guardo a beleza das figuras, pois a crença eu já perdi. Ou melhor, nunca cheguei a ter. Algumas coisas até acho meio cafona. Prefiro a beleza mexicana do exagero. Adoro tudo que é demais e muito colorido.
Mas também entendo o jeito dos gringos de decorar.
Afinal, minha mãe era de origem italiana. E eu entendia o jeito dela de arrumar as coisas. Essa forma de lidar com a religiosidade, acho que tem muito a ver com a forma de decorar. Ajeitar as flores, acender velas.
Ela ia mil vezes no cemitério limpar o túmulo, fazer toda a ritualística da dor.

Porque é preciso querer arrumar.  E eu acho que nesses rituais estão o mais bonito de suas crenças. O mais me abstenho de comentar, pois hoje não estou a fim.

Minha fé está na destruição, quero arrumar destruindo o que é nocivo, por isso não creio em mentiras.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O meu tempo é de madrugada


Escrever de madrugada, é encontrar tempo onde ninguém o procura.
Eu estou desperta quando grande parte já se foi. Só os vagabundos estão insones, quando não é hora de trabalhar. E aproveitei para procurar umas fotografias. São imagens de mim. Adoro me mostrar, um lado humano de outro lado tão desumano que escondo muito bem. O lado imortal, que o tempo tem.


Adoramos caminhar pela cidade. Andar até este ponto foi fácil. Eu moro muito longe daqui. Não preciso de carro, nem bicicleta, não quero ter nada. Se tenho tempo, este só me basta. Porque um dia eu não o tive. E sangrei por sua falta.
Ao olhar tão distante, busco um ideal de poesia. Poder ver a cidade e dizer, és minha, mesmo sabendo que não pertenço a quase nada. A nada. Meu orgulho é dizer não. Mesmo sabendo que pode ser uma grande mentira.
 Templo Positivista
Porque, lá no fundo, a morte é um fascínio e nunca deixou de me atrair. Sempre pertenci ao mundo dos mortos, desde que nasci.
 Templo Positivista

Minha única certeza de estar presente é que o sofrimento deste mundo, este corpo, tudo é terrivelmente vivo. Tudo é prova. A felicidade rara, a paixão perfeita que às vezes se vai. O amor e a amizade verdadeira, que se leva tanto tempo a conquistar. E é preciso manter com a espada.
Eu não sou da terra nem do ar, sou do mar. Sou o fogo de encontro com a água e ela não é limpa nem leve.
Sou a contradição em si. Há poucas coisas aqui que não sejam ambíguas e, foda-se. Adoro descobrir qual é o conjunto de paradoxos novos em mim.
O ato de escrever é um espelho de minhas coisas pessoais. Meu diário do que vivo no dia a dia dos meus passos na cidade, nas pausas no Sol, um pensamento de paz ao ler, ao reencontrar alguém.
O poeta perdido no meio da cidade, o amigo encantado, a querida amiga verdadeira: a única a quem pude contar meu lamento. A angústia a quem mais ninguém poderia confiar...
E meu eterno companheiro de jornada, sempre caminhando comigo. Tudo isso dentro da metrópole.
 Igreja gótica Santa Teresinha
Do céu ou da terra, nascem as igrejas.
Ferem o céu com suas cúspides e colunas, e nos vigiam eternamente com seus anjos.
 Igreja gótica Santa Teresinha
Procurar cada cicatriz de suas construções, admirar os símbolos de seus ancestrais, oculto em cada detalhe. Imperceptível para quem não tem tempo...
Meus passeios acabam, ou começam, às margens do Estuário Guaíba.  Ali, onde já naveguei, onde dancei, namorei, fui a um show do Replicantes e até em roda punk me meti. E muito trabalho de ativista fiz. É um encontro de rios.

Eu já fui de outro lugar. Não faz diferença nenhuma viver nesta ou naquela cidade. Onde morei desde que nasci era uma cidade simples. Lá eu cresci, amei, estudei e trabalhei. Tanto faz. Nunca reclamei de lá, muito pelo contrário. Defendia a cidade: eu me sinto bem onde estou!
Já fui da praia "três meses por ano". Um dia me libertei de lá também. Do mar sempre sou. E lá morrerei.

Sempre lembro com carinho dos bons momentos que vivi naquela cidade onde nasci e morei, mas lembro mais do alívio que senti, no dia da minha partida.

