A VAGINA... (Um artigo de Eliane Brum)
Li este ótimo artigo no site de Ezio Flavio Bazzo e achei tão perfeito que quero tê-lo aqui comigo, afinal, eu não só não tenho o menor nojo de vagina, como até mesmo adoro a minha, pronuncio todas as suas denominações, e faço votos de que as pessoas percam esse preconceito idiota e atrasado.
Todos nascemos de uma buceta e, de qualquer forma, temos de lidar com ela, não importa o sexo.
A. S.: E largue esse vício moderno de não ler coisas compridas e leia até o final, é um show de sabedoria.
Será que a revolução sexual falhou? Não é curioso que, neste ponto da
aventura humana, o órgão feminino ainda ameace tanto? Evelyn Ruman,
Casey Jenkins e Naomi Wolf são algumas das artistas que questionam a
naturalização da violência contra o desejo das mulheres
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| Livro de Naomi Wolf, eu amo esta escritora. Absolutamente fã!!! Um dos temas deste artigo. |
Evelyn Ruman conta que desembarcou no Vaticano sentindo-se uma espiã da
Guerra Fria. Ela tinha se imposto uma missão arriscada, subversiva.
Dentro do bolso da sacola de equipamento fotográfico havia um vidrinho
com um líquido vermelho e um tanto viscoso. Evelyn se agachou, abriu a
tampa e jogou seu conteúdo no chão. O fluido se espalhou sobre a
calçada, as pedras. Ela sacou a câmera fotográfica e começou a
documentar sua transgressão. Desenrolou a imagem de uma mulher nua, de
costas, e a estendeu no chão. O vermelho agora escorria de interiores
femininos. Nenhum guarda apareceu para impedi-la, nenhum turista a
perturbou. Missão cumprida. Evelyn acabara de jogar sangue menstrual no
centro do poder católico.
- Por que você quis fazer isso?, pergunto a ela. “Porque a Igreja
Católica representa tudo aquilo que vem oprimindo as mulheres por
séculos, tornando a vagina algo feio e fazendo do sangue menstrual uma
coisa nojenta.”
Era janeiro de 2012 e Evelyn participava da Bienal Internacional de Arte
de Roma. Durante dois anos ela armazenara seu sangue menstrual na
geladeira de casa, em São Paulo, para realizar
a exposição que chamou de Sangro, logo existo.
Seu casal de filhos, hoje com 23 e 18 anos, brincava que era o
“carnição da mamãe”. Ao fazer esse percurso artístico, Evelyn se
preparava para um momento doloroso para uma mulher: ter seu útero
arrancado devido a um mioma. “Sempre gostei muito de menstruar”, diz
ela.
Quando foi a Roma, Evelyn percebeu que sua menstruação estava atrasada.
Para consumar seu objetivo, precisou pedir um pouco de sangue a uma
feminista italiana, Sara Sacerdócio. Fez sua performance com sangue
emprestado. A foto (ao lado) é uma das 27 imagens exibidas no EG2O
(Escritório Galeria 2Olhares), na cidade histórica de Paraty, no litoral
fluminense, até 6 de janeiro. Cinco delas ilustram esta coluna.
Evelyn trabalha desde 1988 com a autoimagem de mulheres. Presidiárias,
internas de manicômios judiciários e instituições psiquiátricas comuns,
camponesas de origem indígena, meninas com síndrome de Down,
soropositivas para o vírus da Aids, ameaçadas por violência doméstica,
velhas. Mulheres que a maioria prefere não enxergar. Nunca teve
dificuldade para expor seu trabalho, premiado e reconhecido
internacionalmente. Mas, quando tentou exibir sua obra moldada em sangue
menstrual, encontrou as portas fechadas. Para mostrar o rosto de
mulheres condenadas à invisibilidade, foi acolhida. Para mostrar seu
corpo que sangra pela vagina não havia espaço. Talvez porque, ao expor o
que se prefere escondido e envergonhado, a vítima tivesse virado o
jogo. Em vez de compaixão, agora provocava medo.
Evelyn descobriu-se sozinha. Mesmo outras mulheres, amigas fotógrafas,
em todo o resto libertárias, classificaram suas fotos como “nojentas”.
