segunda-feira, 28 de julho de 2014

Um contorno no olhar

Abandonei a maquiagem.
O cabelo vai ser agora mais comprido. O oposto do que estava antes, curto e raspado. O punk ficou para trás. Tudo dura pelo menos quanto tempo eu quiser.
Às vezes acontecia sem querer, mas sempre gostei de provocar o preconceito oculto, principalmente daqueles que se acham superiores.
Os misóginos, as mulheres-que-odeiam-mulheres... até mesmo quando eu era pura inocência, ao meu redor sempre tinha essa gente me secando... Depois desencanei.
Hoje é diferente. As pessoas continuam as mesmas, e eu escolho o que há de melhor.
Saí de casa com meu marido, romanticamente, para ver o filme daquele que sempre admirei. O performático Ney Matogrosso. Chama-se Olho Nu.
Para os macharedos da época e para os de hoje, francamente, tem que ser muito macho para encarar toda aquela repressão, em plena ditadura, com aquela libido toda, com aquela voz, música e performance!
O que me atrai nele é algo que simboliza muito o que eu sou. Amo o performático. A liberdade de inventar, de não ser exatamente o que esperam de você.
O andrógino, o incoerente, o provocante. O punk, por ser fora do eixo. Ele afirma ser subversivo sempre. E concordo. Quando você não age de acordo, você é subversivo. Não tenho que me maquiar sempre, posso encher minha cara de maquiagem amanhã se eu quiser. Admiro mulheres masculinas, sou assim em muitas épocas do ano e é por isso que metade do meu guarda roupa é bem masculino. A outra metade é praticamente infantil.
Mas sou completamente madura e sou convencida disso! Não sou modesta. Admiro homens com esse lado masculino performático como o Ney Matogrosso e minha música preferida dele é Homem com H.
O que importa no entanto, é o que se perde em beleza, quando nos preocupamos com a 'opinião' da sociedade.
Quem questiona a ordem vigente é sempre um alvo pois as pessoas querem manter o que está estabelecido. Ninguém quer discutir nada. E se incomodam a ponto de procurar na roupa algo para falar. É só a gente lembrar a recente polêmica dos black blocs. Quase todo mundo ficou do lado dos patrões.
Os dentes separados, o corpo magro, a sensualidade no palco, a voz indefinível.
Quantas vezes vemos talentos sumirem por vergonha, por repressão?
Eu sempre assumi meus defeitos depois que os superei. Tinha vergonha de meus dentes tortos. Decidi não usar aparelho. Depois de uma conversa com uma dentista, reafirmei minha decisão. Se todas as pessoas se fizessem um pergunta interna primeiro, antes de pedir opinião, daí nasceria a atitude.
Na escola é preciso um professor de verdade, eu eu tive poucos, para mostrar as qualidades dos alunos, os dons. Um professor cego para angústias de adolescentes, crianças e adultos não é um bom professor.
Uma professora me disse, na frente da turma toda, que eu tinha uma beleza diferente.
Dois disseram que eu escrevia coisas legais. Um professor um dia me chamou sozinha na sala e disse que achava legal o fato dos meus dentes serem tortos. Eu só tirava notas altas na aula dele, e tinha vergonha de me expressar verbalmente, mas era ótima quando escrevia.
Como professora, meu ideal é ser tudo que meus professores não foram e me inspiro nestes professores.
Ney Matogrosso, quando morava em Brasília,  ia com as crianças do hospital onde trabalhava para os fundos e brincava com elas. Isso aparece no documentário e também na biografia do Renato Russo, que estou em plena leitura.
Quando há talento e um dom, em qualquer lugar ele aparece. Bem no começo da carreira, ele pediu para baixar o som, olhou bem na cara de um 'homi' que o chamou de veado num show e disse, "se você é homem, repita.". Tudo ficou em silêncio.
Tornar possível algo, mesmo que pequeno e depois passar por ali e saber que aquilo aconteceu por sua causa, é felicidade. Quando um homem junto com uma história é tema de um documentário, nos faz chorar.
Quanto à maquiagem, já saí de casa pensando em desapegar da parafernália. É o que farei. Daqui para a frente, apenas um contorno no olhar.

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