sábado, 18 de março de 2017

Por que você ainda usa produtos testados em animais?

DESOBEDIÊNCIA VEGANA - ELLEN AUGUSTA VALER DE FREITAS

Por que você ainda usa produtos testados em animais?

Artigo publicado na ANDA - Agência de notícias de direitos animais
na minha coluna Desobediência Vegana


Os efeitos da publicidade sobre nossas escolhas são perceptíveis, mas nem sempre são óbvios. Não é somente no ato da aquisição que estamos sucumbindo à influência da mídia, mas muitas vezes junto com o produto compramos ideias, atitudes e não raro há quem defenda-as como parte de sua própria identidade.

No mercado existem o que é chamada de marcas líderes, que geralmente investem em propaganda pesada, tentando transmitir uma ideia de que aquele produto é o melhor de todos, já que está no topo das vendas e das marcas mais pensadas pela população.

O vegano não é um consumidor comum, que come o que sua família lhe impõe pois aprendeu que aquilo era o padrão e segue repetindo o que pai e mãe ensinaram nos primeiros anos de idade até a velhice, sem nunca refletir.

O vegano escolhe o que irá comer, o que irá vestir e até mesmo como irá se expressar, com consciência e atitude política.
Não só é um consumidor ativo do mercado formal, como também cria sua própria alimentação e produtos, inventa pratos novos, adapta receitas velhas ao olhar novo.

Ao tornar-se vegana, uma pessoa começa a tarefa de fazer a leitura de rótulos dos produtos que irá consumir.

No começo, tarefa árdua, depois até divertida.

É preciso ler os conteúdos/ingredientes dos produtos para saber se há elementos de origem animal como carnes, ovos, leite, seda, extrato de pérola etc. E também saber se aquela empresa realiza testes em animais.

As listas de empresas que realizam testes em animais são muito fluidas, mudam constantemente. Devido a contratos, muitas empresas unem-se a outras que testam, unindo capital e potencial.

O boicote é uma das armas do ativista vegano. Não podemos nos deixar levar por impulsos consumistas de pegar a marca mais famosa, mais fácil na prateleira. Marcas essas que muitas vezes são romantizadas pelos próprios ativistas como fundamentais. Difícil entender porquê uma pessoa precisa pagar pau para um determinado produto, se não receberá nada por isso.

E as discussões em defesa de marcas que testam em animais e ainda contém elementos de origem animal beiram o ridículo. As pessoas defendem abertamente nas redes sociais produtos fúteis como bolachinha recheada, coisas absolutamente desnecessárias e com muitas opções na concorrência que não realizam testes e possuem ingredientes veganos. Aparentemente é impossível entender o porquê de tamanha ignorância, mas pensando mais profundamente, percebe-se a grande influência da propaganda na mente de pessoas manipuláveis e sem senso crítico.

Quando você ouvir aquele otário que repete sem parar “I love bacon” para provocar os veganos, não fique com raiva. Ele é apenas um idiota manipulado por algo que aconteceu há décadas atrás, mas como é um imbecil, jamais irá na origem para saber por que ele precisa tanto se auto afirmar através de uma provocação meio retardada, uma frase clichê.

A Revista Galileu publicou estes tempos uma matéria muito interessante intitulada: ‘A “moda do bacon” foi orquestrada pela indústria de carne de porco nos EUA’

Foram as grandes indústrias que fizeram as famílias acreditarem que era saudável comer ovos e bacon no café da manhã. Até hoje há matérias no Google, falsas, sobre a dieta do bacon para emagrecer.

Edward Bernays, sobrinho de Freud, é conhecido como o pai das Relações Públicas e Publicidade/Propaganda modernas e ajudou a inculcar na cabeça das pessoas, que este ‘alimento’ era necessário.

Nos últimos dez anos, a propaganda massificada a favor do bacon fez as pessoas acreditarem que esse é um alimento indispensável na alimentação.

E não é. Carne de animais são completamente desnecessárias e não apenas em termos de saúde ou sabor. A maior razão para não comer animais é que eles são indivíduos que possuem dignidade. Eles não são objetos.

Mas e quando o sujeito é “vegano” e mesmo assim insiste em usar produtos testados em animais? Como entender esse paradoxo? Os testes realizados em animais são tão cruéis, exploratórios e degradantes quanto a morte e exploração de animais para consumo. As cobaias são mantidas de formas inimagináveis (há ampla literatura e fotos sobre o assunto), sendo usadas como objetos de pesquisa, de testes de produtos dos mais variados tipos, para depois serem descartadas e mortas, assim como o animal que vai para o abatedouro. Então, o que há de vegano em parar de consumir animais mas seguir usando produtos testados? Não há nada.

Está na hora de ter um pouco mais de senso crítico antes de comprar produtos testados. Procure saber como são os testes. A maior parte dos veganos deve saber, suponho. Portanto, relembre. E reassuma o compromisso com os animais. São testes doloridos, cruéis, e mesmo os que porventura não o são, exploram a vida, a dignidade do animal, que não pediu para estar ali, à disposição dessa praga, chamada humanidade.
fontes
Livro Propaganda, de Edward Bernays
http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2014/10/moda-do-bacon-foi-orquestrada-pela-industria-de-carne-de-porco-nos-eua.html
http://www.viajonarios.com.br/como-ovos-e-bacon-se-tornaram-o-cafe-da-manha-americano/

sexta-feira, 17 de março de 2017

Saudade, essa palavra

Existem basicamente três tipos de saudade, as que eu sinto.

Sentir saudade de alguém que veremos em breve é bom. O alvo do sentimento está em nosso alcance, e logo iremos acabar com a falta, abraçar, estar perto. A saudade sequer acaba, ela está presente, nunca parece ser suficiente o tempo de estar com quem se ama.
Aquele corpo amado, a presença, a voz. A alma até esquece que neste mundo tudo parece estar errado. Não, não mais está. A presença apaga todas as marcas, e forma outras....
Fagner Canteiros


Existe aquela saudade dos fantasmas vivos. Aqueles que jamais voltarão.
Somente se percebe em sonhos, já que a razão compressa em esquecimento toda forma de expressão da saudade de quem afastamos por precaução, ou foi embora por que quis ir.

A esses eu os guardo em um lugar, que é como um cemitério. Não levo-lhes flores, não os lembro. Apenas ficam lá em silêncio, como um lembrete do que foram, do que fizeram.
Não, eu não sou perdão. Eu guardo em mim todas as coisas e para o que importa tenho memória.

Existe a saudade eterna. A saudade da mãe, a saudade da casa em que se viveu, a saudade do pai.
Essa saudade dói até para escrever.
É a saudade que a morte nos provoca, esse sentimento que apenas crava uma faca no peito, todos os dias. E para este sentir não há cura, nunca mais os verei.

Nunca mais verei o sorriso da minha mãe, seu rosto triste, seu jeito que era tão eu. Hoje eu sei.