E assim será com tudo, até com minha própria vida.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Tormenta pressentida

Qual é o medo criança
do tremor desta casa
Se a janela balança
ao som do meu temporal?
Eu sentia falta dele
Era o meu tétrico amigo
Era o som afável do vento
Que nunca andava só

A lágrima que corria
O vento que aqui batia
Era a lamúria conjunta
luz sanguínea e o tremor do trovão
E também a chuva ruidosa

Correndo a madrugada
Tendo o amor como presente

Ao meu lado ele assim está agora
Eternamente ensimesmado

Nunca diz o que sente
Nunca sei o que sinto
Cai como meu corpo nas pedras
Chuva suicida
meu sono ausente
no profundo negrume
uma só palavra perpetua
Agora já morta: a saudade

Abre as janelas respira
o suave tormentoso
Meu espelho sorri.
Não mais sabe se está aqui.

Ellen Augusta

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Longe do mar

A insanidade, sintomas de minha loucura
é perder-me neste hospital, é queimar-me neste fogo do distanciamento
estar longe do que mais amo -
a umidade do sal.
Uma ave que pudesse voar
meu amor que soubesse viajar
Se eu pertencesse a algum lugar?
A visão do oceano me perturba
eu nem posso mais olhar
A vontade de estar lá e nunca mais/nunca mais voltar

Esteja dentro de minha alma, por favor.
Uma súplica líquida, de amor.

Volte para mim/Não se distancie.
-Eu estou distante, porque sou covarde.

A brutalidade do encontro com o mar
Na noite mais escura um coração cortado com sal
é essa distância covarde do que eu deixei para trás.

Minha morada, meu mar, meu farol
meus pés em cada grão de areia: teu corpo.

A água líquida, o fantasma.
O anjo negro que nunca mais me deixou.
Ellen Augusta

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Antena

Coluna de Marcio de Almeida Bueno
Para o Jornal Panorama Regional



• "É inaceitável que o compromisso mais ambicioso que Dilma assume para proteção das florestas e combate às mudanças climáticas seja tentar cumprir a lei. Mas foi exatamente isso o que ela fez em aguardada reunião com o presidente Barack Obama, em Washington: prometeu fazer o possível para combater o desmatamento ilegal no Brasil, sem dar prazo ou garantia concreta", diz nota do Greenpeace.

 • Sobre a decisão da Suprema Corte dos Eua, vale lembrar a similar posição do STF aqui no Brasil, em 2011. "Por que o homossexual não pode constituir uma família? Por força de duas questões que são abominadas pela Constituição: a intolerância e o preconceito", disse à época o ministro Luiz Fux. 


• Quero bem aos infelizes que têm vergonha de sua infelicidade, que não derramam na rua seus vasos cheios de miséria; que guardam no fundo de seu coração e nos lábios bastante bom gosto para dizer: 'devemos guardar com honra a nossa miséria, devemos escondê-la'. - Friedrich Nietzsche no livro 'Vontade de Potência'.


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Passeios em Porto Alegre: e por que somos blocos quadrados encaixados em buracos redondos

Chapolin se vira nos 30 ali no trânsito dos bacanas
Já passei por ele várias vezes, lhe dava uns trocados, mas nunca estava com minha câmera...
Aí eu perguntava, você estará aqui amanhã? Ele dizia, sim. No outro dia, o encontrava em outro lugar!
Neste domingo, em nossas caminhadas, o achei...
Eu quase chorei com a dança dos ciganos lá no brique, por que uma hora cantaram uma das músicas mais tristes do cancioneiro cigano. Só que eu não choro em público.
Somente uma vez. Quando cantaram João e Maria do Chico Buarque, em espanhol, aqui mesmo no brique. Aí não deu, chorei mesmo. Pois essa música me faz chorar em qualquer tempo e lugar.
Caminhar com o frio é como ter a alma em estado de morte, mas aguentamos. Os filetes de sol nos aquecia. E toda aquela gente buscava a mesma coisa? O dia estava muito divertido.
 Andamos juntos com essa manifestação. Não sei porquê, mas estamos sempre no meio dessas manifestações, seguimos com eles.
Nascemos como blocos quadrados para estar dentro dos buracos redondos, diz quem vive comigo. Para não nos encaixar nos moldes que nos prepararam. Para não estar em casa fazendo churrasco, celebrando eternamente. Para não ser essa família narcisista tradicional.
Essa família que, nascendo o lindo bebê, doa-se o gato. 
Essa fotografia celebra uma pequena promessa que eu fiz. Eu trabalhei incessantemente em uma certa época pois precisei muito. Acontecia o mundo aqui fora. Instalaram estas lâmpadas em curva e eu queria vê-las. Mas não tinha tempo nem para um café, nem para cagar, tudo contado no relógio, odiava o tempo, odiava meu celular, meu despertador.
Depois quando me livrei deste trabalho opressor, e toda vez que passo na frente desse prédio, eu faço a trajetória dessas lâmpadas, elas fazem uma curva.