“Só consegui fazer a exposição porque abri minha própria galeria”, diz
Evelyn. “Dá vontade de botar uma câmera para filmar a reação de nojo das
pessoas, muitas delas mulheres, quando veem as fotos e percebem que é
sangue menstrual, sangue que saiu de uma vagina, a minha. Se o sangue
saísse de um pinto, será que teriam tanto nojo?”
(Estou presumindo, claro, mas acredito que parte daqueles que leem este
texto, a esta altura já soltaram alguns “que noooojo!”. Acertei? Ao
comentar com alguns amigos que pretendia escrever sobre o tema, a reação
foi: “Mas por quê?”. Por causa desta tua cara, respondi.)
Neste exato momento, a australiana Casey Jenkins realiza a performance que intitulou de
Casting Off My Womb (em tradução livre,
Tricotando o meu útero).
A cada manhã, ela enfia um novelo de lã clara na sua vagina e tricota
um cachecol. Ao menstruar, o tricô ganha rajados de vermelho sanguíneo e
molhado. (
vídeo aqui).
O objetivo da intervenção, conforme ela declarou à imprensa, é tornar a
vagina da mulher “menos chocante ou assustadora”. Casey queria mostrar
que “a vagina não morde” ao ligá-la a um ato acolhedor e “quentinho”,
identificado com avozinhas clássicas, como o de tricotar uma manta. O
cachecol uterino que passa sensualmente pela vagina de Casey, acaricia
seus grandes e pequenos lábios e faz cócegas no seu clitóris estará
concluído ao final de 28 dias.
(Mais nojo?)
O que, afinal, Casey está tricotando, lá no outro lado do mundo? O que
Evelyn está tentando nos dizer com seu sangue, no lado de cá do mundo?
É provável que a escritora americana Naomi Wolf, autora de
Vagina: uma biografia,
que acaba de ser lançado em português pela Geração Editorial, tenha
razão ao dizer que “a revolução ocidental sexual falhou”. Ou, pelo
menos, “não funcionou bem o suficiente para as mulheres”. A própria
trajetória do livro é a prova de que a vagina segue sendo ameaçadora –
como corpo, como imagem, como palavra. Me arriscaria a dizer que até
mais ameaçadora do que em décadas passadas. Quando a obra foi lançada,
em 2012, no mercado de língua inglesa, a loja virtual da Apple colocou
asteriscos no título:
V****a. A velha vagina, censurada pela
marca que representa o ápice do avanço tecnológico do nosso tempo, foi
quase uma performance da denúncia contida no livro. Mas involuntária, o
que torna tudo mais interessante. Me parece que o episódio fala mais de
um momento de potência da vagina do que de vitimização.
Em seu livro, Naomi Wolf compreende a vagina como “o órgão sexual
feminino como um todo, dos lábios ao clitóris, do introito ao colo do
útero”. Esse todo forma uma complexa rede neural, na qual há pelo menos
três centros sexuais – o clitóris, a vagina, o colo do útero – e
possivelmente um quarto – os mamilos. Naomi defende que a vagina não é
apenas carne, mas um componente vital do cérebro feminino, ligando o
prazer sexual amoroso à criatividade, à autoconfiança e à inteligência
da mulher. A conclusão é óbvia e não é nova, nem por isso menos
importante: massacrar a vagina – ignorando-a ou tornando-a algo sujo,
proibido e chulo, seja pelas palavras ou pelas ações – massacra as
mulheres na inteireza do que são. Ao aniquilar a vagina, aniquila-se a
mulher inteira, sequestra-se a sua potência. “Ao contrário do que somos
levados a crer, a vagina está longe de ser livre no Ocidente nos dias de
hoje”, diz Naomi. “Tanto pela falta de respeito como pela falta de
entendimento do papel que ela exerce.”
Criticada até mesmo por parte das feministas, a biografia da vagina faz
um percurso bastante curioso. Mesmo quem a elogia tem sempre uma graça
para dizer, uma piadinha, algo que garanta um distanciamento desta
escritora que a certo momento chega a falar em “dança da deusa”. Parece
continuar obrigatório ser engraçadinho com qualquer menção à palavra
vagina. Adultos maduros se expressam como se fossem adolescentes
soltando risadinhas, o que em si já diz bastante coisa. Ao anunciar que
escrevia o livro, Naomi foi recebida para um jantar entre amigos com um
cardápio temático: massa em forma de vaginas e grandes (bem grandes
mesmo) salsichas. Como finalização, filés de salmão, referindo-se ao
cheiro de peixe relacionado ao órgão sexual feminino. Para aqueles
homens intelectualizados de Nova York, a obviedade, um tanto bocejante,
parecia muito divertida. Depois da “homenagem”, Naomi amargou um
bloqueio criativo: por seis meses não conseguiu escrever uma palavra do
livro. “Senti que havia sido punida – tanto no nível criativo quanto no
físico – por ir a um lugar aonde as mulheres não deviam ir”, conta.
