domingo, 5 de julho de 2015

A propaganda animal é machista

DESOBEDIÊNCIA VEGANA - ELLEN AUGUSTA VALER DE FREITAS
É fácil apontar quando há algo explícito indicando uma propaganda machista, não é? Não é. Porque é preciso inteligência para analisar. Mas tem gente que se delicia com isso sem compreender. É fácil ser especialista do óbvio. É fácil ler? Não. Qualquer um lê, mas a maioria não entende sutilezas, ironias e nem mesmo uma piada. A maioria lê o título acima e fica nisso. Com as imagens é a mesma coisa. As propagandas mais machistas e abusivas são sutis e estão fora da causa animal, ensinando a oprimir o mais fraco, seja humano ou animal.

Propagandas de revistas, a TV, que eu nem tenho em casa, e o álcool, que eu não bebo, possuem coisas machistas. O consumo de carne está ligado a uma cultura machista e atrasada, e tem feminista enchendo o cu de carne a torto e a direito, sem dar um pio a respeito.

Recentemente uma figura publicitária causou polêmica por usar uma imagem supostamente machista, e os autores dela não ganharam um centavo com isso pois foi feita pela causa animal. A peça nas redes sociais brincou com a ideia de traição ou ciúme no Dia dos Namorados. A traição não é algo exclusivo do mundo masculino. O sexo não é algo destinado ao homem. Todo o material foi feito para pensar. Mas quem quer pensar em um espaço onde é melhor bater boca?

Ao redor da imagem havia animais mortos submetidos – como a mulher da foto, indignada, mas é problema dela pois ela tem escolha de dar um chute no cara – mas não importa os animais! Estes, como sempre, estão em última instância no círculo moral.

Tomemos como exemplo uma imagem real. Um protesto feminista de mulheres com seios à mostra seria exatamente o que os homens adorariam ver, especialmente aqui, neste país que explora a imagem de seios na TV, mas nunca a imagem da vagina exposta. E a maior parte das mulheres abomina a imagem da vagina e até suas denominações. As não-feministas e até mesmos estas poderiam apontar as protestantes como machistas, só porque estão mostrando o ‘objeto’ de desejo masculino, mas que para elas tem outro sentido?

É fácil mostrar os seios, que já estão na TV e em todo o lado, mas as mulheres que mostram a vagina politicamente e artisticamente são hostilizadas ate pelas suas companheiras feministas, mostrando que quem está na vanguarda está sempre sozinho. Não é mesmo?

Por outro lado, o comer é algo ligado ao sabor, a uma coisa boa. Comer também é um ato ligado ao sexo. É bom transar, pelo menos deveria ser. Sou mulher, tenho toda a possibilidade de fazer o que um homem faz. Faço se quiser, não preciso imitar. Que saco ficar esmiuçando termos e imagens nas redes sociais, quando o que acontece na vida das mulheres, crianças e jovens que nada sabem sobre jargões é um inferno e o movimento feminista está como uma múmia frente a isso. Essa conversa de libertário, amor livre, se desmancha ao ver uma insinuação de ciúme de uma propaganda, que, sinceramente, é fácil combater – basta mandar o cara às favas e escolher outro melhor, o que talvez confirme a proposta da campanha publicitária, a de comer uma coisa diferente! Melhor, fiel e vegano.

A comida sempre foi ligada ao sexo, pois sempre foi ligada ao prazer. Um homem que cozinha bem é sensual, saber cozinhar é atraente e bonito para uma mulher, pelo menos para mim. A paixão sempre foi ligada ao quente. O frio é ligado ao refrescante, ao distante do calor. Sempre que um homem ou uma mulher é quente dizemos que ele é apimentado, por exemplo. Dizemos o mesmo de comidas picantes.

Não preciso me alongar nesse ponto, eles o fazem. E há mulheres provocantes, picantes, que não estão nem aí para essa coisa fria do não-sexo, da não-associação.

Mas por que esse pessoal adora vir encher com teoria de Facebook? Eu sou feminista desde o tempo que ser feminista era ler livros e ser na prática. As propagandas machistas, outdoor com características opressoras eram estudadas e desde então tenho encontrado tais anúncios com sutilezas misóginas. Mas temos que ter cuidado com essa manias esquerdóides de querer taxar, examinar, achar que tudo no mundo tem de passar por sua teoria da conspiração. Nem tudo é tudo. Nem tudo é machista. Nem tudo é ‘a teoria de tudo’. Nem todos os homens são iguais. Sou diferente de todas as mulheres que conheci. E, sim, os homens podem falar sobre as mulheres. Falam mais e até melhor do que algumas mulheres. Qual é o medo de saber a opinião deles? Tenho nojo dessa soberba de achar que só porque tem um espaço em baixo da postagem de alguém na Internet, significa que você pode ir lá e pichar.

Ninguém vai lá na iniciativa privada. Porque morre de medo. E principalmente porque está cagando para o machismo deliberado – porque envolve grana – que existe na mídia e na sociedade. Todo mundo é bem reativo e instrumentalizado na obscuridade, mas covarde no meio da rua, às claras e quando tem que falar com uma empresa, com um SAC ou com as mulheres reais a quem subjuga ali na vida real. E isso vale para minhas companheiras mulheres. Delas eu posso falar porque sou mulher, ou não?

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