segunda-feira, 6 de abril de 2015

Meus pés me levam para o nada - todo meu ódio ao trabalho

Hoje meus pés me levaram para a fuga. Como a minha vó, a muito tempo. Longe de sua casa, só pensava em partir, de qualquer jeito à procura de ir-se. Saía de minha casa como um bicho. Achava que era por ali. E ia. Estava acostumada a andar de pés descalços. E, ali, onde avistava um pouco de mato, pensava: deveria ser o lugar onde a levaria para sua terra. Saía de minha minha casa a pé.
Só que ela morava próximo à Serra Gaúcha, a quilômetros de distância, e minha mãe tinha que ir atrás dela, buscá-la para a razão, para este mundo insólito e perverso.

Não tenho vocação para enfiar meus pés nestas sapatilhas, nestes uniformes, não tenho saco. Não tenho modos para quase nada.
Eu, no fundo, apenas suporto, o ser humano, as coisas. Tolero os cinismos, as falsidadezinhas, as pequenezas que vou percebendo nas pessoas neste dia à dia transitório, de "trabalho". E meu alívio é pensar que tudo é temporário, como eu mesma sou com minhas vontades.

Sinceramente, e daí? Na verdade é um grande transtorno daquelas pessoas. É problema delas. Que devem ter uma vida de merda, suportarem-se umas às outras, com conflitos eternos. Egos 'mensos' e mente muito estreita.

Meu corpo, meus pés, me levaram para longe. Eu me perdi. Perdi a hora, fui indo para acolá e quase perdi o ônibus. Voltei como uma idiota e peguei o camburão para o inferno. Um trabalho legal, num ambiente bonito, com pessoas normais.

Por quê?
Por que eu não obedeci as ordens expressas do meu corpo, da minha mente e de meu coração?
Por que eu não segui em frente, tendo em mente que meus pés me levariam para o mar, para o verde, azul, roxo oceano, para minhas ilusões, assim como minha nona (avó) imaginou que aconteceria, mesmo eu sabendo que apenas chegaria a um muro e dobraria a esquina, talvez chegasse a um bar e tomaria um café, chá ou mesmo teria a coragem de até mesmo -
comprar uma passagem para uma viagem?

Não, preferi aderir ao cinismo, ao pusilânime, à ordem. O medo do futuro incerto. A imortalidade infantilmente ilusória, pois vivemos acumulando para o nada. Trabalhando para outras pessoas enriquecerem.

Detesto quando me questionam sobre trabalho. É como se você tivesse obrigação de estender seu currículo sobre a mesa e mostrar seus prodígios, e ai de ti se não for um sucesso.

Eu, que tenho até livros publicados em meu c. v., onde ali tem desde curso de datilografia junto com minhas publicações de artigos de opinião, sempre me esqueço e acabo dizendo o meu trabalho mais simpleszinho. Como se houvesse uma voz interior dizendo: olha, sou uma pessoa e não as coisas que produzi no passado.
E, dependendo de quem está do outro lado, sinto aquela cara de quem tenta decifrar o que exatamente faço.
E tem aquela tia com cara de pena, tipo: tadinha dela que não está milionária depois de ter feito faculdade!
Pode crer que tem malandro velho que ainda acredita que faculdade é alguma coisa e que se você fez algum curso, necessariamente deve trabalhar nele.  No exterior, o curso universitário é apenas uma formação, o sujeito sai de lá e vai fazer o que gosta. Vai ser carpinteiro, vai ser escritor, ele estudou pois queria se aprimorar intelectualmente, não porque precisava pagar as contas. Lembre-se que em certos países o nível de vida é muito melhor do que aqui.
Mas neste país, vivemos numa situação em que é necessário concluir um curso superior para ser qualquer coisa. Pelo menos na época em que comecei minha faculdade era assim. Hoje, nesta época de pleno emprego, não faria faculdade. Dedicaria meu tempo e meu dinheiro em leituras, viagens e livros.

E eu digo: meu trabalho é um mistério, pode ser um ou dois ao mesmo tempo ou quiçá nenhum. E deve me fazer feliz, senão jogo-o ao ar. Mas mais fácil é falar (ou escrever, que aí sim é um dom.).

Minha única vocação ou quem sabe vontade, é para a escrita. Eu amo ler e escrever e é só isso que importa.
Nada mais, nem mesmo viver.

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