quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Os robozinhos do celular

O melhor de saborear o tempo, é quando começamos a perceber como a vida das outras pessoas é doente. A comunicação é zero. E elas acham que conversam bastante. Participam muito. Não calam a boca.
Sim, é verdade. Em qualquer rede social, todo mundo é muito boca e pouco ouvidos. Adoram falar à vontade, expressar muitas opiniões. Mas são raros os que deixam-se levar pelo silêncio de uma busca, uma leitura, uma entrega.


Esses dias, um caso de perfeito exemplo, fui esperar uma amiga, para tomar chá nos bancos da praça. Sim, nós somos mulheres jovens que tomamos chás!
Os bancos estavam todos ocupados com exceção de apenas um lugar. Pensei: ótimo, é ali que vou sentar.
A moça do meu lado esquerdo, estava contorcida, virada de costas para todos e encolhida, numa demonstração clara de que, ou não queria conversar, ou tinha medo daquela situação terrível (gente ao lado dela) ou que era melhor ficar com o dedo enfiado no diabo do seu celular último modelo.
Uma postura terrível, feia, que só demonstra o perfil das pessoas na atualidade, frívolo, indiferente, idiota.

No meu outro lado havia um senhor simpático, bonito. Eu disse Oi. Sentei ao seu lado e longos minutos se passaram em silêncio. Não tem problema. Sei lidar com silêncio, não sou neurótica. Depois de um tempo perguntei para ele: você está esperando alguém ou está apenas vendo o movimento daqui?
Aí, conversamos por muito tempo. Ele me contou que é aposentado, que adora ler literatura russa. E viu meu livro. Eu disse que é um escritor que adoro. Quem lê meu blog já sabe de quem estou falando! Estava com o livro para emprestar a uma amiga que quer conhecer o autor. Falamos muito de leituras, de tempo livre, de praças e seus encantos, da vida que acontece.

Depois que os lugares ficaram vagos, mesmo assim, ficamos ali conversando. Ele se foi. Minha amiga chegou. Se cruzaram no caminho, sem um saber do outro, e até mesmo se cumprimentaram pois um juntou algo que o outro deixou cair, isto chama-se gentileza - ou coincidência. Coisas de quem deixa o tempo passar-lhe por si, deixa-se ficar um pouco mais no presente.
Este senhor me falou sobre algumas coincidências de sua vida, a respeito de histórias de seus livros e seus dias naquela praça e na cidade.

Hoje, na sala de espera de um lugar qualquer, um monte de dondocas, todas frágeis, esperando. Puxam o celular, em coro, teclam sem parar. Faltou luz no prédio. Importa para essas pessoas?
O outro, distante, é mais especial. Eu sento, olho para o lado, e vejo todos com com a cabeça curvada mexendo no celular. Juro que me dá repulsão ver isso. Não por que estejam usando o aparelho em si. Mas pelo fato de que elas ignoram a pessoa ao lado, passam o tempo todo nesta posição de submissão a um aparelho, a uma vida falsa.

No banco, a mesma coisa. Estão cheio de papéis, pagando todas aquelas contas, aquele consumismo 'barato'.
E até na hora de falar com o atendente, o celular tem que estar na bancada, o olho grudado. Puxa, antes as pessoas disfarçavam o quanto consideravam insignificantes os outros, agora já não mais. Não olham simplesmente. Estão ali, como no caixa eletrônico. Ignoram que exista uma pessoa a lhe prestar um serviço. Olho para o lado, nas cadeiras de espera: todos, menos eu, de celular em punho. Puxa, grande invento este! Desmiolador de cérebros.

Namoram, trepam, tem amigos, compram, trabalham pelo celular. Estão sempre 'atentos' a um movimento desse negócio, nada é mais artificial e meio debilóide do que isso.

Conseguiram resumir em um aparelho, o que o sistema vem fazendo com todos a muitos anos, só que antes era mais escamoteado. Uso as coisas como ferramentas, não sou escrava de nada, não pertenço a nada e nada me pertence. Os objetos, quando pesam, só lhe trazem dor, prejuízo.
As pessoas brigam por coisas, choram por que o chip da Oi?! não chegou a tempo, enquanto há coisas graves acontecendo neste exato momento. Ou coisas lindas que os distraídos deixaram passar.
Isso é absolutamente fútil e chocante para mim. Hoje eu meço a amizade, pela capacidade de atenção que as pessoas podem dar, umas às outras.
Amanhã, depois, essa merda não valerá mais. O sujeito, palhaço do sistema, vai levantar a nuca dolorida de tanto teclar com o dedo, e verá que seus amigos virtuais sumiram. Que suas "ideias" não passavam de blefes, não eram sabedoria, aquela que fica com o tempo e é resultado de leituras, pensamento e conversa com os demais. É preciso ouvir os sábios, mas quem quer ouvir, quando é melhor ver (e ver mal e distorcido) e enfiar a cabeça no telefone?

Leia no link abaixo o que Ezio Flavio Bazzo publicou sobre o WhatsApp

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