segunda-feira, 25 de maio de 2015

José F.

Com seu sorriso mais grande
ele carregou a filha ao nascer.
La Ninã Blanca em seus braços levou
para todo o lugar.
Ele me carregou, mulher triste que sou.
O meu pai não sabia, da menina que trazia, em seus versos e braços brancos.
La niña preta, de alma sombria. Já via tudo, sabia demais.
Encantada com o mundo, sobreviveu com as árvores, cresceu de raízes, nos túmulos dos mortos.
Abraçada a si mesma.
Sem seus ancestrais, José num canto sozinho. Silêncio resignado.
Até  hoje, José, está mudo. Descansa em paz. Eu sei que o amei, do jeito que deu.
Perdão, meu pai.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O código da deusa

Dos livros que terminei de ler, este é mais um dos que surpreendem, pois é a literatura moderna que cativa muito mais do que os clássicos perfeitos. Uma escrita completamente sedutora, que não deixa a desejar em nada aos grandes poetas e prosadores. Com uma trama interessante, recheada do tema que mais me atrai, os símbolos. Eu sou a atéia mais ''beata'' que existe, pois sou afoita por conhecer e entender porquê as pessoas se apegam tanto a objetos, rezas e são capazes de eleger um pau, uma pedra ou qualquer coisa e se agarrar àquilo como se fosse seu pai, mãe ou algo que nunca tiveram, ou jamais terão. Tento endender isso, admiro e estudo, paralelamente a tantas coisas que adoro ler e conservar em meu espírito que ama a tudo e a nada.

Quem é e onde está nossa deusa?
O autor é ousado ao nos entregar parte do tesouro, já nos primeiros capítulos, para os bons entendedores (eu), já vai dando um pouco do gosto da trama, mas nem por isso a história perde o fascínio. Vai ficando loucamente intrincada. E só por isso me apaixonei.

Os buscadores de Maria Magdalena, ou Maria de Magdala buscam a justiça de poderem chorar diante dos ossos de sua amada deusa. "Uma jornada para orar aos pés da exilada".
É perfeira a devoção a essa mulher, que por machismo, foi banida da história, pelos homens, que fizeram questão de a denegrirem. As mulheres cumpriram seu papel de idiotas do sistema, se juntaram aos homens para a espezinhar, confirmar que ela era sim "A prostituta". E assim, a lenda de que Maria era apenas mais uma seguidora, uma puta, uma mulher de segunda mão, seguiu pelos séculos, como uma forma de deturpar não uma, mas a todas as mulheres.

Isso, as religiosas nunca perceberam. E as outras ignoraram.
A busca por uma definição deste mistério, é pelo menos justo. Entender quem era a seguidora, namorada, esposa, ou lutadora ao lado de Jesus. Quem sabe até, ela era mais importante do que ele. Poderia estar acima até, perante sua posição como profeta. Porém, foi suplantada por inveja, machismo e malícia feminina e masculina da época e atual.

O mesmo machismo que hoje faz as mulheres achar o máximo comer carne e tomar leite - símbolo da cultura da submissão do mais fraco pela violência e poder - ter uma atitude submissa com relação à política e relativizar atos de banalização da violência, exploração do trabalho, etc, também foi o machismo que imperou durante séculos, mantendo as rédeas da religião e do controle total sobre os povos.
E não estou falando somente de uma religião específica.

Os séculos que se levaram escamoteando, soterrando o lado feminino, incentivando a vida medíocre das mulheres (elas aceitando por longo tempo e calando a boca das que se revoltavam - isso até hoje em boa parte dos países) e tornando a religião como a única coisa que importasse, causou um estrago muito grande às mulheres. Os homens, pelo menos grande parte, não sentiram nada disso, pois a sociedade é deles por todo o sempre.

A capela de Rosslyn é maravilhosa pois reúne muitos símbolos pagãos. E se acredita que ali se encontra guardado o Santo Graal.
No livro aprendi, por exemplo, mais significados para o pentagrama, o artefato que eu usava, desde os tempos em que eu era da Wicca. A estrela de cinco pontas se tornou tão interessante que comprei novamente um colar, pois o meu prateado que eu usava vendi, desde aquela época, em que deixei a prática wicca.
É preciso resgatar a deusa para ter ideia de sua origem e dos séculos de submissão a que foi exposto.
Para religar-se à aos séculos perdidos, recordar-se de que se é mulher e de que há outras mulheres, de que houve muitas mais no círculo das subjugadas, mesmo que hoje você se considere livre.
De que pode ter existido Maria de Magdala, da qual escreveu belissimamente o ateu Saramago, num dos melhores livros que já li em minha vida.
De que, se você for homem, pode querer saber que os que mais buscam descobrir a deusa são homens, e a falta que ela faz é a todos.

