sábado, 1 de novembro de 2014

Direitos humanos são para o ladrão ou animais são feitos para isso?

Publicado originalmente na ANDA em 7 de abril de 2012

As condições dos presídios no Brasil são péssimas e me choca ver pessoas com curso superior no velho discurso demagógico de que presos não merecem ter comida, condições de higiene, etc. Que esse dinheiro deveria ser empregado em outras áreas sociais.
É o velho clichê que todo ativista pelos animais já ouviu: por que se preocupar com animais se há tanta criança passando fome?
Por que a sociedade rapidamente opina sobre o que mal conhece, mas na hora de tomar uma atitude prefere ficar calada e omissa? No começo do ano houve uma consulta popular para a melhora nas condições dos presídios no país. Há dinheiro para isso assim como há dinheiro para a educação, mas por falta de interesse social, a educação está em último lugar na hora dos investimentos políticos. A consulta popular mal foi divulgada nas redes sociais… Por outro lado, nas mesmas redes, diversas imagens apontam para conceitos atrasados e reacionários sobre este e outros assuntos que são tabu no Brasil, mas que na hora das eleições sempre voltam à tona, não para serem discutidos, mas para servirem de apoio a este ou àquele candidato.
Por que na hora de exigir direitos pessoais todos são categóricos, mas na hora de colaborar socialmente ninguém quer começar?
A sociedade brasileira há muito tempo precisa acordar para algo muito sensível: o fato de um preso não ter um colchão podre e um prato de comida jamais irá minimizar a dor de quem teve um filho assassinado ou um ente querido ferido.
O tempo das cavernas e do olho por olho há muito tempo já passou. Há muita gente nos presídios, muitas dessas pessoas entram para o mundo do crime por causa da própria sociedade e não por que nasceu com uma ‘alma terrível’. E existem criminosos fora dos presídios que a população elege e os aceita como governantes. É quanto a isso que deveríamos refletir. E é claro que quem comete um crime contra os direitos humanos deve pagar mas não com outra violação, desta vez, de seus direitos.
Quando eu era criança, costumava desenhar tudo o que via. Quando visitava pessoas em situação de miséria, ao chegar em casa fazia um desenho da situação.
Hoje, não posso deixar de retratar as coisas que vejo e que considero injusta. Na causa animal já temos coisas demais com que lidar, uma incompreensão tremenda de nossa própria condição de animais humanos.
Para esta sociedade, ver um animal como coisa, como objeto a ser devorado não é nada absurdo, é apenas consequência de anos de condicionamento cartesiano, pois a mesma sociedade vê o outro como coisa e o vigia incessantemente.
Não consegui assistir até o fim o documentário Justiça, da cineasta Maria Augusta Ramos, mas sugiro para aprofundamento deste assunto.

Para terminar convido o leitor a conhecer este artigo do escritor Ezio Flavio Bazzo:

Os filhos do Ocaso/Ou o Caje é nossa Treblinka…
Entender porque os duzentos e tantos internos que estão confinados no CAJE cometeram tais e quais crimes e transgressões sociais não é difícil, o problema mesmo é compreender como é que uma sociedade que se diz religiosa, trabalhadora, democrata, moderna e altruísta (até socialista!) consegue seguir respirando e cagando ao redor de uma instituição dessas que, nos moldes de Treblinka, mantém enjauladas tantas crianças.
Não se agite funcionariozinho público ou comerciantezinho de bagatelas que vai se confessar todos os domingos, pois já sei tua opinião sobre esse assunto:
– Deviam era fuzilar esses bandidos! Não é verdade?
Pensas assim por ignorância e porque não consegues admitir que se teus filhos tivessem nascido no inferno onde nasceram esses “pequenos prisioneiros” estariam todos, como eles, atrás das grades e mais, pelos mesmos delitos. Ou segues acreditando que o problema deles é genético? Que pode ser explicado pelo espiritismo?
Há décadas os políticos juram que vão dar um jeito nesse aborto prisional e nada. Nos finais de semana as mesmas mães estão lá junto às cercas de arame farpado para, pelo menos, dar um abraço semanal em seus pequenos heróis. E saibam: os crimes daquelas crianças, quase sempre são expressões do desejo até de seus bisavós que, como elas, passaram e suportaram infernos semelhantes…
Apesar de todas as demagogias fascistas em contrário, manter um homem numa jaula é um crime. E um crime muito pior que qualquer outro, já que ele é sempre consciente, planejado, vingativo e arquitetado pelo Estado e por seus lacaios… Somos um povo lesado e atrasado, não conseguimos fazer nada objetivamente. Perdemos nossas vidas em reuniões inúteis e presunçosas e precisamos de anos para mudar uma mesa ou uma janela de lugar.
O CAJE (e a escada rolante da rodoviária) são os exemplos mais estapafúrdios. Com o dinheiro que (supostamente) já jogaram ali naqueles calabouços daria para terem instalado água potável, saneamento básico e orquestras sinfônicas em todas as bibocas nacionais de onde é procedente a maioria desses pobres infratores.

Para ajudar um presídio (sim, e dá para continuar a ser ativista pelos animais) clique neste link: http://desobedienciavegana.blogspot.com.br/2011/08/doacao-de-livros-para-presidio-agricola.html

Obs.: publicado originalmente na ANDA, na data de 7 de abril de 2012, em minha coluna mensal. Sob muitos comentários ofensivos, preconceituosos, xexelentos e de baixa qualidade. Esse ponto me marcou, não por que eu leia comentários de portais, jamais leio e jamais comento. Não. Me contaram. Pouco me importo com opinião. Mas me chocou constatar o nível mental e até mesmo o caráter do tipo de pessoa que se considera instruída e capaz de 'opinar'.

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