Nem adianta eu morrer, não sei para onde irei. Talvez fique exatamente aqui, no mais obscuro silêncio do não mais. E nunca mais a verei. Minha mãe era linda, meu pai, era meu pai.
Quando penso neles só sinto dor.





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A mulher pública* – como lidar com os obstáculos

Eu ando diariamente na rua. Caminho longamente por prazer e pelo meu trabalho.
O único obstáculo que enfrento todos os dias são os homens.
Sim. Todos os dias é um mar de caras, uns tarados, outros asquerosos, outros babando e aqueles que podem te agredir, seja num assalto ou coisa pior. E isso que não ando sozinha à noite, senão já viu.
Se vem dois juntos e de boné, atravesso a rua. É preconceito? Sim. Mas, eu sei bem os tipos de caras que enchem o saco, os que agridem, etc. E todos, mudam o padrão, mas pode crer, estão todos dentro de um. Aprenda, é muito difícil ter a mente flexível. Eu tenho e confio na minha capacidade de mudar. Mas até que me provem o contrário, para mim a maioria somente reproduz a forma de pensar e a violência que aprendeu com os pais (machistas) e no lugar onde vivem.
Quem é mulher e não sabe do que estou falando, entenda quem passa por isso. A maioria de nós vive todos os dias e é desagradável, além de perigoso. Quem é pobre e vive nas periferias, pode crer, é bem pior.
Tive uma péssima experiência com meu antigo Facebook. Velhos e meia idade add de forma insistente, mesmo que você negasse. Entrando no inbox, falando merdas apenas para se afirmarem como homem perante uma mulher mais jovem. É uma total falta de respeito, muitos tem mulher em casa e filha. São nojentos e ainda estão acompanhados. É mulheres, vocês têm muito o que aprender.
“Ah mas você provoca com suas roupas, com suas palavras”(ouvi isso de mulher, mas homem pensa assim também). SIM. Eu provoco. Sou provocante por natureza.
Desde criança eu chamo a atenção e hoje já sei lidar com isso. Até gosto. Eu lembro de ser ainda muito pequena e já haver comentários sobre minha beleza ou inteligência. E, pode crer, acredito e confio que é por aí.
Tenho personalidade, visto a roupa conforme o dia, conforme a vontade, mas não estou “disponível”, mesmo que estivesse sem namorado. O fato de você ter seu jeito, não significa que é para ser invadida com desrespeito.
Sempre fui muito olhada na rua. Isso para mim é natural. E gosto. Homem e mulher olham, variados são os motivos. Mas quando passa por mim esses nojentos, minha vontade é dar um murro na cara deles. Aposto que se apanhassem, aprenderiam a respeitar mulher.
Homem bonito passa por mim. Sim, muitos. E os mais lindos ainda me olham! Mas isso não significa que eu vou lá abrir minha boca e babar feito uma retardada, ou vou catar o cara no Face e dizer “Oi Lindo”, “Vc tem namorada?”
Não. Isso é coisa que uma pessoa íntegra mentalmente não faz. Mas muito homem faz isso com mulher. E depois ficam putinhos quando ‘viados’ dão em cima. Dói né safado?

NÃO dá para confiar em homem. Mas a gente confia, pois tem exceções. Mesmo assim, só acredito quando me provam o contrário da regra. E já me decepcionei até com quem já convivi por anos. Caráter é uma caixa de surpresa. Um dia você descobre que a pessoa que conviveu com você é um lixo. Deu pistas antes? Não. (às vezes sim, mas você ignorou). Então, liguem-se mulheres.
Amigas minhas, que moram sozinha, falam que não dá para chamar o gás, nem o encanador, sem viver com medo. Medo de ser agredida, enrolada, tratada como inferior, enfim.
Como eu me sinto andando na rua, algumas vezes.

“Ah mas vc não gosta de homem”. Sim, eu gosto e bastante. Mas sinceramente, gostaria de ser mais lésbica. Há homens legais, educados. Há exceções. Mas eu to falando do bastantão. Desse lixo que anda nas ruas, sempre procurando algo, como “animais”. Eles não se controlam porque não precisa. A sociedade acha tudo normal.
E esse bastantão é o que aborrece, o que deixa mulheres inseguras, provoca violência, esse é o alvo do feminismo.
Há muita gente assim. Você pode não concordar, talvez no seu bairro a coisa seja melhor. Mas há e é preocupante. Onde essas pessoas tiveram educação? Porque são tão animalescas?
Vivemos num lugar misógino. Ganhamos um governo misógino que não só vai ferrar com todos, mas especialmente com as mulheres. Por que isso é tão aceitável?
Mas a minha questão particular é essa: por que é tão aceitável que um homem seja assim?
Sim, pois eles chegam à idade adulta praticando todo tipo de grosseria e nunca foram parados por ninguém? Nem por mulheres, nem por outros homens? Porque essa escória continua e abundante?
E, se você chegou até aqui e montou a ideia em sua cabeça que eu detesto os homens, saiba: eu não desejo mal para ninguém, mas não suporto 99% da humanidade. E no fundo acredito que cretinice e escrotisse não tem idade, posição social, profissão, roupa, dinheiro, nem religião, e nem mesmo sexo.


*Se você pesquisar esse termo no Google só vai encontrar lixo e a definição machista do dicionário que é bem diferente do 'homem público'.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Você já se sentiu traído?

A sensação é de perda total do chão. Não apenas por que a pessoa que lhe traiu fez o mal, mas porque se perde a confiança nos demais, e até mesmo na vida.
Em quem confiar agora? A gente se pergunta, mas sempre haverá alguém.
Mas, se você pensar por outro lado, o traidor algumas vezes é o mais infeliz. Precisou ser sacana, precisou mentir, ocultar, ser duas caras. Quem quer ser assim?

Se para nós que não acreditamos (ou ainda é difícil acreditar) em algo maior ser indecente com os outros é algo impensável, imagine para quem acredita? O que é o caso da maior parte dos traíras.

Fazem a maldade e depois vão lá pedir perdão. Não deve ser fácil. Tenhamos piedade por quem precisa tripudiar para se sentir melhor. Nós.... nós não precisamos de nada disso. Apenas seguir em frente. Com a verdade.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Ninguém vai tirar a minha paz

Escrevi este texto num dia em que a ficha caiu. Percebi que não dá para confiar em quase nada ou ninguém. Demorei para aceitar que as pessoas, muitas delas, só têm aparências, estão infladas pelo ego. Mas, para isso, basta uma agulha. Para essa bola toda murchar.
E, não sou eu que vou cumprir esse papel.

Apresento a vocês, caros leitores do meu blog, um novo período da minha vida. Eu estou em paz, feliz, de boa e nem aí para quase nada. Agora, um recado:

ninguém vai tirar a minha paz.