E isso é dito aqui, neste blog irreligioso, ateu e antiteísta, mas feminista e sagrado, pois todos amam os símbolos femininos, sem sombra de dúvidas.

domingo, 17 de maio de 2015

Dos livros que terminei de ler - Para antes que a gente vire pó - de Ezio Flavio Bazzo

 Presa numa espécie de prisão voluntária (trabalho), em que te dão a ilusão de honra e te pagam uma parcela mínima dos milhões que lucram nas tuas costas, foi assim, que eu li, na cara e coragem este livro. Pois foi com coragem mesmo. Pois ler estas palavras num ambiente de trabalho, é como ter uma arma carregada nas mãos, quando se está com vontade de morrer. Ou ter uma passagem comprada para uma praia maravilhosa, quando se está com os pés loucos para viajar.
 Nos dois casos, você está tentado a fazer algo e precisa das armas. E ela está aí. Neste livro. É um diário de viagens. Mas não é um simples diário, não é um roteiro apenas, é uma explosão de ideias, uma arma para você sair de sua inércia, desse seu mundo idiota onde se meteu, e nunca mais ousou sair, nunca mais ousou mudar nada. O livro é simplesmente perfeito. E não digo isso, simplesmente porque admiro o autor, mas porque já li praticamente todos os seus livros, e este está como que uma poesia que corre seguidamente, fluidamente.
 O livro foi especial para mim, pois sou de origem italiana, meus nonos vem do mesmo lugar de onde fala este autor. E também quase tudo no livro evocava parte de minhas memórias, lá da minha família. Caim e abel, essa historieta banal e simplória, é um arquétipo do odioso relacionamento familiar, onde os irmãos são colocados uns contra os outros, sempre por culpa dos pais. E uma prova de que deus não está nem aí, uma indicação da insanidade maternal e da ausência paterna, outras patologias e do instinto sanguinário de deus e das religiões, que sacrificam animais e pessoas, amam sangue a todo custo, etc, etc.
 O autor foi genial, ao escolher um tema tão citado ao longo da história, mas falar dele muito á sua maneira, ou seja, de uma forma totalmente fora da norma, bem humorada, diferente, sem nenhuma pretensão, e com curiosidades e coisas absolutamente geniais, e junto a tudo isso, impressões de suas viagens, suas voltas pelo mundo e pela vida.
"Sempre acreditei que quem mata uma galinha com uma faca ou dando-lhe quatro nós no pescoço tem condições psíquicas e físicas para matar um bebê e mesmo toda a família, o bairro inteiro sem nenhum tipo de culpabilidade. Não é possível que a criminalidade dos homens contra os animais e ainda nas proporções que conhecemos continue sendo considerada como "normal".  Mais "normal" e mais compreensível até é a chacina que protagonizamos entre nós mesmos, uns contra os outros, já que motivos não faltam, e que tudo indica que existimos, antes de qualquer outra coisa, para aporrinhar, encher o saco e para desgraçar a vida do outro. Não é mesmo?
Mas o animal não, ele não faz parte desse contexto de malignidades, está lá no seu habitat amoral e na sua solidão lutando como qualquer outro para dar conta de seus instintos, manter-se vivo e saciado. Sua existência, ao invés de estressar-nos, nos faz um grande bem, nos facilita a reconciliação e a reparação com uma parte nossa que, por mau caratismo e por uma vaidade vulgar enxotamos de nosso ser.
Ser espantalho!Tanto é que continuamos indo aos safaris e aos zoológicos, essas penitenciárias disfarçadas, só para deleitar-nos com sua coreografia, sua vida impregnada de aventuras diárias, seus dentes e gengivas impecáveis, seu sono, sua saúde e seu apetite voraz, sua capacidade de eleger um penhasco e uma árvore e passar toda sua existência lá, olhando as nuvens e o horizonte, abanando o rabo, açoitando os mosquitos com as orelhas, passeando de madrugada pelos abismos e pelas sombras desta amaldiçoada terra." Ezio Flavio Bazzo

(com este belo texto acima e com todo aquele livro, este escritor fez um pouco de justiça a Caim e talvez a seus descendentes, que queriam um basta a tanto sangue.)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Gastronomia vegana - para comer de tudo sem ninguém sofrer

Comida vegana do Govinda
 Encontrei uma série de fotografia de nossas comidas veganas. Para matar a saudade e a fome, vai aí um desfile do que há de melhor da gastronomia vegana, a meu ver.

