domingo, 17 de maio de 2015

Dos livros que terminei de ler - Para antes que a gente vire pó - de Ezio Flavio Bazzo

 Presa numa espécie de prisão voluntária (trabalho), em que te dão a ilusão de honra e te pagam uma parcela mínima dos milhões que lucram nas tuas costas, foi assim, que eu li, na cara e coragem este livro. Pois foi com coragem mesmo. Pois ler estas palavras num ambiente de trabalho, é como ter uma arma carregada nas mãos, quando se está com vontade de morrer. Ou ter uma passagem comprada para uma praia maravilhosa, quando se está com os pés loucos para viajar.
 Nos dois casos, você está tentado a fazer algo e precisa das armas. E ela está aí. Neste livro. É um diário de viagens. Mas não é um simples diário, não é um roteiro apenas, é uma explosão de ideias, uma arma para você sair de sua inércia, desse seu mundo idiota onde se meteu, e nunca mais ousou sair, nunca mais ousou mudar nada. O livro é simplesmente perfeito. E não digo isso, simplesmente porque admiro o autor, mas porque já li praticamente todos os seus livros, e este está como que uma poesia que corre seguidamente, fluidamente.
 O livro foi especial para mim, pois sou de origem italiana, meus nonos vem do mesmo lugar de onde fala este autor. E também quase tudo no livro evocava parte de minhas memórias, lá da minha família. Caim e abel, essa historieta banal e simplória, é um arquétipo do odioso relacionamento familiar, onde os irmãos são colocados uns contra os outros, sempre por culpa dos pais. E uma prova de que deus não está nem aí, uma indicação da insanidade maternal e da ausência paterna, outras patologias e do instinto sanguinário de deus e das religiões, que sacrificam animais e pessoas, amam sangue a todo custo, etc, etc.
 O autor foi genial, ao escolher um tema tão citado ao longo da história, mas falar dele muito á sua maneira, ou seja, de uma forma totalmente fora da norma, bem humorada, diferente, sem nenhuma pretensão, e com curiosidades e coisas absolutamente geniais, e junto a tudo isso, impressões de suas viagens, suas voltas pelo mundo e pela vida.
"Sempre acreditei que quem mata uma galinha com uma faca ou dando-lhe quatro nós no pescoço tem condições psíquicas e físicas para matar um bebê e mesmo toda a família, o bairro inteiro sem nenhum tipo de culpabilidade. Não é possível que a criminalidade dos homens contra os animais e ainda nas proporções que conhecemos continue sendo considerada como "normal".  Mais "normal" e mais compreensível até é a chacina que protagonizamos entre nós mesmos, uns contra os outros, já que motivos não faltam, e que tudo indica que existimos, antes de qualquer outra coisa, para aporrinhar, encher o saco e para desgraçar a vida do outro. Não é mesmo?
Mas o animal não, ele não faz parte desse contexto de malignidades, está lá no seu habitat amoral e na sua solidão lutando como qualquer outro para dar conta de seus instintos, manter-se vivo e saciado. Sua existência, ao invés de estressar-nos, nos faz um grande bem, nos facilita a reconciliação e a reparação com uma parte nossa que, por mau caratismo e por uma vaidade vulgar enxotamos de nosso ser.
Ser espantalho!Tanto é que continuamos indo aos safaris e aos zoológicos, essas penitenciárias disfarçadas, só para deleitar-nos com sua coreografia, sua vida impregnada de aventuras diárias, seus dentes e gengivas impecáveis, seu sono, sua saúde e seu apetite voraz, sua capacidade de eleger um penhasco e uma árvore e passar toda sua existência lá, olhando as nuvens e o horizonte, abanando o rabo, açoitando os mosquitos com as orelhas, passeando de madrugada pelos abismos e pelas sombras desta amaldiçoada terra." Ezio Flavio Bazzo

(com este belo texto acima e com todo aquele livro, este escritor fez um pouco de justiça a Caim e talvez a seus descendentes, que queriam um basta a tanto sangue.)

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