Essa paz construída com muita terapia, escrita com o sangue das horas em que destrinchei minha dor, e decidi deixá-la para trás. Muitos dias em que eu paguei e caro para conversar com meu terapeuta sobre meus vícios e medos. Muitas descobertas, muitas lágrimas de saudade do que já está morto: minha mãe e meu pai.
Não. Ninguém vai vir com suas demandas, carências, ego ou qualquer excrescência querer invadir essa felicidade.


Eu desacreditei do amor, faz algum tempo, mas amo. Não tenho problema nenhum em admitir. Esse sentimento é apenas uma doença que está dentro de mim e preciso combater.
Agora, estou começando a desistir da Amizade. Pois parece que só eu a levo à sério.
Eu sempre fui uma pessoa só, sempre tentei me virar sozinha. E, reconheço que, ao precisar de um apoio amigo, não há quase nada. Por quê?
Já tenho anos de terapia, suficientes para saber se isso é culpa minha ou não. Não é. Não sou uma pessoa egoísta. Ao contrário, eu sou generosa. E não irei mudar. Mas não levo mais nada à sério. Não vou mais aprofundar amizades, não vou mais me preocupar. Algumas pessoas só te procuram para saber para quem você está dando, qual é a fofoca da vez.

Homem que te procura só porque está sem mulher. Mulher que só é tua amiga pois está solteira. Para vocês, que fazem isso, talvez algum dia possam se perguntar: o que é realmente a amizade. E o que é ser amigo?
Só não adianta descobrir isso só lá na velhice, depois de ser sacana a vida inteira. Aí vira aqueles velhinhos que falam com todo mundo na rua. Nada contra Mas, e antes desse dia chegar? O que você fez?

Não vou mais aceitar menos. Não me venha me procurar quando levar chute de homem, quando a vida de princesa acabar, quando essa conversinha de Super Herói não interessar a mais ninguém, pois deveras já não interessa. Eu não estarei mais presente. Não estarei mais aqui.

Não, não estou mal. Aliás, eu trocaria todos os meus 37 anos de perda de tempo por esses últimos meses. Finalmente estou me sentindo livre.
Moro sozinha, saio com quem quiser, visto-me com o que queira. Sempre fui assim, mas agora descobri que certas influências só te colocam para baixo. Não caia nessa, meus leitores.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Flores de novembro

Margaridas lembram minha tia e minha mãe.
 Leucanthemum vulgare e Coleostephus myconis
Essa margaridinha amarela é comum nascer espontaneamente em terrenos vazios e em cemitérios. Minha mãe me trazia essas flores, mesmo que durassem pouco no vaso, era tão bom tê-las ali comigo.
Hoje eu não recebo flores. Esse costume romântico acabou, mas não queria que acabasse.
Minha mãe era a única que regularmente enchia minha casa de flores. Rosas muito perfumadas, margaridas, flores que nunca mais eu vi.
Esse ano, levei flores para ela no cemitério, foi como se eu tivesse visitado sua casa, senti como se ela estivesse ali. Eu sempre levei flores aos vivos, mas os mortos de algum modo também precisam delas.
Sei que sua finalidade é outra. Sei que não é por isso que estão aqui. Nós as cortamos porque são lindas, essa beleza sedutora que conquista o polinizador.
Adivinha o que tem dentro? Muitas pétalas de uma rosa vermelha perfumada que minha mãe me deu, um ímã envolto em papel laminado, que ela colocou ali não sei porquê. E eu deixei. E umas pedrinhas prateadas bem pequenas... 
 Esse porta joia foi um presente do Avon para minha mãe, que sempre foi vendedora, mesmo antes de eu nascer. Esses dias eu tava numa conversa muito boa e nostálgica com minha amiga. E trocamos várias fotos de coisas antigas dessa marca, pois eu lembro que minha mãe vendia. Inclusive alguns objetos nem achei foto na Internet, talvez ninguém tenha guardado, mas eu lembro.
 Lembro de um dia, quando perguntei o nome dessa flor e minha mãe respondeu: É a alegria da noite, ou algo assim. As sempre vivas conheci através dela. As flores que jamais morrem.
Caliopsis - Elegans bicolor

Conhece essas flores lindas? Sempre-viva - Xerochrysum bracteatum (Todas as flores dessa postagem pertencem à família botânica Asteraceae)
Às vezes passo na rua e sinto um cheiro. Volto no tempo instantâneamente, pois são as flores de novembro. Flores da minha mãe.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Poesia, Literatura, Amor - Legião Urbana e a Professora de Português

O mundo anda tão complicado

Não lembro quando comecei a gostar de escrever, mas sim dos momentos em que colocar no papel o que eu sentia ou pensava era algo que me possibilitava um bem estar sem igual. Nada das minhas outras atividades era como ler e escrever.
Eu tinha uma professora de Português e Literatura que um dia fez uma atividade com música. Tínhamos que ouvir e escrever tudo o que ela representava para cada um.

Eu sinto que naquele dia algo despertou em mim. Um clique e tomei conhecimento de que escrever liberta os pensamentos, organiza aquelas ideias mais profundas, dá formas à coisas disformes.

A música era 'O mundo anda tão complicado' e eu, naquela época, nem tinha vivido tudo o que hoje sei sobre a letra dessa canção. Eu só tinha a melodia, a composição seca. Sem vivência, era uma criança, apenas fui deixando-me levar pelo fluxo carinhoso da história. E me recordo de muito escrever, sem parar, até a música acabar.

Eu não sabia o que era ver o outro dormir, mudar-se para a casa de alguém, ou trazer alguém para meu lar, viver o cotidiano amoroso. A minha vida, naquela época, era mais um misto de tristeza e vazio. Depois, não muito tempo depois (eu estava na quinta série, acho) eu fui descobrir que o outro é este ser fascinante, que se deseja como a si mesmo. Aquele ser amado, com o qual queremos estar na mesma casa, na mesma vida. Ou não...mas eu queria.

Mas naquela época meio criança, meio adolescente, eu não tinha ideia do que era amar.

Meninos e Meninas

O Renato Russo foi aquele amor adolescente impossível, entre tantos que eu tive. Tudo o que ele dizia era sagrado para mim. Uma palavra estranha, e eu corria para o dicionário. Ele era o conforto poético para este mundo sem solução.
Quando hoje, retorno a estudar o Português para o meu segundo vestibular, vêm à mente aquela frase, como todas, genial:

"Eu canto em Português errado,
Acho que o Imperfeito não Participa do Passado
Troco as Pessoas, troco os Pronomes."

Esse ano, por força de um destino, uma breve paixão, decidi fazer minha segunda faculdade e primeira vocação. Até agora não consigo entender por que neguei por tanto tempo que isso era meu caminho. Eu só posso explicar com uma frase: eu fujo do amor e das coisas que amo, por medo de perdê-las depois.
Só que o amor não foge de mim, ele está aqui o tempo todo. E não irá embora. E não sei se isso é bom.