Se o livro de Naomi Wolf apresenta generalizações e pode ser questionado
em alguns ou vários aspectos, como todos os livros, aliás, acho difícil
que alguém, seja homem ou mulher, não tenha a vida ampliada por
questões mais interessantes depois de ler
Vagina: uma biografia. Se não fosse por mais nada, pelo simples fato de que, para muitos, demais, a vagina ainda é uma fenda, uma ferida, um buraco.
A pergunta que Evelyn, Casey e a própria Naomi nos propõe, a partir da
expressão de cada uma, é por que, no século 21, no Ocidente, a vagina
ainda provoca tanto antagonismo. E que efeito isso tem sobre a
experiência cotidiana das mulheres, principalmente, mas também a dos
homens. Ou sobre como isso empobrece enormemente a nossa vida sexual e
afetiva, assim como a nossa vida como um todo. O maior mérito de cada
uma delas ao se arriscar ao escárnio público – e, neste caso, sempre se
pode contar com ele – é o de questionar a naturalização de um olhar
sobre a vagina e as mulheres que nos viola a todas. E talvez a todos. Ao
naturalizá-lo, oculta-se a trama histórica e não linear em que esse
olhar foi sendo tecido, assim como as relações de poder que o
determinam.
Não é tremendamente instigante que, neste ponto da aventura humana, a
vagina das mulheres ainda assombre tanto que a violência contra ela
parece ter recrudescido? Na época em que as revistas femininas ocupam
uma parte considerável de suas páginas com lições para melhorar a
performance sexual das mulheres, a vagina, aquela que parece não caber
neste discurso atlético, vive tempos de escândalo. No mesmo período em
que a Apple censurou a vagina como palavra no título do livro de Naomi
Wolf, no Brasil o crítico de arte Jorge Coli teve interrompida a
transmissão pela internet de sua palestra pela Academia Brasileira de
Letras. Foi censurado no momento em que pronunciou a palavra “buceta” e
mostrou
A origem do mundo, o famoso quadro do francês Gustave
Courbet, que retrata uma vagina entre coxas abertas. Ao longo de sua
acidentada trajetória, o quadro esteve coberto por um véu, fosse uma
cortina ou mesmo uma outra pintura. Só foi exposto sem nada ocultando-o
depois que a família de seu último dono, o psicanalista Jacques Lacan, o
doou ao Museu D’Orsay. Em fevereiro deste ano, a revista francesa Paris
Match anunciou um “furo de reportagem”: a descoberta do suposto rosto
da vagina famosa. Desta vez, o rosto que tentaram lhe impor, como uma
parte faltante, teria a função de um véu definitivo. (Escrevi sobre
isso
aqui e
aqui.)
Evelyn, Casey, Naomi, assim como outras artistas mundo afora, têm
corajosamente tentado nos chamar a atenção para o fato de que tanto a
censura quanto a piada ocultam algo que precisa ser enfrentado.
Enfrentado porque estreita a nossa vida psíquica, afetiva e sexual, mas
também porque é gerador de violência. Nas universidades brasileiras, os
trotes às calouras têm se transformado nos últimos anos em episódios
chocantes de agressões contra mulheres. Na Universidade de Brasília
(UnB), em 2011, calouras tiveram de lamber leite condensado numa
linguiça encapada com camisinha. Em 2012, na Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), duas estudantes foram amarradas a um poste. Os
veteranos vestiram-se de policiais militares e colocaram camisinhas na
ponta de cassetetes, obrigando-as a chupar os bastões. Em 2013, na UFMG,
uma estudante com o corpo pintado de preto carregava um cartaz que
dizia “caloura Chica da Silva”, em alusão à famosa escrava com este
nome. As mãos estavam presas por uma corrente, que era controlada por um
veterano. Também neste ano, uma caloura da Universidade Estadual do
Sudoeste da Bahia denunciou à polícia ter sido obrigada a lamber pênis e
testículos de bois. Ela desmaiou, sua boca sangrava. Na Universidade de
São Paulo, no campus de São Carlos, realizou-se o concurso “Miss
Bixete”, no qual as calouras são obrigadas a fazer um “desfile de
beleza” repleto de situações humilhantes. Durante o trote, veteranos
tiraram a roupa e simularam fazer sexo com uma boneca inflável.