É a curva do tempo, que é meu.

É uma promessa boba, pois não creio em nada. Só acredito em quem me faz sorrir. Neste caso, a luz e o prazer de estar livre.

Uma voz sozinha, por jaulas vazias

Hoje eu falei para muitos biólogos. Mas eu estava só.
Embora como professora seja ótima para falar, sou tímida para falar em público. Mas o que eu tinha a dizer, só eu diria.

O tema do debate era o futuro do Zoológico da região metropolitana do Estado do Rio Grande do Sul.
O temor que gira entre o público e o privado ante o mistério do que será feito com os funcionários e trâmites gerais sobre o Zoológico, que pertence à Fundação Zoobotânica.
O que se disse no início da reunião é que ela se dava sob o ponto de vista dos animais, mas não foi o que percebi. 
O que mais aconteceu eram elogios ao bom trabalho até então realizado pelos funcionários do Zoo.

As imagens passadas no telão me causavam tudo, revolta, asco, tristeza. Mas a intenção era mostrar o quão lindo são os animais e o trabalho educacional/resgate/conservação e manejo genético de espécies.
 22 imagens de animais enlouquecendo em zoos pelo mundo - sou contra todas as jaulas, inclusive para humanos. O comportamento de olhar para parede indica algo como perturbação, loucura.
Essa mania de aprimorar genes, colecionar animais, troca troca de figurinhas (animais), emprestar, importar (como aconteceu com a girafa que tanto tivemos que lutar para impedir), garantir, aprisionar, colocá-los em uma jaula com piso de cimento e depois chamar tudo isso de tratamento adequado, é romanceado pelos meus colegas biólogos, presentes em massa neste evento.

Na platéia, onde eu estava, havia veterinários, biólogos, professores e defensores de animais. Atrás de mim, dois babacas falando de carne sem parar, como quem fala de partes do corpo de uma mulher, e elogiando grandes empresas de frigoríficos.
Ao meu lado um grande professor que tive, cuja frase levo até hoje em minha vida. Numa aula, disse que o biólogo deve estar no ambiente urbano, onde os problemas começam, e não lá longe, no meio do mato. Nunca mais esqueci disso.

Depois fui chamada à mesa para falar de algo "diferente": fechar essas jaulas e abrir santuários, tendência no Exterior. Aqui ainda se discute para quem se passa a chave da cadeia.
ISSO é tão ultrajante, que parece uma irônica instalação de arte, um absurdo, uma brincadeira de mau caratismo.
A desculpa da educação ambiental mais uma vez coloca o peso no colo das crianças. A pedagogia do cárcere, minimiza o animal como aquele que já perdeu tudo e é um arremedo de si mesmo.
Temos que aprender a não olhar para os animais como objetos.

A educação vegana respeita-os e os considera íntegros em seus próprios ambientes. Os animais resgatados precisam de santuários, longe da vista nociva do humano.
Os professores, e eu tenho mais de dez anos de prática didática sem essa bobagem, que se virem para encontrar formas mais interessantes e menos opressoras de educação.
Aprendam a respeitar, antes de olhar. E não é preciso ver o que não é daqui.
Nunca vi os seres vivos das Zonas Abissais do Pacífico, e minha erudição não ficou comprometida. Mas o mesmo não posso dizer de tantos outros que vivem fazendo churrascada e bebendo no parque zoológico como pretexto de ver os animais.