Se fiquei esperando meu amor passar

Até hoje, algumas frases dessa música são enigmáticas para mim. Eu simplesmente não as entendi.
Mas, nesse momento de minha vida, eu estou caminhando muito e ouvindo Legião Urbana regularmente. Um dia, ao voltar dessas caminhadas, sozinha, eu pensava justamente sobre o amor e nem me dei conta de que tocava essa música no meu MP3.
E uma das frases brilhou para mim. Eu acho que entendi, pelo menos o que pode ser uma interpretação minha...
Eu sempre quis entender o verbo amar, fazer a palavra amor ter um sentido. E no fim das contas percebi que o sentimento está sempre aqui dentro, não importa como está, nem por quem está. Ele nunca saiu, nunca passou. Eu sei que não é fácil encontrar o eco lá fora para as coisas que estão no coração, eu sempre sonhei com um espelho, o qual parece que ainda está longe de mim.

Nos meus sonhos ele aparece, bizarramente, como uma jaguatirica que mordeu o meu braço. Eu senti a carne sendo perfurada por aqueles dentes terríveis, sem sangue desta vez, mas aquele ser era tão lindo, que eu deixei.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Memento Mori

Essa frase, do Latim, significa "Recorda que irás morrer". Algumas pessoas interpretam como "momento da morte" pois foram associadas às fotografias feitas na época Vitoriana, no momento da morte ou enterro de alguém.
Era um ato de homenagem aos mortos. As suas coisas eram reunidas em sua volta, como brinquedos, livros, até animais de estimação eram fotografados em seu féretro, deitados em um sofá, ou com familiares.
Eu não acredito na explicação que muitos usam, de que a fotografia era caríssima naquela época e que só por isso os mortos eram fotografados.
Pois bastaria fotografar as pessoas em outro período qualquer. O gasto seria o mesmo. E, de qualquer forma, pelos cenários de tais imagens, não consigo imaginar que aquelas pessoas fossem pobres. Muitas fotos eram feitas em estúdio com toda preparação.
Não. O motivo de tais fotos, por mais que hoje se queira negar, é simplesmente uma homenagem fúnebre, uma lembrança post mortem.
Hoje as pessoas, especialmente aqui no Brasil, entram naquela coisa carola de ir no cemitério somente nos finados, morrendo de medo de um dia estar lá, no mesmo lugar que seus familiares já postos. Não elaboram a morte, não pensam nisso um dia sequer e ao contrário, a negam como se a vida fosse eterna, ou iludem-se com promessas de outras vidas, outros mundos.

A morte, essa coisa seca e presente, esse nada poético, a fuga desse inferno, é negada como se não existisse.
Se hoje, ao morrer alguém, jogamos fora todas as suas coisas e até tem aqueles que acham que dá azar guardar coisas de defuntos, naquela época conviver com a morte e com os mortos era muito mais normal. Bebês nasciam e morriam aos milhares, pessoas morriam muito jovens, e a morte era companhia diária.
Hoje ela ainda nos acompanha. Aliás, mora dentro de cada um de nós.
Há um ano atrás encontrei no lixo uma caixa de fotografias de uma mulher morta. Havia toda sua vida ali. Desde seu nascimento, viagens pelo mundo, filhos, festas, cartas, até sua velhice e por fim a fotografia de sua lápide, o que me deu certeza de que era um descarte por essa razão.
Isso na época vitoriana seria uma ofensa terrível, pois era natural conviver com os pertences dos mortos.
Algumas fotos que circulam na Internet são atribuídas como se fossem post mortem e não são. Por isso escolhi apenas as que dá para ter certeza. Mesmo assim esta última me deixa dúvidas. De todo modo, como suas mãos estão na posição clássica dos mortos, pode ser sim. 
Existem diversos tipos dessas fotos, algumas muito tristes, outras assustadoras. Anos atrás, dediquei bom tempo a pesquisar sobre esse assunto. E deixo aqui a música de um cantor que ouvia muito naquela época e que de alguma forma associei ao sentimento que me invade toda vez que olho para essas fotos.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Flores roxas, meu presente

Quase consigo fingir que não sei,
quando percebo minha frieza - a minha única arma -
quando percebo que tudo muda, 
e você se desmancha em emoção. 

Ignoro, olho para o lado. 

Não quero ver quem me quer tão bem.
Não creio haver sentido, em um sentimento que sempre foi apenas meu.
E agora o vejo refletido.

Preciso partir, meu sonho.
Você me carrega em seus pés, os cabelos vermelhos, as palavras que eu esqueci, 
de tão importantes que eram, para mim.

Te abracei, e sobre teus pés, andei assim, como uma criança.

Eu só andava, passo a passo, pés sobre pés, o poema assim construído
dentro de meus olhos fechados - o sonhar.
Preciso ir, 
nasci, para em seguida fenecer.
Essa cor verde que me impressiona, 
esse jeito de chorar.
Aquelas flores mortas, as saudades, o presente,
tudo tão triste.

Foi o lugar, foi a cidade, a metrópole dos mortos.

A janela aberta para o silêncio do lago,
um cemitério de lembranças,
ele tão quieto - a minha distância interior.
Porque a melancolia tem essa coisa que me devasta por dentro.

Eu preciso abrir os olhos, eu preciso acordar.
Nossos dias nos matam, eu sei.
Mas isso não é suficiente.

Chorei, quando te conheci. Porque sabia que não seria fácil. Porque sabia que meu mundo se quebraria, com o ruído do seu caminhar.

Ellen Augusta

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A atenção é um artigo raro em tempos de Whatsapp e redes "sociais"

Se tivesse um botão no Messenger que seria acionado a cada vez que alguém puxasse assunto comigo, descontando Um Real da conta do sujeito, as pessoas pensariam duas vezes antes de entrar para dizer merdas como 'Oi Linda', 'quer casar comigo', 'qual seu Whats' ou mandar foto de pau copiada do Google...

Esse tipo de conversa é previsível, você sabe como começa e onde termina, e não tem conteúdo algum, não tem propósito e ainda por cima é desmotivante. Quem é que não se sente um lixo, ao saber que tanta gente entra em contato com vc, mas na realidade, quase nada QUER realmente travar amizade ou revelar coisas importantes, ser útil, agradável?
Por outro lado, a reclamação geral é de falta de atenção.
Você marca um café, e sua amiga pega o celular e não fala mais com você. Você está com o boy e daqui a pouco ele pega o telefone (sim vc não é o único contato dele pra sair) e começa a usar na sua frente, como se não existisse mais ninguém ali.
Você tem muitos amigos no Whats, mas é vácuo em toda parte. Respostas vazias, silêncios, nadas, enfim, não preciso explicar muito o que a maioria já passou.

Que grande merda é a vida das pessoas em geral, pois precisam tanto de um telefone, e não conseguem fazer nada de verdade por muito tempo.