Pizza vegana com café com leite vegetal

bolo de chocolate e croquete mais água mineral (com gás é claro) São as preferências de quem vive comigo. Eu já prefiro com um bom café preto.

 Comida vegana: a base de tudo vem daqui. Verduras compradas na feira. Orgânica ou não, percorremos a cidade inteira em busca de preços, variedades e vários fatores que levamos em conta. Dependendo de nossa vontade, ânimo e bolso.


Bife de glútem com queijo vegetal de tofu e salada de batata do Govinda.
 A neura do "glúten faz mal" só apareceu depois da nova onda do veganismo. Antes ninguém falava do glúten. Sim, existe os que tem intolerância. No mais, é modinha e vontade de palpitar. Aliás, existe glúten em diversas coisas, assim como a soja. Mas o povo adora se encarnar na comida vegana, não? Já vi gente com um pratão de macarrão temperado com óleo de soja, enchendo o saco, falando mal do glúten e da soja. Vão se foder.


 Comida feita pelo meu marido


 Cachorro quente praparado aqui em casa, pelo meu marido. Este é feito de glúten.


Xis do Govinda.

Comer comida vegana não significa Fast Food. A comida vegana é simples, é feijão com arroz. É lentilha, é frutas baratas, é amendoin e outras sementes, se quiser, são coisas simples que você compra na feira, no supermercado.
Eu, por exemplo, nem tomo leites vegetais. E nem sou muito de soja ou glúten, apenas nestas ocasiões especiais de sair e comer um xis.
Não entre nessa de que é caro. Existe o fast food, existe o xis, a pizza, o queijo vegetal, pequenos luxos que nos damos de presente de vez em quando, depois de economizar em outras coisas.
Mas a comida vegana é barata, saudável e ecológica. Então não acredite nessa conversa de ambientalista babaca, ou de gente que não conhece nada. Bom, eu não me importo nem um pouco com sua saúde. Nem mesmo com a minha. Detesto essa fixação por elixir da longevidade. Esfrego, cuando me regala la gana, meus exames só na cara de quem duvida de que minha dieta me prejudica.

Meu lance aqui é pelos animais. E se posto qualquer coisa neste blog, é apenas para conquistar o coração daqueles que, se ainda tem alguma dúvida com relação à compaixão, que pelo menos se deixem conquistar pelo sabor e pela saúde de si mesmos ou do planeta em que vivem.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Um cinema a nascer e a morrer

 O Capitólio, era para mim um prédio velho, no caminho que eu fazia em alguns dias de minha vida, para algum lugar. Mas ele já foi um grande cinema. Agora recuperado, está assim. E, andando pela cidade, passeando ao lado do edifício, entramos como que caídos num túnel do tempo.
 Pois eu jamais havia entrado ali, nem estava a fim. Mas aquele que está sempre a meu lado insistiu. E eis que eu caí no túnel de um passado, lá mesmo onde quase sempre estou.
 Adoro o centro da cidade. Não sou muito aficcionada a cinema, mas me encanto com lugares antigos e estes merecem ser preservados.
 O espaço está ainda em obras. E há boatos de que está a caminhos de não conseguir se sustentar.
 Já no alto do edifício, encontramos a projecionista que nos viu admirados. E nos convidou para conhecer um lugar muito raro. Onde praticamente ninguém entra.
 A sala de projeção.
 É emocionante ver coisas antigas ainda valorizadas, sendo usadas, trabalhadas. Eu sou uma pessoa que valorizo muito os objetos, sem ser apegada. Considero que tudo tem seu valor, especialmente as coisas antigas, das quais as pessoas esquecem. Como os telefones públicos, os cinemas, as fotografias de papel.
 Mas minha contradição é que não costumo guardar nada, minha casa não é museu. Eu valorizo, uso meu velho celular até o fim, ainda tenho um telefone antigo, ou uso o telefone público, mas cultivo a liberdade do não ter.
 Não é tão fácil explicar, pois tenho por cá minhas coisitas, simbólicas, sei lá. Todos temos nossos fantasmas e cacos velhos. Vou limpando a mente, mas amo quando as coisas são preservadas: lá fora e sempre em bom estado.
 Aqui está Ângela.
 Um bom filme fica na memória por séculos. Não vi nenhum destes.
 A sala, uma delas, é simplesmente linda.
E aqui, outro cinema, este já posto. Morto. Eu vi aqui o filme do Paulo Coelho com meu marido. É um daqueles cinemas tão antigos que dava até medo de ficar lá dentro. Era como estar em um filme de terror, para assistir outro filme. Depois de sair do Capitólio, fomos neste cinema ver o quadro de filmes e nem acreditei quando o vi fechado. Para sempre.