Distribuíram ainda um panfleto parodiando o best-seller
Cinquenta Tons de Cinza,
com os seguintes dizeres: “Cinquenta golpes de cinta – a cura para o
fogo no rabo dessa mulherada mal comida”. A série de violências sexuais
contra as calouras torna-se ainda mais espantosa – e é preciso se
espantar muito – se pensarmos que foram perpetradas por homens jovens e
escolarizados, nascidos pós-revolução sexual, filhos de mulheres que
usam anticoncepcionais e trabalham fora de casa.
Na semana passada, o radialista Fabiano Gomes, da Rádio Correio, da
Paraíba, afirmou no programa Correio Debate que a polícia não deveria
perder seu tempo investigando os casos em que homens divulgaram na
internet imagens de mulheres nuas ou em relações sexuais. Ele se referia
a um caso ocorrido na cidade paraibana de Pombal e ao recente suicídio
de Júlia dos Santos, de 17 anos, no Piauí. Júlia e a gaúcha Giana Fabi,
de 16 anos, enforcaram-se em outubro depois de sofrerem linchamento
moral por terem fotos e vídeos íntimos postados nas redes sociais.
Algumas das frases usadas pelo radialista: “Sem-vergonha é quem manda
foto nua para o namorado”, “Foram pro espelho mostrar o chibiu”, “A
cocotinha tirou foto nua pro namorado bater punheta”.
Se houve reação formal de repúdio ao episódio, vale a pena prestar atenção também na
gravação,
para escutar a opinião dos ouvintes, homens e também mulheres, ao
apoiar as agressões do radialista. Se os comentários são uma amostra do
senso comum, as meninas que mostraram seus corpos nus a homens em quem
confiavam são “vagabundas”. É aterrador constatar que, às vésperas de
2014, depois de todas as conquistas feministas, num país governado pela
primeira vez por uma mulher, duas adolescentes tenham sido tão
humilhadas por terem seus corpos e seu desejo sexual expostos que
preferiram morrer. Ao sacrificarem-se (ou serem sacrificadas), seguem
sendo humilhadas. Na segunda década do século 21, no Brasil associado ao
mito da liberação sexual dos trópicos, o corpo e o desejo feminino são
tão ameaçadores que a morte não basta.
A violência contra a vagina é disseminada no cotidiano, dentro de casa,
no trabalho, no percurso entre a casa e o trabalho, em todos os espaços,
mesmo os de lazer. As mulheres estão tão habituadas a ela desde que
nascem que já a internalizaram como “normal”. Ou reagem muito menos do
que deveriam, resignadas por uma vida inteira de agressões tão
corriqueiras que fingem não ligar. Que neste contexto ainda consigam ter
desejo sexual e prazer com suas vaginas é um tanto impressionante.
Como ilustração, um resumo de alguns – só alguns – momentos da minha
trajetória pessoal. Na primeira vez em que fui tocada por um homem, eu
era criança. O homem era um menino ainda menor do que eu. Ao passar por
mim na rua da cidade pequena, deu um tapa forte na minha vagina e disse:
“bucetuda”. Foi meu primeiro contato. Voltei para casa chorando, mas me
sentia tão envergonhada por ter uma vagina que não contei a ninguém.