Depois que comprei meu Smartphone minha vida piorou. Só anexei ou excluí números na minha agenda. Pessoas que entram e saem, como em um bar, que depois fica vazio e sujo com as marcas de quem passou.
Gente que tá muito preocupada consigo mesma para construir algo aos poucos, e no mais profundo e difícil, com vc.

Esse desinteresse cansa, sobretudo porque é sempre igual. Eu espero surpreender-me, mas espero sentada, escrevendo aqui no blog.
Joguinhos do tipo "vou me fazer de difícil", não colam mais, todo mundo já sabe que é um jogo tolo e repetido, e o pior, todo mundo joga, então cadê a originalidade? Ou seja, se alguém tá se fazendo ou te tratando como segunda opção, você parte pra outra e transforma esse cara em segunda opção também. E assim a vida segue, igual e sem graça pra todo mundo.

Ser você mesmo, falar o que sente, assusta e leva essas pessoas para suas cascas frágeis, para aquela ilusão cotidiana de proteção.

E isso não vale só para crush, ficante, e afins. Também vale para gente orgulhosa, egoísta, que acha que as pessoas estarão sempre à disposição, é só ir ali e pegar no Whats.

Está cada vez mais difícil se envolver, pois as pessoas simplesmente estão confusas quanto ao que querem, ninguém se propõe a nada, melhor é estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sendo um fantasma intelectualizado ou um boy magia, que não se dedica e não acrescenta nada a ninguém. É assim que eu vejo a maioria das pessoas que tentaram entrar em contato comigo.

Nas ruas as pessoa imploram por atenção. Nos trabalhos que faço nas ONGs que atuo, percebo o vazio, a falta de afeto e a desorientação das pessoas por toda a parte. Aí aparece o machismo, a carência, a negligência...

Todos, ou quase todos, querem um relacionamento, mas o que oferecem e o que existe são só migalhas, são só moedas.

Um amigo me disse: Se alguém fica/transa com todo mundo, é como se fossem várias moedas de um centavo que, juntas, não formam nem Um Real. Vários caras, não formam um homem inteiro.

Pois você não pode dizer a ele nem como se sente num dia de angústia.

Várias noites com meninas diferentes, e você é o mesmo merda que não conheceu ninguém pois ninguém se mostra em poucos momentos, na hora da cerveja, ou numa trepada sem a menor intimidade, pois não é fácil se apaixonar, tampouco se envolver com quem você viu umas vezes na hora da alegria, do cabelo arrumado, da make bem feita.


Fico pensando que um dia a ficha cai, ninguém é lindo, corpão sarado, rei da galera, ou líder, a vida inteira. Essa fase oba oba, essa ilusão de auto suficiência vai acabar geral e para todos um dia. Uma hora bate a solidão, aparecem os problemas, e você só tem  crush, ficante, amigos de bar, de trabalho ou de App, pois dedicou sua atenção apenas a essa vida estúpida que você leva e que vai te levar para a morte, como a todos nós.

domingo, 28 de agosto de 2016

Angústia

Adoro a palavra Angústia, e não consigo parar de sentí-la.
A perseguição começa quando estou bem. Vem sempre à noite, quando estou já desarmada. Está a me rondar neste momento. É um sentimento que anda de mãos dadas com outros, que nem ouso mencionar.

Se eu disser as palavras, se eu as formular, tenho medo de que escapem do meu coração ou, me prendam para sempre em seus significados.

Quando a noite chega, e com ela está a Angústia, eu sinto vontade de deitar embaixo do cobertor, e esperar o tempo passar, queria dormir, queria esquecer, das coisas lindas ou tristes que estão pairando no ar. Mas esse sentimento congela tudo, fixa tudo em algum lugar onde não alcanço.

Tudo começou quando abri uma fenda desta armadura. Eu não suporto o brilho da noite, tampouco a brancura serena do dia quando começa.


Esconder-me no sombrio me confortava. Minha vida estava bem até então.
O dia traz as cores do Sol, e a possibilidade de eu me sentir melhor, quem sabe. Mas, por que tudo é tão longe, por que é tão raro?

Eu caminhei pela manhã, percebendo a neblina gelada. Estou cansada. Minha vida, eu zerei, todas as possibilidades, já não me interessam. A beleza está ali, a vejo, mas será minha? Prefiro a certeza da morte, do que a brevidade incerta da vida.

Fugindo de tudo o que venero, passei a vida perdendo o que de mais sagrado conquistei.

Eu não quero mais viver de relações vazias, não quero ser mais uma opção na agenda de alguém. Uma companhia para o nada, um ser esquecido, como sempre fui.
Eu não quero mais jogar o jogo, esse jogo de vazios, de vácuos, de nadas que se completam.

Amanheci com o vestígio de um sonho ruim. Eram coisas a serem banidas, varridas, eram noites sem sentido, com o Oceano de fundo. Era um brilho de morte em toda essa praia vazia.

Eu penei, essas semanas eu senti toda a angústia possível, de quem espera descobrir algo. Meu corpo não responde a minha pergunta, só me fere com dores, estranhas sensações. Minha mente é apenas negação.

O que será que vai acontecer na minha vida? Serei só ou há algo mais em mim?




sábado, 30 de julho de 2016

A rua

Era um encontro ao acaso, os fantasmas lá fora, as coisas sempre nebulosas. Como é difícil lidar com a clareza, aí vamos para as sombras. Tão mais fácil é sonhar, quando me escondo do Sol.
Nada se compara à essa terrível timidez. Me deixa ora pálida, morta, outras vezes vermelha, como algo queimando no rosto. Eu não consigo mentir, fingir que não me importo.
É impossível formular uma palavra, o medo de que ela saia 'errada' e leve para longe, toda a possibilidade. Eu me concentro na beleza das coisas, até chego a amar a vida novamente, durante um segundo, a pureza de um instante me faz esquecer, de toda a tristeza anterior.
A rua se mostrava iluminada. Era final de tarde, havia tantas árvores e um brilho dourado por onde se passava. Eu só queria ir pra casa, me atormentava o medo, a insegurança, essa merda chamada vontade. Esses sentimentos, que ao sol de um final de dia ficam mais bonitos, nem parecem o que são.
Ontem, eu senti um certo orgulho de estar viva. Geralmente eu anseio pela morte, como uma forma de alívio. Geralmente a vida para mim não tem sentido.
E, dessa vez não é licença poética, eu já quis morrer tantas vezes quanto são os dias.
Mas, ontem, ali naquela praça, com aquelas árvores verde-brilhantes e pessoas andando para todos os lados... eu curti estar onde estava. Ali. E percebi que meu coração é vazio, das coisas banais esperadas por todos, mas é repleto, de coisas que nem mesmo sei, e me surpreende, por vezes.

Será que o amor que conheci, se transformou? Será que esse sentimento adentrou-se aqui dentro e me tornou isso? Outra coisa, outros sentimentos, mas todos parte desse, tão profundo e esperado?