sábado, 2 de maio de 2015

Quando a terra me chama e não é para morrer - As três fases de uma mulher

 Há aquele momento da tarde de um dia livre, ausente daquela sensação de prisão que eu tive até então, dos dias de intenso trabalho, que as ruas da cidade me chamam para a caminhada tão desejada. Mas não é só isso. A terra me chama, mas não é só ela. Sinto que algo tão profundo vem de longe até o presente, lá do fundo de minha memória.
 O cheiro da rua, da grama, desta terra que nunca mais eu vi. De um pátio de minha casa esquecida. De quando eu vivia mesmo, era outra época, havia pátio, pedras no chão, terra e grama por todos os lados. Havia mãe e pai. Eu senti saudades de ter terra debaixo de meus pés.
 Senti falta de ter um jardim. Senti um ambiente, pois já não há mais pessoas, não há mais quase nada humano. Sempre ficam os lugares, as pessoas, essas já morreram. A terra as leva para longe.
Essa mesma terra que eu hoje sinto me chamar, para uma vida que eu tive e, se não era tão feliz, que digamos, pelo menos me fazia respirar!
 Andar pelas ruas e encontrar casas antigas, pátios e jardins, cruzar por pessoas que até te cumprimentam, quando se vive em apartamentos convivendo com vizinhos 'bem sucedidos' que jamais podem descer do salto e baixar a guarda é um contraste louco. Pensar que na mesma cidade há gatos e antiguidades, flores e árvores tudo isso ao nosso redor e aqui mesmo ao lado de minha casa, mas não vejo, ou vejo tão pouco, é triste e feliz ao mesmo tempo.
 O chão é tão limpo que é preciso sentar nele e ali ficar mais um pouco.
 A imagem abaixo não foi montada para a foto, foi o desejo sincero de sumir. Não de sugar a natureza como fazem os ambientalistas, naturebas, os esotéricos e toda a corja que usa a Natureza como tema eterno de seus falatórios. Tão logo a sua ansiedade acaba, já estão surfando em seu egoísmo e ganância, explorando a natureza, as pessoas, e sobretudo os animais.
 Abracei a árvore que considero a mais linda de todas.
 Caesalpinia ferrea, conhecida como pau ferro


 Não sei o que o pintor queria dizer com a cena abaixo, mas eu interpretei como sendo a Deusa Tríplice, ou as três fases da mulher, também conhecida como as fases da lua, etc.
 As três fases de uma mulher: A jovem, a mulher na sua fase plena - se ela QUISER poderá ser mãe, e a mulher anciã.
Eu sempre estive entre a mulher jovem e velha. Sempre fui plena. E sempre fui todas. Tenho o instinto materno mais forte que já pude conhecer. E decidi nunca ter filhos. Tomei essa feliz decisão na minha adolescência.
 E sempre fui afortunada, por um lado. Por outro, eternamente buscando minha mãe, mesmo tendo a minha, mesmo quando a tive, a buscava. E quando a perdi, a perdi duas vezes.
Todas as fotos: Marcio de Almeida Bueno/http://diretodeportoalegre.blogspot.com.br/

 E só há um remédio para acalentar um coração que busca: caminhar e escrever. As palavras saem e caminham com as mãos e os pés.
 Estou escrevendo, em paralelo com este blog, um outro texto, sobre um tesouro que encontrei, que vai entrelaçar histórias. Talvez ali a melancolia se transforme cada vez mais em poesia. 
Lá as três deusas são anciãs, incluindo eu.
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