A educação ambiental há muito precisa ser questionada, aliás, no que se refere aos animais.
Em vez daquelas reuniões enfadonhas de professores, por que não refrescar a didática nesse sentido meus caros colegas?
Faltam propostas efetivas pois ainda se usam os mesmos métodos a séculos, ensinando as crianças a serem especistas e criando-se a cultura da jaula, da exploração, do uso dos animais como artefato, como diversão, e como se fosse obrigação deles estarem ali, como objeto de nosso estudo.

Não são. Eles não tem interesse em estar ali. Não querem nossa presença e não há nenhum benefício para os animais na visitação humana. Por isso é necessário a criação de santuários para a sua proteção e não para nosso deleite visual nem científico.

O fato de um determinado lugar que sim, permite a visitação de humanos, ser "modelo", não significa que ele seja ético. Os animais precisam ser deixados em paz. Chega da intervenção humana em demasia. Eles precisam dos cuidados básicos, do resgate, da reintegração, na medida do possível. Mas, dado isso, basta!
Basta dessa coisa de horda de pessoas enchendo o saco, visitas sem fim, sob pretextos mil. Uma vez na vida deixe-os em paz e em silêncio.

O curioso é constatar o romantismo dos meus colegas, pois é sempre a mesma conversa, ninguém sai do jargão. Todos estavam mais interessados é em seus empregos. Nunca há um outro questionamento. E eu me senti orgulhosa de mim, por estar aqui, e não lá, no meio deles.
Por ter falado contra a corrente a única coisa que importava, por ter dito o que ninguém provavelmente queria, ou esperava ouvir. E o que falei é algo baseado em bibliografia e em princípios filosóficos. Pois muitos pensam que, por usar jaleco, ser especialista em qualquer coisa ou ter doutorado, sabem mais. Nem sempre. Fiquei orgulhosa por saber intimamente, que, mesmo sendo voto vencido, eu estava ali para marcar presença e ser o que realmente sou: justa comigo e com os animais. Sou bióloga de verdade pois sigo meu juramento.

Ps.: No momento que você compactua com o troca troca de figurinhas entre os zoológicos, saiba que está compactuando com a perpetuação disso: Fotos chocantes do “Zoológico da Morte”, na Indonésia, evidenciam os horrores sofridos pelos animais
http://www.anda.jor.br/30/05/2014/fotos-chocantes-zoologico-morte-indonesia-evidenciam-horrores-sofridos-animais

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O frio atormentador

Caminho desnuda, o frio me congela,  os pés pouco mais flutuam, pois já não sentem.
Não há nada mais lindo que uma noite descalça.
O sonar das músicas, lá fora é madrugada.
As ondas batem nas pedras, respiro.
Da janela vem um pouco da lembrança, era ela.
Um jeito diferente de ser, uma mulher que outrora caminhava ali.
Era um fantasma de mim.

A mulher que de certa forma te ampara.

O sonho os pés nus de tanto chorar.
O mar continua a ser ameaçador, está tão tarde, preciso morrer.
Não é preciso ser louca, me basta dizer
teu nome.

Oceano!
Luar sobre as pedras, por que não vou ao teu encontro?
O frio do Inverno provoca-me delírio.
Não sei escrever.
Só sei inspirar novamente os mesmos devaneios,
impregnar-me com a mesma recordação.

Eu me vi no espelho das ondas. O espírito no mar noturno.
Nunca mais, eu me dizia.
Nem para a vida, nem para a morte.
Presa entre as vagas marinhas sem saber para onde ir.
Ellen Augusta

domingo, 5 de julho de 2015

A propaganda animal é machista

DESOBEDIÊNCIA VEGANA - ELLEN AUGUSTA VALER DE FREITAS
É fácil apontar quando há algo explícito indicando uma propaganda machista, não é? Não é. Porque é preciso inteligência para analisar. Mas tem gente que se delicia com isso sem compreender. É fácil ser especialista do óbvio. É fácil ler? Não. Qualquer um lê, mas a maioria não entende sutilezas, ironias e nem mesmo uma piada. A maioria lê o título acima e fica nisso. Com as imagens é a mesma coisa. As propagandas mais machistas e abusivas são sutis e estão fora da causa animal, ensinando a oprimir o mais fraco, seja humano ou animal.

Propagandas de revistas, a TV, que eu nem tenho em casa, e o álcool, que eu não bebo, possuem coisas machistas. O consumo de carne está ligado a uma cultura machista e atrasada, e tem feminista enchendo o cu de carne a torto e a direito, sem dar um pio a respeito.