Minha mãe

Faz alguns dias que sonho com minha mãe. Faz alguns dias que choro quando ouço RR. Sentir saudade de quem já partiu dessa vida estúpida é quase a mesma coisa que se torturar, não há corte mais profundo, nem mais infeliz, pois é inútil.
Só há uma sensação chamada ausência, As flores secas, a casa fechada, minha mãe completamente cinza, a cor dos fantasmas quando, por fim, estão mortos.
E essa presença soturna a me dizer o que devo carregar. Mas, por quê devo obedecer? Por que passar a vida a levar pesos, mágoas, formas de tapar grandes buracos na alma?

Não, mãe, eu desobedeço. Não levarei nada, partirei com a alma vazia, nada mais restou.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Sombras do dia

Onde clica pra aparecer a vontade?
De sair de casa, de comer, de me maquiar como eu gosto.
Com essa dor (hj é física) só quero ficar quieta.

Mas, terei que sair porque preciso: trabalhar, pagar contas, comprar comida, lembrar que tenho que dar satisfação à Vida, do porquê estou, ainda, aqui,
se é a morte a quem tanto desejo.

A casa escura, acordo no quarto, minha vida é este rio pesado, onde passa um trem por cima, estremecendo tudo, fazendo esse ruído assustador. E estou sempre com um fantasma ao lado, desta vez, ela sabia para onde íamos.

E mãos lindas, perfeitas, me impedem de ver, eu caio em outro sonho, e apesar de ser triste, é um alento perdido. É um nunca mais.

Acordo cedo, ainda é começo de noite e vou fazer um café. Volto correndo para as palavras, elas fixam o sonho, elas definem o que eu sinto, antes que tudo simplesmente vire ar. Meu coração não guarda mais nada, ele é vazio, como aquelas casas no domingo.
Ele é triste como o lugar onde eu morei.
Então elas me socorrem, guardam os significados mais sutis, só eu mesmo irei entender.

Há um sentimento, uma admiração, algo tão infantil quanto inútil, não posso fazer nada, ele nem sabe que eu existo. E se souber, não pode imaginar o que nem mesmo sei e é tão poético.

São as pessoas, são o mundo. Elas são todas iguais. Um mar de lama de coisas previsíveis. Eu, ingênua, ainda espero alguém que me surpreenda, ainda espero algo que se destaque, que brilhe quando passar por mim.

É a geração Face, é a geração fake, respostas rápidas, silêncios entre tantos contatos e decepções.
E a noite é linda, chove a todo instante, eu não sei pra onde vou. No fundo eu sempre procuro a mesma coisa, dar um fim a esta angústia, a esse nada que me invade às vezes.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Um anjo como os outros

Olho para minha casa, grande, compartilhada. Olho para meu quarto, pequeno, tão meticulosamente feito por mim. 
Eu bebo, coloco a culpa no Inverno. Eu não consigo ficar só, coloco a culpa no frio. 
Vou percebendo que estou tão bem, como nunca estive. Eu estou comigo, e posso estar com quem eu quiser.
A morte me consola, sua ideia, seu aspecto silencioso e profano. Estou com ela, até que a vida se mostre mais atrativa, é um desafio.
Observo as pessoas com uma certa distância, seus problemas, sua previsibilidade. Estou acima das nuvens, estou no avião.
Aquele momento em que a paixão é apenas um sonho, o anjo inacessível, o tema das poesias, que me faz acordar atordoada, para logo me ocupar com o que interessa: o chá, o café, e o que vou comer.

Hoje faltou luz, e havia estrelas. A luneta, eu uso para ver outros apartamentos, vidas frias, distantes de mim, a casa, a decoração, o aspecto da vida que não vivo, como brincadeira que não se faz, porque é preciso ser adulto, é preciso ser frio.
Sem luz, eu desliguei minha mente para os canais de todos os dias, Facebook, Whatsapp, liguei o rádio à pilha e fui para a sala. Havia uma vela azul, e amigos.
Melhor viver com essa paz, do que ter aquela ansiedade perene, vinda do ruído que tem sido a vida tantas vezes. 
Eu não desejo mais nada, por desejar o tudo, aquilo que está tão distante de mim e tão morto. Apenas vivo meus dias, esperando a chuva passar, o supermercado abrir, a luz voltar.
Eu observo as atitudes das pessoas, tento entender sua solidão, suas angústias, como as minhas, eu vou até o fundo, eu desço de elevador.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Luz adormecida

Esse olhar turvo sem definição de tom
Só desperta em mim uma cor
e uma vontade.
Quando eu esperava de você o que eu mesma deveria sentir,
Era um ato desesperado de um coração já tão frio, pelo tempo.

Quando enfim eu era transparente como a água,
quando o Inverno gelou, por fim, minha alma,
só restou uma âncora no profundo do mar,
uma memória inalcançável, ferida de tanto sentir.

E o seu olhar era apenas curioso. "Como pode amar, a que morta já está?"
Eu pisei, e o chão se iluminou. Meus pés me levaram até o impossível, num ato de dor.
Era lindo e triste, era uma mentira que eu contei. Mas ela existe!

[Meu amor, meu anjo morto,
desperte deste sonho, por favor,
e olhe para mim]

Eu estou aqui, como quem apenas espera a morte ou seu reverso.
Pois desta vida, o amor já não mais serve,
já chegou, tão pesado, e nada deixou, além das lembranças, essas âncoras.

Eu caminhei e vi um chão de pura luz, tudo mudou, quando fiz o movimento.

Olhe-me, estou aqui. Tudo ao meu redor são gestos, palavras, solicitações,
mas só espero um único toque dos teus dedos e uma direção para este olhar

de quem para mim brilhava, entre todos, nesta multidão.

É tão profunda, tão enganosa, essa obsessão que até o mar percebeu, quando me viu chorar, tão distante, sem nunca voltar.
É um sonho, o que eu vejo neste espelho, como esta vida, também é.

Ellen Augusta

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A Mãe

A Mãe, era assim que eu a chamava.
Seu nome, eu guardava.
Mãe era tão bom pronunciar.

Ela sentia um nó no peito, toda a vez que eu conhecia um cara.
Se sentisse uma coisa ruim, ela já disparava: Não vai dar certo. Eu ficava puta. Como assim mãe?

E era tão fatídico: o mais amado, ou o que mais me perseguia, sumia frente à intuição cristalina de um coração de mãe.
 E, se ela sentisse aquela pontada no coração, era questão de tempo. Não dava certo.
Mas, quando eu casei, perguntei a ela: Mãe, o que você sentiu dessa vez? E ela não havia sentido nada. Mãe, você não errou.

 Minha intuição não me diz mais nada, desde que não lhe dei ouvidos quando ela me chamava dia após dia e, nada fiz. Eu sou tão torpe, mal sei o que eu mesma sinto, meu coração é morto às vezes. Sofreu demais e hoje prefere o silêncio de nada saber.

