segunda-feira, 20 de junho de 2011

Educação Vegana

Educação Vegana - Leon Denis

Analfabetismo funcional animalista

20 de junho de 2011

Leon Denis - Professor de Filosofia da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo, autor do projeto Arte Suave na escola e co-autor do projeto Mens sana in corpore sano, pioneiro no ensino de Direito Animal e Veganismo em escolas públicas no Brasil. Membro fundador da Sociedade Vegana, membro do conselho editorial da Pensata Animal – Revista de Direitos Animais, e pesquisador do núcleo de direitos animais do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da Universidade de São Paulo (LEI-USP).

Uma questão que há muito tempo vem me incomodando no movimento de defesa animal no Brasil é a falta de fundamentação teórica dos ativistas dos direitos animais. É impressionante o analfabetismo funcional animalista que os ativistas estão mergulhados. Para essas pessoas o que importa é agir, é tirar os animais não-humanos daquela situação de sofrimento imediatamente. Não conseguem entender que o que colocou os animais ali foi nada menos que 2.500 anos de Filosofia, Teologia e Ciência especistas.
Ação sem fundamento teórico, sem reflexão crítica, não passa de emotivismo. Os animais não-humanos precisam de muito mais que nossa compaixão, amor e atitudes no calor da emoção, eles precisam do nosso respeito.  É mais do que sabido os limites das visões do respeito por amor e compaixão na defesa dos direitos animais1.
O que falta para nossos ativistas é o que tinha de sobra nesses dois ativistas que pegarei como exemplo, mesmo sendo antagônicos.
Primeiro, Ernesto Che Guevara, que arisco afirmar ter sido o maior apologista da revolução armada, não só a defendia em palavras como foi para as vias de fato, ou seja, era um homem de ação no sentido mais amplo do termo, talvez o único homem que levou a sério o conceito de práxis marxiano. No entanto, era um leitor voraz dos principais teóricos do socialismo e do comunismo e, não menos das teorias sacralizadoras do deus capital. “Como líder da guerrilha em Sierra Maestra, Che dava aulas de alfabetização a seus recrutas camponeses, e ocasionalmente lia para eles, de fontes como Cervantes, Robert Louis Stevenson e a poesia de Pablo Neruda. Conta-se que ao retornar à sua barraca, lia Proust, Faulkner, Sartre e Milton. No Congo, dava aulas de francês e de swahili às tropas congolesas, além de aulas de “cultura geral”. Em Cuba, durante a revolução, Che ensinava seus “descamisados” a ler e escrever. E para aqueles que já possuíam a base da lecto-escrita (…) criou círculos de estudos”2 sobre a historia de Cuba, doutrina militar e marxismo. Conta-se que nos momentos de descanso da expedição no começo da campanha boliviana, Che trazia consigo “a Historia da Estória da Liberdade, de Benedeto Croce, a Revolução Permanente e A Historia da Revolução Russa, de Trotsky, e As Origens do Homem Americano, de Paul Rivet”3, e é possível que “tenha lido as memórias de guerras de Charles de Gaulle, ou as de Winston Churchill, bem como A Fenomenologia do Espírito de Hegel e alguma coisa de Diderot”4.
O segundo, Martin Luther King Jr., na esteira de Gandhi, um grande líder do ativismo pacifico, da ação não-violenta. No entanto, não só tinha uma bela formação acadêmica como também era um leitor voraz, recorria a autores de varias áreas para fortalecer sua pregação. Ao falar do período que conheceu King, Coretta Scott – futura esposa – diz que “sentiu-se atraída por aquele rapaz que debatia a doutrina de Gandhi e as filosofias de Thoreau e Hegel com a mesma facilidade com que ridicularizava as pretensões dos pregadores do rádio. Além disso, ele adorava ópera e jazz. E, embora já fizesse parte da elite acadêmica, queria cuidar dos problemas cotidianos de uma igreja negra do Sul”5. Perto de terminar sua tese de doutoramento sobre “Uma Comparação do conceito de Deus no Pensamento de Paul Tillich e Henry Nelson Wieman”, King, com apenas 25 anos, assume como pastor na igreja Batista da avenida Dexter em Montgomery, com o objetivo de fazer um bom trabalho, dedicava dois dias para a preparação dos sermões dominicais. “No inicio, seus sermões eram muito intelectualizados e um tanto áridos, mas, a medida que King foi conhecendo melhor os fieis, começou a dar maior atenção às teorias de seu pai quanto a pregação”6. King dinamizou suas pregações e seus “sermões fluíam sem nenhum esforço, sem nunca reduzir a platéia ao silêncio. O reverendo citava os maiores pensadores ocidentais e orientais, mas de um modo claro e ritmado, que pedia respostas, as quais vinham naturalmente seguindo o ritmo do próprio sermão”7.
Ambos os ativistas e militantes deixaram registrados através de seus escritos e discursos às multidões, a importância de uma boa fundamentação teórica. Foram homens da práxis, seja pela via pacifica cristã, seja pela luta armada ateia. Para Hosea Williams, “Martin Luther King Jr. é o maior batalhador do século XX”, para Sartre, Che era “o mais completo ser humano de nossa época”.