Recentemente uma figura publicitária causou polêmica por usar uma imagem supostamente machista, e os autores dela não ganharam um centavo com isso pois foi feita pela causa animal. A peça nas redes sociais brincou com a ideia de traição ou ciúme no Dia dos Namorados. A traição não é algo exclusivo do mundo masculino. O sexo não é algo destinado ao homem. Todo o material foi feito para pensar. Mas quem quer pensar em um espaço onde é melhor bater boca?

Ao redor da imagem havia animais mortos submetidos – como a mulher da foto, indignada, mas é problema dela pois ela tem escolha de dar um chute no cara – mas não importa os animais! Estes, como sempre, estão em última instância no círculo moral.

Tomemos como exemplo uma imagem real. Um protesto feminista de mulheres com seios à mostra seria exatamente o que os homens adorariam ver, especialmente aqui, neste país que explora a imagem de seios na TV, mas nunca a imagem da vagina exposta. E a maior parte das mulheres abomina a imagem da vagina e até suas denominações. As não-feministas e até mesmos estas poderiam apontar as protestantes como machistas, só porque estão mostrando o ‘objeto’ de desejo masculino, mas que para elas tem outro sentido?

É fácil mostrar os seios, que já estão na TV e em todo o lado, mas as mulheres que mostram a vagina politicamente e artisticamente são hostilizadas ate pelas suas companheiras feministas, mostrando que quem está na vanguarda está sempre sozinho. Não é mesmo?

Por outro lado, o comer é algo ligado ao sabor, a uma coisa boa. Comer também é um ato ligado ao sexo. É bom transar, pelo menos deveria ser. Sou mulher, tenho toda a possibilidade de fazer o que um homem faz. Faço se quiser, não preciso imitar. Que saco ficar esmiuçando termos e imagens nas redes sociais, quando o que acontece na vida das mulheres, crianças e jovens que nada sabem sobre jargões é um inferno e o movimento feminista está como uma múmia frente a isso. Essa conversa de libertário, amor livre, se desmancha ao ver uma insinuação de ciúme de uma propaganda, que, sinceramente, é fácil combater – basta mandar o cara às favas e escolher outro melhor, o que talvez confirme a proposta da campanha publicitária, a de comer uma coisa diferente! Melhor, fiel e vegano.

A comida sempre foi ligada ao sexo, pois sempre foi ligada ao prazer. Um homem que cozinha bem é sensual, saber cozinhar é atraente e bonito para uma mulher, pelo menos para mim. A paixão sempre foi ligada ao quente. O frio é ligado ao refrescante, ao distante do calor. Sempre que um homem ou uma mulher é quente dizemos que ele é apimentado, por exemplo. Dizemos o mesmo de comidas picantes.

Não preciso me alongar nesse ponto, eles o fazem. E há mulheres provocantes, picantes, que não estão nem aí para essa coisa fria do não-sexo, da não-associação.

Mas por que esse pessoal adora vir encher com teoria de Facebook? Eu sou feminista desde o tempo que ser feminista era ler livros e ser na prática. As propagandas machistas, outdoor com características opressoras eram estudadas e desde então tenho encontrado tais anúncios com sutilezas misóginas. Mas temos que ter cuidado com essa manias esquerdóides de querer taxar, examinar, achar que tudo no mundo tem de passar por sua teoria da conspiração. Nem tudo é tudo. Nem tudo é machista. Nem tudo é ‘a teoria de tudo’. Nem todos os homens são iguais. Sou diferente de todas as mulheres que conheci. E, sim, os homens podem falar sobre as mulheres. Falam mais e até melhor do que algumas mulheres. Qual é o medo de saber a opinião deles? Tenho nojo dessa soberba de achar que só porque tem um espaço em baixo da postagem de alguém na Internet, significa que você pode ir lá e pichar.

Ninguém vai lá na iniciativa privada. Porque morre de medo. E principalmente porque está cagando para o machismo deliberado – porque envolve grana – que existe na mídia e na sociedade. Todo mundo é bem reativo e instrumentalizado na obscuridade, mas covarde no meio da rua, às claras e quando tem que falar com uma empresa, com um SAC ou com as mulheres reais a quem subjuga ali na vida real. E isso vale para minhas companheiras mulheres. Delas eu posso falar porque sou mulher, ou não?
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