Queria tanto ter essa intuição dolorida, essa dor no peito que dizia à minha mãe o que ia acontecer. Sempre fui fascinada pela morte. E mesmo sabendo que foi um alívio para ela, sair desse mundo de tristezas, que falta que minha mãe me faz!

Eu sonhei com ela essa noite. Acordei desolada, me sentindo tão órfão, perdida no mundo de um coração vazio. Sem dor, sem amor.

Queria que ela estivesse aqui. Não precisava falar nada, nem ser nada, pois exigia tanto dela quando era viva. Hoje só queria seu ser. Como era, com seus defeitos, qualidades, e sua presença. Nem mesmo no sonho a via direito.

Ela estava ausente. Essa ausência que senti a vida inteira. Me conforta saber que ela pode estar em silêncio. A mudez da morte, sem essa de "vida no além" pois o que mais queria era que ela ficasse em paz.

Fiquei com tão poucas coisas suas, as rosas, a solidão e o modo de amar, talvez. Ausente e profundo.
 Ellen Augusta

domingo, 10 de abril de 2016

Um coração cortado com sal

Coração dos comuns mesmo...
destes que por qualquer coisa sangra e chora, também fere o suficiente.
Porém, reveste-se de pedras, escondido com medo de ter revelado seu segredo.

Eu não sinto, e quando sinto, sei quanto dói perceber, admitir.
Não creio, nem em mim, nem em quem pode me amar.
Nego até a morte a possibilidade do sentimento,
pois espelha a possibilidade de sofrer,
doer mais do que o usual.
Um belo sofrimento, mas sim, dói como a vida.
A dor de todo o dia não é a mesma que sinto,
quando lembro dos teus olhos, da sensação de riso e alegria
que você me provoca.

Quando todas as vezes, tendo destruir o que me arrebata
Sou destruída pelo que tanto evitei em mim.

Olhando para trás, vi que o amor sempre andou comigo e eu o desprezei.
Ele me carregou no colo, me idolatrava. Eu era apenas medo.

A frieza de um metal, água e fogo cortado com sal.

A paixão crava na pele e é como uma tatuagem.
Mal sinto a dor e já gostaria de sentir o mesmo efeito,
As marcas dolorosas também podem ser boas... depois...
quando o tempo passa.

Agora, só quero que fique.

Ellen Augusta







quinta-feira, 17 de março de 2016

Uma vegana solteira - como eu me sinto

Eu já pensei em escrever aqui sobre minha vida. Como um diário, mas acho isso um saco. Meu lance é escrever sobre o que aparece em minha mente, no agora... não importa o que seja.

De um dia para o outro eu me tornei uma mulher sozinha, divorciada.
Que palavra pesada essa: divorciada. Solteira seria melhor? Não sei.

O impressionante é meu estado de espírito nesse momento. 

É uma sensação boa e também angustiante. Será que vai dar certo? Será que vou sobreviver? Essas preocupações, que deveriam me deixar mal, não estão me abalando, pelo menos aparentemente. Não sei se ainda tive tempo para sofrer.

Eu queria sair de casa com apenas o básico. Como básico só me vinha à mente meu computador, meus livros e um colchão.
Mas quando se prepara uma mudança, você percebe que tem coisas demais.
Tudo parecia estar espalhado pela minha ex casa. Eram tantas coisas pequenas, marcas de longos anos vivendo em um lugar.

Ele me disse para não pensar que vai ser ruim. Mas eu tenho medo, e se for?

Eu sei que tudo pode ser ou não ser, dependendo de como eu mesma levar as coisas. Mas, saberei?

Eu venci muitos medos, estou vencendo ainda. Preciso de mais um trabalho para ficar mais tranquila. Sei que vou me sentir só, a solidão me acompanha mesmo quando era casada pois é algo interno, não tem a ver com os outros. Mas estou enfrentando.
Morando num lugar muito alto, com elevador. Eu, que tenho medo de elevador!

O mundo agora é diferente para mim. Sim, quando eu era casada era muito independente, fazia tudo o que farei agora, mas é diferente quando se tem um companheiro como eu tive.
E hoje estou no auge da minha fase adulta, pois eu no fundo tenho uma mente muito adolescente.

Só que não farei como a maioria das pessoas que despreza o que já viveu.
Eu não.
Recomendo o casamento a qualquer um. Me fez muito feliz, aprendi muitas coisas, inclusive a ser mais adulta. Seria igual se estivesse sozinha? Sim ou talvez, mas com alguém ao seu lado, tudo é melhor.

Vou curtir minha nova solidão, meus momentos de uma liberdade que só quem sai de uma relação sabe o quanto é bom, é como respirar ares novos, mais apaixonantes.

Mas, e pelo menos penso isso neste instante, eu pretendo me casar mais vezes sim. Não sei se será da mesma forma, do mesmo jeito, mas eu não vivo sem homem, admito. Amo uma companhia, mas só quando é a melhor.

Pois, embora eu esteja de mãos dadas com a morte, tem muita vida circulando em meu sangue. E, foi quando me dei conta disso, que tomei minhas decisões e decidi dar um salto no desconhecido.

terça-feira, 8 de março de 2016

Asas negras cores fortes

Perdi o medo de voar.
Na poesia sobre o mar, precisava morrer para encontrá-lo.
Essa morte para uma vida, um sufoco. Eu precisava de ar.
E ansiava por encontrar o mar.
Eu desejei tanto viajar, no fundo da alma só pensei nisso o tempo todo. Até que enfim, uma bela e amigável oportunidade surgiu.
E ver o mundo do alto novamente foi tão emocionante, pena que durou tão pouco tempo...
Quando cheguei à praia, o que aconteceu foi que eu vivi completamente o presente.
Algo que não andava fazendo, estava sempre distraída, longe daqui. Mas na praia não. Neste lugar, não havia tempo para fugir, eu estava sempre ali, focada em cada detalhe lindo da natureza.
Eu não tive tempo nem de pensar, pois diante da beleza o pensamento desaparece, tudo some, e existe apenas aquela paisagem perturbadora, a me chamar...
Incrível como aqui onde eu moro, existem tantas distrações, o celular principalmente, é como uma armadilha que carrego no bolso.
Mas lá meu tempo era apenas viver. Eu curti tanto cada passo que dei, mesmo que em determinados momentos algo antigo em mim voltava: o medo.
Medo de me perder, medo de esquecer essas memórias que carrego comigo, medo de não querer mais voltar.
E aqueles pensamentos mórbidos que me acompanham, sumiram simplesmente. O mar causa isso em mim: uma vontade de viver.
Diante do Oceano, daquela paisagem tão perfeita, eu senti como há muito tempo não sentia, uma vontade incrível de estar viva. E refleti, me perguntei, onde estavam aqueles pensamentos de morte, aquele meu dom para desejar tanto sumir da Terra quase que por encanto.
Esses pensamentos se calaram, entraram em férias, saíram das minhas férias... me deixaram em paz.
Para mim, pelo menos, é fácil amar a vida ao ver o mar e o céu em conjunto. Ao ver a Natureza exposta como uma ferida, para que se admire a vida que existe ali.
Eu presenciei um temporal magnífico, o mar ficando escuro, também a névoa branca que está sempre em meus sonhos...
 Não há nada mais lindo que o mar à noite, a névoa gelada cobrindo a areia, nossos passos sempre acompanhados por um fantasma amigo: um cão amigo que nos acompanhou enquanto nos perdemos.
 Quero voltar, tão logo puder. Meu desejo por viver só se renova aqui.
No último dia em que estava na Praia do Maço, um homem que estava por lá nos parou e disse:
"É possível levar consigo as emoções q se sentiu aqui."
Eu fiquei tão emocionada com essa frase que estou gravando ela aqui, e tentando reproduzir neste blog um pouco do que eu senti lá.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Por que Fernanda Torres tem que pedir perdão?