Adolescente, ao caminhar no centro de Porto Alegre de minissaia, um
homem cuspiu nas minhas coxas. No ônibus lotado da faculdade, tentaram
se masturbar na minha bunda mais de uma vez. Num Dia das Mães levei
minha filha de nove anos ao cinema. Um homem sentou-se ao nosso lado e
começou a se acariciar. Adulta, no trabalho, nas redações por onde
passei, ouvi de tudo sobre a vagina, assim como minhas colegas. A melhor
de todas: “A mulher é a parte chata da buceta”. Era dita por um homem
inteligente e realmente gentil, que acreditava estar fazendo uma graça
com colegas “sem frescura”. Nós ríamos para não sermos “a parte chata – e
ainda por cima sem humor – da buceta”. Toda vez que escrevo algo que
contraria algum grupo, como determinada polícia, recebo ameaças como:
“vou te estuprar” ou “quero ver tua buceta”. Quando um líder evangélico
discordou de um artigo que escrevi sobre as mudanças no Brasil
provocadas pelo crescimento das igrejas neopentecostais, ao dar uma
entrevista para o
New York Times,
entre todas as palavras disponíveis para me definir, ele escolheu esta:
“tramp”. E lá estava eu, tomando café tranquilamente num sábado pela
manhã, na minha casa, com minha família, quando o telefone começou a
tocar: “Você viu que foi chamada de vagabunda no
Times?”.
Assim é. Hoje, agora. E não me parece que a resposta para a violência
naturalizada contra a vagina e o desejo sexual feminino seja
transformar-se numa atleta sexual com orgasmos performáticos. Este é
possivelmente um padrão para o consumo e para o mercado, muito mais à
imagem, também estereotipada, do que seria um comportamento masculino na
cama. Soa como uma resposta à repressão histórica, mas na prática está
mais para uma embalagem palatável e enganadora para a mesma repressão,
na medida em que não deixa de ser mais uma tentativa de controle sobre o
corpo e o desejo feminino. A imagem da atleta sexual, determinada e
agressiva, pode ser só uma outra prisão para as mulheres. A vagina e o
desejo feminino, diferentes em cada uma, são muito mais complexos e
potentes do que isso. Vale a pena lembrar que, na pornografia, a mulher
que expõe sua vagina, seu ânus, sua nudez em cada detalhe e em close é
aquela da qual menos sabemos.
Por tudo isso Evelyn, Casey e Naomi são tão importantes. O livro de
Naomi costuma peregrinar por diferentes seções das livrarias, da
pornografia a assuntos gerais, já que parece não haver lugar para
encaixar a vagina. Evelyn precisou abrir uma galeria para conseguir
expor suas fotos com sangue menstrual. E as matérias sobre Casey, na
internet, em geral são colocadas em seções da vida “bizarra”, misturada a
outras “bizarrices” como, por exemplo, vender carne de rato. A revista
Time, que teve a clarividência de colocar sua performance como “arte”, decidiu fazer um título engraçadinho:
Not Available on Etsy: This Woman Knits With Her, Uhhh Yeah (em
tradução livre: “Não disponível na Etsy: esta mulher tricota com sua,
hããã... Isso mesmo”) Sim, a vagina parece continuar impronunciável.
Quem escreve sempre tem um desejo. O meu é que talvez, em vez de dizer
“que nojo!”, ao ler este texto você contenha a agressão ou a piada,
sempre mais fáceis porque calam a possibilidade de reflexão. E comece a
pensar sobre a vagina e o papel que cada um de nós desempenha, tanto nos
atos quanto nas palavras quanto nas omissões, mesmo naqueles
comentários que você acredita ser apenas uma mostra de humor, na
reprodução de uma cultura de estupro e morte das mulheres. Morte física,
mas também psíquica e criativa. Morte do desejo. Uma cultura que tem se
ampliado e alcançado parâmetros novos com o poder de difusão da
internet.
Se a violência contra a vagina tem aparecido – e em alguns casos
aumentado – em diferentes espaços da sociedade, é legítimo pensar que o
ímpeto de fortalecer a resposta repressiva ao desejo feminino possa
revelar que as mulheres estejam assumindo um controle maior sobre seus
corpos e a sua sexualidade. Neste sentido, a necessidade de fazer
vítimas seria uma reação ao fato de as mulheres se recusarem com maior
veemência a ocupar o lugar de vítimas. Nesta hipótese, a “Marcha das
Vadias”, que começou no Canadá e ganhou o mundo e também o Brasil, é um
exemplo contundente de uma ação feminina que desloca o imaginário, ao se
apropriar da palavra da violência e transformá-la numa afirmação de
potência, embaralhando a lógica machista. Mais uma vez, a vagina vive
tempos turbulentos. Que são tempos de violência, já sabemos. Que sejam
tempos de libertação, depende de nós.
Publicado no jornal EL PAIS
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção
A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua e
A Menina Quebrada e do romance
Uma Duas. Email:
elianebrum@uol.com.br . Twitter:
@brumelianebrum