Essa questão do analfabetismo funcional Animalista me incomoda em demasia pelo simples fato de que vejo o educador vegano como um ativista. Não há lugar melhor para se fazer um ativismo pelos direitos animais que uma sala de aula. É aqui que a situação complica. O educador vegano não deve fundamentar sua pratica político-pedagógica apenas tendo a “Libertação Animal” do Singer e o “Jaulas Vazias” do Regan como base. São obras importantes, mas não bastam.
Uma reclamação comum que ouço é a de que não temos traduzidos para o português nem 3% da grande produção animalista de língua inglesa. E quem disse que eu preciso de 30%, 50% ou 100% da produção teórica animalista britânica e estadunidense? Meu caro educador vegano, quem tem Sônia T. Felipe, Bruno Muller, Luciano C. Cunha, Paula Brugger, Daniel B. Lourenço, entre outros, não precisa ficar refém dos companheiros do hemisfério norte. Se souber ler em inglês, ótimo, leia-os. Se não sabe, sem problemas, temos uma substancial literatura brasileira à disposição, pode ser pouca, mas com um forte conteúdo reflexivo. Volto a afirmar, a obra “Direitos dos Animais: Fundamentação e Novas Perspectivas” do professor Daniel B. Lourenço deve ser leitura de cabeceira do educador vegano.
Outra questão que não posso deixar de ressaltar é, com toda a produção filosófica, científica e jurídica nos países de língua inglesa sobre os direitos animais, eles não têm o que nos temos: educadores veganos que introduzem os direitos animais e sua fundamentação moral, o modo de vida vegano, nas escolas de nível fundamental e médio. O Brasil é pioneiro em educação vegana formal. Nosso país é o único lugar que alguns educadores veganos tiveram a coragem (característica essencial de um ativista) de romper com o currículo oficial (e oculto) especista e introduzir de modo sistemático um ensino antiespecista. Somos poucos? Sim. Mas, somos fortes. De onde vem essa força? Da teoria ética animalista. Leitura, leitura e mais leitura. Diálogo e mais diálogo com os pensadores desse movimento. Só seremos capazes de combater os argumentos, clichês e frases feitas especistas oriundos do capital cultural antropocêntrico, com a força de um raciocínio ético apurado, crítico e autocrítico.
O educador vegano, esse ativista da Ágora quadrada que é a sala de aula, tem o dever moral de se fundamentar teoricamente. O educador vegano precisa constantemente buscar seu aprimoramento espiritual através do desfazer as pregas, rugas, dobras e vincos morais tradicionais. As virtudes que devem nortear o educador vegano são: “discernimento, coerência, justiça, propósito existencial sincero de não-violência contra qualquer ser capaz de sofrer, coragem, serenidade, persistência, humildade, e… vontade sincera de aprender muito sobre a vida dos outros animais”8.
Isso significa que todo educador vegano precisa estudar Etologia? Sim, não só precisa, deve. E nutrição vegetariana, também. Ética animal e ambiental são simplesmente indispensáveis, conhecer a historia do especismo, dos direitos animais e do veganismo é uma obrigação. Todo educador vegano precisa ter consciência que sua ação político-pedagógica não é qualquer ativismo. É uma luta constante contra a epistemofobia e a livrofobia que está no DNA da maioria da população brasileira. Num país onde sua população tem como alimento espiritual futebol e novela, pouco ou nenhum valor tem os tratados de ética e sua aplicabilidade. Por isso a necessidade do projeto político-pedagógico vegano ser coerente, justo e corajoso; o que exige um propósito de vida do educador vegano consciente de que somente com muita persistência ele se efetivará. Dissertando sobre o comprometimento que o ato de ensinar exige o teórico da educação brasileira, Paulo Freire, diz:
“Minha presença de professor, que não pode passar despercebida dos alunos na classe e na escola, é uma presença em si política. Enquanto presença não posso ser uma omissão, mas um sujeito de opções. Devo revelar aos alunos a minha capacidade de analisar, de comparar, de avaliar, de decidir, de optar, de romper. Minha capacidade de fazer justiça, de não falhar à verdade. Ético, por isso mesmo, tem que ser o meu testemunho”9.
O educador vegano não pode se deixar acomodar, acreditando que só por ser vegano “já está bom demais”. O aprimoramento deve ser constante, ininterrupto. A aversão da maioria esmagadora dos ativistas ao maçante trabalho de debruçar sobre teorias éticas desenvolvidas durante séculos, não pode fazer parte da vida do educador vegano. É a preguiça intelectual que leva ao analfabetismo funcional animalista.
Notas:
1. CUNHA, Luciano C. Está tão na cara que é difícil de enxergar (parte VII). In: WWW.pensataanimal.net/
2. MCLAREN, Peter. A pedagogia de Che Guevara – Pedagogia crítica e globalização trinta anos depois de Che. In: Utopias Provisórias. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. p. 99-100.
3. Id. p. 100.
4. id. p. 100.
5. SHUKER, Nancy. Martin Luther King. São Paulo: Nova Cultural, 1985. p. 31-32.
6. Id. p.35.
7. Id. p.36.
8. FELIPE, Sônia T. Direitos Animais: desdobramentos das pregas morais. In: ANDRADE, Silvana (org.). Visão Abolicionista: ética e direitos animais. São Paulo: Libra três, 2010. p. 17.
9. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p.98.

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