Independente de concordar ou não com o texto da Fernanda Torres, que você pode ler aqui, ela não tem que pedir desculpas.
Protesto contra a Violência em que participei com a admirável feminista Vera Daisy
“perdão por ter abordado o assunto a partir da minha experiência pessoal que, de certo, é de exceção”
Todas nós falamos a partir de nossa experiencia pessoal. Um texto isento de vivências é artigo científico e mesmo estes, hoje, já contam com uma certa flexibilidade no uso de termos pessoais. Fernanda é colunista, escreve crônicas, escreve o que pensa.

O artigo em questão, chamado Mulher, considerei fraco, um tanto machista, talvez equivocado em alguns pontos. Me pareceu que ela apenas se expressou mal em algumas questões. Mas concordei com outras. Uma delas, por exemplo, é que apoio a campanha contra o assédio mas tenho também minhas críticas e penso um pouco como ela: ser desejada também pode ser bom.
Há diferenças entre tipos de cantadas, há assédio, há abuso e há quem goste de elogiar e ser elogiada, numa boa.
Eu posso mandar um cara tomar no cú quando me assedia (acabei de fazer isso hoje), e também posso sorrir, se eu quiser e isso também já fiz. Mas o movimento contra o assédio quer a liberdade das mulheres na rua. Não temos que ser objeto, nem ter medo de sair à rua. O ambiente público também é nosso.

Dá para pensar dessa maneira sim, sem ser contra a campanha.

Mas por que ela tem que se desculpar?
No seu texto de desculpas, chamado Mea Culpa, ela escreve:
“as críticas procedem, quando dizem que eu escrevi do ponto de vista de uma mulher branca de classe média. É o que sou.” 
Essa tentativa de barrar as pessoas de emitirem suas opiniões baseada na cor da pele ou condição é simplesmente censura.
E notem que a atriz sequer tocou em questões raciais. Apenas descreveu como era sua empregada de infância, parte de sua experiência como mulher.
Até homem tem esse tipo de discurso quando afirma que eles não podem falar sobre feminismo. Mas aí quando um homem fala isso e outras regras sobre as mulheres que se inventou nas redes sociais - e que só funcionam lá dentro - nenhuma feminista manda ele calar a boca.
Se perde muito por não ouvir a ponderação de alguém, apenas por que não é do mesmo gênero que o seu, se essa opinião for relevante.
Ok, mas ela é uma mulher. E mesmo sendo mulher, seu direito de falar está restrito por causa de seu corpo? Qual será a próxima condição que teremos que vencer?
Esse tipo de 'cale-se' é uma tendência irritante nos meios interseccionistas, que misturam ideias e querem impor seu modo de pensar a todos, censurando quem é diferente.
O feminismo em particular sofre de um problema: não aceita ser criticado. Há sérias questões a serem repensadas e as mulheres deveriam ser as primeiras a fazê-las. Criticar não significa ser anti feminista ou ser contra o feminismo.

Essa conversa de ser contra o feminismo é apenas um discurso aprendido que nos coloca contra nossa própria natureza. Devemos lutar e marcar presença em todos os lugares.

Num mundo machista, toda mulher deveria ser feminista.

E, sendo feminista, não guardar o machismo dentro de si.
Mas o feminismo precisa se renovar.

Os protestos das alunas contra a proibição de usar short no Colégio Anchieta, que você pode ler aqui, é a prova de que o feminismo vem sendo renovado, mas ainda falta mais.
Eu gostaria de ter alunas como estas. Sempre abordei o feminismo em sala de aula, coisa rara, que deveria ser estimulado pelas feministas (e por professores e professoras) em todas as matérias escolares, para meninos e meninas, ressalto.

Todos tem o direito de se manifestar. E uma mulher pode e deve falar, independente do seu biotipo ou classe.
Até quando o tipo físico de alguém vai ser impedimento para a liberdade de expressão?


A mulher translúcida - um desabafo

Eu costumava me esconder. Achava que assim sentiriam minha falta. Nunca usava o Facebook e evitava qualquer contato pois sempre pensei que causaria um incômodo. E eu temia tanto perder as pessoas.
Sempre quis ter amigos, sempre procurei ser presente, mas havia tanta efemeridade mas atitudes alheias.
Só que um dia eu decidi me libertar da opinião e pensar por mim mesma.
Eu percebi que o mundo era mesmo virtual e as pessoas eram rasas mas... nem todas assim são e nem por isso deixaria de ser profunda, de ser amiga, de ser feliz ou de expressar toda minha tristeza, a despeito do que eu encontraria diante de mim.
Eu abri a solidão de meu coração para quem quisesse ver.
Minha existência sinto agora como uma bandeira a tremular querendo dizer algo tão forte, mas que quase ninguém percebe.
Talvez exista algo que eu realmente esconda. Quanto mais revelo mais parece que há o que ninguém consegue ver.
Quanto não será apenas aspectos, atuações, devaneios e vontade de burlar com o lúcido.
Eu sei que brinco com a imaginação de quem não me conhece e também sei que quase ninguém, ou quiçá ninguém, me conhece realmente.
Mas hoje eu não estou me importando com a dor da despedida, não me importo mais com o fato de não haver com quem contar muitas vezes, nem com quem dividir momentos frívolos de humor e coisas do dia a dia como tomar um café e sentir o Alegre da vida.
Talvez sejam os "novos tempos", talvez não, talvez eu seja cega para quem gosta de mim, desencanei.
Agora eu expresso todo o meu ser, tudo o que ele quiser, conforme o instante dessa curta existência.
Sou toda a felicidade e toda a solidão, mas sou mais do que tudo, morte, ela sempre me acompanhou.
Estou como numa vitrine para o nada e resisto ao risco de que seja realmente nada.
Ellen Augusta
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